O Homem não Foge da Dor

9 05 2008

Não é verdade que o homem procure o prazer e fuja da dor. São de tomar em conta os preconceitos contra os quais invisto. O prazer e a dor são consequências, fenómenos concomitantes. O que o homem quer, o que a menor partícula de um organismo vivo quer, é o aumento de poder: é em consequência do esforço em consegui-lo que o prazer e a dor se efectivam; é por causa dessa mesma vontade que a resistência a ela é procurada, o que indica a busca de alguma coisa que manifeste oposição.
A dor, sendo entrave à vontade de poder do homem, é portanto um acontecimento normal - a componente normal de qualquer fenómeno orgânico. E o homem não procura evitá-la, pois tem necessidade dela, já que qualquer vitória implica uma resistência vencida.
Tome-se como exemplo o mais simples dos casos, o da nutrição de um organismo primário; quando o protoplasma estende os pseudópodes para encontrar resistências, não é impulsionado pela fome, mas pela vontade de poder; acima de tudo, ele intenta vencer, apropriar-se do vencido, incorporá-lo a si. O que se designa por nutrição é pois um fenómeno consecutivo, uma aplicação da vontade original de devir mais forte.
Em tudo isto, a dor não só tem por consequência necessária a diminuição da sensação de poder, como até serve, na maioria dos casos, como excitante da mesma sensação de poder, sendo o obstáculo um stimulus dessa vontade de poder.

Friedrich Nietzsche, in ‘A Vontade de Poder’




A Esperança de uma Relação Profunda

9 05 2008

Conhecemos as pessoas durante anos, até mesmo dezenas de anos, habituamo-nos a evitar os problemas pessoais e os assuntos verdadeiramente importantes, mas guardamos a esperança de que, mais tarde, em circunstâncias mais favoráveis, se possam justamente abordar esses assuntos e esses problemas. A esperança, sempre adiada, de um relacionamento mais humano e mais completo nunca desaparece completamente, porque nenhuma relação humana se contenta com limites definitivos, restritos e rígidos. Permanece, portanto, a esperança, de que haja um dia uma relação «autêntica e profunda». E permanece durante anos, até mesmo décadas, até que um acontecimento definitivo e brutal (em geral, uma coisa como a morte) vem dizer-nos que é demasiado tarde, que essa «relação autêntica e profunda», cuja imagem tínhamos amado, também não existirá; não existirá, tal como as outras.

Michel Houellebecq, in ‘As Partículas Elementares’




“Viveu oitenta anos”

8 05 2008

Diariamente criticamos o destino: “Porque foi este homem arrebatado a meio da carreira? E aquele, porque não morre, em vez de prolongar uma velhice tão penosa para ele como para os outros?” Diz-me cá, por favor: o que achas tu mais justo, seres tu a obedecer à natureza ou a natureza a ti? Que diferença faz sair mais ou menos depressa de um sítio de onde temos mesmo de sair? Não nos devemos preocupar em viver muito, mas sim em viver plenamente; viver muito depende do destino, viver plenamente, da nossa própria alma. Uma vida plena é longa quanto basta; e será plena se a alma se apropria do bem que lhe é próprio e se apenas a si reconhece poder sobre si mesma. Que interessa os oitenta anos daquele homem passados na inacção? Ele não viveu, demorou-se nesta vida; não morreu tarde, levou foi muito tempo a morrer! “Viveu oitenta anos!”. O que importa é ver a partir de que data ele começou a morrer. “Mas aquele outro morreu na força da vida”. É certo, mas cumpriu os deveres de um bom cidadão, de um bom amigo, de um bom filho, sem descurar o mínimo pormenor; embora o seu tempo de vida ficasse incompleto, a sua vida atingiu a plenitude.

“Viveu oitenta anos”. Não, existiu durante oitenta anos, a menos que digas que ele viveu no mesmo sentido em que falas na vida das árvores. Peço-te insistentemente, Lucílio: façamos com que a nossa vida, à semelhança dos materiais preciosos, valha pouco pelo espaço que ocupa, e muito pelo peso que tem. Avaliemo-la pelos nossos actos, não pelo tempo que dura. Queres saber qual a diferença entre um homem enérgico, que despreza a fortuna, cumpre todos os deveres inerentes à vida humana e assim se alça ao seu supremo bem, e um outro por quem simplesmente passam numerosos anos? O primeiro continua a existir depois da morte, o outro já estava morto antes de morrer! Louvemos, portanto, e incluamos entre os afortunados o homem que soube usar com proveito o tempo, mesmo exíguo, que viveu. Contemplou a verdadeira luz; não foi um como tantos outros; não só viveu, como o fez com vigor.

Séneca, in ‘Cartas a Lucílio’




Eva sem costela

3 05 2008

Coisas que as mulheres fazem melhor do que os homens

Millôr Fernandes
(Adão Jr.)


Muita gente pensa que quando mostro todos os defeitos que mostro nas mulheres estou demonstrando definitivamente que as filhas de Eva são em tudo piores que os filhos de Adão e que jamais conseguirão fazer alguma coisa melhor que os indivíduos que vestem calças compridas. Está claro que isso não é verdade. Como é verdade clara que na maioria das vezes as mulheres estão realmente aquém, muito aquém mesmo das coisas conseguidas pelo homem, de modo que realizam apenas a metade do que estes conseguem realizar quando se metem a medir forças com eles.

Mas em determinadas coisas muito particulares — as exceções da regra — elas se mostram de uma eficiência que os homens nem conseguem imitar. Demonstrando isso dou abaixo uma lista das coisas admiráveis que a mulher consegue fazer:

1) Economizar em coisas úteis e gastar em coisas inúteis.

2) Colocar na cabeça o mais ridículo dos chapéus e achar que está elegantíssima.

3) Mandar descer milhares de peças de fazenda das prateleiras de uma loja e no fim não comprar nem um metro.

4) Colocar um maiô de dez centímetros e achar que está bem vestida.

5) Falar durante duas horas e não dizer absolutamente nada.

6) Enganar o cônjuge sem que este jamais suspeite de que está sendo enganado.

7) Usar um sapato apertadíssimo apenas porque o acha elegante; só desmaiar de dor quando chega em casa. 8) Tomar banho demoradamente e depois sujar a cara com baton, rouge, pan-cake, e outras drogas.

9) Fingir irritação quando alguém desconhecido lhe diz um elogio quando na verdade está contentíssima.

10) Ter medo de uma mulher sozinha e não ter medo de dez homens juntos.

11) Cruzar as pernas mostrando-as bem, e depois ficar irritada porque alguém as olha.

12) Elogiar tremendamente uma amiga e logo às suas costas dizer “tudo que sabe delas” — e acrescentar alguma coisa ainda por sua própria conta.

13) Aborrecer um gerente de loja até que ele lhe deixe mais barato cinqüenta centavos um metro de fazenda que custa trezentos cruzeiros.

14) Não fazer nada durante toda a existência e não se sentir inútil.

15) Participar dos feitos e glórias do marido ou coisa que o valha sem participar dos riscos do fracasso.

16) Mudar a cor do cabelo preto para vermelho e exclamar: “Detesto chamar a atenção dos outros”.

17) Conversar na intimidade coisas que fariam corar um frade e protestar em altos brados quando insinuamos ao de leve qualquer coisa mais livre.

1 8) Chorar a qualquer momento em que for preciso.

19) Arrancar as sobrancelhas todas e depois fazer outra a lápis .

20) Perseguir um homem dando a impressão de que foge.


Este texto foi publicado na revista “O Cruzeiro” de 01 de fevereiro de 1947, pág. 86, como sendo de autoria de “Adão Jr.”. João A. Bührer d’Almeida localizou-o em seus “Arquivos Implacáveis”, procurou daqui e dali e acabou descobrindo, conforme consignado na enciclopédia Delta Larousse, que se tratava de mais um pseudônimo de Millôr Fernandes. Ao caro João Antônio nosso muito obrigado pelo envio do material.




Oración de León Bloy

3 05 2008

“Señor, no tengo confianza en Ti.
Bien sé que me amas, que me quieres infinitamente,
que has creado los mundos para mí,
y que esto no es nada en comparación de lo que quieres aún hacer.
Bien sé que ‘estás conmigo en la tribulación’,
que fuiste abofeteado, despreciado, azotado,
coronado de espinas, crucificado por mí hace dos mil años y desde siempre.

No importa, yo soy un mal judío y no tengo confianza en Ti.”

León Bloy




Léon Bloy - Destemido…

3 05 2008

É preciso colocar-se

ao alcance de todo mundo

Léon Bloy

Léon Bloy autodenominava-se “o peregrino do absoluto”, “o mendigo ingrato”, “o ivendável”… Língua profética e exacerbada, barroca e violenta, escreve com palavras de fogo, de escárnio e de dor (diz Borges que em seus escritos “abundam o queixume e a afronta”). Nasceu em Périgueux, em 1846. A maior parte da vida residiu em Paris. Morreu em Bourg La Reine em 1917, aos 71 anos. Depois de converter-se ao catolicismo aos vinte e poucos anos, disparava dardos e petardos para todos os lados, conseguindo indispor-se tanto com ateus e materialistas quanto com fiéis católicos e prelados. Léon Bloy, a mulher e os filhos conheceram a mais absoluta miséria - seus livros vendiam pouco, a imprensa sequer o citava, sua obra é de difícil digestão… Muitas vezes precisou esmolar para comer. No final da vida alcançou um certo reconhecimento entre os intelectuais e artistas franceses, mas viveu sempre marginalizado e pouco lido. (Não tenho notícia de livro seu editado no Brasil. Há um ensaio (esgotado) de Octávio de Faria, com muitos excertos traduzidos, “Léon Bloy”, Gráfica Record Editora, Rio de Janeiro, 1968.) Publico aqui o Prelúdio ao segundo volume da Exegese dos Lugares Comuns para que se tenha uma idéia da sua pena.

Roberto Mallet

Isto é o que me pedem. Acham-me muito extraordinário, muito inacessível. Sou igualmente incompreendido pelo notário, pela devota e pelo fabricante de supositórios. As afirmações rudimentares, os axiomas incontestáveis e até as obviedades mais evidentes tomam comigo um aspecto de mistério que ultraja o senso comum. Decidi portanto colocar-me ao alcance de todo mundo.

Mas ignoro como. Sou mesmo forçado a reconhecer que não sei o que essas palavras querem dizer. Devo entender que se está ao alcance de todo mundo quando se está situado de maneira propícia a receber de todos os lados bofetadas ou botinadas, situação, reconheço, que está bem pouco de acordo com meus hábitos e instintos? Quantas vezes, ao contrário, e com que força de cobiça, desejei, no mesmo sentido, que todo mundo estivesse ao meu alcance?

É verdade que esse desejo era absurdo, pois todo mundo é uma expressão ininteligível para designar uma coisa indiscernível. Quando me falam das pessoas do mundo, dos homens ou mulheres do mundo, meu pensamento vai de chofre a essa populaça elegante e estúpida, marcada com o selo do Príncipe dos demônios, pela qual Jesus disse que não rezaria. Compreendo logo a seguir, e sou mesmo tentado a correr ao cemitério mais próximo para contemplar, uma vez mais, a espantosa miséria dessas lajes orgulhosas que a santa de Dülmen via cobertas de trevas e que descem às vezes - já o fiz notar - abaixo do nível do chão, pouco tempo depois da sepultura.

Mas há uma multidão infinita de outra gente, todos aqueles que não podem ser ditos do mundo e que, entretanto, são implicitamente designados quando se diz: todo mundo. Nessa multidão há sobretudo gente pobre. Aqui minha razão falha e não vejo absolutamente como poderia, ao mesmo tempo, colocar-me ao alcance dos sepulcros negros e das vivas hóstias luminosas!

Colocar-me ao alcance de todo mundo, ainda uma vez! Vejamos! Oh, minha pobre alma, isto é possível? Responde-me, pois minha inteligência se cala. Estavas, esta manhã, na igreja, tentando unir-te, identificar-te com Jesus que doou-se a todos os homens. Rezaste, sem dúvida, tão bem quanto pudeste, pelos vivos e pelos defuntos. Com o risco de causar-me náuseas, chegaste mesmo a lembrar-te misericordiamente, suponho, daqueles que não são nem vivos nem mortos, que subsistem, ninguém sabe porquê, nas imundícies, e que são chamados de burgueses. É isto colocar-se ao alcance de todo mundo? Parece-me, ao contrário, que em um tal momento o mundo não era mais tangível para ti e que tu mesma te tornaste absolutamente intangível para ele… Tu não me dizes nada, tu também, e permaneço em minha questão como sobre uma estaca.

Eis-me então incapaz de fazer o que me pedem. Tentarei entretanto, já que estou acostumado com as tarefas impossíveis. Quem sabe? Talvez o mundo não seja tão vasto quanto se imagina. Quando uma pobre dona-de-casa remexe em sua lareira, espanta-se da quantidade de cinzas e do pouco combustível que lhe resta para cozinhar sua refeição e para aquecer sua casa. Pode ser que depois do preparo de minha precedente Exegese (1) eu encontre muito pouca coisa para colocar em meu forno e que Todo Mundo se reduza a algumas unidades vantajosas. Esse pensamento reanima-me.

In Léon Bloy, Exégèse des Lieux Communs - Nouvelle Série (Prélude), Mercure de France, Paris, 1913, pág. 7-10. Tradução de Roberto Mallet.




Tarde de sábado - Por Cecília Meireles

3 05 2008

A tardezinha de sábado, um pouco cinzenta, um pouco fria, parece não possuir nada de muito particular para ninguém. Os automóveis deslizam; as pessoas entram e saem dos cinemas; os namorados conversam por aqui e por ali; os bares funcionam ativamente, numa fabulosa produção de sanduíches e cachorros-quentes. Apesar da fresquidão, as mocinhas trazem nos pés sandálias douradas, enquanto agasalham a cabeça em echarpes de muitas voltas.

Tudo isso é rotina. Há um certo ar de monotonia por toda parte. O bondinho do Pão de Açúcar lá vai cumprindo o seu destino turístico, e moços bem falantes explicam, de lápis na mão, em seus escritórios coloridos e envidraçados, apartamentos que vão ser construídos em poucos meses, com tantos andares, vista para todos os lados, vestíbulos de mármore, tanto de entrada, mais tantas prestações, sem reajustamento — o melhor emprego de capital jamais oferecido!

Em alguma ruazinha simpática, com árvores e sossego, ainda há crianças deslumbradas a comerem aquele algodão de açúcar que de repente coloca na paisagem carioca uma pincelada oriental. E há os avós de olhos filosóficos, a conduzirem pela mão a netinha que ensaia os primeiros passeios, como uma bailarina principiante a equilibrar-se nas pontas dos sapatinhos brancos.

Andam barquinhos pela baía, com um raio de sol a brilhar nas velas; há uns pescadores carregados de linhas, samburás, caniços, muito compenetrados da sua perícia; há famílias inteiras que não se sabe de onde vêm nem se pode imaginar para onde vão, e que ocupam muito lugar na calçada, com a boca cheia de coisas que devem ser balas, caramelos, pipocas, que passam de uma bochecha para a outra e lhes devem causar uma delícia infinita.

Depois aparecem muitas pessoas bem vestidas, cavalheiros com sapatos reluzentes, senhoras com roupas de renda e chapéus imensos que a brisa da tarde procura docemente arrebatar. Há risos, pulseiras que brilham, anéis que faíscam, muita alegria: pois não há mesmo nada mais divertido que uma pessoa toda coberta de sedas, plumas e flores, a lutar com o vento maroto, irreverente e pagão.

E depois são as belas igrejas acesas, todas ornamentadas, atapetadas, como jardins brancos de grandes ramos floridos

Por uma rua transversal, está chegando um carro. E dentro dele vem a noiva, que não se pode ver, pois está coberta de cascatas de véus, como se viajasse dentro da Via-láctea. Todos param e olham, inutilmente. Ela é a misteriosa dona dessa tardezinha de sábado, que parecia simples, apenas um pouco cinzenta, um pouco fria. E a moça que vem, com a alma cheia de interrogações, para transformar seus dias de menina e adolescente, despreocupados e livres, em dias compactos de deveres e responsabilidades. É uma transição de tempos, de mundos. Mas os convidados a esperam felizes, e ela não terá que pensar nisso. Ela mal se lembra que é sábado, que é o dia de seu casamento, que há padrinhos e convidados. E quando a cerimônia chegar ao apogeu, talvez nem se lembre de quem é: separada dos acontecimentos da terra, subitamente incorporada ao giro do Universo.

Texto extraído do livro “Escolha o seu sonho”, Editora Record – Rio de Janeiro, 2002, pág. 100.

Conheça a vida e a obra de Cecília Meireles em Biografias.




O Fim do Mundo - Cecília Meireles

3 05 2008

A primeira vez que ouvi falar no fim do mundo, o mundo para mim não tinha nenhum sentido, ainda; de modo que não me interessava nem o seu começo nem o seu fim. Lembro-me, porém, vagamente, de umas mulheres nervosas que choravam, meio desgrenhadas, e aludiam a um cometa que andava pelo céu, responsável pelo acontecimento que elas tanto temiam.

Nada disso se entendia comigo: o mundo era delas, o cometa era para elas: nós, crianças, existíamos apenas para brincar com as flores da goiabeira e as cores do tapete.

Mas, uma noite, levantaram-me da cama, enrolada num lençol, e, estremunhada, levaram-me à janela para me apresentarem à força ao temível cometa. Aquilo que até então não me interessava nada, que nem vencia a preguiça dos meus olhos pareceu-me, de repente, maravilhoso. Era um pavão branco, pousado no ar, por cima dos telhados? Era uma noiva, que caminhava pela noite, sozinha, ao encontro da sua festa? Gostei muito do cometa. Devia sempre haver um cometa no céu, como há lua, sol, estrelas. Por que as pessoas andavam tão apavoradas? A mim não me causava medo nenhum.

Ora, o cometa desapareceu, aqueles que choravam enxugaram os olhos, o mundo não se acabou, talvez eu tenha ficado um pouco triste - mas que importância tem a tristeza das crianças?

Passou-se muito tempo. Aprendi muitas coisas, entre as quais o suposto sentido do mundo. Não duvido de que o mundo tenha sentido. Deve ter mesmo muitos, inúmeros, pois em redor de mim as pessoas mais ilustres e sabedoras fazem cada coisa que bem se vê haver um sentido do mundo peculiar a cada um.

Dizem que o mundo termina em fevereiro próximo. Ninguém fala em cometa, e é pena, porque eu gostaria de tornar a ver um cometa, para verificar se a lembrança que conservo dessa imagem do céu é verdadeira ou inventada pelo sono dos meus olhos naquela noite já muito antiga.

O mundo vai acabar, e certamente saberemos qual era o seu verdadeiro sentido. Se valeu a pena que uns trabalhassem tanto e outros tão pouco. Por que fomos tão sinceros ou tão hipócritas, tão falsos e tão leais. Por que pensamos tanto em nós mesmos ou só nos outros. Por que fizemos voto de pobreza ou assaltamos os cofres públicos - além dos particulares. Por que mentimos tanto, com palavras tão judiciosas. Tudo isso saberemos e muito mais do que cabe enumerar numa crônica.

Se o fim do mundo for mesmo em fevereiro, convém pensarmos desde já se utilizamos este dom de viver da maneira mais digna.

Em muitos pontos da terra há pessoas, neste momento, pedindo a Deus - dono de todos os mundos - que trate com benignidade as criaturas que se preparam para encerrar a sua carreira mortal. Há mesmo alguns místicos - segundo leio - que, na Índia, lançam flores ao fogo, num rito de adoração.

Enquanto isso, os planetas assumem os lugares que lhes competem, na ordem do universo, neste universo de enigmas a que estamos ligados e no qual por vezes nos arrogamos posições que não temos - insignificantes que somos, na tremenda grandiosidade total.

Ainda há uns dias a reflexão e o arrependimento: por que não os utilizaremos? Se o fim do mundo não for em fevereiro, todos teremos fim, em qualquer mês…


Texto extraído do livro “
Quatro Vozes”, Distribuidora Record de Serviços de Imprensa - Rio de Janeiro, 1998, pág. 73.




Olhar e Chorar

1 05 2008

Notável criatura são os olhos! Admirável instrumento da natureza; prodigioso artifício da Providência! Eles são a primeira origem da culpa; eles a primeira fonte da Graça. São os olhos duas víboras, metidas em duas covas, e que a tentação pôs o veneno, e a contrição a triaga. São duas setas com que o Demónio se arma para nos ferir e perder; e são dois escudos com que Deus depois de feridos nos repara para nos salvar. Todos os sentidos do homem têm um só ofício; só os olhos têm dois. O Ouvido ouve, o Gosto gosta, o Olfacto cheira, o Tacto apalpa, só os olhos têm dois ofícios: Ver e Chorar. Estes serão os dois pólos do nosso discurso.

Ninguém haverá (se tem entendimento) que não deseje saber por que ajuntou a Natureza no mesmo instrumento as lágrimas e a vista; e por que uniu a mesma potência o ofício de chorar, e o de ver? O ver é a acção mais alegre; o chorar a mais triste. Sem ver, como dizia Tobias, não há gosto, porque o sabor de todos os gostos é o ver; pelo contrário, o chorar é o estilado da dor, o sangue da alma, a tinta do coração, o fel da vida, o líquido do sentimento. Por que ajuntou logo a natureza nos mesmos olhos dois efeitos tão contrários, ver e chorar? A razão e a experiência é esta. Ajuntou a Natureza a vista e as lágrimas, porque as lágrimas são consequência da vista; ajuntou a Providência o chorar com o ver, porque o ver é a causa do chorar. Sabeis porque choram os olhos? Porque vêem.

Padre António Vieira, in “Sermões”




Os Homens não Sabem o que é o Amor

1 05 2008

De forma geral, os homens não sabem o que é amor, é um sentimento que lhes é totalmente estranho. Conhecem o desejo, o desejo sexual em estado bruto e a competição entre machos; e depois, muito mais tarde, já casados, chegam, chegavam antigamente, a sentir um certo reconhecimento pela companheira quando ela lhes tinha dado filhos, tinha mantido bem a casa e era boa cozinheira e boa amante - então chegavam a ter prazer por dormirem na mesma cama. Não era talvez o que as mulheres desejavam, talvez houvesse aí um mal-entendido, mas era um sentimento que podia ser muito forte - e mesmo quando eles sentiam uma excitação, aliás cada vez mais fraca, por esta ou aquela mulher, já não conseguiam literalmente viver sem a mulher e, se acontecia ela morrer, eles desatavam a beber e acabavam rapidamente, em geral uns meses bastavam. Os filhos, esses, representavam a transmissão de uma condição, de regras e de um património. Era evidentemente o que acontecia nas classes feudais, mas igualmente com os comerciantes, camponeses, artesãos, de forma geral com todos os grupos da sociedade. Hoje, nada disso existe.

As pessoas são assalariadas, locatárias, não têm nada para deixar aos filhos. Não têm nada para lhes ensinar, nem sequer sabem o que eles poderão vir a fazer; as regras que conheceram não serão de todo aplicáveis a eles, porque eles viverão num mundo completamente diferente. Aceitar a ideologia da mudança permanente significa aceitar que a vida de um homem está reduzida estritamente à sua existência individual e que as gerações passadas e futuras não têm, aos seus olhos, nenhuma importância.
É assim que nós vivemos, e ter um filho, hoje, para um homem, já não faz qualquer sentido. O caso das mulheres é diferente, porque elas continuam a sentir a necessidade de terem um ser que amem – o que não é, nem nunca foi, o caso dos homens. É um disparate acreditar que os homens também têm necessidade de acarinhar e de brincar com os filhos, de lhes fazer festinhas. Por mais que no-lo digam, é um disparate. Depois de nos termos divorciado e de o quadro familiar se ter desfeito, as relações com os filhos perdem o sentido. Um filho é uma armadilha que se fechou, é o inimigo que temos de continuar a manter e que vai acabar por nos enterrar.

Michel Houellebecq, in ‘As Partículas Elementares’




Quanto Mais se Ama Mais Fraco se É

1 05 2008

Nas relações amorosas o único sentimento que não funciona é o da piedade. Quando é o caso de que se devesse manifestar, o que surge não é a piedade mas o asco ou a irritação. Eis porque em relação alguma se é tão cruel. Todos os sentimentos têm o seu contraponto. Excluída a piedade, a crueldade não o tem. Por experiência se pode saber quanto se sofre quando não se é amado. Mas isso de nada vale quando se não ama quem nos ama: é-se de pedra e implacável. Decerto, tudo se pode pedir e obter. Excepto que nos amem, porque nenhum sentir depende da nossa vontade. Mas só no amor se é intolerante e cruel. Porque mostar amor a quem nos não ama rebaixa-nos a um nível de degradação. E a degradação só nos dá lástima e repulsa. A única possibilidade de se ser amado por quem nos não ama é parecer que se não ama. Então não se desce e assim o outro não sobe. E então, porque não sobe, ele tem menos apreço por si, ou seja, mais apreço pelo amante. O jogo do amor é um jogo de forças. Quanto mais se ama mais fraco se é. E em todas as situações a compaixão tem um limite. Abaixo de um certo grau a compaixão acaba e a repugnância começa. Assim, quanto mais se ama mais se baixa na escala para quem ao amor não corresponde.

Vergílio Ferreira, in ‘Conta-Corrente 3′




17 03 2008

“Se tu vens, por exemplo, às quatro da tarde, desde às três eu
começarei a ser feliz! Quanto mais a hora for chegando, mais eu me
sentirei feliz. Às quatro horas, então, estarei inquieta e agitada:
descobrirei o preço da felicidade!
Mas se tu vens a qualquer momento, nunca saberei a hora de preparar meu
coração… É preciso que haja um ritual.”

Antoine De Saint-Exupéry (do livro: “O Pequeno Príncipe”)




13 03 2008

A Génese de um Poema

A maior parte dos escritores, sobretudo os poetas, preferem deixar supor que compõem numa espécie de esplêndido frenesim, de extática intuição; literalmente, gelar-se-iam de terror à ideia de permitir ao público que desse uma espreitadela por detrás da cena para ver os laboriosos e incertos partos do pensamento, os verdadeiros planos compreendidos só no último minuto, os inúmeros balbucios de ideias que não alcançaram a maturidade da plena luz, as imaginações plenamente amadurecidas e, no entanto, rejeitadas pelo desespero de as levar a cabo, as opções e as rejeições longamente ponderadas, as tão difíceis emendas e acrescentas, numa palavra, as rodas e as empenas, as máquinas para mudança de cenário, as escadas e os alçapões, o vermelhão e os postiços que em 99% dos casos constituem os acessórios do histrião literário.

Edgar Poe, in ‘ A Filosofia da Composição ‘




Voltaire sereno…

6 03 2008
  • “O trabalho afasta três grandes males: O ócio, o vício e a necessidade.”
  • “Senhor, proteja-me das pessoas que amo e confio, porque dos meus inimigos cuido eu.”
  • “Quando Deus está no comando, não sabemos ao certo a quem procurar aqui na Terra, procuramos apenas por Ti.”
  • “Posso não concordar com nenhuma das palavras que dizeis, mas defenderei até a morte teu direito de dizê-las.”
  • “Dirijo minha luta não contra as crenças religiosas dos homens, mas contra os que exploram a crença. Detestemos essas criaturas que devoram o coração de sua mãe e honremos aqueles que lutam contra elas. Acredito na existência de Deus. Em verdade, se Deus não existisse, fora preciso inventá-lo. Meu Deus não é um Rei exclusivo de uma simples ordem eclesiástica. É a suprema inteligência do mundo, obreiro infinitamente capaz e infinitamente imparcial. Não tem povo predileto, nem país predileto, nem igreja predileta. Pois para o verdadeiro crente há, apenas, uma única fé, justiça igual e igual tolerância para toda a humanidade.”
  • “Os principais males que atacam o homem vêm da ignorância.”
  • “Felicidade é a única coisa que podemos dar sem possuir.”
  • “Deus é contra a guerra, mas fica do lado de quem atira bem.”
  • “O mundo só estará salvo no dia em que o ultimo Rei for enforcado com as tripas do último padre.”
  • “Os grandes crimes são cometidos apenas pelos grandes ignorantes”
  • “Muitos bons burgueses, muitas grandes cabeças, que se julgam boas cabeças, dizem, com ar importante, que os livros não servem para nada. Mas não sabem, esses vândalos, que não são governados a não ser por livros? Não sabem que o código civil, o código militar e os Evangelhos são livros de que dependem continuamente. Leiam, esclareçam-se; só pela leitura se fortifica a alma; a conversação a dissipa, o jogo a limita.”



Passagem das Horas - Fragmentos

5 03 2008

Trago dentro do meu coração,
Como num cofre que se não pode fechar de cheio,
Todos os lugares onde estive,
Todos os portos a que cheguei,
Todas as paisagens que vi através de janelas ou vigias,
Ou de tombadilhos, sonhando,
E tudo isso, que é tanto, é pouco para o que eu quero (…) Multipliquei-me, para me sentir,
Para me sentir, precisei sentir tudo,
Transbordei, não fiz senão extravasar-me,
Despi-me, entreguei-me,
E há em cada canto da minha alma um altar a um deus diferente (…) Fui para a cama com todos os sentimentos,
Fui souteneur de todas as emoções,
Pagaram-me bebidas todos os acasos das sensações,
Troquei olhares com todos os motivos de agir,
Estive mão em mão com todos os impulsos para partir,
Febre imensa das horas!
Angústia da forja das emoções!
Raiva, espuma, a imensidão que não cabe no meu lenço…

(Alvaro de Campos)