O Livro sobre Nada - Manoel de Barros

22 02 2008

- Com pedaços de mim eu monto um ser atônito.

  • Tudo que não invento é falso.
  • Há muitas maneiras sérias de não dizer nada, mas só a poesia é verdadeira.
  • Não pode haver ausência de boca nas palavras: nenhuma fique desamparada do ser que a revelou.
  • É mais fácil fazer da tolice um regalo do que da sensatez.
  • Sempre que desejo contar alguma coisa, não faço nada; mas se não desejo contar nada, faço poesia.
  • Melhor jeito que achei para me conhecer foi fazendo o contrário.
  • A inércia é o meu ato principal.
  • Há histórias tão verdadeiras que às vezes parece que são inventadas.
  • O artista é um erro da natureza.  Beethoven foi um erro perfeito.
  • A terapia literária consiste em desarrumar a linguagem a ponto que ela expresse nossos mais fundos desejos.
  • Quero a palavra que sirva na boca dos passarinhos.
  • Por pudor sou impuro.
  • Não preciso do fim para chegar.
  • De tudo haveria de ficar para nós um sentimento longínquo de coisa esquecida na terra — Como um lápis numa península.
  • Do lugar onde estou já fui embora.






O tema da minha poesia sou eu mesmo - Manoel de Barros

22 02 2008

O tema da minha poesia sou eu mesmo


Entrevista concedida a André Luís Barros


A natureza nunca mais foi a mesma depois de passar por suas frases. O poeta pantaneiro Manoel de Barros, que está lançando um novo ajuntamento de versos e vida, o Livro sobre nada (Editora Record) , se considera acima de tudo um “fazedor de frases”: “A frase para ser boa precisa ser uma coisa ilógica, o ilogismo é muito importante pois a razão diminui a poesia”, ensina. Avesso a entrevistas, quanto mais por telefone, Manoel de Barros, considerado por muitos o maior poeta brasileiro vivo, concordou em concedeu conversar com o caderno Idéias, por telefone, de sua casa em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, onde vive a quatro horas de sua fazenda de criação de gado e costuma sair à tarde para “desenferrujar” e bicar umas pingas com amigos. Com simplicidade, o autor de livros como Compêndio para uso dos pássaros (1960), Arranjos para assobio (1982), Livro de pré-coisas (1985) e O guardador de águas (1989) falou sobre paixões literárias, o gosto pelo ócio e por programas divertidos na televisão, como Os trapalhões e até o mexicano Chaves e lembrou até um insuspeitado passado no Partido Comunista. “Mas nunca fui afeito a grupos, gerações, não podia mesmo durar muito naquele partido. Hoje, conquistei o ócio, o que é muito importante para o poeta”, comemora.




André Luís Barros - O senhor só ficou famoso como um grande poeta depois dos 70 anos. Isso foi algo planejado, ou aconteceu por acaso?
Manoel de Barros - Isso é negócio do meu temperamento. Nunca tive projeto, só livro. Também nunca achei que precisasse me isolar no Pantanal para compor melhor. Sou pantaneiro, nasci aqui, só podia viver e escrever mesmo sobre as coisas daqui. Mas nunca tive preocupação em aparecer muito, ser uma pessoa conhecida, isso é sincero mesmo. Eu queria só fazer poesia. A minha vergonhez explica muita coisa. Sou tímido por temperamento, é possível que só seja poeta por causa disso. Sou um ser abúlico, tenho minhas contradições e tento me encontrar através da poesia. É claro que sucesso é bom, ser amado, admirado pela poesia é bom, quem disser que não está mentindo. Fui descoberto de repente, as pessoas começaram a me perceber. Nunca na minha vida fui de participar muito de grupo. Acho que em poesia também não pertenço a nenhuma geração, a tal geração de 1945 não é a minha, e vejo outros poetas, como João Cabral de Melo Neto, que não é de geração nenhuma. Aliás, como classificar o Rimbaud? Em que geração classificamos o Augusto dos Anjos? Eles são simplesmente grandes poetas.

ALB - O senhor conheceu, tem uma grande admiração e até prometeu um livro sobre João Guimarães Rosa. O primeiro livro dele, o inédito Magma, será lançado em breve. Onde está o livro prometido?
MB - Foi adiado. O Ênio Silveira tinha me sugerido fazer esse livro e eu topei o negócio, fiquei animado. Mas quando fui escrever, em vez de ser minha, a frase que saía era do Rosa. É que eu tinha relido muita coisa dele e fiquei impregnado. Não convém isso, não é bom porque você acaba mergulhado mesmo na obra do autor, acaba afogado. Anos atrás eu tinha tentado fazer um ensaio quase lingüístico sobre o conto Cara-de-Bronze, do Rosa, de que gosto muito. Mas me embananei todo, no meio. Eu não falo mais que três línguas e o Rosa conhecia língua demais, achei que seria possível fazer o ensaio mas ficou muito difícil. Disseram que o Magma não é tão bom quanto os outros livros do Rosa. Realmente ele tinha talento mesmo era para a prosa, e o engraçado é que ele foi poeta no fim da vida. Geralmente o sujeito é poeta aos 18 anos, quando aparecem as espinhas, e depois pode virar prosador. Mas há versos perfeitos no livro Ave, palavra, seu último livro, e Tutaméia e A terceira margem do rio são pura poesia. Eu sou mais de fazer frases, sou bom em criar frases.

ALB - O seu trabalho é mais fragmentado.
MB - Cada vez mais. O próprio mundo está obrigando a gente a se fragmentar. É uma falta de unidade, o homem moderno não tem mais as grandes unidades, como Deus. A gente não tem crença em mais nada, aliás, toda a arte deste século é fragmentada, ninguém defende mais uma ideologia, hoje. O homem não acredita mais nem em ideologia, as religiões estão se fragmentando, o protestantismo está se dividindo, o cristianismo.

ALB - O senhor é religioso?
MB - Sim, tenho formação católica, estudei dez anos interno em colégio de padre. Evidente que depois de alguns anos eu era comunista. Foi minha fase libertária, fui filiado ao Partido. Foi ali que conheci o Carlos Lacerda. O Apolônio de Carvalho me botou lá, depois ele foi da dissidência do Partido. Fui companheiro do Lacerda, que na época era muito diferente do que ele se tornaria, era comunista mesmo.

ALB - Até que ponto a despreocupação com o dinheiro é importante para o poeta?
MB - Levei vários anos até conquistar o ócio, isso é importante para o poeta, ele não pode ter a cabeça virada só para coisas a resolver. Fiquei muitos anos arrumando minha vida, saldando dívidas, atendendo papagaio. Há oito anos, cheguei aqui pra Mato Grosso, tomei pé aqui. Agora estou vagabundo, tenho direito a isso. Herdei uma fazenda, em campo aberto, terra nua, sou fazendeiro de gado, vaca, não sou “o rei do boi, do gado” mas vivo bem. Este é o meu caso: enquanto estava tomando pé da fazenda não escrevi uma linha. Mas sabemos de outros casos, como o Dostoiévski, que escreveu perseguido por dívidas, ou o Graciliano Ramos, que além das dívidas ainda tinha família pra criar.

ALB - Qual é o tema do poeta?
MB - O tema do poeta é sempre ele mesmo. Ele é um narcisista: expõe o mundo através dele mesmo. Ele quer ser o mundo, e pelas inquietações dele, desejos, esperanças, o mundo aparece. Através de sua essência, a essência do mundo consegue aparecer. O tema da minha poesia sou eu mesmo e eu sou pantaneiro. Então, não é que eu descreva o Pantanal, não sou disso, nem de narrar nada. Mas nasci aqui, fiquei até os oito anos e depois fui estudar. Tenho um lastro da infância, tudo o que a gente é mais tarde vem da infância. Nesse último livro meu, Livro sobre nada, tem muitos versos que vieram da infância. Tem um poema que se chama “A arte de infantilizar formigas”. Num vídeo que fizeram sobre mim, o rapaz chega uma hora que pergunta: “Escuta aqui, o senhor escreveu que formiga não tem dor nas costas. Mas como é que o senhor sabe?”. Outro rapaz me escreveu do Rio, diz que freqüenta as aulas de um professor muito inteligente em energia nuclear, física, poesia e romance, e ele fez a pergunta, que é um verso meu: “Professor, por que a 15 metros do arco-íris o sol é cheiroso?”. O professor, que tinha estudado Einstein e outros autores, disse: “Essa pergunta não vou responder, é absurda”. Ou seja, encabulou. Creio que a poesia está de mãos dadas com o ilógico. Não gosto de dar confiança para a razão, ela diminui a poesia.

ALB - Como é seu dia-a-dia?
MB - Pela estrada, chego a minha fazenda em quatro horas, estou bem perto do Pantanal. Agora o clima é seco, e dá para correr de carro. Mas quando a estrada enche, só de avião. Fico em casa lendo, escutando músico, vejo televisão. De manhã, fico escrevendo, terminando livro, fazendo entrevista.

ALB - Hoje, o senhor lê que autores?
MB - Já li muita coisa séria, além dos escritores, li filosofia, Nietszche, Kant, Walter Benjamim, Adorno, essas coisas. Mas hoje tô lendo mais porcaria mesmo, quero descansar a cabeça. E estou com a vista meio ruim. Vejo também muitas coisas engraçadas na TV, o Didi e o Dedé (Os trapalhões), o Chaves, sabe quem é?, aquele chato mexicano. E escuto muita música. De tarde, saio pra tomar umas pingas, enquanto meu fígado não arrebentou. Mas às vezes sofro aqui nessa cidade. A poesia faz da gente uma espécie de mito, e as pessoas acabam fazendo da gente uma imagem diferente da realidade. Tem gente aqui que pensa que eu vivo isolado, sozinho, sem amigos, falam que eu sou intratável. Não sou isolado, não.

ALB - Como nasceu seu amor pelo trabalho da linguagem?
MB - Sempre tive uma preocupação com a palavra, com as frases. No colégio interno, os padres me deram o Padre Antônio Vieira para ler. Ele era um grande frasista, se preocupava com a ressonância verbal interna das frases. Em linguagem, ele muitas vezes não era tão católico assim. Depois que comecei a ler o Vieira não parei mais de prestar atenção nas frases. Sou um fazedor de frases. O que é o verso? É uma frase, uma unidade rítmica, que tem como característica ser ilógica. O ilogismo é muito importante para o verso.

ALB - O senhor citou o poeta francês Rimbaud. Fale um pouco dele.
MB - Foi o poeta mais importante para mim. Aprendi com ele uma certa promiscuidade dos sentidos na natureza. Ele tinha uma linguagem própria, toda sua, aquela coisa do “trouver la langue” (”encontrar a língua”).

ALB - O senhor citou também João Cabral de Melo Neto. O que acha de sua obra?
MB - O Cabral é o maior poeta brasileiro de todos os tempos. É um arquiteto da palavra, sabe o que faz com ela. Tem um ritmo dele, totalmente dele, é diferente de todos os outros e tinha que ser, pois ele é um ser. João Cabral é muito limpo.

Fonte: Caderno Idéias, Jornal do Brasil.





Manoel de Barros faz do absurdo sensatez

22 02 2008

Entrevista por José Castello


Manoel de Barros faz do absurdo sensatez


CAMPO GRANDE - Parti para Mato Grosso do Sul com a cabeça carregada de frases de Manoel de Barros, que anotei das raras entrevistas que o poeta deu no passado.  “Prefiro as máquinas que servem para não funcionar”, ele disse. “Não gosto de dar confiança para a razão, ela diminui a poesia”, afirmou também. “A poesia não existe para comunicar, mas para comungar”, comentou ainda. “Desconfio do verso que fulgura; em poesia, o opaco é mais luminoso que o brilhante.” E disse mais: “Poesia é um lugar onde a gente ainda pode fazer com que um absurdo seja uma sensatez.”

Antes de viajar, dediquei-me a reler seus poemas. Mas frases sufocaram-me. “As coisas que não existem são as mais bonitas”, está na abertura do Livro das Ignorãças, atribuída a Felisdônio. E mais à frente: “As coisas me ampliaram para menos.” No Arranjos para Assobio há uma definição de poeta: “Sujeito inviável.” No Concerto a Céu Aberto para Solo de Aves está dito: “O nome ensina ao poeta as suas semelhanças.” E em Matéria da Poesia ele dá uma definição definitiva: “Poesia é a loucura das palavras.”

Desde janeiro de 1996, eu vinha tentando convencer o poeta Manoel de Barros, de 80 anos, a receber-me para uma entrevista. Naquele verão, ele aceitou, por fim, responder a algumas perguntas por escrito. Nada mais. A maior parte das poucas entrevistas que Manoel deu ao longo da vida foi assim: perguntas por escrito e respostas anotadas no papel.

Levou três meses para enviar suas respostas - publicadas em março do ano passado no Estado. Não desisti. Nas muitas conversas preparatórias que tivemos por telefone,
Manoel parecia sempre um homem simpático, mas retraído, pouco preparado para as coisas do mundo, entre elas a imprensa. Aos poucos, construí para meu uso pessoal o perfil de um interiorano, um caipira dos pântanos, um homem reservado e de poucas palavras, que qualquer repórter mais afoito poderia machucar seriamente.

Jogo - Ao chegar a Campo Grande, porém, levei uma rasteira - muito parecida com aquela que Manoel de Barros costuma dar-nos com seus magníficos versos. Descobri que, durante quase dois anos, ele jogara comigo, meigamente, mas com mestria, do mesmo modo que, na folha em branco, joga com suas palavras. Eu - o repórter - fui, por longos meses, apenas uma palavra na cabeça de Manoel de Barros. Uma palavra perigosa. Agora, graças a algum raciocínio que eu ainda não podia alcançar, ele abria a guarda e estávamos frente a frente.

Que homem encontrei? Imaginava Manoel de Barros magro e triste, mas ele é gorducho e enérgico. Imaginava um homem ingênuo, que passasse os dias entre cachorros e passarinhos - mas ele ouve concertos clássicos, lê Kant, Benjamin e Roland Barthes e toma cerveja com psicanalistas. Caí na armadilha de seus poemas. E talvez fosse isso o que, mantendo-se escondido, ele desejasse preservar: os versos. Manoel fala como qualquer senhor respeitável de 80 anos; não fala “torto”, como falam seus poemas. É essa fala reta, provavelmente, o que ele chama de timidez: o homem comum que se esconde detrás dos versos insensatos.

A crer no próprio Manoel, esse homem que eu agora tinha diante de mim era falso - o verdadeiro só aparece nos poemas. “É a palavra que me vai desvelando”, ele diz, sabendo que a palavra oral exigida em uma entrevista o rouba, justamente, daquele poder de burilar, de construir, de jogar, que a palavra escrita oferece. Ao responder a entrevistas por escrito, Manoel de Barros transformou as entrevistas em um gênero literário, tão digno quanto qualquer outro. Era essa, agora, a herança que me massacrava, mas também me fazia avançar.

Manoel sabe que o diálogo-padrão entre entrevistador e entrevistado, a idéia de que a determinadas perguntas correspondem determinadas respostas, a ilusão de que podem entender-se e comunicar-se, só empobrece a palavra. “Penso que só com a desarrumação sintática se consegue atingir o `criançamento’ do idioma”, ele disse certa vez.

E agora ali estava eu com minhas perguntas normais, querendo respostas comuns. Seria possível? Manoel também disse: “O meu apagamento me exibe antes que me apaga.” Mas já estou eu, novamente, enroscado na teia das palavras. No  entanto: poderia ser de outro modo?

A casa - Manoel de Barros mora em uma bela casa na Rua Piratininga, no Jardim dos Estados, desenhada pelo arquiteto mato-grossense Sérgio Saad e por seu companheiro, Osvaldo, que já morreu. Uma casa cheia de recantos, de pequenos jardins internos, de esconderijos, que dá a impressão de ser muito maior do que realmente é. Uma casa que engana e se disfarça - como ele próprio.

Na varanda do quarto, Manoel tem uma pitangueira,  plantada pacientemente pela mulher, Stella, e hoje carregada de frutos. No pequeno jardim da frente, cercado por um muro de 2 metros, os passarinhos de Campo Grande vêm cumprimentá-lo. O escritório, em um pequeno cômodo do segundo andar, é escuro e misterioso. A chave fica escondida no corredor, sobre o batente da porta. De 7 horas ao meio-dia, todos sabem, Manoel tranca-se no escritório para ler e escrever e não está para ninguém.

Manoel de Barros ainda passa, uma vez por mês, dois ou três dias em sua fazenda, a Fazenda Santa Cruz, no município de Corumbá, a seis horas de carro de Campo Grande. É uma fazenda de 12 mil hectares, onde ele cria 5 mil cabeças de gado e, na época da cheia, fica completamente isolada do mundo. Desde que Manoel transformou seus empregados em sócios, ela funciona em um esquema de autogestão. “Assim, eles não precisam mais de mim”, diz. Dispensar o papel de fazendeiro o alivia.

Sua obra está sendo toda relançada, em primoroso projeto editorial, pela Record. Em dezembro, chega às livrarias a nova edição do Livro de Pré-Coisas, editado em 1985 pela Philobiblion. O poeta dedica-se, atualmente, a escrever um novo livro que tem o título provisório de Tratado Geral das Inutilezas. Escreve à mão, em caderninhos miúdos, que ele mesmo monta com folhas grampeadas e capas coloridas e mais parecem obra de criança.

Chego à sua casa às 10 horas, saio às 19. Depois de nove horas de conversa amistosa, aumenta, no entanto, minha sensação de estranhamento. Para consolar-me, volto às palavras do próprio Manoel que trago anotadas em minha agenda: “Me exibo através de ficar sob as cinzas. Sou sempre uma pose falsa tirada no escuro. Me exibo de costas. Eu faço o nada aparecer.” Com Manoel de Barros, as palavras perdem seu poder de explicar e tornam-se enigmas. É isso o que agora carrego.

A leitura desta entrevista dará aos leitores dos poemas, ainda assim, a falsa sensação de esclarecimento. Poderão ter a ilusão de que, agora, o poeta se aclara, que finalmente sabem quem ele é. Mas não se iludam: ao voltar aos livros, os versos
soarão ainda mais estranhos e desconcertantes. A entrevista é um gênero da ordem das “inutilezas”. A vida tranqüiliza a poesia, mas não a doma.




Estado - Como surgiu seu amor pelas coisas sem importância?
Manoel de Barros - Quando eu era jovem, fiz uma longa viagem pela Bolívia. Viajei sem rumo por Porto Suárez, Orurus, Chiquitos, vivendo sempre no meio da indigência. Eu não fazia nada, eu simplesmente vivia - e bebia muita chicha, a aguardente que os índios bolivianos fazem com o milho. Passava os dias ali, quieto, no meio das coisas miúdas. E me encantei.

Estado - Você já se interessava por literatura?
Manoel - Sim, eu lia muito. Levei comigo as Obras Completas de Rimbaud e de Baudelaire e não parava de ler. Foi durante essa viagem, também, que descobri o peruano César Vallejo, um poeta da palavra - como eu.

Estado - Um poeta, também, das coisas menores.
Manoel - Prefiro as coisas menores, as coisas sem nome. Sempre fui muito voltado para as coisas sem importância. Há pouco tempo, uma poeta do Rio disse-me: “Quando você escreve, você só se interessa pelas `inutilezas’.” A palavra é dela, “inutilezas”, e me pareceu muito boa. O livro que estou escrevendo tem o título provisório de Tratado Geral das Inutilezas.


Segunda parte:

“Minha poesia é torta”, diz Manoel de Barros


CAMPO GRANDE - Ele acha melhor o seu primeiro
livro, Poemas Concebidos sem Pecado, que só teve uma
edição de cerca de 30 exemplares rodada em prensa manual,
por achar que todos os outros são decorrência desse. O poeta
Manoel de Barros, que diz escrever “uma poesia torta”, conta
ao Estado como foi sua trajetória até hoje e fala do novo livro.

Estado - Onde você encontrou as “inutilezas” para o livro que está escrevendo?
Manoel de Barros - Em minha viagem à Bolívia, procurei as cidades decadentes, as mais miseráveis. Ficava o dia todo encostado, pescava, bebia, passava os dias misturado com os bugres, os descendentes diretos dos índios americanos. Eu vivia no meio deles, empenhado apenas em conhecer aquelas pequenezas.

Estado - E o que você fez quando voltou?
Manoel - Encontrei um amigo que queria ir para Nova York. Foi um choque cultural: Picasso nos museus, Bach tocando nas igrejas. Fizemos uma viagem cheia de escalas, fomos chegando aos poucos.

Estado - E o que encontraram pelo caminho?
Manoel - Miséria. Em Santa Cruz de la Sierra, fomos abordados por um menino que veio oferecer-nos mulher. Ele nos levou a uma casa muito pobre e nos apresentou a suas três irmãs, três meninas miseráveis. O menino pegava homens na rua para transar com as irmãs, era assim que a família sobrevivia. Essa experiência rendeu-me um poema, que chamei de Maria-Pelego-Preto.

Estado - Ela existiu mesmo?
Manoel - Sim, uma das meninas tinha pentelhos que subiam até um umbigo. Os pais exploravam esses pêlos como um fenômeno, uma anormalidade. Cobravam ingressos só para exibi-los.

Estado - Como você publicou seu primeiro livro?
Manoel - A primeira edição de Poemas Concebidos sem Pecado foi rodada na prensa manual de um diplomata, o Henrique Rodrigues Vale. Foram só 20 ou 30 exemplares, dados de presente. Não guardei nenhum.

Estado - Quando você o lê, hoje, o que acha?
Manoel - Acho que esse meu primeiro livro é meu melhor livro. Tudo o que escrevi depois vem dele. Ali, eu já tinha a noção do valor lingüístico da poesia. Poesia não é para contar história, poesia é um fenômeno de linguagem.

Estado - Você foi um jovem desocupado?
Manoel - Tentei trabalhar como advogado, mas não funcionou. Na minha primeira audiência como advogado, fiquei tão nervoso que simplesmente vomitei em cima do processo. Imagine a cena: aquela mesa longa, o juiz postado na cabeceira, eu sentado diante dos autos. É minha vez de começar a falar. Então, antes de dizer a primeira palavra, eu me curvo sobre os documentos e vomito.

Estado - Você, certamente, escolheu a profissão errada.
Manoel - Mas então escute uma segunda história. Agora não sou mais advogado, sou poeta. Um dia, convidam-me para um programa especial na rádio em que escritores brasileiros iriam ler franceses. Eu deveria ler um poema de Aragon. O programa está no ar. É minha vez de ler. Mas, antes de dizer a primeira palavra, eu desmaio.

Estado - Poemas são assim tão perigosos? Os seus costumam ser adotados nas provas de vestibular. Você não gosta. Por quê?
Manoel - Faço uma poesia difícil. Depois, cair no mundo das imagens não é para qualquer um. Ainda mais para adolescentes. Adolescentes querem as coisas retas, senão não aceitam. E minha poesia é torta.

Estado - Eles exigem, no mínimo, professores muito preparados.
Manoel - Mas nem os professores me digerem. Há pouco tempo, chegou aqui em casa uma das coordenadoras do vestibular em Mato Grosso. Ela me disse: “Eu não entendo nada de seus livros. Se me permitir dizer a verdade, eu vou dizer: seus livros são uma m…!”

Estado - E como você reagiu?
Manoel - Eu lhe disse: “Olhe, minha querida, se meus poemas são difíceis, a culpa não é minha. Juro que não tenho culpa. Meus poemas sofrem de mim.”

Estado - E então?
Manoel - Ela estava desesperada. E me disse: “Pois é, mas eu não entendo nada. Como é que vou preparar meus alunos para as provas?” Eu respondi: “Olhe, eu também não sei o que lhe dizer. Meus livros não são para vestibular.” Poesia exige sensibilidade. Se você não tem sensibilidade, preparo algum adianta.

Estado - No seu caso, de onde veio essa sensibilidade?
Manoel - Fui criado numa fazenda do Pantanal. Meu pai empregou-se como arameiro, que é aquele sujeito que faz a cerca para isolar o gado. Cortava as árvores para tirar postes, depois passava o arame nas cercas. A gente não tinha casa, vivia acampado na beira das cercas. Até os 8 anos, eu fui criado no chão, da forma mais primitiva.

Estado - E o gosto pela leitura, como surgiu?
Manoel - Quando deixei de acompanhar meu pai pelas fazendas, fui para um colégio interno em Campo Grande. Depois, meu pai me mandou para o Rio, para o Colégio São José, dos irmãos maristas, onde fiquei por mais sete anos. Passei todo esse tempo lendo.

Estado - João Cabral de Melo Neto também estudou com os irmãos maristas, no Recife, e guarda recordações bem pouco estimulantes desse período de sua vida.
Manoel - Eu tive a sorte de conhecer um professor, padre Ezequiel, um homem culto e de espírito aberto, que marcou profundamente minha formação. Quando eu tinha 13 anos, ele me deu para ler um livro do padre Vieira. Fiquei alucinado. Vieira despertou em mim o gosto pela frase, pela sintaxe, pela construção sofisticada. Vieira não tinha o menor apreço pela verdade, ele gostava é da frase. Se você quiser tornar-se cristão lendo Vieira, não se tornará. Se quiser tornar-se escritor, poderá tornar-se.

Estado - É uma leitura que ainda hoje o acompanha?
Manoel - Jamais o abandonei. Agora mesmo estou lendo o capítulo dedicado a Vieira na História da Inteligência Brasileira, de Wilson Martins. Ele segue o Vieira passo a passo, com revelações que me assombram. Lendo o Vieira, descobri que qualquer palavra pode tornar-se poética, desde que você a coloque no lugar certo. Com o Vieira aprendi o valor da construção na poesia. Até hoje eu o leio todos os dias.

Estado - A faculdade de Direito afastou-o da literatura?
Manoel - Nada me afastaria. Eu tomava a condução para ir à faculdade, mas parava no centro e ia para a Biblioteca Nacional. Padre Ezequiel, é claro, não me fez ler Rimbaud, Mallarmé, Baudelaire, mas me ensinou o francês. Na Biblioteca Nacional, eu finalmente podia lê-los.

Estado - E quanto à prosa?
Manoel - É claro, o Machado. Ele é uma glória. Mas o prosador que hoje eu prezo mais que todos é o Dalton Trevisan. O Dalton é um escritor da linguagem, que modifica sempre, que enxuga cada vez mais. Para o Dalton, a linguagem é mais importante que o personagem. O Dalton lembra-me aquele personagem do Giovanni Papini que aparece em Gog, aquele literato que enxugou tanto seu livro que, um dia, descobriu que só lhe restava uma palavra.

Estado - O que essa busca da linguagem mínima significa?
Manoel - A evolução para a linguagem enxuta é a evolução para o absoluto. Meus escritores favoritos são aqueles que se encaram como seres de linguagem. O Dalton, o Machado, o Guimarães Rosa, o Gregório de Matos, o João Cabral, o Augusto dos Anjos, o Pessoa.

Estado - Você não inclui Clarice Lispector nessa lista?
Manoel - É claro que sim, como ela me escapou? Um dia, escrevi uma carta para a Clarice e ela nunca me respondeu. É uma coisa que me frustrou muito. Abri meu verbo, entreguei meu coração, e nada. Ela só me deu o silêncio. Até hoje isso me dói.

Estado - É, no mínimo, surpreendente que um escritor tão empenhado no trato da linguagem tenha sido, em determinado momento da vida, um militante comunista. Comunistas preferiam, em geral, os “conteúdos”.
Manoel - Foi o Apolônio de Carvalho quem me enfiou na Juventude Comunista. Eu o conheci quando era estudante e
morava no porão de uma pensão do Catete, que pertencia a uma húngara. Éramos quatro rapazes vivendo no porão. Um dia recebemos uma tarefa: devíamos pintar a frase “Viva o comunismo” na estátua de Pedro Álvares Cabral, na Glória. Os
outros foram, eu não. Às 4 horas, a polícia bateu na pensão. Meus amigos tinham sido presos e os policiais queriam levar-me.

Estado - Como se defendeu?
Manoel - Fui salvo pela húngara. “Sr. policial, deixe esse menino em paz”, ela disse. “Ele acabou de chegar do colégio de padres, não pode ser comunista.” Eu estava com 18 anos e ainda tinha cara de menino. Mas os policiais não se convenciam. Então, a húngara usou o argumento decisivo: “Ele até escreveu um livro de poesia.” Um policial, sem acreditar, pediu o livro. Eu mostrei, então, o livro que tinha acabado de escrever. Chamava-se Nossa Senhora de Minha Escuridão.

Estado - Um título que não combina muito com você.
Manoel - Era um livro de sonetos, feitos ainda no colégio. Produziu um efeito avassalador. O policial leu os títulos: Para Nossa Senhora, A Fala de Jesus Cristo, coisas assim. Fechou o livro, botou debaixo do braço e disse: “Você pode ficar.” Fui salvo pelos sonetos.

Estado - Você ainda conserva esses poemas?
Manoel - Infelizmente, não. Não sei por que, o policial levou o livro com ele. Era minha única cópia e eu o perdi para sempre. Hoje, deve estar nos arquivos do Filinto Müller…

Estado - Como você vê o comunismo hoje?
Manoel - Apesar de tudo, ainda me considero um socialista. O que sobrou do comunismo é muito importante para o mundo. Considero, além disso, que o socialismo é inevitável. Mais cedo ou mais tarde, o socialismo virá.

Estado - Como você se afastou da política?
Manoel - Militei durante cinco anos. Um dia, decepcionei-me com um discurso do Prestes, que passou a elogiar o Vargas, o mesmo que o tinha prendido, e resolvi afastar-me do partido. Meus amigos diziam-me: “Não sai do partido, porque eles te matam.” Então resolvi sumir. Peguei um trem e fui para a fronteira do Paraguai, onde meu pai era gerente de uma charqueada. Fiquei escondido por uns seis meses.

Estado - E o que você fez durante esse tempo?
Manoel - Voltei a viajar pelo Pantanal. Naquela época,
descobri que no Pantanal se falava uma espécie de dialeto. E
botei na minha cabeça de que eu iria estruturar as bases desse
dialeto. Viajando pela fronteira, dei-me conta de que cada
fazenda do Pantanal era uma ilha lingüística, em cada uma delas
se falava um dialeto próprio. Passei, então, a colecionar
palavras. Em pouco tempo, eu reuni mais de 500 expressões
do dialeto pantaneiro.

Estado - O que você fez desse material?
Manoel - Você não vai acreditar: eu perdi. Não sei como perdi. Fico muito chateado quando penso no que aconteceu. Ninguém se preocupou em preservar o dialeto do Pantanal, só eu. E, no entanto, deixei que tudo se perdesse.

Estado - Como se reencontrou com a literatura?
Manoel - Eu me cansei e precisava ganhar a vida, não tinha muito tempo para a literatura. Tinha de usar, de alguma forma, meu diploma de advogado. Arranjei então um emprego no Sindicato dos Peixeiros. Toda madrugada, a polícia saía à caça dos peixeiros que adulteravam o peso de seus produtos. Minha missão era ir até as delegacias para soltá-los. Fazia um requerimento, pagava uma fiança e os livrava da prisão. Nada de espetacular. Fiquei nisso uns bons três anos de minha vida.

Estado - Não chegou a tentar de novo a vida de escritório?
Manoel - Trabalhei por um breve período no escritório do Dr. Cloves Ramalhete. Eu só podia fazer serviço de subalterno, pois jamais suportei encarar uma audiência. Eu sei que sou esquizofrênico. Essa minha timidez excessiva, esse meu narcisismo, são sintomas bem claros disso.

Estado - Um esquizofrênico, no entanto, que se tornou um bem-sucedido fazendeiro.
Manoel - Meu pai morreu, herdei uma fazenda e tive de
voltar para Mato Grosso para administrá-la. Voltei em 1961, pouco depois da eleição do Jânio Quadros. Disse para minha mulher: “Vamos ficar em Mato Grosso o mesmo período que o Jânio permanecer no Alvorada.” Mas ele renunciou logo depois, enquanto eu passei muitos anos envolvido com a fazenda. Hoje, não. Meu filho caçula é quem cuida de tudo, eu só assino papéis de vez em quando.

Estado - Voltar não lhe pareceu um retrocesso?
Manoel - Eu tinha medo de voltar porque o interior pode mumificar a gente. Eu achava que ia ficar emburrecido, paralisado. Mas aconteceu o contrário. Quando retornei ao Pantanal, minha imaginação desabrochou. Isso foi um deslumbramento. Aqui tenho sossego, silêncio. Aqui a imaginação pode dar saltos. Não posso ir às grandes exposições de arte ou freqüentar cinematecas. Mas vou sempre ao Rio. Tenho um pequeno apartamento no Leblon.

Estado - Nesse longo percurso, ao que parece, quase nada do menino pantaneiro se perdeu.
Manoel - Eu não mudei. Até hoje me entendo muito com as crianças. Elas são inteligentes, descobrem coisas que a gente não vê. Têm a sintaxe torta. Eu tenho em mim, sempre, um lado muito grande de brejo, de natureza. Acho que sou extraído das palavras. Os lacanianos adoram quando digo essas coisas.

Estado - Você conhece algum?
Manoel - Muitos. Eles não me deixam. Eu me correspondo há muito tempo com o M. D. Magno. Em Campo Grande, há um grupo de analistas lacanianas com quem saio uma ou duas noites por semana para tomar umas cervejas. Elas pensam que minha poesia comprova as teorias de Lacan.

Estado - Você concorda com essa tese?
Manoel - Só sei dizer que a palavra é o nascedouro que acaba compondo a gente. O poeta é um ser extraído das palavras. Não é a gente que faz com as palavras, são as palavras que fazem com a gente. O meu texto é isso.

Estado - E a natureza onde fica?
Manoel - Somos parte da natureza. E, do mesmo modo, somos parte das palavras também. Quantas vezes uma palavra interrompe a gente e aparece? Quantas vezes ela se impõe sem que possamos entender por quê? Uns pensam que é mediunidade, mas é a palavra que fala em nós. Para um poeta,
a palavra que se impõe é mais forte que o sentido.

Estado - A palavra está, então, acima de tudo.
Manoel - Eu considero que, na escala dos valores humanos, o sujeito que mexe com palavras está em primeiro lugar. Recebo aqui em casa muitos poetas, e muitos maus poetas, e sempre lhes digo isso. Mesmo nos maus poetas a palavra já é uma qualidade. Só essa dedicação à gratuidade da palavra já merece meu respeito. Ser poeta é dedicar-se às inutilezas - que é como chamo as coisas inúteis.

Estado - De onde vem seu interesse particular pelos pássaros?
Manoel - Antes das palavras vem o canto puro, sem sentido, que é aquilo que está no bico dos pássaros. O canto é ágrafo, não admite escrita. Só depois dele é que as palavras aparecem. Existe uma continuidade entre o canto dos pássaros e as palavras humanas. O canto dos pássaros é uma “despalavra”.

Estado - Seus poemas estão cheios, também, de insetos. Muita gente sente repulsa por insetos, você não?
Manoel - Meu impulso poético me diz que as coisas grandes devem ser desequilibradas com as pequenas. Tenho uma atração pelas coisas mínimas. O ínfimo tem sua grandeza e ela me encanta. Gosto muito das coisas desimportantes, como os insetos. Não só das coisas, mas também dos homens desimportantes, que eu chamo de “desheróis”.

Estado - Daí seu interesse por Charles Chaplin?
Manoel - Chaplin descobriu o encanto dos vagabundos. Queria celebrar o ínfimo, o pobre coitado, o homem jogado fora, o joão-ninguém. Mas eu tomei gosto pelo desimportante lendo o Gogol, um escritor que exaltou como ninguém o homem sem valor, sem qualidade. Estou sempre relendo O Capote. A literatura do homem desqualificada, do pobre diabo, começou com Gogol.

Estado - Nenhum inseto o incomoda?
Manoel - Não tenho medo de insetos, nem mesmo de baratas. Eu fui criado em chão de acampamento, no meio de lagartixas, lagartos, sapos, mosquitos. Vivi nos brejos, lugares úmidos que custam muito a secar. Eu convivi muito com essas palavras que aparecem em mim. Na hora de escrever um verso, essas palavras brotam em mim naturalmente. É o lastro “brejal” que não perdi.

Estado - Nenhuma relação, eu suponho, com os poemas do senador José Sarney…
Manoel - Nem com o seu lado “brejal” nem com os seus poemas de marimbondo. O José Sarney é um subliterato. Se ficasse só presidente já era ruim, mas ainda escritor…

Estado - O que você pensa da exploração turística do Pantanal?
Manoel - Não é uma exploração, é uma deformação. Mas existem limites. O Pantanal tem um regime de chuvas e de enchentes que ninguém pode mudar. Se o sujeito cismar de erguer um restaurante, uma agência bancária, um supermercado, daqui a seis meses tudo estará boiando. O Pantanal sabe defender-se. O turismo jamais vai conseguir domá-lo.

Estado - No Pantanal, a natureza ainda se sobrepõe à cultura.
Manoel - É um lugar edênico. Eu diria adâmico. Está na origem do mundo. Parece que a formação geológica do Pantanal ainda não terminou. Claude Lévi-Strauss, quando o visitou, observou que seus rios não têm profundidade, não têm barrancos. O Pantanal é um lugar primário, não terminado, sem feições definitivas. É muito inquieto, muito incorreto, sem disciplina. “No Pantanal não se pode passar a régua”, eu escrevi. A régua impõe limites e o Pantanal não tem limites. Tem uma estrutura aquática que não permite que ele seja modificado.

Estado - Você escreveu também: “O artista é um erro da natureza.” Pode explicar isso?
Manoel - Mas eu também escrevi: “Beethoven é um erro perfeito.” Logo, o erro é a perfeição. O artista é um doente, não é um homem normal. É sempre um psicótico, tem um desvio de sensibilidade, algo assim. Minha principal qualidade literária é minha visão torta do mundo - logo, minha principal qualidade literária é minha doença. Escrever que “Beethoven é um erro perfeito” é uma idéia torta, não é? Escrever que “o silêncio do mar é azul” também é uma idéia torta, porque silêncio não tem cor. E, no entanto, eu escrevi isso e as pessoas consideram. Todo artista tem um desvio lingüístico e é ele que forma seu estilo.

Estado - O estilo é uma condenação?
Manoel - O estilo é um estigma, é uma coisa que marca. Já vem com as nuances do indivíduo. O estilo é coisa quase genética. Todo escritor surge de uma doença. Quanto mais um escritor é atingido pela anormalidade, mais seu estilo aparece.

Estado - Uma pessoa como Bernardo, o velho empregado a quem você dedicou um longo poema, também está marcada pela estigma da anormalidade e no entanto não se tornou poeta. Como isso se explica?
Manoel - Bernardo está internado há um mês em um asilo. Ele está sofrendo do coração. Temos a mesma idade e ele está comigo desde os 18 anos. Bernardo não fala, não fala mesmo. Não porque não queira, mas por fastio. Ele tem uma inocência animal.

Estado - Os pássaros ainda pousam na cabeça dele?
Manoel - Não só os pássaros, mas até as galinhas selvagens. Os porcos querem ir para o seu colo. Todos os animais querem chegar perto de Bernardo. Não sei o que é, não me peça explicação. Bernardo tem uma inocência animal, de forma que os animais sentem e se aproximam.

Estado - Você o tem visitado?
Manoel - Vou sempre visitá-lo. Encontro-o rindo e fumando seu cachimbo. Os médicos dizem que não adianta mais proibir. Bernardo é um ser que não conhece ter. Ele nunca teve nada, nunca pediu nada. A gente é que leva roupa, lhe dá comida, remédio. E tem uma memória igual à de um computador. Ele é capaz de dizer a idade de uma pessoa que ele conheceu há 50 anos e nunca mais encontrou. A memória é o sentido que, nele, absorveu os outros.

Estado - Já em seu caso parece que o gozo com as palavras está acima de tudo. É isso?
Manoel - É verdade, eu gozo com as palavras. Já escrevi: “Meu gozo é no fazer.” É no fazer o verso que o poeta goza. Eu tenho isso: todo verso meu, eu gozei nele. Não escrevo muito porque eu demoro muito para gozar. Eu trabalho muito em cima das palavras, bolino muito as palavras, acaricio. “Uma palavra tirou o roupão para mim”, eu escrevi. E é exatamente isso o que acontece.

 

 Fonte: http://www.revista.agulha.nom.br/barros04.html





Manoel de Barros busca o sentido da vida

22 02 2008

Entrevista por José Castello


Poeta diz ter solidão, mas acha que é opulência da alma e a traz, em sua obra, como amargor e sol

Manoel de Barros ficou perto de cinco meses com um longo questionário que lhe enviei pouco antes do carnaval deste ano. “Vou responder devagar e do meu jeito”, ele me advertiu na época. Aceitei suas condições. Não imaginei, porém, que necessitasse de tanto tempo. Barros seguiu, em parte, as instruções de seus novos editores, da Record, que preferiam ver uma grande entrevista publicada no Estado apenas na época do lançamento do Livro sobre Nada. Mas não foi só essa preferência que o fez deixar o questionário de lado por um período tão longo. O poeta é um homem de hábitos lentos, que gosta de meditar muito antes de agir e não está acostumado a trair seu temperamento interiorano. Finalmente, no dia 12, ele despachou de Campo Grande, pelo correio, suas respostas a algumas perguntas que formulei. Assim começa um breve bilhete anexo: “Aí está o que pude; peço desculpas pela demora.” Manoel de Barros respondeu por escrito, em organizadas folhas brancas do tipo ofício, datilografadas com esmero. Corrigiu os erros com a esferográfica, numerou metodicamente as questões e grampeou as páginas.

É um homem, sempre, cheio de cuidados. Antes de aceitar o convite da editora Record para se transferir - “proposta irrecusável por todos os motivos, até mesmo os financeiros”, limita-se a dizer -, o poeta consultou José Elias Salomão, o proprietário da Civilização Brasileira. “Falei com ele e tudo bem; ficamos em paz todos”, relata. A morte recente do editor Ênio Silveira, por certo, influenciou nessa decisão. Manoel de Barros se sentia tão ligado a Ênio que, enquanto ele estava vivo e mesmo com as condições precárias que a editora Civilização Brasileira atravessou na última década, não ousou mudar de casa. Os laços de amizade e a fidelidade pesaram mais que os interesses pessoais. Cada um de seus últimos livros editados por Ênio Silveira, mal ou bem (e, considerando que são livros de poemas, esses números são ótimos) vendeu, de todo modo, perto de 10 mil exemplares. “Acho que, na Record, esse número deve crescer por causa da estrutura de marketing da editora”, diz. Apesar desse otimismo, Manoel de Barros continua a ser um homem basicamente melancólico e pessimista. “Acho que no futuro o homem vai pedir pelo amor de Deus para conhecer uma árvore, um passarinho, um cavalo”, diz. “Tenho medo que a ciência acabe com os cavalos, com a luz natural, com as fontes do ser.” A seguir, as questões que ele decidiu responder.




Estado - Em que medida Mato Grosso do Sul está presente em sua poesia? Qual é sua relação com o regionalismo?
Manoel de Barros - Há sempre um lastro de ancestralidades que nos situa no espaço. Mas não importa muito onde o artista tenha nascido. O que marca um estilo literário é a maneira de mexer com as palavras. Poesia é um fenômeno de linguagem. De minha parte, confesso que fujo do regionalismo que não dê em arte, que só quer fazer registro. Não gosto de descrever lugares, bichos, coisas da natureza. Gosto de inventar. Quem descreve não é dono do assunto; quem inventa é. Não tenho compromisso com as verdades consagradas. O que desejo é me constar por meio de um trabalho estético. Se de tudo resultar um cheiro de coisa do chão, é bom. Pode até ser que seja regionalismo. Porém, há de ser mais transfigurismo pela palavra.

Estado - Você se sente isolado em Campo Grande?
Barros - Isolado não me sinto, juro. Às vezes me isolo, me tranco na minha toca para escrever, para ler, para imaginar. Parece que, no fechado, o imaginário se solta melhor. O que sinto mesmo é incompletude: essa falta de explicação para o sentido da vida. O que tenho é solidão. Mas solidão é opulência da alma. Tudo isso parece que destila amargor e sol na minha poesia.

Estado - As viagens marcaram sua poesia? Penso em um poeta como Vinícius de Moraes que, em cada cidade que viveu, parece ter sido um homem diferente.
Barros - Alguns anos da minha vida ambulei por lugares decadentes. Havia um certo fascínio em mim por cidades mortas, casas abandonadas, vestígios de civilizações. Um fascínio por ruínas habitadas por sapos e borboletas. Eu gostava de ver alguma germinação da inércia sobre ervinhas doentes, paredes leprentas, coisas desprezadas. As fontes de minha poesia, estou certo, vêm de errâncias desurbanas. Agora, o caso do Vinícius é outro. Ele é um poeta inumerável. Ele vem das grandes paixões, das grandes complexidades, das perplexidades humanas. Ele era 300, ele era 350, como diria o nosso Mário de Andrade. Manoel de Barros só é um bugre perturbado.

Estado - Existe essa entidade chamada poesia brasileira ou existem apenas poetas nascidos no Brasil?
Barros - Penso que existe sim uma poesia brasileira. Uma poesia que expressa a nossa alma e o nosso quintal. Porém, a linguagem, o tratamento que o poeta imprima à sua matéria pode fazer dele um poeta universal. Assim, as nossas particularidades podem ser universais por meio das palavras. Temos poetas do mundo nascidos no Brasil.

Estado - Como foi sua relação com o editor Ênio Silveira, recém- falecido?
Barros - Do Ênio fui amigo e companheiro desde o primeiro dia que conversamos. Uma das criaturas mais puras, mais honestas, mais idealistas que conheci. Um ser de escol - como se diz. Trocamos cartas por muitos anos. Trocamos amizades. Mandava a ele os meus originais e ficava quieto, esperando. De repente, me mandava as provas. Fazia questão de escrever as orelhas. Tenho cinco livros lançados por ele.

Estado - Como é hoje sua rotina de poeta?
Barros - Exploro os mistérios irracionais dentro de uma toca que chamo “lugar de ser inútil”. Exploro há 60 anos esses mistérios. Descubro memórias fósseis. Osso de urubu, etc. Faço escavações. Entro às 7 horas, saio ao meio-dia. Anoto coisas em pequenos cadernos de rascunho. Arrumo versos, frases, desenho bonecos. Leio a Bíblia, dicionários, às vezes percorro século para descobrir o primeiro esgar de uma palavra. E gosto de ouvir e ler Vozes da Origem. Gosto de coisas que começam assim: “Antigamente, o tatu era gente e namorou a mulher de outro homem.” Está no livro Vozes da Origem, da antropóloga Betty Mindlin. Essas leituras me ajudam a explorar os mistérios irracionais. Não uso computador para escrever. Sou metido. Sempre acho que na ponta de meu lápis tem um nascimento.

Estado - Seu último livro publicado se chama O livro das Ignorãças (Civilização Brasileira, 1983). A citação de abertura é eloqüente: “As coisas que não existem são mais bonitas.” Qual é o papel da ignorância na atividade poética?
Barros - Gosto de ver o que não aparece. Um que não era o adivinha de Tebas, o Tirésias, um que era apenas o Pote-Cru, andejo de beira de rios, criado em grotas de preá, me disse um dia: “Eu tenho vaticínios de lugares.” Pote-Cru, ele tinha percepções sensoriais largas, como os adivinhos, os videntes, os bruxos, os urgos, os demiurgos, os curandeiros, os magos. Essa gente toda usa muito a ignorância para nos conhecer. Como é que eles podem dizer: “Vi a tarde se encolher no olho de um pássaro?” Entretanto, se encolhe! Como é que eles podem dizer: “Os carrapichos não pregam no vento.” E, entretanto, não pregam. Essas descobertas vêm da ignorância.

Estado - Você vive em uma região brasileira em que a natureza, mal ou bem, ainda resiste. Há futuro para a natureza?
Barros - No grande futuro, não sei o que seja, acho que o homem vai pedir pelo amor de Deus para conhecer uma árvore, um passarinho, um cavalo. Tenho medo que a ciência acabe com os cavalos, com a luz natural, com as fontes do ser. Aquela liberdade que o homem tem de se sentir livre para o silêncio das árvores não vai ter mais. O idioma não vai servir mais para celebrar. O ser não vai mais comungar com as coisas. A imaginação não vai mais desabrochar, porque os nossos desejos e fantasias serão realizados. O mundo vai ter outro cheiro. Salvo não seja.

Fonte: O Estado de São Paulo, Caderno 2.





Melhores poesias de Manoel de Barros

22 02 2008

 Fonte: http://www.revista.agulha.nom.br/

 

O Guardador de Águas
de “O Guardador de Águas”, Ed. Civilização Brasileira.

I
O aparelho de ser inútil estava jogado no chão, quase
coberto de limos -
Entram coaxos por ele dentro.
Crescem jacintos sobre palavras.
(O rio funciona atrás de um jacinto.)
Correm águas agradecidas sobre latas…
O som do novilúnio sobre as latas será plano.
E o cheiro azul do escaravelho, tátil.
De pulo em pulo um ente abeira as pedras.
Tem um cago de ave no chapéu.
Seria um idiota de estrada?
Urubus se ajoelham pra ele.
Luar tem gula de seus trapos.

II
Esse é Bernardo. Bernardo da Mata. Apresento.
Ele faz encurtamento de águas.
Apanha um pouco de rio com as mãos e espreme nos vidros
Até que as águas se ajoelhem
Do tamanho de uma lagarta nos vidros.

No falar com as águas rás o
exercitam.
Tentou encolher o horizonte
No olho de um inseto - e obteve!
Prende o silêncio com fivela.
Até os caranguejos querem ele para chão.
Viu as formigas carreando na estrada 2 pernas de ocaso
para dentro de um oco… E deixou.
Essas formigas pensavam em seu olho.
É homem percorrido de existências.
Estão favoráveis a ele os camaleões.
Espraiado na tarde -
Como a foz de um rio - Bernardo se inventa…
Lugarejos cobertos de limo o imitam.
Passarinhos aveludam seus cantos quando o vêem.

V
Eles enverdam jia nas auroras.
São viventes de ermo. Sujeitos
Que magnificam moscas - e que oram
Devante uma procissão de formigas…
São vezeiros de brenhas e gravanhas.
São donos de nadifúndios.
(Nadifúndio é lugar em que nadas
Lugar em que osso de ovo
E em que latas com vermes emprenhados na boca.
Porém.
O nada destes nadifúndios não alude ao infinito menor
de ninguém.
Nem ao Néant de Sartre.
E nem mesmo ao que dizem os dicionários:

coisa que não existe.
O nada destes nadifúndios existe e se escreve com letra
minúscula.)
Se trata de um trastal.
Aqui pardais descascam larvas.
Vê-se um relógio com o tempo enferrujado dentro.
E uma concha com olho de osso que chora.
Aqui, o luar desova…
Insetos umedecem couros
E sapos batem palmas compridas…
Aqui, as palavras se esgarçam de lodo.

VIII
Idiotas de estradas gostam de urinar em morrinhos de
formigas. Apreciam de ver as formigas correndo de
um canto para o outro, maluquinhas, sem calças, como
crianças. Dizem eles que estão infantilizando as
formigas. Pode ser.

XX
Com 100 anos de escória uma lata aprende a rezar.
Com 100 anos de escombros um sapo vira árvore e cresce
por cima das pedras até dar leite.
Insetos levam mais de 100 anos para uma folha sê-los.
Uma pedra de arroio leva mais de 100 anos para ter murmúrios.
Em seixal de cor seca estrelas pousam despidas.
Mariposas que pousam em osso de porco preferem melhor
as cores tortas.
Com menos de 3 meses mosquitos completam a sua
eternidade.
Um ente enfermo de árvore, com menos de 100 anos, perde
o contorno das folhas.
Aranha com olho de estame no lodo se despedra.
Quando chove nos braços da formiga o horizonte diminui.
Os cardos que vivem nos pedrouços têm a mesma sintaxe
que os escorpiões de areia.
A jia, quando chove, tinge de azul o seu coaxo.
Lagartos empernam as pedras de preferência no inverno.
O vôo do jaburu é mais encorpado do que o vôo das horas.
Besouro só entra em amavios se encontra a fêmea dele
vagando por escórias…
A 15 metros do arco-íris o sol é cheiroso.
Caracóis não aplicam saliva em vidros; mas, nos brejos,
se embutem até o latejo.
Nas brisas vem sempre um silêncio de garças.
Mais alto que o escuro é o rumor dos peixes.
Uma árvore bem gorjeada, com poucos segundos, passa a
fazer parte dos pássaros que a gorjeiam.
Quando a rã de cor palha está para ter - ela espicha os
olhinhos para Deus.
De cada 20 calangos, enlanguescidos por estrelas, 15 perdem
o rumo das grotas.
Todas estas informações têm uma soberba desimportância
científica - como andar de costas.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

John William Godward (British, 1861-1922), Belleza Pompeiana, detail

 

Manoel de Barros


Mundo Pequeno
do livro “O Livro das Ignorãças” - ed. Civilização Brasileira.

I
O mundo meu é pequeno, Senhor.
Tem um rio e um pouco de árvores.
Nossa casa foi feita de costas para o rio.
Formigas recortam roseiras da avó.
Nos fundos do quintal há um menino e suas latas
maravilhosas.
Todas as coisas deste lugar já estão comprometidas
com aves.
Aqui, se o horizonte enrubesce um pouco, os
besouros pensam que estão no incêndio.
Quando o rio está começando um peixe,
Ele me coisa
Ele me rã
Ele me árvore.
De tarde um velho tocará sua flauta para inverter
os ocasos.

II
Conheço de palma os dementes de rio.
Fui amigo do Bugre Felisdônio, de Ignácio Rayzama
e de Rogaciano.
Todos catavam pregos na beira do rio para enfiar
no horizonte.
Um dia encontrei Felisdônio comendo papel nas ruas
de Corumbá.
Me disse que as coisas que não existem são mais
bonitas.

IV
Caçador, nos barrancos, de rãs entardecidas,
Sombra-Boa entardece. Caminha sobre estratos
de um mar extinto. Caminha sobre as conchas
dos caracóis da terra. Certa vez encontrou uma
voz sem boca. Era uma voz pequena e azul. Não
tinha boca mesmo. “Sonora voz de uma concha”,
ele disse. Sombra-Boa ainda ouve nestes lugares
conversamentos de gaivotas. E passam navios
caranguejeiros por ele, carregados de lodo.
Sombra-Boa tem hora que entra em pura
decomposição lírica: “Aromas de tomilhos dementam
cigarras.” Conversava em Guató, em Português, e em
Pássaro.
Me disse em Iíngua-pássaro: “Anhumas premunem
mulheres grávidas, 3 dias antes do inturgescer”.
Sombra-Boa ainda fala de suas descobertas:
“Borboletas de franjas amarelas são fascinadas
por dejectos.” Foi sempre um ente abençoado a
garças. Nascera engrandecido de nadezas.

VI
Descobri aos 13 anos que o que me dava prazer nas
leituras não era a beleza das frases, mas a doença delas.
Comuniquei ao Padre Ezequiel, um meu Preceptor, esse gosto esquisito.
Eu pensava que fosse um sujeito escaleno.
- Gostar de fazer defeitos na frase é muito saudável, o Padre me disse.
Ele fez um limpamento em meus receios.
O Padre falou ainda: Manoel, isso não é doença,
pode muito que você carregue para o resto da vida um certo gosto por nadas…
E se riu.
Você não é de bugre? - ele continuou.
Que sim, eu respondi.
Veja que bugre só pega por desvios, não anda em estradas -
Pois é nos desvios que encontra as melhores surpresas e os ariticuns maduros.
Há que apenas saber errar bem o seu idioma.
Esse Padre Ezequiel foi o meu primeiro professor de
gramática.

VI
Toda vez que encontro uma parede
ela me entrega às suas lesmas.
Não sei se isso é uma repetição de mim ou das lesmas.
Não sei se isso é uma repetição das paredes ou de mim.
Estarei incluído nas lesmas ou nas paredes?
Parece que lesma só é uma divulgação de mim.
Penso que dentro de minha casca
não tem um bicho:
Tem um silêncio feroz.
Estico a timidez da minha lesma até gozar na pedra.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Poussin, The Triumph of Neptune

 

Manoel de Barros


Uma Didática da Invenção
do “O Livro das Ignorãnças” ed. Civilização Brasileira.

I
Para apalpar as intimidades do mundo é preciso saber:
a) Que o esplendor da manhã não se abre com
faca
b) 0 modo como as violetas preparam o dia
para morrer
c) Por que é que as borboletas de tarjas
vermelhas têm devoção por túmulos
d) Se o homem que toca de tarde sua existência
num fagote, tem salvação
e) Que um rio que flui entre 2 jacintos carrega
mais ternura que um rio que flui entre 2
lagartos
f) Como pegar na voz de um peixe
g) Qual o lado da noite que umedece primeiro.
Etc.
etc.
etc.
Desaprender 8 horas por dia ensina os princípios.

IV
No Tratado das Grandezas do Ínfimo estava
escrito:
Poesia é quando a tarde está competente para
Dálias.
É quando
Ao lado de um pardal o dia dorme antes.
Quando o homem faz sua primeira lagartixa
É quando um trevo assume a noite
E um sapo engole as auroras

IX
Para entrar em estado de árvore é preciso
partir de um torpor animal de lagarto às
3 horas da tarde, no mês de agosto.
Em 2 anos a inércia e o mato vão crescer
em nossa boca.
Sofreremos alguma decomposição lírica até
o mato sair na voz.

Hoje eu desenho o cheiro das árvores.

IX
O rio que fazia uma volta atrás de nossa casa
era a imagem de um vidro mole que fazia uma
volta atrás de casa.
Passou um homem depois e disse: Essa volta
que o rio faz por trás de sua casa se chama
enseada.
Não era mais a imagem de uma cobra de vidro
que fazia uma volta atrás de casa.
Era uma enseada.
Acho que o nome empobreceu a imagem.





Entrevista com o Poeta Manoel de Barros

22 02 2008



O tema da minha poesia sou eu mesmo

Entrevista concedida a André Luís Barros

A natureza nunca mais foi a mesma depois de passar por suas frases. O poeta pantaneiro Manoel de Barros, que está lançando um novo ajuntamento de versos e vida, o Livro sobre nada (Editora Record) , se considera acima de tudo um “fazedor de frases”: “A frase para ser boa precisa ser uma coisa ilógica, o ilogismo é muito importante pois a razão diminui a poesia”, ensina. Avesso a entrevistas, quanto mais por telefone, Manoel de Barros, considerado por muitos o maior poeta brasileiro vivo, concordou em concedeu conversar com o caderno Idéias, por telefone, de sua casa em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, onde vive a quatro horas de sua fazenda de criação de gado e costuma sair à tarde para “desenferrujar” e bicar umas pingas com amigos. Com simplicidade, o autor de livros como Compêndio para uso dos pássaros (1960), Arranjos para assobio (1982), Livro de pré-coisas (1985) e O guardador de águas (1989) falou sobre paixões literárias, o gosto pelo ócio e por programas divertidos na televisão, como Os trapalhões e até o mexicano Chaves e lembrou até um insuspeitado passado no Partido Comunista. “Mas nunca fui afeito a grupos, gerações, não podia mesmo durar muito naquele partido. Hoje, conquistei o ócio, o que é muito importante para o poeta”, comemora.




André Luís Barros - O senhor só ficou famoso como um grande poeta depois dos 70 anos. Isso foi algo planejado, ou aconteceu por acaso?
Manoel de Barros - Isso é negócio do meu temperamento. Nunca tive projeto, só livro. Também nunca achei que precisasse me isolar no Pantanal para compor melhor. Sou pantaneiro, nasci aqui, só podia viver e escrever mesmo sobre as coisas daqui. Mas nunca tive preocupação em aparecer muito, ser uma pessoa conhecida, isso é sincero mesmo. Eu queria só fazer poesia. A minha vergonhez explica muita coisa. Sou tímido por temperamento, é possível que só seja poeta por causa disso. Sou um ser abúlico, tenho minhas contradições e tento me encontrar através da poesia. É claro que sucesso é bom, ser amado, admirado pela poesia é bom, quem disser que não está mentindo. Fui descoberto de repente, as pessoas começaram a me perceber. Nunca na minha vida fui de participar muito de grupo. Acho que em poesia também não pertenço a nenhuma geração, a tal geração de 1945 não é a minha, e vejo outros poetas, como João Cabral de Melo Neto, que não é de geração nenhuma. Aliás, como classificar o Rimbaud? Em que geração classificamos o Augusto dos Anjos? Eles são simplesmente grandes poetas.

ALB - O senhor conheceu, tem uma grande admiração e até prometeu um livro sobre João Guimarães Rosa. O primeiro livro dele, o inédito Magma, será lançado em breve. Onde está o livro prometido?
MB - Foi adiado. O Ênio Silveira tinha me sugerido fazer esse livro e eu topei o negócio, fiquei animado. Mas quando fui escrever, em vez de ser minha, a frase que saía era do Rosa. É que eu tinha relido muita coisa dele e fiquei impregnado. Não convém isso, não é bom porque você acaba mergulhado mesmo na obra do autor, acaba afogado. Anos atrás eu tinha tentado fazer um ensaio quase lingüístico sobre o conto Cara-de-Bronze, do Rosa, de que gosto muito. Mas me embananei todo, no meio. Eu não falo mais que três línguas e o Rosa conhecia língua demais, achei que seria possível fazer o ensaio mas ficou muito difícil. Disseram que o Magma não é tão bom quanto os outros livros do Rosa. Realmente ele tinha talento mesmo era para a prosa, e o engraçado é que ele foi poeta no fim da vida. Geralmente o sujeito é poeta aos 18 anos, quando aparecem as espinhas, e depois pode virar prosador. Mas há versos perfeitos no livro Ave, palavra, seu último livro, e Tutaméia e A terceira margem do rio são pura poesia. Eu sou mais de fazer frases, sou bom em criar frases.

ALB - O seu trabalho é mais fragmentado.
MB - Cada vez mais. O próprio mundo está obrigando a gente a se fragmentar. É uma falta de unidade, o homem moderno não tem mais as grandes unidades, como Deus. A gente não tem crença em mais nada, aliás, toda a arte deste século é fragmentada, ninguém defende mais uma ideologia, hoje. O homem não acredita mais nem em ideologia, as religiões estão se fragmentando, o protestantismo está se dividindo, o cristianismo.

ALB - O senhor é religioso?
MB - Sim, tenho formação católica, estudei dez anos interno em colégio de padre. Evidente que depois de alguns anos eu era comunista. Foi minha fase libertária, fui filiado ao Partido. Foi ali que conheci o Carlos Lacerda. O Apolônio de Carvalho me botou lá, depois ele foi da dissidência do Partido. Fui companheiro do Lacerda, que na época era muito diferente do que ele se tornaria, era comunista mesmo.

ALB - Até que ponto a despreocupação com o dinheiro é importante para o poeta?
MB - Levei vários anos até conquistar o ócio, isso é importante para o poeta, ele não pode ter a cabeça virada só para coisas a resolver. Fiquei muitos anos arrumando minha vida, saldando dívidas, atendendo papagaio. Há oito anos, cheguei aqui pra Mato Grosso, tomei pé aqui. Agora estou vagabundo, tenho direito a isso. Herdei uma fazenda, em campo aberto, terra nua, sou fazendeiro de gado, vaca, não sou “o rei do boi, do gado” mas vivo bem. Este é o meu caso: enquanto estava tomando pé da fazenda não escrevi uma linha. Mas sabemos de outros casos, como o Dostoiévski, que escreveu perseguido por dívidas, ou o Graciliano Ramos, que além das dívidas ainda tinha família pra criar.

ALB - Qual é o tema do poeta?
MB - O tema do poeta é sempre ele mesmo. Ele é um narcisista: expõe o mundo através dele mesmo. Ele quer ser o mundo, e pelas inquietações dele, desejos, esperanças, o mundo aparece. Através de sua essência, a essência do mundo consegue aparecer. O tema da minha poesia sou eu mesmo e eu sou pantaneiro. Então, não é que eu descreva o Pantanal, não sou disso, nem de narrar nada. Mas nasci aqui, fiquei até os oito anos e depois fui estudar. Tenho um lastro da infância, tudo o que a gente é mais tarde vem da infância. Nesse último livro meu, Livro sobre nada, tem muitos versos que vieram da infância. Tem um poema que se chama “A arte de infantilizar formigas”. Num vídeo que fizeram sobre mim, o rapaz chega uma hora que pergunta: “Escuta aqui, o senhor escreveu que formiga não tem dor nas costas. Mas como é que o senhor sabe?”. Outro rapaz me escreveu do Rio, diz que freqüenta as aulas de um professor muito inteligente em energia nuclear, física, poesia e romance, e ele fez a pergunta, que é um verso meu: “Professor, por que a 15 metros do arco-íris o sol é cheiroso?”. O professor, que tinha estudado Einstein e outros autores, disse: “Essa pergunta não vou responder, é absurda”. Ou seja, encabulou. Creio que a poesia está de mãos dadas com o ilógico. Não gosto de dar confiança para a razão, ela diminui a poesia.

ALB - Como é seu dia-a-dia?
MB - Pela estrada, chego a minha fazenda em quatro horas, estou bem perto do Pantanal. Agora o clima é seco, e dá para correr de carro. Mas quando a estrada enche, só de avião. Fico em casa lendo, escutando músico, vejo televisão. De manhã, fico escrevendo, terminando livro, fazendo entrevista.

ALB - Hoje, o senhor lê que autores?
MB - Já li muita coisa séria, além dos escritores, li filosofia, Nietszche, Kant, Walter Benjamim, Adorno, essas coisas. Mas hoje tô lendo mais porcaria mesmo, quero descansar a cabeça. E estou com a vista meio ruim. Vejo também muitas coisas engraçadas na TV, o Didi e o Dedé (Os trapalhões), o Chaves, sabe quem é?, aquele chato mexicano. E escuto muita música. De tarde, saio pra tomar umas pingas, enquanto meu fígado não arrebentou. Mas às vezes sofro aqui nessa cidade. A poesia faz da gente uma espécie de mito, e as pessoas acabam fazendo da gente uma imagem diferente da realidade. Tem gente aqui que pensa que eu vivo isolado, sozinho, sem amigos, falam que eu sou intratável. Não sou isolado, não.

ALB - Como nasceu seu amor pelo trabalho da linguagem?
MB - Sempre tive uma preocupação com a palavra, com as frases. No colégio interno, os padres me deram o Padre Antônio Vieira para ler. Ele era um grande frasista, se preocupava com a ressonância verbal interna das frases. Em linguagem, ele muitas vezes não era tão católico assim. Depois que comecei a ler o Vieira não parei mais de prestar atenção nas frases. Sou um fazedor de frases. O que é o verso? É uma frase, uma unidade rítmica, que tem como característica ser ilógica. O ilogismo é muito importante para o verso.

ALB - O senhor citou o poeta francês Rimbaud. Fale um pouco dele.
MB - Foi o poeta mais importante para mim. Aprendi com ele uma certa promiscuidade dos sentidos na natureza. Ele tinha uma linguagem própria, toda sua, aquela coisa do “trouver la langue” (”encontrar a língua”).

ALB - O senhor citou também João Cabral de Melo Neto. O que acha de sua obra?
MB - O Cabral é o maior poeta brasileiro de todos os tempos. É um arquiteto da palavra, sabe o que faz com ela. Tem um ritmo dele, totalmente dele, é diferente de todos os outros e tinha que ser, pois ele é um ser. João Cabral é muito limpo.

Fonte: Caderno Idéias, Jornal do Brasil.





22 02 2008

“Quem disse que a poesia é apenas agreste avena? A poesia é a eterna Tomada da Bastilha, o eterno quebra-quebra, o enforcar de Judas, executivos e catedráticos em todas as esquinas e, a um ruflar poderoso de asas, entre cortinas incendiadas, os Anjos do Senhor estuprando as mais belas filhas dos mortais.”

Essas palavras de Mário Quintana, em “Esconderijo do Tempo”, renascem sempre em imagens que esquecemos. Na força das palavras. No calor das fantasias… a poesia vai além, nunca e sempre.





O Mais Famoso Poema Francês

18 02 2008

Fonte : Rui Werneck

O mais famoso poema francês

É de Rimbaud o mais festejado poema francês.
Foi escrito por um poeta juvenil (afinal, ele abandonou a poesia com vinte e
poucos anos!) e abriu caminho para a moderna poesia francesa. Pierre Michon
escreveu em “Rimbaud, o filho”: “Ora, Rimbaud foi mais fundo. Rimbaud tocava
com mais força. Queria mais do que Verlaine ser a poesia em pessoa, ou seja,
ele e mais ninguém.”

Sensation

Par
les soirs bleus d’été, j’irai dans les sentiers,
Picoté
par les blés, fouler l’herbe menue :
Rêveur,
j’en sentirai la fraîcheur à mes pieds.
Je
laisserai le vent baigner ma tête nue.
Je
ne parlerai pas, je ne penserai pas :
Mais
l’amour infini me montera dans l’âme,
Et
j’irai loin, bien loin, comme un bohémien,
Par
la Nature, - heureux comme avec une femme.

Sensação

Pelas tardes azuis do Verão, irei pelas
sendas,
Guarnecidas pelo trigal,
pisando a erva miúda:
Sonhador, sentirei a
frescura em meus pés.
Deixarei o vento banhar
minha cabeça nua.
Não falarei mais, não
pensarei mais:
Mas um amor infinito me
invadirá a alma.
E irei longe, bem longe,
como um boêmio,
Pela natureza, - feliz
como com uma mulher.

Tradução de Werneck, livre de
rimas. Só isso, por hoje. Mas vale por toda uma lição de poesia, dada por uma
criança que viveu entre os grandes mestres, ou adultos, como Baudelaire,
Mallarmé, Verlaine, Gautier, e os superou sem cerimônias. Não tinha regras, nem
aceitava rédeas, tampouco mestres. Deixou Iluminuras, Uma temporada no inferno,
Barco bêbado e outros escritos. Imperdível.




Nicho Hinojosa - Caminante No Hay Camino

6 02 2008

Todo pasa y todo queda

Pero lo nuestro es pasar

Pasar haciendo camino

Camino sobre la mar

Nunca perseguí la gloria

Y dejar en la memoria

De los hombres mi canción

Yo amo los mundos sutiles

Ingrávidos y gentiles

Como pompas de jabón

Me gusta verlos pintarse

De azul y grana al volar

Bajo el cielo azul temblar

Súbitamente y quebrarse

Nunca perseguí la gloria

“Caminante son tus huellas del camino y nada más

Al andar se hace el camino, y al volver la vista atrás

Se ve la senda que nunca se ha de volver a pisar

Caminante no hay camino, se hace camino al andar”

Hace algún tiempo en ese lugar

Donde los bosques se visten de espino

Se oyó la voz de un poeta gritar

Caminante no hay camino,

Se hace camino al andar

Golpe a golpe, verso a verso

Murió el poeta lejos del hogar

Le cubre el polvo de un país vecino

Al alejarse le vieron llorar

Caminante no hay camino

Se hace camino al andar

Golpe a golpe, verso a verso

Cuando el jilguero no quiere cantar

Cuando el poeta es un peregrino

Cuando de nada nos sirve rezar

Caminante no hay camino

Se hace camino al andar

Golpe a golpe, verso a verso

Golpe a golpe, verso a verso

Golpe a golpe, verso a verso





Supõe - Chico Buarque

3 02 2008
Mandado pela Minha amiga Rafa Sandrini
 

Supõe que já cruzamos pela vida
Mas nos deixamos sempre para trás
Porque eu andava sempre na avenida
E tu corrias pelas transversais [...]

Supõe que te apresentas como amigo
E me perguntas nome e profissão
Comentas que faz sol, ou tem chovido
Ou outro comentário sem razão
Supõe que eu te observo, compreensiva
Porém não tenho nada a acrescentar
Supõe que falas coisas dessa vida
Como querendo aparentar
Que tu tens muito o que contar
Que és um tipo original
Supõe que rio, divertida
E supõe que eu sou tua canção

Supõe que nós marcamos um cinema
Mas chegas lá pro meio da sessão
Pois teu trajeto tem algum problema
Que só te leva numa direção
Supõe que agora a tela me ilumina
Tu ficas assistindo ao meu perfil
Supõe a minha mão tão recolhida
Que não percebe a tua mão
Que não percebe a minha mão
Que não é sim, que não é não
Supõe que eu sigo distraída [....]
Supõe que o tempo vem e vai….

(Chico Buarque – Supõe)





RECEITA DE ANO NOVO (Carlos Drummond de Andrade)

28 12 2007
Enviado pra mim por Frããhn Marques:
 

Para você ganhar um belíssimo Ano Novo.
Ñ precisa fazer lista de boas
intenções para arquivá-las
na Gaveta.
Ñ precisa chorar de arrependimento
pelas besteiras consumadas nem
parvamente acreditar que por decreto
da esperança a partir de Janeiro
as coisas mudem e seja claridade,
recompensa, justiça entre os homens
e as nações, liberdade com cheiro e
gosto de pão matinal, direitos respeitados,
começando pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um ano-novo que mereça
este nome, você, meu caro, tem de
merecê-lo, tem de fazê-lo novo,
Eu sei q não é fácil mas tente,
experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre…

Pra ti amigo q gosta d poesia e tem bom gosto pelos autores





Ilusões de Vida (Francisco Otaviano)

23 12 2007

Quem passou pela vida em branca nuvem
E em plácido repouso adormeceu,
Quem não sentiu o frio da desgraça,
Quem passou pela vida e não sofreu,
Foi espectro de homem - não foi homem,
Só passou pela vida - não viveu.





Teus Olhos (Genildo Mota Nunes)

23 12 2007

Ó doce amada e tão linda,
São teus olhos duas luas,
Desejos das minhas ruas,
Ruas do meu triste amar!
Quem me dera, cedo ainda,
Minhas noites fossem tuas,
Fossem tuas minhas ruas
Tão carentes de luar!





Livro “Na Volta da esquina” de Mário Quintana

16 10 2007

“Da Influência dos espelhos
Tu lembras daqueles grandes espelhos côncavos ou convexos que, em certos estabelecimentos, os proprietários colocavam à entrada para atrair os fregueses, achatando-os, alongando-os, deformando-os nas mais estranhas configurações?
Nós, as crianças de então, achávamos uma bruta graçam, por saber que era tudo
ilusão, embora talvez nem conhecêssemos o sentido da palavra “ilusão”.
Não, nós bem sabíamos que não éramos aquilo!
Depois, ao crescer, descobrimos que, para os outros, não éramos precisamente
isto que somos, mas aquilo que os outros vêem.
Cuidado, incauto leitor! Há casos, na vida, em que alguns acabam adaptando-se
a essas imagens enganosas, despersonalizando-se num segundo”eu”.
Que pode uma alma, ainda por cima invisível, contra o testemunho de milhares de espelhos?
Eis aqui um grave assunto para um conto, uma novela, um romance, ou uma tese
de mestrado em Psicologia.”





AMOR É SÍNTESE

15 10 2007

Por favor, não me analise
Não fique procurando cada ponto fraco meu.
Se ninguém resiste a uma análise profunda,
Quanto mais eu…
Ciumento, exigente, inseguro, carente
Todo cheio de marcas que a vida deixou
Vejo em cada grito de exigência
Um pedido de carência, um pedido de amor.

Amor é síntese
É uma integração de dados
Não há que tirar nem pôr
Não me corte em fatias
Ninguém consegue abraçar um pedaço
Me envolva todo em seus braços
E eu serei o perfeito amor.

(Mario Quintana)