Um Foucault surpreendente

4 07 2008
As aulas de Michel Foucault reunidas neste livro visam a reconstituir a história – remetendo-se à cultura antiga – da relação entre a verdade e o sujeito; movendo-se em torno da noção da “prática de si”

Robert Redeker – Fonte: http://diplo.uol.com.br/2001-08,a22

Depois do Discurso do Método, de Descartes, tem-se como certo que o sujeito é, por natureza, capaz de aceder à verdade, sem conversão prévia

Pouco a pouco se revela uma face ignorada do pensamento de Michel Foucault: o que ensinou no Collège de France. A partir de agora, o leitor pode mergulhar em seus cursos do período universitário de 1981-1982: A hermenêutica do sujeito. As aulas reunidas neste livro visam a reconstituir a história, na cultura antiga, da relação entre a verdade e o sujeito; movem-se em torno da noção da “prática de si”.

Passam-se mil anos entre o exercício filosófico platônico e o desenvolvimento do ascetismo cristão: milênio percorrido nesse livro. Ao longo desses séculos, a exigência filosófica e a exigência espiritual foram enlaçadas. Se a filosofia é a interrogação sobre os caminhos que permitem ao sujeito ter acesso à verdade, a espiritualidade, por sua vez, é a “a busca, a prática, a experiência pelas quais o sujeito opera sobre si mesmo as transformações necessárias para ter acesso à verdade”. A exigência da preocupação de si, mobilizando as práticas de si, é a expressão dessa natureza espiritual da filosofia.

A solidão da razão filosofante

Amor e ascese esboçam as duas grandes formas históricas do trabalho de arrancar o sujeito daquilo que ele é, para torná-lo capaz de verdade

O “momento cartesiano” porá fim, na filosofia, a essa preocupação de si, iniciando a modernidade. Depois do Discurso do Método, tem-se como certo que o sujeito é, por natureza, capaz de aceder à verdade, sem conversão prévia: basta aplicar bem o método. É a tradicional exigência espiritual de transformação do sujeito que Descartes expulsa definitivamente do campo filosófico e científico.

A espiritualidade implica a transformação do sujeito. Amor (desde Platão) e ascese (de Pitágoras aos últimos estóicos) esboçam as duas grandes formas históricas desse trabalho de arrancar o sujeito daquilo que ele é para torná-lo capaz de verdade. Michel Foucault estabelece um primeiro momento, “socrático-platônico”, representado por Alcebíades. Sócrates ensina ao jovem Alcebíades o seguinte: para aspirar a governar a cidade, é necessário aprender a governar-se a si mesmo. A preocupação de si implica um terceiro: o mestre, seja ele o maiêutico (Sócrates), o fundador da escola (Epicuro), o modelo (Epiteto) ou o correspondente (Sêneca). Com o desaparecimento da preocupação de si, do caráter espiritual da filosofia, desaparece igualmente a necessidade de um terceiro-mestre: Descartes medita sozinho (“cogito, ergo sum”), precedendo, nessa solidão da razão filosofante, Espinosa, Leibniz, Kant.

Um filósofo espiritual

A prática de si identifica-se com o cuidado da alma: a filosofia é paralela à medicina, sendo o filósofo quem dispensa cuidados à alma

O segundo momento transporta-nos ao início da era cristã. A preocupação de si tornou-se uma obrigação de toda a existência. Os epicuristas e os estóicos afirmam que é necessário filosofar durante a vida inteira por meio indireto de práticas de si codificadas em exercícios precisos. A prática de si identifica-se com o cuidado da alma: a filosofia é paralela à medicina, sendo o filósofo – para falar com Epiteto – aquele que dispensa cuidados à alma. Esse momento desenvolve novas tecnologias de si. Primeiro: a parrésia, a franqueza no discurso, o dizer-verdadeiro. E em seguida: a salvação. A filosofia se baseia na salvação; mas esta palavra não corresponde ao que será a salvação cristã. A salvação é uma prática de si pela qual o sujeito salva sua própria vida (enquanto a salvação cristã projeta o sujeito no além). Enfim: a meditação. Longe de ser um jogo moderno efetuado pelo sujeito com seu pensamento, a meditação antiga é o exercício espiritual que transforma o sujeito. Essas formas constituem a ascese. A ascese não é, como no cristianismo, uma renúncia; corresponde, antes, a uma relação plena, acabada, com o si, sendo a idéia da velhice, segundo Sêneca, uma amostra disso. Através da ascese, o dizer-verdadeiro, a parrésia, pode tornar-se o modo de ser do sujeito. Assim, a finalidade da ascese é, antes do cristianismo, quem transformará e, antes da filosofia moderna, quem abandonará a “subjetivação do discurso verdadeiro”.

Esse último Foucault é o mais surpreendente e o mais inesperado: é o de uma prodigiosa mutação em seu pensamento. É um pensamento trabalhando, que se entrega em sua parrésia. Nele, Foucault se desfaz de sua pele moderna de filósofo não espiritual, aproximando-se dos filósofos da Antigüidade, dos quais nos fala como se seu estudo já fosse uma prática de si. Ao longo dessa hermenêutica do sujeito, Michel Foucault afasta-se das margens da filosofia moderna para se tornar um filósofo espiritual1. (Trad.: Iraci D. Poleti)

Referência L’Herméneutique du sujet, de Michel Foucault, ed. Gallinard-Seuil, coleção “hautes études”, Paris, 2001.





Lançado o “Segurança, Território, População”, Foucault, em Português

26 06 2008

NO COLLÈGE de France, qualquer pessoa pode assistir às aulas sem inscrição prévia, sem realizar exames, nem ser cobrada nas presenças. Por lá passaram diversos pensadores, dentre eles Claude Lévi-Strauss e Michel Foucault. As aulas transcritas desse último, ministradas de janeiro a abril de 1978, deram origem ao livro Segurança, território e população. A temática do curso fala do problema do biopoder e explana sobre questões relacionadas a ele, dando ênfase à noção de governo. Dentro dos momentos históricos marcantes que as aulas analisam estão: a invenção pelo cristianismo de um novo tipo de poder, alheio à tradição greco-romana, e a formação de uma governamentabilidade política nos séculos XVI e XVII. Martins Fontes, 590 páginas, R$79,80.

Esse curso ministrado de janeiro a abril de 1978, assinala uma guinada no desenvolvimento da sua pesquisa.
Partindo do problema do biopoder, ele se propõe estudar a implantação, no século XVIII, dessa nova tecnologia de poder, distinta dos mecanismos disciplinares, que tem por objeto a população, e gerenciá-la a partir do conhecimento de suas regularidades específicas. Tecnologia de segurança indissociável – tese original que este curso formula – do liberalismo como racionalidade governamental baseada no princípio do laissez-faire.

Melhor preço: http://www.fnac.com.br/





As Histórias de Michel Foucault

3 06 2008

Fernando F. Nicolazzi

Mestrando – UFRGS
teobaldorios@hotmail.com
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Escrever sobre as histórias praticadas por Michel Foucault é adentrar num espaço incerto, por muitos percorrido e das mais diversas formas. A enorme variedade de pesquisas sobre o pensador francês deixa clara a dificuldade inerente a um estudo de seu pensamento. A quantidade de textos escritos por Foucault, bem como a diversidade (livros, entrevistas, debates, lectures, aulas, etc.), não permite ao seu estudioso uma fácil sistematização da sua obra – mesmo este simples termo só pode ser escrito com muita suspeita. O caminho que é comumente seguido é o da periodização dos escritos coincidindo com um tema em comum. Assim, classifica-se a obra da maneira costumeira: na década de 60, textos arqueológicos que têm por tema o saber; textos genealógicos nos anos 70, tematizando o poder; e, por fim, nos anos derradeiros de sua vida, textos arqueogenealógicos preocupados com a questão do sujeito.

Outra forma de sistematização é levar ao pé da letra algumas colocações de Foucault, feitas em entrevistas do fim dos anos 70 e início dos 80, na tentativa de resumir o seu projeto intelectual.  Segundo elas, todos os seus estudos têm como ponto de convergência uma preocupação com a verdade e, por conseguinte, com o sujeito: a desubjetivação do louco, o assujeitamento nas prisões e a constituição do sujeito na Grécia Antiga. Nesse sentido, o estudo sobre o pensamento do filósofo de Poitiers teria que entender a forma como o tema do sujeito foi por ele tratado em seus muitos e diferentes escritos, seja na relação com o saber, seja com o poder, ou ainda com a própria verdade.

Alguns estudos, entretanto, sem romper decisivamente com alguma destas posições, oferecem alternativas interessantes e extremamente profícuas à imaginação. Dois deles editados no Brasil podem ser aqui destacados. Em primeiro lugar, o livro Foucault, a filosofia e a literatura, do filósofo Roberto Machado. Neste estudo, estabelece certas balizas temporais localizadas, essencialmente, na primeira metade da década de 1960. Em tal período, além dos famosos livros sobre a loucura, o nascimento da medicina moderna e das ciências humanas, Foucault escreveu continuamente sobre uma de suas grandes paixões: a literatura. Machado, então, discorre não simplesmente sobre a aproximação da filosofia e da literatura na obra de Foucault, mas sobre a forma filosófica de crítica literária praticada por ele, a qual permitiu, depois de Nietzsche, Bataille e Blanchot, elaborar a noção de literatura da transgressão.

O segundo estudioso que merece destaque é o também filósofo Francisco Ortega. Neste caso, o primeiro livro de uma trilogia anunciada é referência fundamental para a compreensão das dimensões da obra de Foucault. Em Amizade e estética da existência em Foucault, Ortega parte de um importante deslocamento teórico do projeto foucaultiano ocorrido após a publicação do primeiro volume da história da sexualidade, em 1976, que levou o pensador francês a um estudo aprofundado dos clássicos gregos. A tônica do livro de Ortega está fundamentalmente centrada na idéia da amizade como prática política, como relação de si para consigo e para com o outro, segundo preceitos éticos, tema que vem ocupando parte das discussões filosóficas da atualidade, com Blanchot e Derrida, por exemplos.

O que importa salientar com estes dois trabalhos é a possibilidade de, no imenso universo foucaultiano, escapar à divisão meramente cronológica ou puramente temática da obra de Foucault. Pode-se facilmente recorrer a um estudo que permita acompanhar as transformações históricas de um pensamento, perceber suas idas e vindas, compreender suas esquivas e sua constante de interesses; um estudo que localize quebras naquela cronologia tão linear, e multiplicidade de questões, dentro daqueles temas tão consolidados. Antes de cometer certos anacronismos, expor as diferenças de posicionamentos; mais do que interpretar o pensamento segundo uma consciência determinada, em seu lento progresso intelectual, ou como um projeto único e fechado, estudar a linguagem deste pensamento encarado como uma obra fragmentária, aberta, num constante deslocamento teórico.

Roberto Machado estabelece um recorte bastante preciso dentro de balizas cronológicas usuais e procura compreender o sentido dado por Foucault à literatura; realiza um estudo que verticaliza a arqueologia do saber, encontrando, nesta preocupação com discursos da ciência, uma linguagem literária. Francisco Ortega explicita, horizontalmente, uma mutação do pensamento para, então, perceber uma dimensão muito maior de certos temas pontuais e tratados de forma um tanto indireta por Michel Foucault. Assim, é seguindo a inspiração deste duplo modo de trabalho que o presente texto é escrito.

Para tanto, os estudos de caráter historiográfico ou de teoria da história feitos por Foucault serão contemplados; estudos bastante peculiares que tratam de maneira singular temas históricos. São, de certa forma, uma apropriação da historiografia por parte de Michel Foucault: não são transformações dos métodos utilizados pelos historiadores, embora mantenham com eles um constante diálogo; são, antes de uma metodologia, posicionamentos teóricos diante da prática historiográfica, da pesquisa e escrita de histórias. Dentro daqueles recortes já estabelecidos, a pretensão é perceber suas modificações internas e, em seguida, aquelas que levaram a um novo posicionamento. Em virtude disto, serão utilizados não apenas os textos principais de cada momento, mas também aqueles ditos e escritos à parte (entrevistas ou artigos de jornais, por exemplos) os quais, ainda que um pouco marginais, elucidam pontos de difícil compreensão.

Arqueologia

Encarados como acontecimentos discursivos, os textos foucaultianos que assumem um posicionamento arqueológico possuem uma cronologia específica: de 1961, data de publicação da tese História da Loucura e onde aparece pela primeira vez o termo arqueologia (“arqueologia da alienação”), até o livro A arqueologia do saber (1969), em que o tema é tratado de forma mais intensa e um tanto explicativa. Dentro deste período, há ainda, de 1966, a obra mais conhecida de Michel Foucault, As palavras e as coisas, que tem por subtítulo Uma arqueologia das ciências humanas.

Para tentar compreender o sentido geral dado à arqueologia por Foucault, faz-se necessária uma análise fragmentária, considerando passo a passo o direcionamento desta noção em escritos convergentes mas que guardam algumas diferenças entre si. Em outras palavras, o que será realizado é uma descrição deste posicionamento teórico levando em consideração o seu deslocar no tempo, o que significa, não tanto uma evolução ou aperfeiçoamento do conceito, mas uma permanente autocrítica em busca de um lugar adequado para se pensar arqueologicamente.

A arqueologia da alienaçãoA História da loucura é o primeiro grande texto de Foucault; sua tese de doutoramento que tomou seu tempo durante quase toda a segunda metade da década de 50. Trata-se de uma parte de sua prática nos trabalhos em clínicas psiquiátricas motivados por uma grande curiosidade sobre os princípios da psicologia. Tomado pela crítica como um ícone da anti-psiquiatria, é neste livro que nasce, em seu pensamento, a noção de arqueologia.

A arqueologia da alienação é o conceito que lhe permitiu tratar do “grau zero na história da loucura”, ou seja, não daquilo que foi pensado sobre ela, mas daquelas que foram as condições de possibilidade para um pensamento sobre a loucura. Direcionando seu olhar a uma região de vazio, isto é, “uma região, sem dúvida, onde se trataria mais dos limites do que da identidade de uma cultura”, Foucault quer “interrogar uma cultura sobre suas experiências limites (o que significa) questioná-la, nos confins da história, sobre um dilaceramento que é como o nascimento mesmo de sua história” . Em outras palavras: a arqueologia de 1961 é o que permite ouvir, no silêncio do tempo, a instauração originária do que são os limites de uma cultura, que lhe dão seus contornos e que definem, por assim dizer, as condições de sua historicidade: a arqueologia é o estudo de história naquilo que é ausência da história.

Mas de que forma se dá esta pesquisa que, por se colocar abaixo da história, não permite a utilização dos instrumentos da historiografia tradicional? Foucault é enfático: “não se trata de uma história do conhecimento, mas dos movimentos rudimentares de uma experiência”. Deste modo, “fazer a história da loucura quererá então dizer: fazer um estudo estrutural do conjunto histórico” daquilo que constituiu a experiência da loucura na época clássica (séculos XVII-XVIII) – noções, instituições, conceitos científicos, práticas sociais, etc. Ainda que mais tarde, como veremos, Foucault reagirá ferozmente contra aqueles que o inseriram no estruturalismo, a linguagem utilizada por ele se deve, sobretudo, ao ambiente francês dos anos 50 e 60, de Barthes, Lacan, Lévi-Strauss e Althusser.

O que é certo, porém, é a peculiaridade do estudo estrutural realizado por ele. Muito diferente da pesquisa das estruturas sociais que desconsidera os eventos históricos como não significativos historicamente, na história da loucura os acontecimentos têm papel fundamental. Se Braudel afirmara em relação aos acontecimentos que, “para além de seu clarão, a obscuridade permanece vitoriosa”, onze anos depois, para Foucault, os eventos pontuais se libertam de seu caráter obscuro e, com toda sua visibilidade, vão assumir uma função simbólica preponderante, pois que evidenciam a superfície cultural em relação a qual uma experiência da loucura toma lugar. Assim, discorrendo sobre a onda de internamento de mendigos, vagabundos, alienados, miseráveis que ocorreu na Europa no século XVII, a significação, quer espacial quer temporal, do internamento é vislumbrada a partir de datas de referência: em “1656, decreto da fundação, em Paris, do Hospital Geral”; “nos países de língua alemã, é o caso da criação das casas de correção, as Zuchthäusern (1620)”; “na Inglaterra, as origens da internação são mais distantes (…) um ato de 1575 prescreve a construção de houses of correction“. A recorrência a datas significativas (um édito real, a construção de um hospital, um texto científico) é uma constante no livro. No entanto, os acontecimentos não significam isoladamente, e, em certos momentos, eventos de superfície não atingem as grandes estruturas. Portanto, “por trás da crônica da legislação (…), são essas estruturas que se tem de estudar”.

A arqueologia, na relação que, enquanto estudo estrutural, mantém entre acontecimento e estrutura, se pretende algo além da mera “crônica das descobertas ou de uma história das idéias”: define-se como a descrição “do encadeamento das estruturas fundamentais da experiência, a história daquilo que tornou possível o próprio aparecimento de uma psicologia”. Aparecimento que encontra sua visibilidade em determinados acontecimentos significativos; acontecimentos que obedecem ao movimento temporal de estruturas históricas.

O surgimento da psicologia é visto como a ocorrência de um fato cultural motivado, sobretudo, por uma experiência da loucura. Roberto Machado e, seguindo-o, André Queiroz atribuem a esta “experiência fundamental” um caráter originário das figuras da loucura, para o primeiro, e, para o segundo, uma certa continuidade trans-histórica que impossibilitaria uma descontinuidade absoluta na história das percepções da loucura. O posicionamento arqueológico é, portanto, não um simples método historiográfico, mas o lugar onde é preciso se colocar para analisar aquilo que é um pouco anterior à história, que é mesmo sua condição de possibilidade: uma continuidade muda e fundamental que faz ecoar as figuras históricas da loucura.

Finalmente, por ser originária de uma certa história, a experiência da loucura está além do próprio saber sobre ela e, por conseguinte, do próprio sujeito que conhece: ela se encontra no nível da simples percepção, anterior à tomada de consciência: “o medo diante da loucura, o isolamento para o qual ela é arrastada, designam, ambos, uma região bem obscura onde a loucura é primitivamente sentida – reconhecida antes de ser conhecida – e onde se trama aquilo que pode haver de histórico em sua verdade imóvel”. Se a história pode, realmente, ser feita por sujeitos que a conhecem, ela nasce ali mesmo onde não há sujeito de conhecimento, onde o perceptivo impera anterior ao cognitivo, onde o medo se sobrepõe ao saber, aonde, enfim, só uma arqueologia pode dirigir seu olhar e, de fato, vislumbrar uma história.

A arqueologia das ciências humanas

Algum tempo depois de estudar a loucura, o riso levou Michel Foucault ao estudo da epistèmê ocidental, mais precisamente a uma arqueologia das ciências humanas. Incidindo seu olhar sobre a “tábua de trabalho” onde um pensamento pode pensar e de fato pensa, pretende analisar uma experiência singular: “em toda cultura, entre o uso do que se poderia chamar os códigos ordenadores e as reflexões sobre a ordem, há a experiência nua da ordem e de seus modos de ser”; experiência que cria condições de possibilidade para uma cultura pensar a si mesma.

No livro As palavras e as coisas, de 1966, sucesso de vendas que tornou Foucault conhecido no mundo todo e alvo de ferrenhas críticas, o posicionamento arqueológico é modificado sensivelmente e seus fundamentos questionados. O estatuto dado à descontinuidade se transforma e a ruptura é instaurada: “o descontínuo – o fato de que em anos, por vezes, uma cultura deixa de pensar como fizera até então e se põe a pensar outra coisa e de outro modo – dá acesso, sem dúvida, a uma erosão que vem de fora, a esse espaço que, para o pensamento, está do outro lado, mas onde, contudo, ele não cessou de pensar desde a origem”; o pensamento e o até então impensado se encontram no espaço em comum da descontinuidade, no limiar da sua própria temporalidade.

Esta descontinuidade entre a epistèmê clássica, da representação, e a moderna, a nossa, da história, é uma transformação ontológica, pois “a ordem, sobre cujo fundamento pensamos, não tem o mesmo modo de ser que a dos clássicos”. O que esta arqueologia evidencia é, à semelhança da arqueologia da alienação mas de modo sensivelmente diferente, a possibilidade de uma história. Na História da loucura, havia uma experiência muda e primitiva, experiência fundamental da loucura que impunha o silêncio no qual os ruídos da história se faziam ouvir; em As palavras e as coisas, há simplesmente a ruptura, o limiar de uma positividade que faz possível um pensamento.

O pensamento clássico, onde algo como o homem estava diluído em empiricidades diversas (a vida, o trabalho, a linguagem), período em que o conhecimento estava marcado pela representação das coisas numa ciência geral da ordem (mathésis), era o pensamento da gramática geral, da análise das riquezas, da história natural: mais do que o tempo próprio das coisas, o que regia o saber era sua ordem. A ruptura, o acontecimento radical na ordem do saber, se dá entre os séculos XVIII e XIX, quando a representação das coisas não consegue mais suportar suas temporalidades e o pensamento, deixando de lado a mathésis que o ordenava, passa a se voltar a sua própria historicidade. O tempo que atravessa a vida, o trabalho e a linguagem, faz aparecer um homem que vive, que trabalha e que fala; um homem que não cessou de procurar em sua vida, em seu trabalho e na sua linguagem a origem fundamental de seu ser, e que, por fim, descobriu-se não contemporâneo daquilo a partir do qual ele é. O pensamento moderno encontrou espaço quando passou a pensar a si próprio em termos históricos, quando, colocando o tempo como limite do pensável, fez nascer um ser finito: o homem, definido pela finitude das atividades que constituem sua história: viver, trabalhar e falar.

“É por que o homem não é contemporâneo de seu ser que as coisas vêm se dar com um tempo que lhes é próprio. E reencontra-se aqui o tema inicial da finitude. Mas essa finitude, que era primeiramente anunciada pelo jugo das coisas sobre o homem – pelo fato de que ele era dominado pela vida, pela história e pela linguagem – aparece agora num nível mais fundamental: ela é a relação insuperável do ser do homem com o tempo”. É esta a razão pela qual o século XIX é o século da história: assim que o homem, no mesmo momento em que apareceu, viu-se confrontado com um tempo que lhe era alheio mas que o carregava diante das coisas, era necessário uma finitude que o relaciona-se a este devir do mundo: a história é a relação do tempo, enquanto o inumano, com a humanidade recém-nascida do homem; ela humaniza o tempo tornando-o o tempo dos homens.

Assim, esta arqueologia mostra como, a partir de uma ruptura, de um limiar de positividade, algo como o homem pôde ser pensado. E a partir disto, um conhecimento que, ao mesmo tempo, tem o homem como sujeito que conhece e como objeto a conhecer, encontra espaço no pensamento. Enfim, tal arqueologia dá conta de como as ciências humanas (psicologia, sociologia e estudo das literaturas e dos mitos) foram possíveis graças a descontinuidade entre a história natural e a biologia, entre a análise das riquezas e a economia, e entre a gramática geral e a filologia. Elas não estão amparadas sobre o mesmo solo epistemológico, não há uma epistèmê fundamental assim como havia a experiência fundamental da loucura servindo de vazio originário para as histórias de loucos diferentes (os loucos de Bosch, os do internamento, os de Pinel). O vazio que a arqueologia das ciências humanas vasculha, o lugar onde ela incide seu olhar é o vazio da descontinuidade.

Entretanto, a evidência maior para Foucault não é tanto o descontínuo por si só, mas a dispersão da continuidade: “o que eu quis estabelecer é justo o contrário de uma descontinuidade, já que evidenciei a própria forma da passagem de um estado ao outro”. O que permite a mutação histórica, o fato de algo deixar de ser para que algo diferente lhe tome o lugar, isto é, a passagem absoluta de um estado ao outro, aí é o lugar desta arqueologia. Evidenciar esta passagem de modo algum se confunde com o estabelecimento de uma origem histórica, já que “é sempre sobre o fundo do já começado que o homem pode pensar o que para ele vale como origem”, e, por assim dizer, como a sua própria origem.

Deste modo, os acontecimentos na arqueologia das ciências humanas são acontecimentos-limite, anunciam os derradeiros momentos de algo prenunciando o surgimento de outra coisa. Sob a brutalidade dos eventos, não há mais uma estrutura que os atravessa, há um limiar epistemológico que os tornou possíveis. Mas estes acontecimentos trazem outra característica que é preponderante: são acontecimentos discursivos. Assim, ainda aqui há o distanciamento em relação à história tradicional. A arqueologia não é um estudo à semelhança da história das idéias que pretende, a partir de um determinado texto, encontrar-lhe filiação teórica e os fundamentos que garantam sua relação com o autor; é, ao contrário, a análise do que permitiu com que tal autor escrevesse o que escreveu, do que possibilitou a teoria a qual está filiado: o estudo do pensamento na ausência daquele que o pensou.

Acusado de assassinar a história, pois não oferece qualquer causalidade entre duas epistèmês sucessivas mostrando nada mais que imobilidades desprovidas de sujeitos, Foucault respondeu em tom irônico: “não se assassina a história, mas assassinar a história dos filósofos, esta sim eu quero assassinar”. E o que seria esta história dos filósofos que sua arqueologia recusa tão veemente? “A história para filósofos é uma espécie de grande e vasta continuidade onde vêm se emaranhar a liberdade dos indivíduos e as determinações econômicas ou sociais”. É, deste modo, em recusa a este tipo de história quase mitológica da continuidade onde se emaranham liberdades individuais e causalidades sociais que a arqueologia de Foucault vem se colocar.

A arqueologia das ciências humanas, portanto, marca um deslocamento teórico em relação à arqueologia da alienação no que se refere ao caráter dado à descontinuidade. Uma enxerga a possibilidade de história em uma experiência silenciosa e fundamental, quase contínua não fossem as diferentes figuras da loucura por ela produzidas; a outra percebe tal possibilidade na ruptura absoluta e não-causal entre duas configurações epistemológicas. O que, no entanto, é comum a ambas e que será, mais tarde, desenvolvida com mais detalhes, é a ênfase colocada na ausência do sujeito histórico: só se conhece a loucura a partir de uma percepção pré-cognitiva, isto é, anterior ao sujeito do conhecimento, e só se pensa segundo uma possibilidade definida historicamente que, no limite, acaba por possibilitar aquele mesmo que pensa.

A arqueologia do saber

Três anos após a publicação de As palavras e as coisas, o céu e o inferno de Foucault, ocorre o lançamento de um livro inusitado: A arqueologia do saber. Na verdade, este livro nasce um ano antes de ser publicado, quando Foucault é convidado pelo Círculo de Epistemologia para falar de sua teoria e de seu método de estudo das ciências. Neste texto que é, em essência, o primeiro capítulo do livro de 1969, estão expostos os pressupostos teóricos que fundamentam sua arqueologia, tais como a descontinuidade e a noção de arquivo. O livro propriamente dito pretende-se tanto uma resposta às duras críticas dirigidas a As palavras e as coisas quanto uma exposição geral do posicionamento arqueológico, retomando questões apresentadas nos trabalhos anteriores.

O conceito de descontinuidade, “conceito operatório”, é, em A arqueologia do saber, desenvolvido de maneira incisiva. Com a história das ciências, mais precisamente com Martial Gueroult, Gaston Bachelard e, principalmente, como mostra Roberto Machado, Gerorges Canguilhem, acontece uma mutação nas disciplinas históricas quando o descontínuo passa de obstáculo à prática: é tanto objeto quanto instrumento da análise histórica. Mais do que isso, uma nova forma de história vem a ser praticada em contrapartida à história tradicional e sua ampliação da periodização histórica que isola, na forma de longa-durações, grandes continuidades. Deste modo, “o problema não é mais a tradição e o rastro, mas o recorte e o limite; não é mais o fundamento que se perpetua, e sim as transformações que valem como fundação e renovação dos fundamentos”.

A tradição seria, aos olhos de Foucault, o que permite formar, a partir de fenômenos dispersos, um conjunto homogêneo de acontecimentos que, seguindo seu rastro, conduziria a pesquisa até o ponto originário daqueles fenômenos. Nos seus próprios dizeres, a tradição “autoriza reduzir a diferença característica de qualquer começo, para retroceder, sem interrupção, na atribuição indefinida da origem; graças a ela, as novidades podem ser isoladas sobre um fundo de permanência, e seu mérito transferido para a originalidade, o gênio, a decisão própria dos indivíduos”. Percebe-se com isso a recorrência à diferenciação entre começo e origem. Para a arqueologia do saber os fenômenos simplesmente começam em pontos históricos particulares, não se originam em algum lugar que seria como o lugar próprio da sua verdade: um espírito de época, uma mentalidade coletiva ou uma consciência individual; numa única palavra, um sujeito. O tempo é uma sucessão de descontinuidades, de começos nos já-começados; não é o devir de um pensamento ou de uma razão que, desde a sua origem, se arrasta na evolução lenta e contínua do seu progresso.

Mas não é simplesmente o nível das temporalidades que distingue esta nova história, da qual a arqueologia do saber vai, ao mesmo tempo em que se afasta, retirar os pressupostos teóricos que a fundamentam. Problema-chave para a historiografia é a noção de documento. Mais do que a matéria onde estaria impressa alguma verdade do passado, a qual, através de uma interpretação, seria cabível ao historiador apreender, o documento assume as vezes de uma função: cabe ao historiador trabalhá-lo, organizá-lo, recortá-lo e estabelecer as relações da qual faz parte. A historiografia com isso se transforma: “o documento não é o feliz instrumento de uma história que seria em si mesma, e de pleno direito, memória; a história é, para uma sociedade, uma certa maneira de dar status e elaboração à massa documental de que ela não se separa”. Ou seja, é somente por meio de uma atividade historiadora que os documentos, sendo mais do que a mera expressão de uma memória coletiva, vêm a possuir um certo sentido histórico. Este sentido não lhes é intrínseco, mas construído teoricamente: da mesma maneira como as sociedades do passado construíam monumentos como documentos de sua própria memória, a historiografia transforma os documentos do passado em monumentos da história, ou, mais precisamente, monumentos de histórias (dependendo de quem é a história que se conta). É este, então, o status dado pela arqueologia aos documentos históricos: construções teóricas.

E quais seriam os documentos-monumentos construídos pela arqueologia do saber? O discurso é constituído como objeto principal de análise, mas de uma forma muito particular. Aqui, os discursos, ou antes, as formações discursivas, são encaradas como campo de relação entre enunciados. Os enunciados, por sua vez, são as unidades elementares dos discursos. Assim, existem enunciados sobre a loucura que formam o discurso da psiquiatria, por exemplo. Entretanto, não é apenas o objeto enunciado que forma esta unidade discursiva: para pertencer aquele discurso, os enunciados devem, não só enunciar a loucura, mas a enunciação deve respeitar modalidades particulares, deve ser estabelecida segundo conceitos convergentes e obedecer estratégias enunciativas semelhantes. Nesse sentido, embora de forma contínua aconteçam enunciados sobre a loucura, as regras de formação dos discursos se modificam com o tempo; são, pois, descontínuas.

É tomando como documento fundamental os enunciados para, através deles, perceber as diferenças entre os discursos no tempo, que a arqueologia do saber opera. E de que forma se dá este estudo das descontinuidades discursivas? Ele incide, em essência, sobre os arquivos, na definição particular que Foucault, este novo arquivista, lhes dá: o domínio das coisas ditas. Tal estudo não pretende, à semelhança da história do pensamento, interpretar os enunciados: não se trata de desvendar sentidos ocultos no que está aparente, encontrar não-ditos no que está dito. Esta interpretação, invariavelmente, remeteria a idéia de um sujeito onde residiria a verdade do enunciado. Não é o caso da arqueologia; esta é uma análise: “interpretar é uma maneira de reagir à pobreza enunciativa e de compensá-la pela multiplicação do sentido; uma maneira de falar a partir dela e apesar dela. Mas analisar uma formação discursiva é procurar a lei de sua pobreza, é medi-la e determinar-lhe a forma específica”.

A arqueologia, então, se distingue da história das idéias tradicional em inúmeros pontos. Na análise dos enunciados como fontes, ela não busca práticas manifestas através dos discursos, ela não os interpreta, mas toma-os, eles mesmos, enquanto práticas possíveis segundo regras historicamente definidas (as leis de sua pobreza); ela não atribui causalidades entre dois discursos sucessivos, mas, no repentino da ruptura, torna evidente as diferenças que os apartam; ela não tem como pressuposto teórico a noção de sujeito como fundamento dos enunciados, mas, por meio destes, quer definir o lugar específico que um sujeito pode se colocar para enunciá-los; ela não procura as origens remotas dos discursos, não estabelece relações entre o enunciado e seu autor, mas pretende delimitar as condições que os possibilitaram acontecer.

A descontinuidade arqueológica não é, finalmente, a negação do problema do sujeito e, como se fosse sua conseqüência, a recusa da história. Ela é, por sua vez, o questionamento mesmo de uma história do sujeito, quer ela seja denominada progresso, quer ele seja definido enquanto razão. Ao deixar em suspenso esta categoria tão familiar à história tradicional, Foucault demonstra que, antes de um fundamento dos discursos, o sujeito é apenas uma posição ocupada por aquele que enuncia algo; é, por conseguinte, uma função do discurso. Do mesmo modo, ao rejeitar a linearidade das mudanças históricas, ele evidencia as transformações discursivas que possibilitam novas regras de enunciação. Em poucas palavras, esta arqueologia mostra que as condições de possibilidade de uma determinada história, apreendida no nível das transformações discursivas, não dependem de um sujeito: “longe de mim negar a possibilidade de mudar o discurso: tirei dele o direito exclusivo e instantâneo à soberania do sujeito”

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Tomando por ponto de partida a divisão cronológica dos escritos de Michel Foucault que considera o período de 1961 a 1969 como o do posicionamento arqueológico do projeto foucaultiano, o que foi realizado nas linhas precedentes foi uma fragmentação desta posição com o intuito de perceber suas transformações. Mais do que a evolução de um pensamento, o que ficou claro foi sua constante inquietação consigo mesmo. O próprio fato de, somente após terem sido feitas as pesquisas de As palavras e as coisas, o método ser exposto em A arqueologia do saber é prova disto. Como ele mesmo afirmou, o solo onde elas repousam foi aquele que descobriram.

A arqueologia teve como preocupações fundamentais a temporalidade e o sujeito históricos. O que é constante nos três momentos descritos é o interesse em compreender as condicionantes que possibilitam a própria história e, por conseguinte, o sujeito dela. A idéia de uma experiência fundamental da loucura mostrou-se precária pois considerava uma continuidade como condição a-histórica inapreensível pela arqueologia da alienação. Assim, a ruptura foi buscada como elemento fundador da historicidade. Com isso, a arqueologia radicaliza seu intuito permitindo pensar que as próprias condições da história são históricas. Como conseqüência tem-se a necessidade de pensar, não em um sujeito da história, mas em sujeitos na história, que é uma história particular, contingente, em vias de encontrar seu limiar derradeiro e sua descontinuidade fundamental, quando, enfim, tornar-se-á outra história.

Portanto, a arqueologia mantém com a historiografia uma relação peculiar: ao mesmo tempo em que os pressupostos teóricos desta (o tempo e o sujeito) são postos em questão, é o próprio questionamento que permite a formulação da arqueologia enquanto posicionamento teórico para um estudo historiográfico. Obviamente, Foucault não pretendeu analisar exaustivamente a prática dos historiadores para elaborar as histórias que praticou. Contentou-se em manter com ela um distanciamento crítico que lhe garantiu autonomia teórica para não se fechar num método único e, com isso, constituiu seu trabalho como uma constante busca de método.

História dos sistemas de pensamento

É preciso contornar a linearidade tão familiar que localiza facilmente duas posições subseqüentes. A passagem da arqueologia à genealogia não é tão direta e absoluta como normalmente é pensada: a segunda não suprime a primeira. No intuito de descrever aquilo que muito arbitrariamente aqui se chama de as histórias praticadas por Foucault, é preciso perceber o momento em que a genealogia, ao nascer, é posta em relação à arqueologia formando uma disciplina que deu nome a uma das cadeiras do Collège de France.

A história dos sistemas de pensamento é o ponto de convergência, mais do que a transição, entre os posicionamentos arqueológico e genealógico. É o momento em que o saber escapa aos discursos e vai às ruas, ou melhor, quando ele é analisado segundo práticas e instituições diversas, através de experiências que transcendem o campo meramente discursivo e o inserem em relações de poder. Em seu memorial de candidatura à cátedra de filosofia do Collège, Foucault traça o percurso intelectual por ele percorrido desde a tese de 1961. Segundo este documento, o saber é considerado como um nível particular entre a opinião e o conhecimento científico. Por sua vez, “esse saber ganha corpo não só nos textos teóricos ou nos instrumentos de experiência, mas em toda uma série de práticas e instituições; todavia não é seu resultado puro e simples, sua expressão meio consciente; na verdade comporta regras que lhe pertencem exclusivamente, caracterizando assim sua existência, seu funcionamento e sua história”.

Mantendo a autonomia que lhe fora atribuída desde As palavras e as coisas, o saber dali em diante será analisado por meio de suas formas empíricas além daquelas puramente textuais.

Em setembro de 1970, numa conferência realizada no Instituto Franco-japonês de Quioto, Foucault já apresenta definições da sua história dos sistemas de pensamento: “para mim, tratava-se, então, não mais de saber o que é afirmado e valorizado em uma sociedade ou em um sistema de pensamento, mas de estudar o que é rejeitado e excluído. Eu me contentei em utilizar um método de trabalho que já era reconhecido em etnologia”. A influência explícita é Lévi-Strauss, que estudou a estrutura negativa de certas culturas, aquilo que não é afirmado mas sobre o que pairam interdições excludentes, isto é, o incesto.

É, entretanto, em sua aula inaugural na prestigiosa instituição francesa, em 2 de dezembro de 1970, que são expostos com maior exatidão os fundamentos teóricos da história dos sistemas de pensamento. Em termos gerais, trata-se ainda de uma análise dos discursos que se articula, “não certamente com a temática tradicional que os filósofos de ontem tomam ainda como a história ‘viva’, mas com o trabalho efetivo dos historiadores”. Este trabalho, com o qual ele próprio dialoga em sua prática, caracteriza-se, sobretudo, pela ênfase dada aos acontecimentos, não encarados isoladamente, mas a partir da série da qual fazem parte. Do mesmo modo que os documentos seriados sobre os preços levam os historiadores à compreensão das estruturas econômicas ou que os registros paroquiais conduzem a um estudo de demografia histórica, os discursos analisados segundo as séries às quais pertencem permitem considerá-los como acontecimentos discursivos que remetem a um horizonte de análise muito mais amplo. Os discursos, enquanto acontecimentos, interessam à história dos sistemas de pensamento na medida em que podem ser inseridos em séries “que permitem circunscrever o ‘lugar’ do acontecimento, as margens de sua contingência, as condições de sua aparição”.

A análise seriada dos discursos-acontecimentos é o estudo de seu caráter descontínuo, de sua emergência histórica, das suas possibilidades e de sua especificidade ou raridade (a pobreza enunciativa). Até então, as semelhanças com a arqueologia do saber são totais. Todavia, há um importante deslocamento em relação à arqueologia. Como será frisado pelo próprio Foucault, as análises por ele propostas se dispõem em dois conjuntos, um crítico e outro genealógico. O primeiro daria conta daquilo cuja inspiração é oriunda da etnologia: as funções de exclusão dos discursos: a separação entre loucura e razão, os interditos da linguagem concernente à sexualidade, por exemplos. A função que diretamente interessa à história dos sistemas de pensamento, contudo, é aquela relativa aos princípios de verdade que opõe os discursos considerados verdadeiros àqueles rejeitados como falsos. O segundo conjunto, o genealógico, concerne à formação efetiva destes discursos, ao fato de acontecerem, como que por acaso, em determinado momento da história. Em suas palavras, “a crítica analisa os processos de rarefação, mas também de reagrupamento e de unificação dos discursos; a genealogia estuda sua formação ao mesmo tempo dispersa, descontínua e regular”.

O título dos cursos anuais ofertados por Foucault, na primeira metade da década de 70, no Collège de France dá mostras de onde, em que práticas e instituições foram buscados os elementos para a história dos sistemas de pensamento: “A vontade de saber”, “Teorias e instituições penais”, “A sociedade punitiva”, “O poder psiquiátrico” e “Os anormais”. Assim, esta reelaboração teórica do posicionamento arqueológico e formulação da genealogia compreende um importante momento teórico na obra intelectual de Michel Foucault que, a partir daí, vai confundir-se com sua militância política: o saber se encontra com o poder.

Genealogia

“A genealogia é cinza; ela é meticulosa e pacientemente documentária. Ela trabalha com pergaminhos embaralhados, riscados, várias vezes reescritos”. Assim é iniciado aquele que talvez se constitui como o exercício teórico mais interessante e oportuno escrito por Michel Foucault no que diz respeito à prática historiográfica; texto perturbador e impertinente, despretensioso na amplitude de suas pretensões. Trata-se daquelas linhas que são lidas como que por uma imperiosa necessidade de leitura, sobre as quais os olhos não cessam nem conseguem cessar de depositar seus olhares, através das quais o pensamento se volta para si mesmo, suspende-se a si próprio e recomeça, a partir dele mesmo, um novo pensamento.

Não é possível escrever sobre este escrito, ele não é dado à análise. O que é possível realizar, sem conter a tamanha inquietação com o que se realiza, é descrever os passos nele seguidos, perceber suas suspeitas e expor suas esquivas. A posição genealógica de Foucault é nele apresentada inteira e abertamente; tudo o que for dito em diante sobre a genealogia deriva deste texto primeiro.

A genealogia espreita os acontecimentos tidos como sem história no anseio de reencontrar o momento em que ainda não aconteceram. Isto não quer dizer, em absoluto, uma pesquisa de origem, este “desdobramento meta-histórico das significações ideais e das indefinidas teleologias”. A genealogia é a paciente procura dos começos históricos, lá onde não há uma identidade originária, apenas o disparate dos acasos, daquilo que é já começado. Ela aponta em direção ao lugar onde a história ainda guarda em si seu caráter mesquinho, baixo, pouco nobre e demasiadamente modesto. O estudo das origens leva, quase que necessariamente, ao abrigo seguro dos deuses, das verdades imutáveis; a genealogia indica as verdades ainda não verdadeiras, o lugar onde os deuses se rendem a impetuosidade da história.

O genealogista não recua, pela continuidade do tempo, ao momento do não-esquecimento, nem pretende fazer reviver no presente algum passado qualquer, dar novo alento as suas vozes, fazê-las, mais do que ecos ainda audíveis de ruídos já emudecidos pelo tempo, o som original dos cantos gloriosos de ontem. Ele trata da proveniência, do lugar onde os acontecimentos são acasos e não causalidades; ele faz descobrir “que na raiz daquilo que nós conhecemos e daquilo que nós somos – não existem a verdade e o ser, mas a exterioridade do acidente”. A genealogia quer apreender, não o lento deslocar da coroa por sobre as cabeças dos príncipes, mas, uma a uma, em sua própria dispersão, as feridas abertas nos corpos dos pequenos homens (o que não exclui os monarcas), as chagas expostas ao tempo: “ela deve mostrar o corpo inteiramente marcado de história e a história arruinando o corpo”.

A história não é devir, porém emergência: espaço sem dono do aparecimento súbito e do confronto entre os corpos e deles com o tempo. Ela é sem responsabilidade, anônima e acidental. “Enquanto que a proveniência designa a qualidade de um instinto, seu grau ou seu desfalecimento, e a marca que ele deixa no corpo, a emergência designa um lugar de afrontamento”. Emergência dos homens, emergência das verdades, emergência das histórias; a perenidade do mundo na inconstância absoluta do tempo: “nada no homem – nem mesmo seu corpo – é bastante fixo para compreender outros homens e se reconhecer neles”, assim, “a história será ‘efetiva’ na medida em que ela reintroduzir o descontínuo em seu próprio ser”.

A história é efetiva se genealógica. Outra característica desta prática se situa no lugar ocupado por aquele que a pratica. A teogonia historiográfica leva o historiador “ao aniquilamento de sua própria individualidade para que os outros entrem em cena e possam tomar a palavra”. No anseio de despertar o passado da tranqüilidade de seu sono, como se a história pudesse, respeitados todos os procedimentos técnico-metodológicos de uma ciência positiva, fazer reviver vozes há muito caladas, o historiador acaba por impor a ele próprio o silêncio. “E neste mundo em que ele terá refreado sua vontade individual ele poderá mostrar aos outros a lei inevitável de uma vontade superior”.

Mas o bom historiador, o genealogista, este impõe o “incontrolável de sua paixão”: a destruição da história enquanto reconhecimento de si, enquanto reminiscência de identidades perdidas – sempre reencontradas em algum lugar do passado -, enquanto conhecimento da verdade fundamental do mundo. Trata-se de “fazer da história um uso que a liberte para sempre do modelo, ao mesmo tempo, metafísico e antropológico da memória. Trata-se de fazer da história uma contramemória e de desdobrar conseqüentemente toda uma outra forma do tempo”. Trata-se mesmo de encontrar a história naquilo que a arruina.

*

Tal é a genealogia de Foucault, que foi acima simplesmente descrita. Cabe alguma consideração. A genealogia mantém da arqueologia o recurso à descontinuidade e à elisão do sujeito como fundamento da história. Contudo, há muito mais que uma simples permanência de método, há uma reformulação dos princípios teóricos que orientam a pesquisa historiográfica.

A recusa da interpretação continua ainda como uma forma de expor uma estudo relacional: nos documentos não é procurada uma verdade ulterior; deles, porém, são determinadas as relações das quais fazem parte, as quais não são simplesmente designadas por sua organização serial, mas pela função desempenhada em estruturas sociais marcadas pelo exercício de poderes e pela ascensão de saberes. A publicação pura e simples, isenta de interpretação, dos documentos pertinentes ao caso de Pierre Rivière é notória. Formam, tais documentos, um conjunto, antes de homogêneo (visto que tratam do mesmo assunto), disperso, cuja unidade só poderia ser imposta de forma alheia, no arquivamento jurídico dos autos do processo, ou pela sua publicação, mais de um século depois, em um livro. O intuito é claro: “fazer de algum modo o plano dessas lutas diversas, restituir esses confrontos e essas batalhas, reencontrar o jogo desses discursos, como armas, como instrumentos de ataque e defesa em relações de poder e saber”.

A genealogia é o aparecimento, súbito como os acontecimentos por ela estudados, do político nos escritos de Foucault. Os discursos históricos são peças num jogo de poder, estão inseridos em uma trama irregular e assimétrica de estratégias e táticas discursivas. Ela torna-se “uma pesquisa propriamente histórica”, ou seja; procura compreender “como se puderam formar domínios de saber a partir de práticas sociais”. A história das ciências, e de certo modo a própria arqueologia era uma “história interna da verdade”; a genealogia é uma “história externa, exterior, da verdade”. Daí sua busca das mesquinharias, das pequenas coisas. Em 1973, numa de suas andanças pelo Brasil, na PUC do Rio de Janeiro, ouviu-se um Foucault falando sobre exploração capitalista, pedindo permissão para “falar como historiador” e defender um ponto de incidência no qual funcionam os discursos mas que não se resume a eles, pois os processos históricos da exploração “exerceram-se sobre a vida das pessoas, sobre seus corpos, sobre seus horários de trabalho, sobre sua vida e morte”, e não simplesmente nos discursos produzidos a partir deste exercício – ainda que a própria produção discursiva seja uma de suas formas.

A historiografia é novamente posta em questão, uma vez que é com os historiadores que a atenção foi antes desviada das sumidades: o “material plebeu na história” já é, em meados dos anos 70, datado em pelo menos cinqüenta anos. Mas Foucault, bárbaro, saqueia este pedacinho de terra do historiador. Dá-lhe novo relevo, aplica sobre ele outra geografia. E qual não é, de certo modo e guardadas suas diferenças visíveis, a semelhança com a microstoria italiana (pelo menos em Carlo Ginzburg e Giovanni Levi). Foucault é enfático: faz aparecer, com “instrumentos de aumento” o que antes não se via, ou seja, “mudar de nível, se dirigir a um nível que até então não era historicamente pertinente, que não possuía nenhuma valorização, fosse ela moral, estética, política ou histórica”. Para tanto, a história de um exorcista, de um moleiro ou de um assassino são utilizadas.

Contudo, para além dos estudos de casos, dos simples indícios e da análise morfológica, a genealogia amplia sua escala, permitindo entrever outras relações. Vigiar e punir, livro preferido por muitos historiadores, pretende-se uma história e uma genealogia, tem o duplo objetivo de correlacionar a alma moderna com o poder de julgar e investigar os fundamentos deste poder, o lugar e as condições de seu nascimento. Em uma única e polêmica expressão, trata-se de uma “história do presente”.

Mas é nas aulas do Collège de France que é melhor apresentada a posição genealógica. É uma forma de crítica marcada por sua pontualidade, por seu caráter local, temporal ou espacialmente: “chamemos, se quiserem, de ‘genealogia’ o acoplamento dos conhecimentos eruditos e das memórias locais, acoplamento que permite a constituição de um saber histórico das lutas e a utilização desse saber nas táticas atuais”. A genealogia é uma prática declaradamente voltada para o lugar em que é praticada, para o presente do genealogista, amparada em três bases distintas de crítica: a histórica, a teórica e a política.

Daí a genealogia voltar-se como uma prática cotidiana das lutas habituais, constituir-se quase como um discurso-arma, instrumento de batalha, tal qual aqueles descritos em suas aulas de 1976. Um dos fundamentos teóricos que guiavam atividades políticas de resistência. Mas ela não pode ser resumida a isto; a genealogia, enquanto prática historiográfica, obstina uma experiência histórica, uma posição, não só para ser ocupada, mas para transformar e ser transformada, um papel para o genealogista. Assim como a arqueologia, será mantida no rol dos fundamentos admitidos por Foucault, até o final de sua vida, a palavra genealogia ainda será parte de seu repertório, mas seguida de uma preocupação com o sujeito, até então apreendido indiretamente em suas análises, como algo a ser elidido para perceber seu lugar, como acontecimento condicionado por fatores que lhe são alheios. A vontade de saber marca um ponto de inquietação que leva a um deslocamento teórico, momento em que uma “genealogia do sujeito moderno” é pretendida, possível graças a uma nova forma de prática historiográfica.

História das problematizações

O longo silêncio mantido entre a publicação do primeiro volume da história da sexualidade, em 1976, e seus subseqüentes, sete anos mais tarde, pode ser encarado como prazo de reelaboração de método, de deslocamento teórico e assunção de um novo posicionamento. Período em que podemos compreender certos acontecimentos importantes; onde é vislumbrado um caminho na medida em que ele é caminhado; textos onde são apontados os direcionamentos empreendidos na mudança; enfim, sussurros plenamente audíveis no silêncio.

Em outubro de 1980, na Universidade de Berkeley, foram proferidas por Foucault duas conferências conhecidas como as Howison Lectures, tendo por título genérico Verdade e subjetividade. Nelas são apresentados os pressupostos da genealogia do sujeito moderno como finalidade de seu projeto intelectual, a qual tem como método “uma arqueologia do conhecimento” e como domínio de análise “a tecnologia. Significando isto a articulações de certas técnicas e de certos tipos de discurso acerca do sujeito”. Toma-se, com isso, uma dimensão política diferente daquela percebida por Antoine Griset, o qual a enxergava apenas na ascensão do poder como centro da análise, entendendo agora, uma “análise relativa àquilo que estamos dispostos a aceitar no nosso mundo, a recusar e a mudar, tanto em nós próprios quanto nas nossas circunstâncias” .

Para tanto, o tema de pesquisa é deslocado do mundo moderno para a antigüidade clássica grega. A genealogia do sujeito, admitida por um historiador do pensamento – como Foucault se intitulava neste período –, coloca-se entre a história social e a análise formal do pensamento. Assim, ela tenta analisar “o modo como instituições, práticas, hábitos e comportamentos se tornam um problema para as pessoas que se comportam de maneira específica, que têm certos hábitos, que se engajam em certos tipos de práticas e que constróem tipos singulares de instituições”. Neste caso específico, o problema da parrhesia é estudado nas tradições grega e greco-romana. Trata-se de uma forma de relação entre dois interlocutores na qual a função do dizer verdadeiro ou da enunciação da verdade assumem características fundamentais. Tal relação é encontrada, de diferentes maneiras, nas tragédias de Eurípedes, nos textos de Sócrates, em Sêneca e também em Epíteto.

Nestas seis lectures feitas novamente em Berkeley, desta vez em 1983, nas quais a parrhesia é enfocada, Foucault não está preocupado diretamente com o problema da verdade, mas do “truth-teller” ou “truth-telling”. Não é o caso de um estudo sociológico dos papéis diversos desempenhados por aqueles que dizem a verdade em diferentes sociedades. A problematização da verdade, tanto na filosofia pré-socrática quanto naquela que ainda é a nossa, de acordo com a análise empreendida por ele, possui dois aspectos principais: um, diz respeito ao uso da razão (reasoning) como forma correta de determinar se um enunciado (statement) é verdadeiro ou não; o outro relaciona-se à questão de saber qual a importância, para o indivíduo e para a sociedade, em dizer a verdade, em conhecê-la, em ter pessoas para dize-la e a importância em reconhecer estas pessoas. O primeiro como “analítica da verdade”, o segundo enquanto “tradição crítica”, ambos relativos ao pensamento ocidental. De maneira que o objetivo principal do seminário, intitulado Discourse and truth: the problematization of parrhesia, é construir uma genealogia da atitude crítica na filosofia ocidental.

Do ponto de vista metodológico, a história das problematizações não tem como objeto de análise o comportamento dos indivíduos no passado nem as idéias apresentadas como valores representativos, mas o “processo de problematização, o qual significa: como e por quê certas coisas (comportamentos, fenômenos, processos) tornam-se um problema. Por que, por exemplo, certas formas de comportamento foram caracterizados e classificados como ‘loucura’ enquanto outras formas similares foram completamente negligenciadas em determinado momento histórico; a mesma coisa para o crime e a delinqüência, a mesma questão de problematização para a sexualidade”. Problematizar é dar uma resposta para uma situação concreta que é real. Nesse sentido, a própria concepção de pensamento assume características singulares nos estudos de Foucault: mais que o motivador de condutas e atitudes, mais que o produtor de idéias ou mentalidades, o pensamento é aquilo que permite questionar tais atitudes e condutas, tais mentalidades ou idéias, é o que permite problematizá-los.

É, então, a partir deste ambiente que o projeto da história da sexualidade é retomado. O segundo volume, onde são colocados os deslocamentos em relação ao anterior, pretende-se uma genealogia porquanto se apresenta como uma trabalho histórico e crítico. Em outras palavras, “um exercício filosófico: sua articulação foi a de saber em que medida o trabalho de pensar sua própria história pode liberar o pensamento daquilo que ele pensa silenciosamente, e permitir-lhe pensar diferentemente”. O uso dos prazeres pode ser lido, levando-se em consideração todo o percurso foucaultiano, como um retorno à filosofia, não àquela constantemente criticada por se reduzir à mera disciplina universitária, mas à filosofia como forma de vida e, pois, como experiência histórica.

Um novo posicionamento teórico de Foucault pode ser evidenciado já que é nele que mais explicitamente a história se encontra com a filosofia – fato inédito até então –, sendo praticada de forma filosófica. A genealogia do sujeito moderno, genealogia como estudo histórico-crítico, ou simplesmente como história das problematizações, é, em poucas palavras, o estudo das formas como os indivíduos se constituíram como sujeitos em diversos momentos da história, problematizando suas próprias condutas e, a partir disso, sua relação com a verdade.

Em quatro diferentes temas, todos pertinentes a um vasto território denominado sexualidade, Foucault circunscreve um campo preciso dentro da cultura grega: o do pensamento sobre os prazeres levando em consideração as morais que o definem. Moral, num sentido muito mais amplo que o de código: como postura diante dos valores e das regras, como modo de pensá-los, aceitar ou recusá-los. Porém, uma moral relativa apenas a determinados indivíduos do sexo masculino e de um campo social bastante limitado. Assim, o tema do corpo, o da casa, o da relação com os rapazes e do amor verdadeiro, tal como é problematizado em uma série de textos específicos, é estudado. Tal documentação, constituída por textos que, se hoje dizem respeito apenas à história da filosofia, à época, talvez, possuíssem um caráter muito mais prático que teórico. Mais que manuais de postura, são formas de pensar as próprias condutas.

A noção de descontinuidade é agora deslocada de seu caráter absoluto. É sobre o pano de fundo da subjetividade, isto é, da prática de subjetivação – a forma como os indivíduos, segundo relações com verdades, constituem-se como sujeitos de uma conduta moral –, que as análises prosseguem. Aqui, se o sujeito é constituído historicamente, é como se a constituição fosse comum a diversas culturas em temporalidades variadas. A história das problematizações demonstra como esta experiência foi tomada como objeto de pensamento de diferentes formas e segundo valores distintos. Ela evidencia a pluralidade de práticas e pensamentos que possibilitam os sujeitos na história, e não uma espécie de sujeito histórico imutável segundo uma verdade universalizante.

*

O projeto intelectual de Michel Foucault interrompeu-se neste momento, que não deve ser encarado como ponto de conclusão dos esforços que começaram mais de 20 anos antes. Dificilmente, se a vida lhe permitisse, ele permaneceria muito mais tempo nesta posição. A história das problematizações não é, de forma alguma, o desfecho lógico da arqueologia; é conseqüência dos acasos, de uma incessante vontade de retomar tudo o que já foi feito para fazer coisas diferentes. As histórias praticadas por ele dão mostras disso.

No tipo de estudo que foi acima empreendido, tentou-se evidenciar dois fundamentos teóricos essenciais à atividade historiadora tal como foram apropriados por Foucault, quais sejam, o tempo e o sujeito. O que se percebe são modos variados de tratá-los, cada qual com objetivos distintos. Entretanto, algumas suposições levando em conta o conjunto dos textos podem ser levantadas.

Como já foi sugerido, a historiografia tem por mérito inserir o homem, enquanto categoria universal, em uma temporalidade que lhe é alheia, relacionando a ela seu modo de ser específico. Na história, o tempo como o inumano é, digamos, humanizado. Porém, há muito que o universal do homem é questionado, já que seu modo de ser é contingente e finito. Em outras palavras, o ser do homem é uma experiência histórica definido, como a arqueologia mostra, por práticas e instituições diversas, entre as quais a língua que o homem fala, o trabalho que realiza e a vida que ele vive.

No sentido universalizante (e por vezes totalitário) que é dado ao homem, é possível, então, conceber um sujeito que seria como que a razão de ser da história. Este ponto de vista necessita, por sua vez, uma noção de tempo continuísta, o qual compreenderia o próprio devir de tal sujeito. Com isso, estaria garantida a idéia de uma liberdade individual de certo modo a-histórica, não definida segundo determinações sociais (ou econômicas, políticas e culturais), mas sim apenas pela vontade do próprio sujeito. A concepção da continuidade histórica remeteria à idéia de um ponto originário, o começo absoluto, no qual estaria assentada a verdade sobre o sujeito. Caberia ao historiador, em última instância, encontrar esta origem decifrando tal verdade.

Ora, a fragmentação da temporalidade da história permite perceber a finitude do homem, ou seja, a contingência do sujeito histórico. Este não existe senão por meio de condições de possibilidade históricas; sua existência se deve a uma determinada experiência temporal e só encontra lugar em uma história particular, e não na história como um todo. Cada tempo com seus homens e suas verdades; a diferença entre os tempos não é amarrada por meio de redes causais: um tempo não origina o outro, embora lhe crie condições de aparecimento. Os sujeitos, como relações entre homens e verdades, são acontecimentos históricos que obedecem a uma única lei, o acaso, como pretende a genealogia.

Por fim, a historiografia, tal como praticada por Foucault, tem por tarefa crítica perceber a forma como um pensamento sobre o sujeito, entendido em sua relação com a verdade, pôde ser elaborado em culturas apartadas por suas diferenças no tempo. A problematização de tal pensamento permite refletir sobre formas diferentes de subjetividade para o presente, ou seja, manter, com outras verdades, relações distintas que dariam condições a novas experiências históricas. Em poucas palavras, condições para que o pensamento contemporâneo pudesse ser pensado de maneira diversa.

Curitiba, junho de 2001.

Fonte: http://www.klepsidra.net/klepsidra12/foucault.html





26 05 2008

A psicologia nunca poderá dizer a verdade sobre a loucura, pois é a loucura que detém a verdade da psicologia.

Michel Foucault





Entrevista Agamben para a Folha

20 05 2008

A política da profanação

O filósofo italiano Giorgio Agamben diz que a política externa

norte-americana é o exemplo maior do Estado contemporâneo – uma máquina

que produz a desordem e ganha legitimidade ao administrá-la

VLADIMIR SAFATLE

ESPECIAL PARA A FOLHA DE SÃO PAULO

A tradição dos oprimidos nos ensina que o estado de exceção em que

vivemos é, na verdade, regra geral. Precisamos construir um conceito de

história que corresponda a essa verdade.” Esta afirmação programática

de Walter Benjamin resume bem o que anima o projeto intelectual de

Giorgio Agamben nos últimos anos.

Responsável pela edição italiana das obras completas de Benjamin,

ex-aluno de Heidegger, autor, juntamente com Deleuze, de trabalhos

sobre teoria literária e filosofia, este professor da Universidade de

Verona, nascido em 1942, é atualmente um dos filósofos mais importantes

de sua geração.

Uma das razões para tanto é, para além da multiplicidade de seus

objetos de interesse, sua capacidade em fornecer um quadro de análises

para a situação sócio-jurídica que marca a política contemporânea.

Partindo das vias abertas por Michel Foucault [1926-1984] por meio das

análises dos mecanismos de normatização da vida na sociedade

contemporânea, Agamben vem desenvolvendo um amplo estudo sobre os

desdobramentos dos dispositivos do poder em vários livros que compõem a

série “Homo Sacer”.

No cerne de tal projeto está a compreensão da centralidade do estado

de exceção enquanto paradigma de funcionamento das estruturas jurídicas

que procuram normatizar o campo da política e da ação social. Que o

espectro da “suspensão legal” da lei, que este reconhecimento da lei

que pode conviver com sua própria suspensão seja o “motor imóvel” das

democracias contemporâneas: eis algo que Benjamin indicara, mas que

Agamben soube explorar como ninguém antes dele.

Contribuiu para isso o estado atual do mundo, onde os governos são

cada vez mais marcados pela lógica da segurança e da guerra infinita. O

mesmo curso que levou Agamben a recusar-se a lecionar nos EUA a fim de

protestar contra a política de segurança norte-americana.

Para ele, os Estados contemporâneos -especialmente os EUA-, mais do

que garantidores e administradores da ordem, são máquinas de produção e

gestão da desordem -que permitem intervenções que lhes dão legitimidade

e poder. Agamben compara o mecanismo ao princípio teológico da

Providência -segundo ele, a teoria do “governo divino” do mundo.

“O que define a ação providencial é que, na verdade, ela não se impõe

do exterior, mas funciona deixando agir a natureza mesma das criaturas

que, desta forma, continuam responsáveis pelos seus pecados”, ele

afirma.

Mas ao analisar o problema do estado de exceção, o filósofo italiano

não procura apenas dar conta de uma situação jurídico-política que

parece se impor como regra cada vez mais universal para as sociedades

contemporâneas. O que ele tem em mente é, na verdade, a crítica a uma

tendência hegemônica na modernidade em vincular razão e norma,

racionalidade e normatização da vida. Com isto, abre-se um amplo quadro

de questões vinculadas à reorientação das expectativas da razão moderna

e de seus modos de racionalização. É neste quadro que Giorgio Agamben

se move.

É para falar sobre estas e outras questões que Agamben vem, pela

primeira vez, ao Brasil, para palestras entre os dias 22 e 29 de

setembro. A seguir, trechos da entrevista que ele concedeu à Folha na

semana passada.

Folha – O senhor possui atualmente um vasto campo de trabalho no

interior do qual se cruzam estética, teoria da literatura, filosofia

política, psicanálise, história e filosofia do direito. O senhor é

também o responsável pela edição italiana da obra de Walter Benjamin.

Há questões comuns que orientam sua incursão nestes múltiplos campos de

interesse?

Giorgio Agamben – A lógica que guia minha pesquisa não é a lógica da

substância e do território separado com fronteiras bem definidas. Ela

está mais próxima do que, na ciência física, chamamos de um “campo”,

onde todo ponto pode a um certo momento carregar-se de uma tensão

elétrica e de uma intensidade determinada. Filosofia, política,

filologia, literatura, teologia, direito não representam disciplinas e

territórios separados, mas são apenas nomes que damos a esta

intensidade.

A configuração do que você chama de meus “múltiplos campos de

interesse” depende pois da contingência capaz de determinar uma tensão

na situação histórica concreta em que me encontro. De resto, trata-se

do que, há um tempo atrás, era o mínimo esperado de uma pessoa culta

-este a quem Nietzsche chamava “um bom europeu”.

Não devemos esquecer, por exemplo, que é impossível haver filosofia

sem filologia, da mesma forma como é impossível teoria sem história.

Para mim, assim como para Foucault, a investigação histórica do passado

é apenas a sombra da interrogação histórica sobre o presente. E

atualmente, mais do que nunca, a arqueologia é a única via de acesso ao

presente.

Folha – Qual é a trajetória de pesquisa que o levou a identificar, no

estado de exceção, o fenômeno jurídico maior na compreensão da

normatização da vida contemporânea?

Agamben – Primeiramente, gostaria de lembrar que, atualmente, o

direito é, de fato, um dos meus principais canteiros de trabalho. O

outro é a teologia. Qual a razão desta escolha? Eu poderia responder -e

isto não seria necessariamente uma brincadeira- que o direito e a

teologia são os dois únicos domínios nos quais Foucault não trabalhou

realmente, o que me dava uma certa liberdade.

Mas a verdade é que não é possível atualmente pensar a política e sua

história sem se engajar em pesquisas arqueológicas que articulam o

direito e a teologia. Não digo isto por acreditar em alguma espécie de

primado destas disciplinas. O fato é que no interior dos mecanismos e

relações de poder, conceitos jurídicos e teológicos continuam a agir de

maneira mais ou menos consciente, e são seus funcionamentos e efeitos

que me interessam.

Creio que Foucault tinha razão ao dizer que queria deixar de lado os

ditos “universais” (o Estado, a Lei, a Soberania, o Poder), a fim de

analisar o processo concreto e os dispositivos que realizam as relações

de poder. Desta forma, ao trabalhar sobre o estado de exceção, não se

tratava para mim de responder a questões como: “O que é o direito?”, “o

que é o Estado?”, mas de procurar compreender o modo por meio do qual a

máquina político-jurídica funciona.

Ou seja, não parto de questões como: “O que é e o que não é legal?”,

ou mesmo “o que é e o que não é justo?”, mas “como se realiza a relação

entre violência e direito?”, “como é possível desativar tal relação?”.

Descobrir que o estado de exceção era, por assim dizer, o motor imóvel

da máquina jurídica ocidental foi para mim muito instrutivo.

Folha – O senhor diz, em “Estado de Exceção”, que devemos pensar a

política para além do jurídico. Mas, se em nossas sociedades

democráticas, como o senhor afirma, o estado de exceção é a regra, isto

significaria que não há mais espaço político no interior do sistema

parlamentar de representação? E, se devemos pensar a política para além

do jurídico, devemos então abandonar a aspiração moderna de

constituição de um Estado Justo?

Agamben – Veja, sua pergunta sobre qual seria a constituição de um

Estado Justo me parece abstrata e, como tal, realmente não me

interessa. Não se trata mais, como era ainda legítimo na época de

Rousseau, de escrever a Constituição da Polônia ou da Córsega. Deixo

esta questão para os juristas criminais que acreditam poder escrever a

Constituição democrática do Iraque. Ou aos tecnocratas ingênuos que

acreditaram poder escrever a Constituição européia sem se perguntar se

havia, em algum lugar, um poder constituinte que os autorizava. Pois é

a própria relação entre política e direito que deve ser questionada.

Problema este que a tradição marxista sempre negligenciou por acreditar

que o direito, em última instância, era um instrumento neutro do qual

poderíamos nos servir sem problemas.

De fato, nossa concepção de democracia ainda está muito dominada pelo

paradigma do Estado de Direito, ou seja, pela idéia de que podemos

estabelecer um quadro constitucional e normativo a partir do qual uma

sociedade justa advém possível. Mas minhas pesquisas me mostraram que o

problema fundamental não diz respeito à Constituição ou à lei; diz

respeito ao governo.

Rousseau ainda acreditava ser capaz de liquidar o problema do governo

ao vê-lo como poder executivo, como potência que “executa” o que a

vontade geral estabeleceu. Trata-se de uma ingenuidade imperdoável. O

verdadeiro ponto misterioso da política ocidental não é o Estado, não é

a Constituição, não é a soberania, mas o governo. Não o soberano, mas o

ministro. Não o legislador, mas o funcionário.

A pesquisa na qual estou atualmente engajado diz respeito exatamente à

tentativa de compreender o modo por meio do qual a máquina

governamental ocidental funciona. Trata-se de olhar a política e o

direito a partir de uma nova perspectiva na qual as hierarquias se

invertem e o poder considerado executivo -a “polícia”, no sentido lato-

advém o problema central. Mas, mesmo aqui, não faço mais do que alargar

o trabalho de Michel Foucault.

Folha – O sr. diz ainda que a declaração clara do estado de exceção

está sendo substituída paulatinamente pela generalização do paradigma

de segurança como técnica normal de governo. Os EUA seriam, no seu

ponto de vista, um caso exemplar?

Agamben – Em um de seus cursos no Collèqe de France, Michel Foucault

mostrou como funciona a segurança enquanto paradigma de governo. Para

Quesnay, Turgot e os ministros fisiocratas, que nesta matéria foram os

primeiros, não se tratava, por exemplo, de prevenir as grandes

penúrias, mas de deixá-las ocorrer para, em seguida, dirigi-las e

orientar os modos de atravessá-las. A segurança como paradigma de

governo não nasce para instaurar a ordem, mas para governar a desordem.

É neste sentido que a segurança, juntamente com o estado de exceção, é

o paradigma fundamental da política mundial. Como disse um funcionário

da política italiana durante as investigações judiciárias que se

seguiram às mortes na manifestação antiglobalização em Gênova: “O

Estado não quer que imponhamos a ordem, mas que administremos a

desordem”.

Parece-me evidente que este é o princípio que guia, particularmente, a

política exterior norte-americana, mas não apenas ela. Trata-se de

criar zonas de desordem permanente (“zones of turmoil”, como dizem os

estrategistas) que permitem intervenções constantes orientadas na

direção que se julgar útil. Ou seja, os Estados Unidos são hoje uma

gigantesca máquina de produção e gestão da desordem.

É curioso como tudo isto se encontra em um dos paradigmas teológicos

que tenho trabalhado: este que diz respeito à doutrina da Providência.

Os conceitos de ordem e segurança foram elaborados como paradigmas de

governo, pela primeira vez, no interior desta doutrina. Não devemos

esquecer que a Providência ocupou a mente de filósofos e teólogos por

quase 15 séculos, dos Estóicos até São Tomás, de Plutarco a Leibniz, de

Boécio aos fisiocratas. A teoria da Providência não é outra coisa que a

teoria do governo divino do mundo, ou seja, do melhor governo possível.

Por isto, a Providência não opera de modo violento ou miraculoso, mas,

tal como nos governos democráticos, ela precisa do livre-arbítrio dos

indivíduos. O que define a ação providencial é que, na verdade, ela não

se impõe do exterior, mas funciona deixando agir a natureza mesma das

criaturas que, desta forma, continuam responsáveis pelos seus pecados.

A Providência é, neste sentido, um paradigma da democracia moderna e

não é surpreendente que ela tenha influenciado profundamente um

pensador como Rousseau. O Estado moderno, no que ele tem de melhor

quanto de pior, provém deste Estado-Providência.

Folha – O senhor fala, ao final de “Estado de Exceção”, a respeito da

necessidade de abrirmos espaço a uma “violência pura” capaz de expor e

de cortar o vínculo entre violência e direito. Esta idéia de “violência

pura” é algo como uma idéia reguladora ou o senhor tem em mente

situações revolucionárias concretas que teriam o valor de paradigma?

Agamben – É importante precisar o que devemos entender por “pura”

quando se fala de violência. Não se trata, em absoluto, de um caráter

ou de uma propriedade substancial próprio a certos tipos de atos

violentos, isto em detrimento de outros. Como Benjamin disse muito

claramente, a pureza de um ser ou de uma coisa nunca reside neste

próprio ser, nunca está na origem, mas depende da relação entre este

ser e algo de externo. No nosso caso, trata-se do direito.

Benjamin definia como “pura” esta violência que quebra a relação entre

violência e direito. Não se trata aqui de uma “violência criadora”

(como é o caso, por exemplo, do poder constituinte que cria um novo

direito), mas de uma violência que interrompe e depõe o direito. Por

outro lado, não se trata de uma idéia reguladora.

O que está realmente em questão é, na verdade, a possibilidade de uma

ação humana que se situe fora de toda relação com o direito, ação que

não ponha, que não execute ou que não transgrida simplesmente o

direito. Trata-se do que os franciscanos tinham em mente quando, em sua

luta contra a hierarquia eclesiástica, reivindicavam a possibilidade de

um uso de coisas que nunca advém direito, que nunca advém propriedade.

E talvez “política” seja o nome desta dimensão que se abre a partir de

tal perspectiva, o nome de livre uso do mundo. Mas tal uso não é algo

como uma condição natural originária que se trata de restaurar. Ela

está mais perto de algo de novo, algo que é resultado de um

corpo-a-corpo com os dispositivos do poder que procuram subjetivar, no

direito, as ações humanas.

Por isto, tenho trabalhado recentemente sobre o conceito de

“profanação” que, no direito romano, indicava o ato por meio do qual o

que havia sido separado na esfera da religião e do sagrado voltava a

ser restituído ao livre uso do homem.

Vladimir Safatle é professor de filosofia na Faculdade de Filosofia,

Letras e Ciências Humanas da USP e organizador de “Um Limite Tenso -

Lacan entre a Filosofia e a Psicanálise” (ed. Unesp).

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Conceitos de Agamben

Estado de exceção – Criada pela Assembléia Constituinte francesa em

1791 sob o nome de “estado de sítio”, a figura de um quadro legal para

a suspensão da ordem jurídica em “casos extremos” aplicava-se

inicialmente apenas às praças-fortes e portos militares. Em 1811, com

Napoleão, o estado de sítio podia ser declarado pelo imperador a

despeito da situação efetiva de uma cidade estar sitiada ou ameaçada

militarmente. A partir de então, vemos um progressivo desenvolvimento

de dispositivos jurídicos semelhantes na Alemanha, Suíça, Itália, Reino

Unido e EUA, que serão aplicados, durante os séculos 19 e 20, em

situações variadas de emergência política ou econômica. Giorgio Agamben

compreende tal desenvolvimento como a manifestação de um processo de

generalização dos dispositivos governamentais de exceção. Processo este

que teria sido o motor invisível das democracias ocidentais (o que

Agamben tenta salientar ao aproximar a lógica da exceção e o problema

do lugar do soberano nas teorias clássicas da filosofia política). Por

um lado, tal teoria da generalização progressiva do estado de exceção

procura fornecer o quadro de análise para a tendência contemporânea em

criar situações nas quais a distinção entre estado de guerra e estado

de paz seja impossível. Indistinção que visaria, assim, transformar o

estado de exceção em regra universal. No entanto, a partir desta teoria

da centralidade de processos de suspensão da norma que não equivalem

necessariamente à abolição da norma, Agamben procura fazer mais do que

fornecer uma visão das tendências que atuam na estrutura

político-jurídica contemporânea. Ele visa fundamentalmente criticar uma

noção de razão vinculada à crença de que racionalizar é assegurar a

vida por meio da posição de critérios normativos de justificação

intersubjetivamente partilhados. Neste ponto, o trabalho de Agamben

aparece como um desdobramento das reflexões de Michel Foucault sobre os

modos de coincidência entre a norma racional e o seu outro.

Biopoder – Termo cunhado por Michel Foucault para dar conta da

centralidade, na consolidação do poder na modernidade, daquilo que o

filósofo chama de “administração dos corpos” e de “gestão calculista da

vida”. Foucault insiste no fato de que tal transformação da vida humana

em objeto do poder soberano implicou em sua redução à condição de pura

vida biológica, vida pronta para ser administrada pelos dispositivos

ordenadores do poder ou, ainda, redução àquilo que Agamben chama de

“vida nua”. Neste sentido, a contribuição mais importante de Agamben no

interior do debate sobre as estruturas do biopoder consiste em mostrar

como a vida nua vai progressivamente coincidindo com a integralidade do

espaço político, no sentido de ela ser posta como a figura hegemônica

da vida que pode aparecer no interior do espaço político. Isto implica

necessariamente compreender qual a estrutura jurídica própria a um

poder que reduz a vida à condição de mera vida biológica. É neste ponto

que se articulam os livros “Homo Sacer” e “Estado de Exceção”.

Homo sacer – Partindo do fato de que no termo latino “sacer” convergem

duas determinações aparentemente opostas de sentido (“sagrado” e

“maldito” ou “matável”), Agamben procura dar conta do verdadeiro

sentido da sacralidade da vida enquanto princípio inviolável e elemento

político originário. As determinações opostas de “sacer” apenas

indicariam aquele que está fora tanto do direito humano (por ser

sagrado) quanto do direito divino (por ser matável de maneira não

sacrificial). Habitante excedente de uma zona de indistinção entre a

vida humana e a morte consagrada, o “homo sacer” demonstraria como a

sacralidade é apenas a figura perfeita de uma vida nua cada vez mais

presente. Com isto, Agamben procura dar conta do sentido biopolítico de

políticas de vitimização (baseadas na dissociação entre os direitos do

homem e os direitos do cidadão) e de situações contemporâneas nas quais

sujeitos são, cada vez mais, jogados em zonas de anomia.

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O FILÓSOFO NO BRASIL

DA REDAÇÃO

O filósofo Giorgio Agamben, professor da Universidade de Verona, na

Itália, participa neste mês de uma série de conferências em São Paulo,

no Rio de Janeiro e em Florianópolis.

Um dos grandes pensadores europeus da atualidade, Agamben nasceu em

Roma, em 1942. Suas pesquisas envolvem teoria literária, política,

religião e arte. Agamben dá aulas no European Graduate School (Suíça) e

é professor de filosofia no Collège International de Philosophie, de

Paris, além de lecionar na Universidade de Macerata (Itália). Atuou

como professor visitante em diversas universidades norte-americanas

como Berkeley, Los Angeles, Irvine, Santa Cruz e Northwestern.

Em São Paulo, ele participa no dia 22, na USP, de uma mesa-redonda com

Paulo Arantes e Vladimir Safatle com o tema “Oikonomia: Sobre a Gênese

Teológica do Governo”. No Rio de Janeiro, vai proferir no dia 26 a

palestra “O que é um Dispositivo?” (Fundação Casa de Rui Barbosa, r.

São Clemente, 134, Botafogo, Rio de Janeiro, RJ, tel. 0/xx/21/

3289-4600). No dia 27, em Niterói (Instituto de Ciências Humanas e

Filosofia da Universidade Federal Fluminense, no campus Gragoatá, no

Auditório do Instituto de Ciências Humanas e Filosofia), vai proferir

conferência também com o tema “Oikonomia: Sobre a Gênese Teológica do

Governo”. O mesmo tema será abordado em conferência no dia 29, em

Florianópolis, no Centro de Cultura e Eventos da Universidade Federal

de Santa Catarina (campus universitário).

Já há alguns livros do filósofo publicados no Brasil. “Estado de

Exceção” (Boitempo) foi lançado em 2004. Também foram editados

“Infância e História” (UFMG) e “Homo Sacer – O Poder Soberano e a Vida

Nua” (UFMG), que esgotou a tiragem inicial e já está na primeira

reimpressão.

A editora da UFMG planeja novos lançamentos do autor. Vai publicar em

novembro “Il Linguaggio e la Morte” (A Linguagem e a Morte) e, em

dezembro, “Stanze” (Quartos). A mesma editora está negociando a

publicação para o início do próximo ano de “L’Aperto -L’Uomo e

l’Animale” (O Aberto – O Homem e o Animal).

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O capitalismo como religião

Em texto preparado para conferência que fará no Brasil, o pensador

marxista Michael Löwy segue Walter Benjamin e defende que o sistema

social atual é um fenômeno essencialmente religioso

MICHAEL LÖWY

Entre os documentos inéditos de Walter Benjamin [1892-1940] publicados

em 1985 por Ralph Tiedemann e Hermann Schweppenhäuser no volume 6 de

“Gesammelte Schriften” (Suhrkamp Verlag), há um particularmente

obscuro, mas que parece de uma atualidade surpreendente: “O capitalismo

como religião”. São três ou quatro páginas contendo anotações e

referências bibliográficas; denso, paradoxal, às vezes hermético, o

texto não se deixa decifrar facilmente. Como não se destinava à

publicação, o autor não tinha qualquer necessidade de torná-lo legível

e compreensível… Os comentários a seguir são uma tentativa parcial de

interpretação, baseada mais em hipóteses do que em certezas, e deixando

de lado certas “zonas de sombra”.

O texto de Benjamin é, com toda evidência, inspirado por “A Ética

Protestante e o Espírito do Capitalismo” (Cia. das Letras, 2004), de

Max Weber [1864-1920]. No entanto, como veremos, o argumento de

Benjamin vai muito além de Weber e, sobretudo, substitui sua abordagem

“axiologicamente neutra” (Wertfrei) por um fulminante requisitório

anticapitalista.

“É preciso ver no capitalismo uma religião”. Com essa afirmação

categórica começa o fragmento. Segue-se uma referência, mas também um

distanciamento em relação a Weber: “Demonstrar a estrutura religiosa do

capitalismo -isto é, demonstrar que ele é não somente uma formação

condicionada pela religião, como pensa Weber, mas um fenômeno

essencialmente religioso- nos levaria ainda hoje pelos meandros de uma

polêmica universal desmedida”.

Benjamin continua: “Podemos entretanto, desde já, reconhecer no tempo

presente três traços dessa estrutura religiosa do capitalismo”.

Benjamin não cita mais Weber, mas de fato os três pontos se alimentam

de idéias e argumentos do sociólogo, dando-lhes um novo alcance,

infinitamente mais crítico, mais radical -social e politicamente, mas

também do ponto de vista filosófico (teológico?)- e perfeitamente

antagônico à tese weberiana da secularização.

O culto

“Primeiramente, o capitalismo é uma religião puramente cultual, talvez

a mais extremamente cultual que já existiu. Nada nele tem significado

que não esteja em relação imediata com o culto, ele não tem dogma

específico nem teologia. O utilitarismo ganha, desse ponto de vista,

sua coloração religiosa.”

Portanto, as práticas utilitárias do capitalismo -investimento do

capital, especulações, operações financeiras, manobras bolsistas,

compra e venda de mercadorias- são equivalentes a um culto religioso. O

capitalismo não exige a adesão a um credo, a uma doutrina ou a uma

“teologia”; o que conta são as ações, que representam, por sua dinâmica

social, práticas cultuais. Benjamin, contradizendo um pouco seu

argumento sobre a Reforma e o cristianismo, compara essa religião

capitalista ao paganismo original, também ele “imediatamente prático” e

sem preocupações “transcendentes”.

Mas o que é que permite assemelhar essas práticas econômicas

capitalistas a um “culto”? Benjamin não o explica, mas utiliza, algumas

linhas depois, o termo “adorador”; podemos assim considerar que o culto

capitalista comporta certas divindades que são objeto de adoração. Por

exemplo: “Comparação entre as imagens de santos das diferentes

religiões e as notas de dinheiro dos diversos países”. O dinheiro, em

forma de papel-moeda, seria assim o objeto de um culto análogo ao dos

santos das religiões “comuns”.

No entanto, o papel-moeda é apenas uma das manifestações de uma

divindade mais fundamental no sistema capitalista cultual: o

“dinheiro”, o deus Mammon, ou, segundo Benjamin, “Plutão… deus da

riqueza”. Na bibliografia do fragmento é mencionada uma passagem

virulenta contra o poder religioso do dinheiro: está no livro “Aufruf

zum Sozialismus”, do pensador anarquista judeu-alemão Gustav Landauer,

publicado em 1919, pouco antes do assassinato de seu autor por

militares contra-revolucionários. Na página indicada pela nota

bibliográfica de Benjamin, Landauer escreve:

“Fritz Mauthner (“Wörterbuch der Philosophie”) mostrou que a palavra

“Deus” (Gott) é originariamente idêntica a “ídolo” (Götze), e que as

duas querem dizer “o fundido” [ou "o escorrido'] (Gegossene). Deus é um

artefato feito pelos humanos, que ganha uma vida, atrai para si as

vidas dos humanos e finalmente torna-se mais poderoso que a humanidade.

O único escorrido (Gegossene), o único ídolo (Götze), o único Deus

(Gott) a que os humanos deram vida é o dinheiro (Geld). O dinheiro é

artificial e é vivo, o dinheiro produz dinheiro e mais dinheiro, o

dinheiro tem todo o poder do mundo. Quem não vê, quem ainda hoje não

vê, que o dinheiro, que o Deus não é outra coisa senão um espírito

oriundo dos seres humanos, um espírito que se tornou uma coisa (Ding)

viva, um monstro (Unding), e que ele é o sentido (Sinn) que se tornou

louco (Unsinn) de nossa vida? O dinheiro não cria riqueza, ele é a

riqueza; ele é a riqueza em si; não existe outro rico além do

dinheiro”.

É verdade que não podemos saber até que ponto Benjamin compartilhava

esse raciocínio de Landauer; mas podemos, a título de hipótese,

considerar esse trecho, mencionado na bibliografia, como um exemplo do

que ele entende por “práticas cultuais” do capitalismo.

Sem trégua

A segunda característica do capitalismo “está estreitamente ligada a

essa concreção do culto: a duração do culto é permanente”. “O

capitalismo é a celebração de um culto “sem trégua e sem piedade”. Não

há “dias comuns”, nenhum dia que não seja de festa, no sentido terrível

da utilização da pompa sagrada, da extrema tensão que habita o

adorador.”

Sem descanso, sem trégua e sem piedade: a idéia de Weber é retomada

por Benjamin, quase literalmente; não sem ironia, aliás, evocando o

caráter permanente dos “dias de festa”: na verdade, os capitalistas

puritanos aboliram a maioria dos feriados católicos, considerados um

incentivo ao ócio. Portanto, na religião capitalista, cada dia vê a

mobilização da “pompa sagrada”, isto é, os rituais na bolsa ou na

fábrica, enquanto os adoradores seguem, com angústia e uma “extrema

tensão”, a subida ou a descida das cotações das ações.

As práticas capitalistas não conhecem pausa, elas dominam a vida dos

indivíduos da manhã à noite, da primavera ao inverno, do berço ao

túmulo. Como bem observa Burkhardt Lindner, o fragmento empresta de

Weber o conceito do capitalismo como sistema dinâmico, em expansão

global, impossível de deter e do qual não podemos escapar.

Enfim, a terceira característica do capitalismo como religião é seu

caráter culpabilizador: “O capitalismo é provavelmente o primeiro

exemplo de um culto que não é expiatório (entsühnenden), mas

culpabilizador”. Benjamin continua seu requisitório contra a religião

capitalista: “Nisso, o sistema religioso é precipitado em um movimento

monstruoso. Uma consciência monstruosamente culpada que não sabe expiar

se apodera do culto, não para nele expiar essa culpa, mas para torná-la

universal, para fazê-la entrar à força na consciência e, enfim e

sobretudo, para implicar Deus nessa culpa, para que no fim das contas

ele mesmo tenha interesse na expiação”.

Benjamin evoca, nesse contexto, o que chama de “ambigüidade da palavra

Schuld” – isto é, ao mesmo tempo “dívida” e “culpa”. Segundo Burkhard

Lindner, a perspectiva histórica do fragmento baseia-se na premissa de

que não podemos separar, no sistema da religião capitalista, a “culpa

mítica” da dívida econômica.

Encontramos em Max Weber dois raciocínios análogos, que também jogam

com os dois sentidos de “dever”: para o burguês puritano, “o que

consagramos a fins “pessoais” é “roubado” do serviço à glória de Deus”;

tornamo-nos assim ao mesmo tempo culpados e “endividados” em relação a

Deus. “A idéia de que o homem tem “deveres” para com as posses que lhe

foram confiadas e às quais ele está subordinado como um intendente

devotado (…) pesa sobre sua vida com todo o seu peso gélido. Quanto

mais aumentam as posses, mais pesado torna-se o sentimento de

responsabilidade (…) que o obriga, para a glória de Deus (…), a

aumentá-las por meio de um trabalho sem descanso”. A expressão de

Benjamin “fazer a culpa entrar à força na consciência” corresponde bem

às práticas puritanas/capitalistas analisadas por Weber.

Amplitude

Mas parece-me que o argumento de Benjamin é mais geral: não é somente

o capitalismo que é culpado e “endividado” com seu capital -a culpa é

universal. Assim, o próprio Deus encontra-se envolvido nessa culpa

geral: se os pobres são culpados e excluídos da graça, e se, no

capitalismo, eles estão condenados à exclusão social é porque “é a

vontade de Deus” ou, o que é seu equivalente na religião capitalista, a

vontade dos mercados.

Bem entendido, se nos situarmos no ponto de vista desses pobres e

endividados, é Deus que é o culpado, e com ele o capitalismo. Em

qualquer dos casos, Deus está inextricavelmente associado ao processo

de culpabilização universal.

Até aqui vimos bem o ponto de partida weberiano do fragmento, em sua

análise do capitalismo moderno como religião originária de uma

transformação do calvinismo; mas há um trecho em que Benjamin parece

atribuir ao capitalismo uma dimensão transhistórica que não é mais a de

Weber -e tampouco de Marx: “O capitalismo se desenvolveu no Ocidente

como um parasita do cristianismo -devemos demonstrá-lo não somente a

propósito do calvinismo, mas também das outras correntes ortodoxas do

cristianismo-, de tal sorte que no fim das contas a história do

cristianismo é essencialmente a de seu parasita, o capitalismo”.

O resultado do processo “monstruoso” de culpabilização capitalista é a

generalização do “desespero”: “Ele está ligado à essência desse

movimento religioso -que é o capitalismo- de perseverar até o fim, até

a completa culpabilização final de Deus, até um estado do mundo

atingido por um desespero que ainda “esperamos” que seja justo. O que o

capitalismo tem de historicamente inédito é que a religião não é mais

reforma, mas a ruína do ser. O desespero se estende ao estado religioso

do mundo do qual se deveria esperar a salvação”.

Não estamos distantes, aqui, das últimas páginas da “Ética

Protestante”, em que Weber constata, com um fatalismo resignado, que o

capitalismo moderno “determina, com uma força irresistível, o estilo de

vida do conjunto dos indivíduos nascidos nesse mecanismo -e não somente

daqueles que a aquisição econômica concerne diretamente”.

Ele compara essa coerção a uma espécie de prisão na qual o sistema de

produção racional de mercadorias encerra os indivíduos: “Segundo as

opiniões de Baxter, a preocupação pelos bens externos não deveria pesar

sobre os ombros de seus santos senão como “um leve manto que a qualquer

momento se pode retirar”. Mas a fatalidade transformou esse manto em

uma jaula de aço”.

De Weber a Benjamin nos encontramos em um mesmo campo semântico, que

descreve a lógica impiedosa do sistema capitalista. Mas por que ele é

produtor de desespero?

Sendo a “culpa” dos humanos, seu endividamento para com o capital,

perpétua e crescente, nenhuma esperança de expiação é permitida. O

capitalista deve constantemente aumentar e ampliar seu capital, sob

pena de desaparecer diante de seus concorrentes, e o pobre deve

emprestar dinheiro para pagar suas dívidas.

Segundo a religião do capital, a única salvação reside na

intensificação do sistema, na expansão capitalista, no acúmulo de

mercadorias, mas isso só faz agravar o desespero. É o que parece

sugerir Benjamin com a fórmula que faz do desespero um estado religioso

do mundo “do qual se deveria esperar a salvação”.

Este texto é uma versão editada da conferência que Michael Löwy fará

na USP no dia 29 de setembro.

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves.

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LÖWY NO BRASIL

DA REDAÇÃO

Michael Löwy (1938) participa a partir do dia 27, em São Paulo, do 2º

Seminário Margem Esquerda, que tem como tema “As Aventuras de Karl Marx

contra o Barão de Münchhausen – A Obra Indisciplinada de Michael Löwy”.

O evento comemora os dez anos da editora Boitempo, que lançou este ano

seu livro “Walter Benjamin – Aviso de Incêndio”. Serão ao todo oito

mesas-redondas para discutir a obra do diretor emérito de pesquisas do

Centre National de Recherches Scientifiques (CNRS).

Brasileiro, radicado há quatro décadas na França, Löwy é especialista

nas obras de Marx, Rosa Luxemburgo e Lukács. É autor de “Estrela da

Manhã – Surrealismo e Marxismo” (Civilização Brasileira), “A Teoria da

Revolução no Jovem Marx” (Vozes), “Marxismo na América Latina” (Perseu

Abramo), “Evolução Política de Lukács” (Cortez) e “Romantismo e

Messianismo” (Perspectiva), entre outros.

Os debates em São Paulo vão ocorrer na USP (de 27 a 29 de setembro) e

na PUC (dia 30) com a presença de nomes como Francisco de Oliveira,

Jorge Grespan, Marcelo Ridenti, Olgária Mattos, Alfredo Bosi, Flávio

Aguiar, Emir Sader, Gabriel Cohn, Paul Singer, Luiz Eduardo Wanderley e

Roberto Schwarz.

O seminário também ocorre em Araraquara e em Campinas. Na Unesp de

Araraquara haverá debate (dia 3/10) com Leda Paulani, Maria Orlanda

Pinassi e Valério Arcary. Em Campinas, na Unicamp (dia 5/ 10), ocorre

uma mesa-redonda com Francisco Foot Hardman, Marcelo Ridenti e

Jeanne-Marie Gagnebin. As entradas são gratuitas (informações podem ser

obtidas no site www.boitempoeditorial.com.br ou pelo tel. 0/xx/ 11/

3875-7285).

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Eleições de hoje na Alemanha expõem o que a sincronia das crises no

Sul, do modelo soviético e nos países centrais nos anos 80 já indicava

-o Estado de Bem-Estar não passou de realização efêmera do pós-guerra

A ressaca do fordismo

ROBERT KURZ

COLUNISTA DA FOLHA

Durante muito tempo pareciam bem definidas as fronteiras entre a

miséria em massa e as relativas condições de bem-estar coletivo. A

linha demarcatória separava essencialmente o Norte do Sul do planeta.

Essa constelação foi, no entanto, apenas um produto da história depois

da Segunda Guerra.

Nos centros capitalistas, a mobilização das indústrias fordistas

desencadeou um impulso sem precedentes de ocupação em massa e

acumulação de capital, vinculados à ascensão dos sindicatos e da

social-democracia. A “mobilização automotiva” da sociedade ia a par com

a construção crescente de uma rede de seguridade social (o Estado de

Bem-Estar Social), especialmente profunda na Alemanha Ocidental e, em

parte, na França. Até mesmo no espaço do liberalismo econômico

tradicional anglo-saxão, os governos trabalhistas no Reino Unido e a

“grande sociedade” do presidente Lyndon Johnson, nos EUA, na tradição

do “New Deal”, geravam novas estruturas sociais.

O sociólogo alemão Ulrich Beck descreveu a ascensão social na era

fordista do pós-guerra como “efeito elevador”: apesar das permanentes

diferenciações sociais, a sociedade como um todo era elevada a um

patamar superior. Os salários reais se multiplicavam, enquanto as

jornadas de trabalho, de modo inverso, declinavam constantemente. A

expectativa geral de vida aumentava para todos por meio de um sistema

médico melhorado.

Foi essa prosperidade sem precedentes do Norte que se tornou o

paradigma extremamente atrativo do “desenvolvimento” para os países do

Sul. Nisso se manifestou um paradoxo histórico, pois, enquanto no

Sudeste Asiático e na África ainda eclodiam as últimas guerras de

descolonização, e, simultaneamente, nos países já descolonizados,

articulavam-se os movimentos contra a dependência econômica da Europa

Ocidental e dos Estados Unidos, o paradigma do desenvolvimento dos

centros capitalistas era ainda, contudo, o modelo a ser trilhado. Os

ex-colonizados desejavam crescer nas formas sociais dos antigos

senhores.

A expansão da crise foi apreendida de modo invertido, como se o

capitalismo fosse o grande vencedor. Na realidade, a crise da terceira

revolução industrial já vinha há muito minando o corpo social do

capitalismo original

Descolonização e esforços de independência econômica eram determinados

pelo desejo de atingir, por conta própria, a almejada prosperidade

fordista e seu correlato patamar de consumo de massa, mesmo quando, a

contragosto da superpotência americana, mecanismos de capitalismo de

Estado em moldes soviéticos fossem preferidos. Uma alternativa

histórica para a mobilização do “trabalho abstrato” e da “riqueza

abstrata”, como Marx denominara a lógica do moderno sistema de produção

de mercadorias, não foi, no entanto, cogitada em nenhuma parte.

Enquanto os centros capitalistas, em especial nos Estados Unidos,

projetavam para fora uma imagem política inimiga para os movimentos

sociais do Sul, estes importavam, ao mesmo tempo, as estruturas da

reprodução capitalista: o moderno trabalho assalariado e a apenas

aparente isonomia burguesa da relação entre os gêneros, bem como os

padrões e a imaginação do consumo ou o modelo do “Welfare State”.

Independentemente de orientação política durante a Guerra Fria, os

“milagres econômicos” no Japão e, sobretudo, na Alemanha, eram tidos

como os modelos secretos.

A verdadeira crise

Mas a “era de ouro” fordista do pós-guerra permaneceu, no entanto,

para os países pós-coloniais do Sul, uma miragem. A tarefa de criar uma

industrialização recuperadora, um consumo de massa e um “Welfare State”

deu certo apenas por um curto período e em fórmulas de segunda mão. A

distância que os separava dos centros econômicos já era muito grande,

os custos prévios do “desenvolvimento” revelaram-se muito altos. O

resultado foi um endividamento externo crescente. Quando a terceira

revolução industrial da microeletrônica aposentou o fordismo, os custos

operacionais e sociais da inovação aumentaram de tal forma que não

apenas os modelos de desenvolvimento nacionais do Sul quebraram mas

também a parte do socialismo de Estado do Norte não o pôde mais

acompanhar.

De fato, essa tendência ruinosa poderia ter se tornado claramente

visível de duas maneiras: em primeiro lugar, a tentativa de imitação de

formas industriais, socioeconômicas, da Europa Ocidental e dos Estados

Unidos, já fracassara para a maior parte da humanidade; em segundo

lugar, com o fim da União Soviética e da Alemanha Oriental, a crise

deste tipo de sociedade já havia penetrado o Norte globalizado e também

tinha que atingir os seus próprios centros.

Em vez disso, a expansão da crise foi apreendida exatamente de modo

invertido com os óculos dos velhos antagonismos, como se o capitalismo

original fosse o grande vencedor da história e todos os retardatários

tivessem que duplicar ou triplicar esforços na cópia desse modelo. Na

perspectiva das regiões em colapso pela crise global, vigoravam ainda,

no centro do capitalismo, aquelas supostas condições “paradisíacas” de

prosperidade fordista, pelo menos se confrontadas com a própria miséria

local. Mas isto era apenas uma ilusão de ótica.

Na realidade, a crise da terceira revolução industrial já vinha há

muito minando o corpo social do capitalismo original. Já nos anos 1980,

a “plena ocupação” fordista convertera-se num desemprego estrutural em

massa. Por meio dos novos potenciais de inovação, o patamar desse

desemprego estrutural aumentava de ciclo em ciclo. Rápida desativação

de postos de trabalho e crescente subocupação constituem apenas o

reverso da medalha de uma acumulação insuficiente de capital, do qual,

em última instância, depende o “Welfare State”. A rede social expandida

do “boom” fordista começara a romper, executada por meio de

contra-reformas neoliberais.

Schröder, a vanguarda liberal

Não é surpresa que Estados Unidos e Reino Unido, por meio da

“reaganomics” e do thatcherismo, sejam seus predecessores e

retornassem, dessa forma, apenas às suas respectivas tradições do

mercado radical. Mas, na Europa continental, essas contra-reformas

encontravam ainda resistência. Ainda nos anos 1990, os modelos de

Estado de Bem-Estar francês e alemão, o assim chamado “capitalismo

renano”, eram considerados como uma alternativa à “revolução

neoliberal” anglo-saxã.

O processo de crise da terceira revolução industrial supera, contudo,

facilmente, todas as fronteiras nacionais, históricas e culturais. A

lógica geral capitalista repousa mais fundo do que qualquer “modelo”

político econômico específico. Mesmo o tão característico Estado do

Bem-Estar Social alemão, que parecia construído para a eternidade,

erodia-se irreversivelmente na era do chanceler conservador Helmut

Kohl, nos anos 80 e 90. Nesse período, o desemprego atingia sobretudo

as camadas menos qualificadas do mercado, pessoas de escolaridade

incompleta e trabalhadores de fábrica sem formação técnica.

Quando a coalização vermelho-verde do chanceler Gerhard Schröder

chegou ao comando, muitos acreditavam que o novo governo iria levar a

sério as velhas reivindicações da geração de 1968 e deter o desmonte

social, ou mesmo, em parte, revertê-lo. Mas foi exatamente o contrário

o que aconteceu. A coalização vermelho-verde revelou-se, diante de

renovados recordes de desemprego e sob a pressão da globalização,

precisamente como a vanguarda dos cortes mais radicais e extensivos já

empreendidos no sistema social.

Para se compreender o que está acontecendo na Alemanha, seria preciso

detalhar de maneira clara um pano de fundo social. O desemprego atinge

o país, como em outros centros capitalistas, cada vez mais: as camadas

“qualificadas”, técnicos, professores, assistentes sociais, advogados,

médicos e parte do pequeno empresariado. É a derrocada das “novas

classes médias”.

O desemprego crescente das camadas médias não pode mais ser amortecido

socialmente pelo Estado. A administração da crise capitalista obriga a

se lançar mão de todas as formas de poupança privada, herança e

patrimônio imobiliário; casas são leiloadas, melhores moradias têm que

ser abandonadas por um aluguel mais baixo. A “gordura fordista” é

consumida. Para dizer de maneira drástica: assim como no Terceiro

Mundo, uma grande parte das camadas qualificadas e da inteligência vai

sendo sucessivamente africanizada.

Uma minoria reduzida da sociedade fica insulada e, assim como nos

Estados Unidos e nas megalópoles do Terceiro Mundo, surgem também na

Alemanha aquelas perigosas “no go areas”, de um lado, e guetos de luxo,

de outro, com serviços privados de segurança, não apenas na capital

Berlim. A miséria atingiu uma dimensão como nunca se viu na história

alemã recente. E essa miséria, que sempre fora bem camuflada na

Alemanha, começa cada vez mais a mostrar sua face: desabrigados já não

passam mais despercebidos, bem como cada vez há mais crianças de rua.

Por aqui, reconhecemos os pobres sobretudo pelas roupas amarrotadas e

pelos dentes esburacados, já que o tratamento dentário e as obturações

foram cortados da lista dos benefícios cobertos pelo seguro médico

legal.

Na França e demais países da União Européia vão se consumando

processos similares. A miséria social e econômica transformou-se de

repente na grande crise da União Européia, cujo processo de integração

parecia até há pouco irreversível. Nesse ínterim, as maiorias sociais

empobrecidas e ameaçadas pela miséria enxergam no forte neoliberalismo

do Comissariado Europeu apenas o instrumento da globalização, por meio

do qual se destrói o bem-estar. Mas o “não” à Constituição neoliberal

da União Européia não tem nenhum conteúdo libertador. Ele foi, em

primeira linha, um retrocesso obstinado a posições racistas e

nacionalistas no mais fundo rincão do centro social. Não se trata aqui

da articulação de uma resistência social geral, mas de uma luta pelas

linhas de demarcação da exclusão social.

Em primeiro lugar, a classe média qualificada declinante não quer se

alinhar às camadas mais baixas e rebela-se em ser degradada ao nível

destas. Em segundo, a miséria nacional de todas as classes volta-se

contra os estrangeiros. Em terceiro, justamente entre acadêmicos e

técnicos qualificados, o descenso social exprime-se também como crise

da identidade masculina, que neles começa a se manifestar.

Neste clima reacionário em vez de emancipatório contra o

neoliberalismo, as fronteiras entre direita e esquerda tornam-se cada

vez mais fluidas. Uma dissidência de esquerda do Partido Social

Democrata, sob a égide de seu antigo chefe Oskar Lafontaine, hoje

fundida na mesma chapa ao Partido do Socialismo Democrático (PDS), que,

por sua vez, era a sigla redenominada do antigo Partido do Estado da

República Democrática Alemã, vem crescendo nas pesquisas de voto e tem

boas chances nas eleições antecipadas.

Mas não se sabe bem ao certo o quanto de direita existe nessa

esquerda. Lafontaine, com suas investidas contra os “trabalhadores

estrangeiros” (uma palavra do jargão nazista), está angariando cada vez

mais votos do espectro da direita radical hostil aos estrangeiros.

Segundo uma pesquisa sociológica publicada em junho de 2005, pelo menos

20% dos membros dos sindicatos pensam de maneira anti-semita e

nacionalista. Aquilo que para a esquerda tradicional vem sendo

denominado como o início de uma nova “luta de classes” é, em grande

parte, apenas a máscara do ódio da concorrência da classe média

declinante que se refugia no neochauvinismo da crise da identidade

masculina e no retorno à nostalgia nacional.

O declínio da Alemanha e a crise da União Européia devem oferecer ao

Sul globalizado uma imagem tenebrosa. A ilusão ótica de uma riqueza

durável e de um conforto pulverizam-se. Quanto mais o Terceiro Mundo se

faz visível no Primeiro Mundo, torna-se cada vez mais questionável a

orientação dos modelos sociais do centro capitalista. Não é mais o

Norte que mostra ao Sul seu modelo de desenvolvimento, mas exatamente o

contrário: o Sul mostra ao Norte o futuro da crise.

O mundo moderno do “trabalho abstrato” e da “riqueza abstrata” está à

disposição na crise mundial do século 21. Uma nova perspectiva

emancipatória para além do sistema de produção de mercadorias somente

poderá ser atingida quando as tendências observadas em todas as partes

a uma renacionalização ideológica forem radicalmente criticadas. O

liberalismo obstinado das classes globalizadas, de um lado, e a

nostalgia nacional das classes médias declinantes, por outro, não

constituem nenhuma alternativa aceitável.

Robert Kurz é sociólogo alemão, autor de “Os Últimos Combates”

(Vozes). Escreve regularmente na seção “Autores”, do Mais!.

Tradução de José Galisi Filho.

Fonte:http://www.listas.unicamp.br/pipermail/filosofiasudeste-l/2005-September/000268.html





Textos Agamben (Coletânea) – Dispositivo, Paradigma e Política

20 05 2008

Fonte: http://profanacoes.blogspot.com/search?q=agamben

QUÉ ES UN DISPOSITIVO – Giorigio Agamben

Las cuestiones terminológicas son importantes en filosofía. Como dijo una vez un filósofo por el que tengo la mayor estima, la terminología es el momento poético del pensamiento. Pero esto no significa que los filósofos necesariamente deban definir siempre sus términos técnicos. Platón nunca definió el más importante de sus términos: idea. Otros, en cambio, como Spinoza y Leibniz, prefieren definir more geometrico sus términos técnicos. Y no sólo los sustantivos, sino cualquier parte del discurso, para un filósofo, puede adquirir dignidad terminológica. Se ha señalado que, en Kant, el adverbio gleichwohl es usado como un terminus technicus. Así, en Heidegger, el guión en expresiones como in-der-Welt-sein tiene un evidente carácter terminológico. Y en el último escrito de Gilles Deleuze, La inmanencia: una vida…, tanto los dos puntos como los puntos suspensivos son términos técnicos, esenciales para la comprensión del texto.

La hipótesis que quiero proponerles es que la palabra “dispositivo”, que da el título a mi conferencia, es un término técnico decisivo en la estrategia del pensamiento de Foucault. Lo usa a menudo, sobre todo a partir de la mitad de los años setenta, cuando empieza a ocuparse de lo que llamó la “gubernamentalidad” o el “gobierno” de los hombres. Aunque, propiamente, nunca dé una definición, se acerca a algo así como una definición en una entrevista de 1977 (Dits et ecrits, 3, 299):

“Lo que trato de indicar con este nombre es, en primer lugar, un conjunto resueltamente heterogéneo que incluye discursos, instituciones, instalaciones arquitectónicas, decisiones reglamentarias, leyes, medidas administrativas, enunciados científicos, proposiciones filosóficas, morales, filantrópicas, brevemente, lo dicho y también lo no-dicho, éstos son los elementos del dispositivo. El dispositivo mismo es la red que se establece entre estos elementos.”

“…por dispositivo, entiendo una especie -digamos- de formación que tuvo por función mayor responder a una emergencia en un determinado momento. El dispositivo tiene pues una función estratégica dominante…. El dispositivo está siempre inscripto en un juego de poder”

“Lo que llamo dispositivo es mucho un caso mucho más general que la episteme. O, más bien, la episteme es un dispositivo especialmente discursivo, a diferencia del dispositivo que es discursivo y no discursivo”.

Resumamos brevemente los tres puntos:

1) Es un conjunto heterogéneo, que incluye virtualmente cualquier cosa, lo lingüístico y lo no-lingüístico, al mismo título: discursos, instituciones, edificios, leyes, medidas de policía, proposiciones filosóficas, etc. El dispositivo en sí mismo es la red que se establece entre estos elementos.
2) El dispositivo siempre tiene una función estratégica concreta y siempre se inscribe en una relación de poder.
3) Es algo general, un reseau, una “red”, porque incluye en sí la episteme, que es, para Foucault, aquello que en determinada sociedad permite distinguir lo que es aceptado como un enunciado científico de lo que no es científico.

Quisiera tratar de trazar, ahora, una genealogía sumaria de este término, primero dentro de la obra de Foucault y luego en un contexto histórico más amplio.
A finales de los años sesenta, más o menos en el momento en que escribe La arqueología del saber, y para definir el objeto de sus investigaciones, Foucault no usa el término dispositivo sino aquel, etimológicamente parecido, “positivité”, positividad. De nuevo sin definirlo.
Muchas veces me pregunté dónde hubiese encontrado Foucault este término, hasta el momento en que, no hace muchos meses, releí el ensayo de Jean Hyppolite, Introduction à la philosophie de Hegel. Ustedes probablemente conocen la estrecha relación que unía a Foucault con Hyppolite, a quien a veces define como “mi maestro” (Hyppolite fue efectivamente su profesor, primero, durante el Khâgne en el bachillerato Henri IV y, luego, en la École normal.
El capítulo tercero del ensayo de Hyppolite se titula: “Raison et histoire. Les idées de positivité et de destin”. Aquí, concentra su análisis en dos obras hegelianas del llamado período de Berna y Francfort, 1795-96: la primera es El espíritu del cristianismo y su destino y, la segunda – de donde proviene el términos que nos interesa –, La positividad de la religión cristiana (Die Positivität der chrisliche Religion). Según Hyppolite, “destino” y “positividad” son dos conceptos-clave del pensamiento hegeliano. En particular, el término “positividad” tiene en Hegel su lugar propio en la oposición entre “religión natural” y “religión positiva”. Mientras la religión natural concierne a la relación inmediata y general de la razón humana con lo divino, la religión positiva o histórica comprende el conjunto de las creencias, de las reglas y de los rituales que en cierta sociedad y en determinado momento histórico les son impuestos a los individuos desde el exterior. “Una religión positiva”, escribe Hegel en un paso que Hyppolite cita, “implica sentimientos, que son impresos en las almas mediante coerción, y comportamientos, que son el resultado de una relación de mando y obediencia y que son cumplidos sin un interés directo” (J.H., Introd. Seuil, Paris 1983, p.43).
Hyppolite muestra cómo la oposición entre naturaleza y positividad corresponde, en este sentido, a la dialéctica entre libertad y coerción, y entre razón e historia.
En un pasaje que no puede no haber suscitado la curiosidad de Foucault y que contiene algo más que un presagio de la noción de dispositivo, Hyppolite escribe: “Se ve aquí el nudo problemático implícito en el concepto de positividad, y los sucesivos intentos de Hegel para unir dialécticamente – una dialéctica que todavía no ha tomado conciencia de sí misma – la razón pura (teórica y, sobre todo, práctica) y la positividad, es decir, el elemento histórico. En cierto sentido, la positividad es considerada por Hegel como un obstáculo para la libertad humana, y como tal es condenada. Investigar los elementos positivos de una religión y, ya se podría añadir, de un estado social significa descubrir lo que en ellos es impuesto a los hombres mediante coerción, lo que opaca la pureza de la razón. Pero, en otro sentido, que en el curso del desarrollo del pensamiento hegeliano acaba prevaleciendo, la positividad tiene que ser conciliada con la razón, que pierde entonces su carácter abstracto y se adecua a la riqueza concreta de la vida. Se comprende, entonces, cómo el concepto de positividad está en el centro de las perspectivas hegelianas” (46).

Si “positividad” es el nombre que, según Hyppolite, el joven Hegel da al elemento histórico, con toda su carga de reglas, rituales e instituciones impuestas a los individuos por un poder externo, pero que es, por así decir, interiorizado en los sistemas de creencias y sentimientos; entonces, tomando en préstamo este término, que se convertirá más tarde en “dispositivo”, Foucault toma partido respecto de un problema decisivo y que es también su problema más propio: la relación entre los individuos como seres vivientes y el elemento histórico. Entendiendo con este término el conjunto de las instituciones, de los procesos de subjetivación y de las reglas en que se concretan las relaciones de poder. El objetivo último de Foucault, sin embargo, no es, como en Hegel, el de reconciliar los dos elementos. Y tampoco el de enfatizar el conflicto entre ellos. Se trata, para él, más bien, de investigar los modos concretos en que las positividades o los dispositivos actúan en las relaciones, en los mecanismos y en los “juegos” del poder.

Debería quedar claro, entonces, en qué sentido al inicio de esta conferencia propuse como hipótesis que el término “dispositivo” es un término técnico esencial del pensamiento de Foucault. No se trata de un término particular, que se refiera solamente a tal o a cual tecnología de poder. Es un término general, que tiene la misma amplitud que, según Hyppolite, el término “positividad” tiene para el joven Hegel y, en la estrategia de Foucault, viene a ocupar el lugar de aquellos que define, críticamente, como “los universales”, les universaux. Foucault, como saben, siempre rechazó ocuparse de esas categorías generales o entes de razón que llama “los universales”, como el Estado, la Soberanía, la Ley, el Poder. Pero esto no significa que no hay, en su pensamiento, conceptos operativos de carácter general. Los dispositivos son, precisamente, lo que en la estrategia foucaultiana ocupa el lugar de los Universales: no simplemente tal o cual medida de policía, tal o cual tecnología de poder y tampoco una mayoría conseguida por abstracción; sino, más bien, como dijo en la entrevista del 1977, “la red, el reseau, que se establece entre estos elementos.”

Tratemos de examinar, ahora, la definición del término “dispositivo” que se encuentra en los diccionarios franceses de empleo común. Éstos distinguen tres sentidos del término:

1) un sentido jurídico en sentido estricto: “el dispositivo es la parte de un juicio que contiene la decisión por oposición a los motivos”. Es decir: la parte de la sentencia (o de una ley) que decide y dispone.
2) un sentido tecnológico: “la manera en que se disponen las piezas de una máquina o de un mecanismo y, por extensión, el mecanismo mismo”.
3) un sentido militar: “el conjunto de los medios dispuestos conformemente a un plan”

Todos estos sentidos, los tres, están presentes de algún modo en el uso foucaultiano. Pero los diccionarios, en particular los que no tienen un carácter histórico-etimológico, funcionan dividiendo y separando los varios sentidos de un término. Esta fragmentación, sin embargo, generalmente corresponde al desarrollo y a la articulación histórica de un único sentido original, que es importante no perder de vista. En el caso del término “dispositivo”, ¿cuál es este sentido? Ciertamente, el término, tanto en el empleo común como en el foucaultiano, parece referir a la disposición de una serie de prácticas y de mecanismos (conjuntamente lingüísticos y no lingüísticos, jurídicos, técnicos y militares) con el objetivo de hacer frente a una urgencia y de conseguir un efecto. Pero, ¿en cuál estrategia de praxis o pensamiento, en qué contexto histórico se originó el término moderno?

En los últimos tres años, me introduje cada vez en una investigación de la que sólo ahora comienzo a entrever el final y que se puede definir, con cierta aproximación, como una genealogía teológica de la economía. En los primeros siglos de la historia de la Iglesia – digamos entre los siglos segundo y sexto – el término griego oikonomía desempeñó una función decisiva en la teología. Ustedes saben que oikonomía significa, en griego, la administración del oikós, de la casa y, más generalmente, gestión, management. Se trata, como dice Aristóteles, no de un paradigma epistémico, sino de una regla, de una actividad práctica, que tiene que enfrentar, cada vez, un problema y una situación particular. ¿Por qué los padres sintieron la necesidad de introducir este término en la teología? ¿Cómo se llegó a hablar de una economía divina?
Se trató, precisamente, de un problema extremadamente delicado y vital, quizás, si me permiten el juego de palabras, de la cuestión crucial de la historia de la teología cristiana: la Trinidad. Cuando, en el curso del segundo siglo, se empezó a discutir de una Trinidad de figuras divinas, el Padre, el Hijo y el Espíritu, hubo, como se podía espera, una fuerte resistencia dentro de la iglesia por parte de personas razonables que pensaron con espanto que, de este modo, se corría el riesgo de reintroducir el politeísmo y el paganismo en la fe cristiana. Para convencer a estos obstinados adversarios (que fueron finalmente definidos como “monarquianos”, es decir, partidarios de la unidad), teólogos como Tertulliano, Hipólito, Irineo y muchos otros no encontraron nada mejor que servirse del término oikonomía. Su argumento fue más o menos el siguiente: “Dios, en cuanto a su ser y a su substancia, es, ciertamente, uno; pero en cuánto a su oikonomía, es decir, en cuanto al modo en que administra su casa, su vida y el mundo que ha creado, él es, en cambio, triple. Como un buen padre puede confiarle al hijo el desarrollo de ciertas funciones y determinadas tareas, sin perder por ello su poder y su unidad, así Dios le confía a Cristo la “economía”, la administración y el gobierno de la historia de los hombres. El término oikonomía se fue así especializado para significar, en particular, la encarnación del Hijo, la economía de la redención y la salvación (por ello, en algunas sectas gnósticas, Cristo terminó llamándose “el hombre de la economía”, ho ánthropos tês oikonomías. Los teólogos se acostumbraron poco a poco a distinguir entre un “discurso – o lógos – de la teología” y un “lógos” de la economía, y la oikonomía se convirtió así en el dispositivo mediante el cual fue introducido el dogma trinitario en la fe cristiana.
Pero, como a menudo ocurre, la fractura, que, de este modo, los teólogos trataron de evitar y de remover de Dios en el plano del ser, reapareció con la forma de un cesura que separa, en Dios, ser y acción, ontología y praxis. La acción, la economía, pero también la política no tiene ningún fundamento en el ser. Ésta es la esquizofrenia que la doctrina teológica de la oikonomía dejó en herencia a la cultura occidental.

A través de esta resumida exposición, pienso que se han dado cuenta de la centralidad y de la importancia de la función que desempeñó la noción de oikonomía en la teología cristiana. Ahora bien, ¿cuál es la traducción de este fundamental término griego en los escritos de los padres latinos? Dispositio.
El término latino dispositio, del que deriva nuestro término “dispositivo”, viene pues a asumir en sí toda la compleja esfera semántica de la oikonomía teológica. Los “dispositivos” de los que habla Foucault están conectados, de algún modo, con esta herencia teológica. Pueden ser vinculados, de alguna manera, con la fractura que divide y, al mismo tiempo, articula, en Dios, el ser y la praxis, la naturaleza o esencia y el modo en que él administra y gobierna el mundo de las criaturas.
A la luz de esta genealogía teológica, los dispositivo foucaultianos adquieren una importancia todavía más decisiva, en un contexto en el que ellos no sólo se cruzan con la “positividad” del joven Hegel, sino también con la Gestell del último Heidegger, cuya etimología es afín a la de dis-positio, dis-ponere (el alemán stellen corresponde al latino ponere). Común a todos este términos es la referencia a una oikonomía, es decir, a un conjunto de praxis, de saberes, de medidas, de instituciones, cuyo objetivo es administrar, gobernar, controlar y orientar, en un sentido que se supone útil, los comportamientos, los gestos y los pensamientos de los hombres.

Uno de los principios metodológicos que sigo constantemente en mis investigaciones es localizar, en los textos y en los contextos en que trabajo, el punto de su Entwicklungsfähigkeit, como dijo Feuerbach, es decir, el punto en que ellos son susceptibles de desarrollo. Sin embargo, cuando interpretamos y desarrollamos en este sentido el texto de un autor, llega el momento en que empezamos a darnos cuenta de no poder ir más allá sin contravenir a las reglas más elementales de la hermenéutica. Esto significa que el desarrollo del texto en cuestión ha alcanzado un punto de indecibilidad en el que se hace imposible distinguir entre el autor y el intérprete. Aunque, para el intérprete, sea un momento particularmente feliz, él sabe que éste es el momento para abandonar el texto que está analizando y para proceder por cuenta propia.
Los invito, por ello, a abandonar el contexto de la filología foucaultiana en la que nos hemos movido hasta ahora y a situar los dispositivos en un nuevo contexto.
Les propongo nada menos que una repartición general y maciza de lo que existe en dos grandes grupos o clases: de una parte los seres vivientes o las substancias y, de la otra, los dispositivos en los que ellos están continuamente capturados. De una parte, esto es, para retomar la terminología de los teólogos, la ontología de las criaturas y de la otra la oikonomía de los dispositivos que tratan de gobernarlas y conducirlas hacia el bien.
Generalizándola ulteriormente la ya amplísima clase de los dispositivos foucaultianos, llamaré literalmente dispositivo cualquier cosa que tenga de algún modo la capacidad de capturar, orientar, determinar, interceptar, modelar, controlar y asegurar los gestos, las conductas, las opiniones y los discursos de los seres vivientes. No solamente, por lo tanto, las prisiones, los manicomios, el panóptico, las escuelas, la confesión, las fábricas, las disciplinas, las medidas jurídicas, etc., cuya conexión con el poder es en cierto sentido evidente, sino también la lapicera, la escritura, la literatura, la filosofía, la agricultura, el cigarrillo, la navegación, las computadoras, los celulares y – por qué no – el lenguaje mismo, que es quizás el más antiguo de los dispositivos, en el que millares y millares de años un primate – probablemente sin darse cuenta de las consecuencias que se seguirían – tuvo la inconciencia de dejarse capturar.

Resumiendo, tenemos así dos grandes clases, los seres vivientes o las sustancias y los dispositivos. Y, entre los dos, como un tercero, los sujetos. Llamo sujeto a lo que resulta de la relación o, por así decir, del cuerpo a cuerpo entre los vivientes y los aparatos. Naturalmente las sustancias y los sujetos, como en la vieja metafísica, parecen superponerse, pero no completamente. En este sentido, por ejemplo, un mismo individuo, una misma sustancia, puede ser el lugar de múltiples procesos de subjetivación: el usuario de celulares, el navegador en Internet, el escritor de cuentos, el apasionado de tango, el no-global, etc., etc. A la inmensa proliferación de dispositivos que define la fase presente del capitalismo, hace frente una igualmente inmensa proliferación de procesos de subjetivación. Ello puede dar la impresión de que la categoría de subjetividad, en nuestro tiempo, vacila y pierde consistencia, pero se trata, para ser precisos, no de una cancelación o de una superación, sino de una diseminación que acrecienta el aspecto de mascarada que siempre acompañó a toda identidad personal.

No sería probablemente errado definir la fase extrema del desarrollo capitalista que estamos viviendo como una gigantesca acumulación y proliferación de dispositivos. Ciertamente, desde que apareció el homo sapiens hubo dispositivos, pero se diría que hoy no hay un solo instante en la vida de los individuos que no esté modelado, contaminado o controlado por algún dispositivo. ¿De qué manera podemos enfrentar, entonces, esta situación? ¿Qué estrategia debemos seguir en nuestro cuerpo a cuerpo cotidiano con los dispositivos? No se trata sencillamente de destruirlos ni, como sugieren algunos ingenuos, de usarlos en el modo justo.
Por ejemplo, viviendo en Italia, es decir en un país en el que los gestos y los comportamientos de los individuos han sido remodelados de cabo a rabo por los teléfonos celulares (llamados familiarmente “telefonino”, telefonito), yo he desarrollado un odio implacable por este aparato que ha hecho aún más abstractas las relaciones entre las personas. No obstante me haya sorprendido a mí mismo, muchas veces, pensando cómo destruir o desactivar los “telefonitos” y cómo eliminar o, al menos, castigar y encarcelar a los que hacen uso de ellos; no creo que ésta sea la solución apropiada para el problema.
El hecho es que, con toda evidencia, los dispositivos no son un accidente en el que los hombres hayan caído por casualidad, sino que tienen su raíz en el mismo proceso de “hominización” que ha hecho “humanos” a los animales que clasificamos con la etiqueta de homo sapiens. El acontecimiento que produjo lo humano constituye, en efecto, para el viviente, algo así como una escisión que lo separa de él mismo y de la relación inmediata con su entorno, es decir, con lo que Uexkühl y, después de de él, Heidegger llaman el círculo receptor-desinhibidor. Partiendo o interrumpiendo esta relación, se ocasionan para el viviente el tedio – es decir, la capacidad de suspender la relación inmediata con los desinhibidores – y lo Abierto, esto es, la posibilidad de conocer el ente en cuanto ente, de construir un mundo. Pero, con estas posibilidades, también es dada la posibilidad de los dispositivos que pueblan lo Abierto con instrumentos, objetos, gadgets, baratijas y tecnologías de todo tipo. Mediante los dispositivos, el hombre trata de hacer girar en el vacío los comportamientos animales que se han separado de él y de gozar así de lo Abierto como tal, del ente en cuanto ente. A la raíz de cada dispositivo está, entonces, un deseo de felicidad. Y la captura y la subjetivación de este deseo en una esfera separada constituye la potencia específica del dispositivo.

Esto significa que la estrategia que tenemos que adoptar en nuestro cuerpo a cuerpo con los dispositivos no puede ser simple. Ya que se trata de nada menos que de liberar lo que ha sido capturado y separado por los dispositivos para devolverlo a un posible uso común. En esta perspectiva, quisiera hablarles ahora de un concepto sobre el que me tocó trabajar recientemente. Se trata de un término que proviene de la esfera del derecho y la religión romana (derecho y religión están estrechamente conectados, no sólo en Roma): profanación.

Los juristas romanos sabían perfectamente qué significaba “profanar”.
Sagradas o religiosas eran las cosas que pertenecían de algún modo a los dioses. Como tales, ellas eran sustraídas al libre uso y al comercio de los hombres, no podían ser vendidas ni dadas en préstamo, cedidas en usufructo o gravadas de servidumbre. Sacrílego era todo acto que violara o infringiera esta especial indisponibilidad, que las reservaba exclusivamente a los dioses celestes (y entonces eran llamadas propiamente “sagradas”) o infernales (en este caso, se las llamaba simplemente “religiosas”). Y si consagrar (sacrare) era el término que designaba la salida de las cosas de la esfera del derecho humano, profanar significaba por el contrario restituir al libre uso de los hombres. “Profano –escribe el gran jurista Trebacio– se dice en sentido propio de aquello que, habiendo sido sagrado o religioso, es restituido al uso y a la propiedad de los hombres”. Y “puro” era el lugar que había sido desligado de su destinación a los dioses de los muertos, y por lo tanto ya no era más “ni sagrado, ni santo, ni religioso, y quedaba así liberado de todos los nombres de este género” (D. 11, 7, 2).
Pura, profana, libre de los nombres sagrados es la cosa restituida al uso común de los hombres. Pero el uso no aparece aquí como algo natural: a él se accede solamente a través de una profanación. Entre “usar” y “profanar” parece haber una relación particular, que es preciso poner en claro.

Es posible definir la religión como aquello que sustrae cosas, lugares, animales o personas del uso común y los transfiere a una esfera separada. No sólo no hay religión sin separación, sino que toda separación contiene o conserva en sí un núcleo auténticamente religioso. El dispositivo que realiza y regula la separación es el sacrificio: a través de una serie de rituales minuciosos, según la variedad de las culturas, que Hubert y Mauss han pacientemente inventariado, el sacrificio sanciona el pasaje de algo que pertenece al ámbito de lo profano al ámbito de lo sagrado, de la esfera humana a la divina. En este pasaje es esencial la cesura que divide las dos esferas, el umbral que la víctima tiene que atravesar, no importa si en un sentido o en el otro. Lo que ha sido ritualmente separado, puede ser restituido por el rito a la esfera profana. Una de las formas más simples de profanación se realiza así por contacto (contagione) en el mismo sacrificio que obra y regula el pasaje de la víctima de la esfera humana a la esfera divina. Una parte de la víctima (las vísceras, exta: el hígado, el corazón, la vesícula biliar, los pulmones) es reservada a los dioses, mientras que lo que queda puede ser consumido por los hombres. Es suficiente que los que participan en el rito toquen estas carnes para que ellas se conviertan en profanas y puedan ser simplemente comidas. Hay un contagio profano, un tocar que desencanta y restituye al uso lo que lo sagrado había separado y petrificado.

El pasaje de lo sagrado a lo profano puede, de hecho, darse también a través de un uso (o, más bien, un reuso) completamente incongruente de lo sagrado. Se trata del juego. Es sabido que la esfera de lo sagrado y la esfera del juego están estrechamente conectadas. La mayor parte de los juegos que conocemos deriva de antiguas ceremonias sagradas, de rituales y de prácticas adivinatorias que pertenecían tiempo atrás a la esfera estrictamente religiosa. La ronda fue en su origen un rito matrimonial; jugar con la pelota reproduce la lucha de los dioses por la posesión del sol; los juegos de azar derivan de prácticas oraculares; el trompo y el tablero de ajedrez eran instrumentos de adivinación. Analizando esta relación entre juego y rito, Emile Benveniste ha mostrado que el juego no sólo proviene de la esfera de lo sagrado, sino que representa de algún modo su inversión. La potencia del acto sagrado –escribe Benveniste– reside en la conjunción del mito que cuenta la historia y del rito que la reproduce y la pone en escena. El juego rompe esta unidad: como ludus, o juego de acción, deja caer el mito y conserva el ritual; como jocus, o juego de palabras, elimina el rito y deja sobrevivir el mito. “Si lo sagrado se puede definir a través de la unidad consustancial del mito y el rito, podremos decir que se tiene juego cuando solamente una mitad de la operación sagrada es consumada, traduciendo solamente el mito en palabras y el rito en acciones”.
Esto significa que el juego libera y aparta a la humanidad de la esfera de lo sagrado, pero sin simplemente abolirla. El uso al cual es restituido lo sagrado es un uso especial, que no coincide con el consumo utilitario. La “profanación” del juego no atañe, en efecto, sólo a la esfera religiosa. Los niños, que juegan con cualquier trasto viejo que encuentran, transforman en juguete aun aquello que pertenece a la esfera de la economía, de la guerra, del derecho y de las otras actividades que estamos acostumbrados a considerar como serias. Un automóvil, un arma de fuego, un contrato jurídico se transforman de golpe en juguetes. Lo que tienen en común estos casos con los casos de profanación de lo sagrado es el pasaje de una religio, que es sentida ya como falsa y opresiva, a la negligencia como verdadera religio. Y esto no significa descuido (no hay atención que se compare con la del niño mientras juega), sino una nueva dimensión del uso, que niños y filósofos entregan a la humanidad. Se trata de un tipo de uso como el que debía tener en mente Walter Benjamin, cuando escribió, en El nuevo abogado, que el derecho nunca aplicado sino solamente estudiado, es la puerta de la justicia. Así como la religio, no ya observada, sino jugada, abre la puerta del uso, las potencias de la economía, del derecho y de la política, desactivadas en el juego, se convierten en la puerta de una nueva felicidad.

El capitalismo como religión es el título de uno de los más penetrantes fragmentos póstumos de Benjamin. Según Benjamin, el capitalismo no representa sólo, como en Weber, una secularización de la fe protestante, sino que es él mismo esencialmente un fenómeno religioso, que se desarrolla en modo parasitario a partir del Cristianismo. Como tal, como religión de la modernidad, está definido por tres características: 1) Es una religión cultual, quizá la más extrema y absoluta que haya jamás existido. Todo en ella tiene significado sólo en referencia al cumplimiento de un culto, no respecto de un dogma o de una idea. 2) Este culto es permanente, es “la celebración de un culto sans trêve et sans merci”. Los días de fiesta y de vacaciones no interrumpen el culto, sino que lo integran. 3) El culto capitalista no está dirigido a la redención ni a la expiación de una culpa, sino a la culpa misma. “El capitalismo es quizás el único caso de un culto no expiatorio, sino culpabilizante… Una monstruosa conciencia culpable que no conoce redención se transforma en culto, no para expiar en él su culpa, sino para volverla universal… y para capturar finalmente al propio Dios en la culpa… Dios no ha muerto, sino que ha sido incorporado en el destino del hombre”.
Precisamente porque tiende con todas sus fuerzas no a la redención, sino a la culpa; no a la esperanza, sino a la desesperación, el capitalismo como religión no mira a la transformación del mundo, sino a su destrucción. Y su dominio es en nuestro tiempo de tal modo total, que aun los tres grandes profetas de la modernidad (Nietzsche, Marx y Freud) conspiran, según Benjamin, con él; son solidarios, de alguna manera, con la religión de la desesperación. “Este pasaje del planeta hombre a través de la casa de la desesperación en la absoluta soledad de su recorrido es el éthos que define Nietzsche. Este hombre es el Superhombre, esto es, el primer hombre que comienza conscientemente a realizar la religión capitalista”. Pero también la teoría freudiana pertenece al sacerdocio del culto capitalista: “Lo reprimido, la representación pecaminosa… es el capital, sobre el cual el infierno del inconsciente paga los intereses”. Y en Marx, el capitalismo “con los intereses simples y compuestos, que son función de la culpa… se transforma inmediatamente en socialismo”.

Tratemos de proseguir las reflexiones de Benjamin en la perspectiva que aquí nos interesa. Podremos decir, entonces, que el capitalismo, llevando al extremo una tendencia ya presente en el cristianismo, generaliza y absolutiza en cada ámbito la estructura de la separación que define la religión. Allí donde el sacrificio señalaba el paso de lo profano a lo sagrado y de lo sagrado a lo profano, ahora hay un único, multiforme, incesante proceso de separación, que inviste cada cosa, cada lugar, cada actividad humana para dividirla de sí misma y que es completamente indiferente a la cesura sacro/profano, divino/humano. En su forma extrema, la religión capitalista realiza la pura forma de la separación, sin que haya nada que separar. Una profanación absoluta y sin residuos coincide ahora con una consagración igualmente vacua e integral. Y como en la mercancía la separación es inherente a la forma misma del objeto, que se escinde en valor de uso y valor de cambio y se transforma en un fetiche inaprensible, así ahora todo lo que es actuado, producido y vivido –incluso el cuerpo humano, incluso la sexualidad, incluso el lenguaje– son divididos de sí mismos y desplazados en una esfera separada que ya no define alguna división sustancial y en la cual cada uso se vuelve duraderamente imposible. Esta esfera es el consumo. Si, como ha sido sugerido, llamamos espectáculo a la fase extrema del capitalismo que estamos viviendo, en la cual cada cosa es exhibida en su separación de sí misma, entonces espectáculo y consumo son las dos caras de una única imposibilidad de usar. Lo que no puede ser usado es, como tal, consignado al consumo o a la exhibición espectacular. Pero eso significa que profanar se ha vuelto imposible (o, al menos, exige procedimientos especiales). Si profanar significa devolver al uso común lo que fue separado en la esfera de lo sagrado, la religión capitalista en su fase extrema apunta a la creación de un absolutamente Improfanable.

Segunda-feira, 3 de Setembro de 2007

What is a paradigm?

A obra de Giorgio Agamben tem sido recebida, no geral, com uma série de aporias sobre o significado de determinadas figuras que asssumem uma função central em seu pensamento. Assim, o homo sacer, o testemunho do Muselmann em Auschwitz etc. A afirmação do autor de que referidas figuras são paradigmas leva à necessidade de se procurar compreender o significado mesmo de paradigma em sua metodologia de trabalho, principalmente a estrutura para-ontológida do exemplo, sinônimo de paradigma para o autor. Neste sentido, a leitura feita em agosto de 2002 na European Graduate School é muito importante.

“What is a Paradigm?”
A lecture by Giorgio Agamben,
August 2002

Agamben: This title “What is a Paradigm” seems to suggest that my presentation will focus on epistemological and methodological questions. I do not feel at all it is about these questions, I don’t like these kind of problems, I always have the impression, as once Heidegger put it, that we have here people busy sharpening knives when there is nothing left to cut. But in the life of a scholar there comes a time when methodological premises become necessary. As a matter of fact, in two recent books I have analyzed figures and phenomena such as Homo Sacer in Roman law or der Musslemen in Auschwitz which are obviously propositive historical phenomena. However, in my books they were treated as paradigms whose function was to establish and make intelligible a wider set of problems. This brought about some misunderstanding, especially amongst those persons who in good or in bad faith seemed to think that I was illegitimately acting as a historian, using facts as metaphors and vice versa. Anyway we all make use of paradigms in our work, but do we really know what a paradigm is, and what does it mean to use a paradigm in philosophy, in the human sciences, or even in art? These are the questions I will try to answer today. Feuerbach once wrote that the philosophical element in each work is its Entvicklungsfahigkeit, literally, its capability to be developed. If a work, be it a work of science or art or scholarship has some value, it will contain this philosophical element. It is something which remains unsaid within the work but which demands to be unfolded and worked out. By the way I think this is a very good definition of philosophy. Philosophy has no specificity, no proper territory, it is within literature, within art or science or theology or whatever, it is this element which contains a capability to be developed. In a sense philosophy is scattered in every territory. It is always a diaspora, and must recollected and gathered up. In any case this is the way I like to work, to try to discover this philosophical element, this Entvicklungsfahigkeit, in the work of the author I like. This philosophical element, to use Benjamin’s words, is similar to the fragment of messianic time scattered and disseminated in the profane time. This is the only meaning I can give to Schleiermacher’s famous hermeneutic principle: to understand an author better than he has understood himself. To me this can only mean to find the Entvichlungsfahigkeit in his work. But then you must never forget the hermeneutic principle that Coleridge states in chapter twelve of his “Biographia Litteraria”: until you understand a writer’s ignorance, presume yourself ignorant of his understanding. Ignorance stands here as what the author had to leave unsaid, undeveloped, or as a potential. This ignorance names the supreme art of writing, to allow something to remain as a potential so the reader can develop it and eventually bring it to actuality. Michel Foucault uses the word “paradigm” many times in his writings, but without ever defining it. On the other hand, in the “Archeology of Knowledge”, and in subsequent books, he names the objects of his investigation, in order to distinguish them from the objects of historians, “knowledge embedded in a practice”. The analogy between these concepts and what Kuhn in his book on the structure of scientific revolution calls “paradigms” has already been observed. Even though Foucault never thematizes the function of the paradigm, according to Dreyfus and Rabinow “it is clear that his work follows an orientation which makes use of these notions. His method consists in describing a discourse as historical articulations of a paradigm.” Yet Foucault who declares that he read Kuhn’s book, which he describes as “admirable” and “definitive”, very rarely refers to it, and seems even explicitly to keep a distance from it. So we have then first to check if this apparent analogy between these two methodologists corresponds in reality to different problems and different strategies. Kuhn acknowledges having used the term “paradigm” in two different meanings. In the first one, “paradigm” designates what the members of a certain scientific community have in common, that is to say, the whole of techniques, patents and values shared by the members of the community. In the second sense, the paradigm is a single element of a whole, say for instance Newton’s Principia, which, acting as a common model or an example, paradigm means simply “example”, as you know, stands for the explicit rules and thus defines a coherent tradition of investigation. Thus the question is for Kuhn to investigate by means of the paradigm what makes possible the constitution of what he calls a “normal science”. That is to say, the science which can decide if a certain problem will be considered scientific or not. Normal science does not mean at all a science guided by a coherent system of rules, on the contrary, the rules can be derived from the paradigms, but the paradigms can guide the investigation also in the absence of rules. This is precisely the second meaning of the term “paradigm”, which Kuhn considered the most new and profound, though it is in truth the oldest. The paradigm is in this sense just an example, a single phenomenon, a singularity, which can be repeated and thus acquires the capability of tacitly modeling the behavior and the practice of scientists. So in writing that the paradigm can guide the investigation also in the absence of rules and laws, Kuhn probably refers implicitly to the Kantian doctrine of the example in the third Critique, in paragraph eighteen. This is the first example I make of a philosopher trying to define the example. Kant refers to the exemplarity of the aesthetic judgment which needs the agreement of all men in the judgment, and which can be seen as a example of a universal rule which cannot be stated. So the example is the example of a rule which cannot be stated. The example, according to Kant, refers to an absent or unsayable law, and yet it does not dare to free completely the example from the empire of the law, of the rule. That’s why in the “Critique of Pure Reason” he writes that “examples are the crutches and the leading strings of a weak judgment. By a judgment I mean that which can only understand the universal in abstractum and is unable to decide whether a concrete case is covered or not by the law.” So here you have the bad side of Kant. I think that the concept of law is really the weak point in Kant’s thought. Remember Deleuze showing how Kant has this obsession with instituting tribunals, making the law function. What I will try to do, on the contrary, is to show that the logic of the example has nothing to do with the universality of the law. Let’s go back to Foucault. It has often been observed that Foucault deliberately ignores the traditional approach to the problems of power founded on juridical and institutional models in order to concentrate on the analysis of the positive device through which power gets into the very bodies of the subjects to govern and form their forms of life. The analogy with Kuhn again is striking. Just as Kuhn dismisses the investigation of the rules which constitute a normal science in order to focus on the paradigms which guide the behavior of scientists, Foucault seems to reject the primacy of the juridical and institutional models to emphasize the techniques by which the state takes upon itself the care of the life of individuals. So why then does Foucault seem to carefully avoid not only Kuhn’s name but also the term “paradigm” when he is reflecting on epistemological questions? Did he have some personal reason for it? As a matter of fact, in 1971, someone wrote in the New York Times an aggressive review under the title “The Mandarin of the Hour, Michel Foucault”. It was probably a very stupid enterprise, but the author was no stupid man, being none other than George Steiner. But sometimes even intelligent men make mistakes or faux pas, and this was certainly a big mistake. Anyway Foucault who at the time ignored even the name of George Steiner and thought he was just a journalist, wrote an ironic and equally aggressive reply. George Steiner wrote in turn his reply, which was followed by even more ironic response from Foucault. Steiner accused Foucault of not having mentioned Kuhn’s name in his book. Foucault explained that he read Kuhn’s book in winter of ’63-’64 after having written it. In the preface to his book Kuhn acknowledges his debt to two French epistemologists, Courier and Meyerson, his never mentions Kandellam. This is just a hypothesis, but it is possible that Foucault, who was closely linked to Kandellam, avoiding any reference to Kuhn’s name was simply paying him back for his impoliteness. But although Foucault was certainly sensible to personal and friendly motivations, it is evident that the reason for his silence cannot be only of this kind. So let us have a closer look at the way that the paradigm functions in Foucault. Let’s take the panopticon. What we have here is first of all a single historical phenomenon, a peculiar architectonic model described by Jeremy Bentham published in Dublin in 1791, under the title “Panopticon, or the Inspection House, Containing the Idea of a New Principle of Construction…etc, etc,” I suppose you are familiar with the panopticon which will then become a kind of archetype of institutions like prisons. Foucault describes the panopticon and then says you have only to put a guard or a watchman in the central tower, and in each cell a prisoner, a madman, or even a student, and you will produce a kind a theater where a single person can watch and control a multitude of men. So, the panopticon is a concrete, singular, historical phenomenon, but for Foucault at the same time the panopticon is, as he writes, “panoptism”. That is so say, a model of functioning which can be generalized, which allows the definition and establishment of new sets in the relationship between power and the everyday life of man. From this point of view the panopticon is no more simply a dreamlike building but also the diagram of a mechanism of power in its ideal form. This means that the panopticon functions as a paradigm, as an example which defines the intelligibility of the set to which it belongs and at the same time which it constitutes. Foucault always works in this way. There is always a concrete phenomenon – the confession, the juridical inquiry, etc, which functions as a paradigm, because it will decide a whole problematic context which it both constitutes and makes intelligible. This is what distinguishes Foucault’s work from the work of a historian. It has often been observed that Foucault as a historian has shown the superiority of contexts created through metaphors to the context created by chronological or geographical caesuras, that is to say, by metonymical contexts. Following work by Marc Bloch and Lucien Fevre, Foucault has freed history from the tyranny of metonymical context, for example, “France in the seventeenth century”, to give back to metaphorical contexts their primacy. I am convinced that the primacy of the metaphorical context is correct. In order to have the appearance of rigor of seriousness, academic disciplines which have no epistemological status, such as those in the humanities, specialize in a chronological context, for example “Eighteenth-century German literature”. This is really ridiculous, because the century is just a convention for measuring which has no reality at all. It’s also very recent, because the use of the concept of century came into popularity only after the French Revolution. The apparent seriousness of metonymical contexts, like the chronological and geographical, have no epistemological basis at all. Let me now try to describe the logic of the paradigm. Usually scholars refer to Foucault’s methods as “metaphorical”-this isn’t true, it’s just the paradigm. Let’s try to describe this logic which is, so to speak, a forgotten chapter, or even a better a displaced concept in the history of Western philosophy. Moreover, the problem of the paradigm is strictly linked to the problem of analogy, whose relations to logic have always been controversial. So the locus classicus for the epistemological problem of the paradigm is Aristotle’s Analytica Prioria. Philosophy very rarely refers to the problems of paradigm and analogy; Aristotle is perhaps the first, however briefly. Aristotle says that the paradigm, the example, does not concern a part with respect to the whole, nor the whole with respect to the part, it concerns a part with respect to the part. This is a very interesting definition. This means that the paradigm does not move from the particular to the universal, nor from the universal to the particular, but from the particular to the particular. In other words, we first have deduction which goes from the universal to the particular, we have induction which goes from the particular to the universal and then the third we have the paradigm and the analogy which go from the particular to the particular. But what does this mean? What kind of movement is this, and how can a paradigm, which is a singularity, create a new analogical context, a new generality, as we saw in Foucault? To understand how a paradigm works, we first have to neutralize traditional philosophical oppositions such as universal and particular, general and individual, and even also form and content. The paradigm analogy is depolar and not dichotomic, it is tensional and not oppositional. It produces a field of polar tensions which tend to form a zone of undecidability which neutralizes every rigid opposition. We don’t have here a dichotomy, meaning two zones or elements clearly separated and distinguished by a caesura, we have a field where two opposite tensions run. The paradigm is neither universal nor particular, neither general nor individual, it is a singularity which, showing itself as such, produces a new ontological context. This is the etymological meaning of the word paradigme in Greek, paradigme is literally “what shows itself beside.” Something is shown beside, “para”. Yet Aristotle’s treatment of the paradigm is in a way inadequate, though he had these beautiful ideas of the paradigm as going from the particular to the particular, he does not seem to develop this point and like Kant still sticks to the idea that the individuals concerned in the example belong to the same genus. Thus in the “Rhetorics”, 1357b, he writes that the two singularities in the paradigm are under the same genus. But then he has a very enigmatic statement immediately afterwards: “But only one of them is more knowable than the other.” It’s a very interesting point. The important thing is not that the two are homogenous but precisely that one is more knowable. Why is the example, the paradigm, more knowable? What is the sense of this excess of knowability? So we have now to leave Aristotle for the second locus classicus of the problem of paradigm in Greek philosophy, Plato’s “Statesman”. This will also allow us to identify a possible direct source for Foucault’s conception of paradigm. As a matter of fact, in 1947, Victor Goldschimdt, an extraordinary French historian of Greek philosophy, published “The Paradigm in Plato’s Dialectics”. As it often happens in Goldschimdt’s writings, who was a kind of genius in his field, the analysis of an apparently minor problem such as the paradigm sheds a completely new light on the whole of Plato’s philosophy, specifically the relation between the Idea and the Phenomenon. The starting point of Goldschimdt is another book by another historian who noticed the peculiar structure of Plato’s Dialogues and his use of the example/paradigm. Sometimes the Idea acts as a paradigm for sensible things, but sometimes it is the sensible thing that acts as a paradigm for the Idea. The fact is so embarrassing that you can often find the paradigm translated with two different words in two different instances, which is absurd. Goldschimdt analyses a passage in the “Statesmen” where a sensible paradigm, the art of weaving, must lead to the understanding of the Idea of the Statesmen, as a politician. What the example the paradigm and the phenomenon have in common is not substance or a kind of common material element. What they have in common according to Goldschmidt is just a relationship, it is itself a relationship that we have to grasp – which kind of relationship and between what. Goldschimdt shows that in the paradigm, the generality or the idea does not result from a logic consequence by means of induction from the exhaustive enumeration of the individual cases. Rather it is produced by the comparison by only one paradigm, one singular example, with the object or class that the paradigm will make intelligible. The paradigmatic relation does not occur between a plurality of singular objects or between a singular object, and the general principle or law which is exterior to it, the paradigm is not already given, but instead the singularity becomes a paradigm – Plato says it becomes a paradigm by being shown beside the others. Thus the paradigmatic relationship takes place between the single phenomenon and its intelligibility. The paradigm is a singularity considered in the medium of its knowability. What makes something intelligible is the paradigmatic exhibition of its own knowability. Aristotle said the example is “more knowable”. So the relation that an example and an object have in common is the exhibition if this knowability. Let’s make an example, using the simplest case – the grammatical paradigm.

Grammar is built by means of paradigm – you don’t have grammar if you don’t have paradigms. Let’s take for instance the Latin term rosa. Rose. By means of its paradigmatic exhibition, as an example, it is suspended from its immediate denotative character, and in this way it makes possible the constitution and intelligibility of a more general set, “feminine noun of the first declination”, of which it is both member and paradigm. It acts as a paradigm for the intelligibility of the set. It’s a very important point to observe this neutralization of reference which defines the example. For instance, I say “I swear” as an example of the performative. In order to give an example of the syntagm, “I swear” cannot be understood in the normal context as an oath and yet must be treated as a real utterance in order to be taken as a example. This is the paradoxical status of the example. What an example shows is its belonging to a class, but for this very reason, it steps out of this class at the very moment in which it exhibits and defines it. Showing its belonging to a class, it steps out from it and is excluded. So, does the rule apply to the example? It’s very difficult to answer. The answer is not easy since the rule applies to the example only as a normal case and not as an example. The example is excluded from the normal case not because it does not belong to it but because it exhibits its own belonging to it. In way, it is the reverse case of the exception. If we define the exception as an inclusive exclusion, in which something is included by means of its exclusion, the example functions as an exclusive inclusion. Something is excluded by means of its very inclusion. So we have now from this short analysis three characters which define exemplarity. First, from Aristotle, the example moves from a singularity towards a singularity. Second, the example is more knowable. Third, the exemplary or paradigmatic relationship takes place between a phenomenon and its own intelligibility or knowability. Now, in Plato, the proper place for paradigms is dialectics. For Plato in dialectics the paradigm shows the very relationship between the sensible and the intelligible. Let’s try to grasp how the paradigm functions in dialectics. A real crucial problem in the interpretation of Plato’s philosophy is the exposition of the dialectical method n the sixth book of the Republic. Immediately before the allegory of the cave there is the famous passage which has always been considered an obscure and difficult problem. My claim or my suggestion is that this very difficult passage becomes clearer if we read it as an exposition of the paradigmatic method. Here Plato distinguishes two stages or two degrees in the production of science which he describes as two segments on a straight line. The first segment defines the method of what he calls geometra, and those who practice science of this kind, mathematicians. According to Plato this method is founded on hypothesis or presupposition. The term “hypothesis” in Greek means, literally, “presupposition”. So I quote: “Geometers presuppose or hypothesize odd or even, the various schema or geometric figures, the types of angles, and other things of the same kind, and they treat them as if they were already known and thus, making hypotheses out of them, they presume they do not have to give account of them, as if they were evident. Thus, starting from them, they reach the point they intend to investigate.” In the second segment, describing the second scientific method for the production of science which for Plato defines dialectics, “Language itself grasps by means of dialectic power, treating the hypothesis not as principles or origins but truly as hypotheses. That is to say, steps in order to reach the non-presupposed principle”. It’s a very beautiful concept Plato describes here, a principle not presupposed. So what does this mean, to treat a hypothesis truly as a hypothesis? A very interesting concept, you have to reach a principle you have not presupposed. If you remember, the intelligibility of the paradigm is never presupposed, on the contrary, the specificity of the paradigm resides precisely in the suspension of its immediate factual reference and in the exhibition of its intelligibility as such in order to give life to a new problematic context. Perhaps to treat the hypothesis truly as a hypothesis and not as a principle may simply mean to treat them as paradigms. The paradigm is a hypothesis treated and exposed as such. It is a hypothesis or presupposition whose intelligibility is no more presupposed but exposed, so that it allows us to reach an unpresupposed principle. In this sense, the dialectical method shows that in many theoretical or historical investigations the object can never be presupposed. It must be reached and constructed by means paradigms. The fallacy which remains unseen in the common usage of hypothesis is that what appears as a given is in reality only a presupposition of the hypothesis which would explain it. Thus the origin, the unpresupposed principle, remains hidden. On the contrary, to show a phenomenon in its original paradigmatic character means to exhibit it in the medium of its knowability. You have no presupposed principle, it is the phenomenon itself which is original. No more origin, but an original phenomenon. While in the hypothesis the intelligibility of something is presupposed to it and then reached by induction or by deduction, in the paradigm the thing itself is shown beside itself exposed in its own knowability. To conclude I know no better definition of what I mean here than an extraordinary poem by Wallace Stevens, Description Without Place. Following Badiou’s example, I propose to inaugurate a tradition here in Saas-Fee, every lecture must end with a quotation from Wallace Stevens. So, let me read this very extraordinary poem, at least the first four verses. It is possible that to seem, it is to be. And the sun is something seeming, and it is. The sun is an example. What it seems, it is. And in such seeming all things are.

A paradigm, an example, is something which is what it seems. In it being and seeming are undecidable. Philosophy and poetry coincide insofar as both are contemplation of phenomenon in the medium of their knowability, as examples.

Schirmacher: It sounds very much like a phenomenological approach: how the thing shows itself to you, and it is how it seems. There is this a little problem, as Heidegger indicated in the beginning of “Being and Time”. A phenomenon is something which cannot be seen at first glance. This is a big difference from the phenomenological method used by sociologists, who believe they can just describe what’s going on and that’s phenomenology. We always say, “No no, no, what is seen needs what can’t be seen, but which still belongs to the phenomenon, in order to be understood.” The paradigm must have a hidden side which is as important as what is revealed about it. The good message about “trust what you see”, is that this message is poisoned. Trust what you see and then wait, they’ll take it away again, because there’s a task in there, you are not at the end. The paradigm’s hope is that it allows you enter, but after that darkness will come back. I’m sure I’m not saying anything new to you, but that’s my question, in the praise of the paradigm, what is the other side to it?

Agamben: The analogy with phenomenology is only apparent. Here we have a peculiar ontology which we could define with respect to phenomenology – para-ontology, an ontology which is still to be thought. The problem here is that it’s not the phenomenon as such which is being seen, but only by means of the example which is a kind of strange movement beside, it is not itself, but beside itself. This para is the essential problem of the example, so we have to invent and define the para-ontology, paradigm, paradoxa, it’s still to be defined, it’s kind of a pataphysics. What adds itself to be metaphysics, what is besides metaphysics, a para-ontology. It is the problem of this being shown beside and not the immediate knowability of the thing itself. The problem is this para, beside being.

Schirmacher: This para is a kind of traitor to the phenomenon.

Agamben: The phenomenon has a space beside it, this is the essential point.

Schirmacher: Take your table, we want to describe it as phenomenon, we can go on and try to recognize what’s not seen, etc, but if you take it as an example, steal the phenomenon from the table…

Agamben: It is no more a table. It is excluded from the class to which it belongs. If you consider it as an example it is no more a table and still it is a table.

Schirmacher: As you know, we have rules here, the rules are the students who haven’t been in his class should ask questions. I recognize it’s not easy to ask questions after such a talk. It is logic and epistemology, it’s hard to find a connection to the question “Why is there still war and not peace in the world?”

Weber: The term “knowability” in English is very unusual. I’m very happy to hear it, because I’m one of the few up to this point who has tried to introduce it into academic English as a translation of Benjamin’s Erkennbarkeit, which the editors of the Harvard edition prefer to translate as “recognizability”. Listening to you, as you well know, the phrase that Benjamin uses there, particularly in his work on the Passagenarbeit, is to talk about the now of knowability. The now, is in terms of the historian’s obligation, to introduce a radical rupture in the historical continuum. Of course this changes the whole pattern of what historical knowledge can be. Now in listening to you I began to think. Since the crucial demonstration that I think you’re developing has to do with the para, the ex, the exhibition, the exposition, the way the example exposes its singularity, sets up a singular relation, and so on, I’m just wondering whether the Benjaminian idea of time back to the now which is a spatial-temporal category, which is also desubstantializing, dematerializing, could in anyway be complementary to some of thoughts you presented here. Benjamin doesn’t use the term but operates in a way that might be similar to the paradigmatic relation.

Agamben: Perhaps one could try to read Benjamin’s conception of the now of knowability, in his criticism of historicism it’s always that the historical object is always made by a constellation between a moment of the past and a moment of the present. In the now of knowability there is always this constellation, and perhaps we could try to discuss the relation between these two moments, perhaps as a paradigmatic relation. I’m sure that like the paradigm it is analogical.

Weber: What about the other aspect, the paradigmatic relationship being a historical relationship, in the way that Benjamin is temporalizing and historicizing.?

Agamben: Absolutely. For Benjamin this is also a paradigm of what he calls “messianic time”. Perhaps also the messianic time works in the same way. There is again a constellation of a moment of the past, from the time of the Hebrews, and the moment of messianic time, the now time. Benjamin and Paul use literally the same term, the “now time”. It’s a typological interpretation. The moment of the past is the typos, the figure, the foreshadowing, of the moment of messianic present. Then perhaps it could be an analogy between the paradigm and the typos. Probably it’s the same. The typological relation between a moment in the Hebrew past and a moment in the messianic present is clearly paradigmatic. Adam as typos of the messiah is a paradigm of the messiah. So I think that perhaps there is a strong relation, it’s a good suggestion.

Audience: I’d like to address the frame as a paradigm, the relationship between the frame and the paradigm, and the paradigm as a fragment, a singularity. There’s a certain paradox that I’d like to address. If we think the fragment as a fragment of a whole, to what could extent could we really think the example as a fragment.

Agamben: There is a strong analogy. The paradigm is a part, a fragment of the whole, excluded from the whole in order to show its belonging to it. In a way the fragment could be as a kind of paradigm for the whole. When a fragment pretends to be more than itself, hints to a more general, infinite dimension, perhaps the fragment could act as a kind of paradigm for the whole.

Audience: The fragment as a pure singularity, it seems that in your phrasing, the paradigm is a means for comprehending the set, yet at the same time it’s a singularity.

Agamben: This is the para problem, precisely as you’ve said. It’s a singularity which in some way stands for all the others. I try to show it’s an element of the set which is withdrawn from it by means of the exhibition of its belonging to it. This is the strange movement of the example.

Schirmacher: But that’s exactly what we’re interested in. The fragment, in the form of the paradigm, can be an organizing principle and help us to get a kind of overview we lack of the situation.

Ronell: I just wanted to clarify one thing. Did you suggest that this kind of got sprung from the tyranny of metonymic displacements?

Agamben: Someone said Foucault freed historical investigation from the tyranny of metonymical context and substituted then the primacy of metaphorical context. The paradigm belongs then to this second category.

Ronell: That surprised me because with the para and the beside, I thought that would be more within the family of metonymic displacement.

Agamben: Metonymic there was referring only to historical investigations in which we use chronological or geographical contexts. It’s not my idea, it was someone else who made this opposition.

Ronell: …because I thought that you can kind of unraveled that in your elaboration, in an interesting way. I noticed that one can trace a certain movement from your mentioning of ignorance and understanding, or non-understanding that then moves towards a certain kind of paradigm. By the way, I was very interested in what you attributed to Schleiermacher, about having to understand an author better than he understands himself, because in his letters to Schlegel he freaks out at one point and he says “Well, I don’t know if we can continue to be best friends, because I don’t understand a thing you write.” and Schlegel writes back and says “Actually our friendship should then be based and affirmed by nonunderstanding.” Schleiermacher was always on the side of necessary understanding, and even its excess, and he was very shattered by not understanding the work of his friend. If it’s a question, it appears to me that despite the very interesting destabilization of an ontology, and the undecidability of seeing and being, does the paradigm ever question its capacity to know? Your talk has one register, according to which it begins with Coleridge, ignorance, and some stupefying paralyses and then moves to a place where maybe the epistemological presumption isn’t entirely shattered. It seems to me that it was almost like a rocket, it took off and then you let the booster drop, ignorance or the other side of knowability, which almost in the beginning gave the energy to the demonstration but was kind of withdrawn…I don’t know if intelligibility was questioned by you, maybe it was.

Agamben: In the beginning when I was quoting Feuerbach about the point of the work which is capable of being developed, which presupposed something left unsaid or unclear, there I was just describing the way I like to work, so I was approaching Foucault from this point of view. Foucault speaks a lot about paradigmatic epistemology but he never defines what he means by that. There was a kind of point of possibility, and that’s why I began like that. About knowability, we were speaking of the example, I was trying to understand, was it a relation between two particular objects? What do they have in common, as Goldschimdt tried to understand? The real relationship is not between an object and another object, but between an object and its knowability.

Schirmacher: This is good news, a success story, there is a relation between the object and its knowability. What is the bad news? Is there a relation between the object and its not-knowability? What is the paradigm not telling? Where does the paradigm break down?

Agamben: This is another very important problem. This depends on the ability of the author to find and create the good paradigm. It’s not given, in order to make a good investigation you have to find the paradigm which functions.

Schirmacher: Remember Badiou, he told you about this forcing. You have explained tonight how the paradigm is a forcing. Badiou explained that forcing is an evil thing, we can’t stop it but we should be aware of it. What can’t be named is never meant to be named, and we have to protect not-naming. But again, your other work shows that you know that.

Agamben: We can find an example for that too…

Audience: In “The Order of Things”, is “episteme” a substitute translation for “paradigm”?

Agamben: No, Foucault often speaks of episteme. They are not interchangeable. The paradigm is one of the ways to build an episteme. He speaks of the epistemological paradigm but then never defines it. The word comes again and again, and no definition.

Audience: I’m still fascinated by the table which is not a table, which is beside itself, and I’m wondering if the relation between the table and its knowability similar to that of the table and our ignorance.

Agamben: It is because we are ignorant and trying to understand the table that we have to employ examples.

Schirmacher: So the dark side is coming. Now we are on the same page again.

Audience: When the example is poetry, in this dance of potentiality and actuality, is there something else that happens with the example, perhaps canceling even the example itself, in the way there is something potential withdraws in poetry?

Agamben: In a way I’m not taking the poem as an example because I am convinced that in the poem Stevens gives the definition of the example because he says that what the sun seems to be, it is. I’m not quoting the poem as an example so to speak but a definition of the example.

Schirmacher: An exemplary definition. You could have given us this definition in plain words, but you chose the singularity of a poem which doesn’t have the function of giving you a definition. You exploited it, took it out of context and made it a piece of you. Wallace Stevens will turn over in his grave, I’m sure. That was your paradigm, and you made a paradigmatic use of it.

Agamben: Making use of examples is one of the most common things we do, but it has no clear epistemological status. I think it’s a very important thing to try and construct an epistemology of the example, because we always use examples.

Audience: What is perhaps revolutionary about this notion of paradigm is that it breaks the cause and effect relationship to the movement of history. Politically speaking, it opens up a new space where we get to the other end of the table.

Schirmacher: I think you made a very good case about what is the good news about it, but what is the violence of the example? Just because we do it all the time, and put it in new contexts, make it para, doesn’t make it right. I think in your description you should be aware of what price you pay for the example. That’s the uneasiness I have when I hear your positive story. We see how it works, but what have we done to the phenomenon, for me it has the sense of the anthropocentric in it, which is something I would only allow the poets to get away with. I don’t want the statesmen to.

Audience: In your opening statement you said you were not going to concern itself with epistemological or methodological problems. It reminded me of another philosopher of science who critiqued the paradigmatic arguments put forth by Kuhn, Paul Feier, who presents a counter-argument to Kuhn’s model of scientific revolution, and uses two metaphors, one of the bank robber, he talks about Dillinger robbing banks knowing how to get into the safe using paradigms and he counters that with a creative approach to the task of constituting new knowledge, which would be a Dadaist, against models. It seems that the Platonic notion of paradigm has this anarchic potential again method, while you’re not against paradigm-building and the efficacy and use of paradigms…

Agamben: I totally argue with you. It’s true that Kuhn just showed the normative function of the paradigm, which is exactly not what I wanted to emphasize, not the normative effects. Kuhn is not interested in what a paradigm is, just in its normative functioning within the scientific community. This is what I tried to understand, the “dadaistic” function.

Schirmacher: Feier’s main point was, if you are a scientist, you do whatever it takes, you don’t care about the rules and paradigms, you just want success and don’t care how it is done. This was his argument against all these people coming up with structures based on past knowledge, there is no past knowledge, you just jump into the abyss and hope for the best paradigm.

Disponível em http://www.egs.edu/faculty/agamben/agamben-what-is-a-paradigm-2002.html, acessado em 25 de fevereiro de 2007, às 12:00:00.

Segunda-feira, 27 de Agosto de 2007

Entrevista de Roberto Esposito a Edgardo Castro.

Abaixo segue a entrevista dada por Roberto Esposito, eminente filósofo contemporâneo, que tem trabalhado com o tema da biopolítica no mesmo sentido “negativo” de Giorgio Agamben, mas que com ele dissente em torno de alguns temas específicos. Simplesmente imperdível:

TODA FILOSOFIA É, EM SI, POLÍTICA.

Edgardo Castro[1]

Roberto Esposito[2]

O programa filosófico do italiano Roberto Esposito, cuja obra circula agora em espanhol, se define pelas noções de “comunidade”, entendida como o que nos obriga, nos une na dúvida, e a “imunidade”, intenção de autoconservação que domina a sociedade atual. Nesta entrevista exclusiva, Esposito se refere ao legado de Foucault e Heidegger, e de suas diferenças com Giorgio Agamben e Toni Negri.

“Após o fracasso epocal de todos os comunismos e da miséria de todos os individualismos”, afirma o filósofo Roberto Esposito em seu livro Communitas, não há nada mais necessário que um pensamento da comunidade. Que têm em comum – pergunta-se em outro de seu livro, Immunitas – “a batalha contra a aparição de uma nova epidemia, a oposição ao pedido de extradição de um chefe de estado estrangeiro acusado de violação dos direitos humanos, o fortalecimento das barreiras frente à imigração clandestina e as estratégias de neutralização do último vírus de computador”? Nada – responde -, a menos que se vincule cada um destes fenômenos com a categoria da imunidade, que atravessa todas estas linguagens particulares.

Seu recente trabalho, Bíos, começa com a enumeração de alguns fatos politicamente relevantes dos últimos anos: uma corte francesa que reconhece a uma criança nascida com graves deficiências o direito de denunciar ao médico que, por seu incorreto diagnóstico, impediu que sua mãe abortasse; a “guerra humanitária” no Afeganistão; os episódios no teatro Dubrovska de Moscou, nos quais, para resolver a situação, um grupo de agentes do governo levou a cabo o massacre com que o ameaçavam os terroristas; a epidemia de HIV na região de Donghu, na China, originada da venda maciça de sangue estimulada e gerenciada diretamente pelo governo. Em todos estes fatos o que está em jogo é a vida biológica e sua relação com o poder.

Comunidade, imunidade e vida aparecem assim como os três grandes temas que nossa atualidade política estabelece à filosofia. Para afrontá-lo, Esposito se nutre, com uma leitura inovadora e uma análise perspicaz, dos autores fundamentais da filosofia política ocidental, desde os antigos até aos modernos, de Platão a Foucault, passando, entre outros, por Maquiavel, Hobbes e Nietzsche. Porém não se limita somente aos textos filosóficos, seu trabalho também se nutre de uma vasta cultura clássica, lingüística e histórica.

Em Communitas, Esposito se subtrai da dialética que domina o debate atual acerca da comunidade, entre o comum e o próprio, pois nela – apesar da oposição – o comum é identificado com o seu contrário: é comum o que une numa única identidade própria (étnica, territorial, espiritual); ter em comum é ser proprietário de algo comum. Esposito parte de outra possibilidade etimológica do termo communitas, que focaliza o termo munus de cum-munus. É necessário ter presente que munus se diz tanto do público como do privado; por isso a oposição comum/próprio e publico/privado fica de fora de sua esfera semântica. Ademais, munus pode significar onus (obrigação), officium (ofício, função) e donun (dom). As duas primeiras acepções são formas do dever, mas Espósito sublinha que também o é o dom. O munus é uma forma particular de dom: o dom obrigatório, ainda que soe contraditório. Um dom que se dá porque se deve dar e não se pode não se dar. A comunidade deixa de ser, então, aquilo que seus membros têm em comum, algo positivo, do qual são proprietários; comunidade é o conjunto de pessoas que estão unidas por um dever, por uma dívida, por uma obrigação de dar. A comunidade se vincula, assim, com a subtração e com o sacrifício. “Por isso, a comunidade não pode ser pensada como um corpo, uma corporação, onde os indivíduos se fundam num indivíduo maior. Mas tampouco pode ser entendida como um recíproco “reconhecimento” intersubjetivo no qual eles se refletem confirmando sua identidade inicial”.

A partir daqui, Esposito seguirá a relação comunidade/sacrifício no discurso político-filosófico moderno através de quatro conceitos chaves: culpa (J. J. Rouseau), lei (I. Kant), abertura estática (M. Heidegger) e experiência soberana (G. Bataille). Em Immunitas, nos encontramos com uma análise etimológico-conceitual, paralelo e complementar ao de communitas. Imune é, num primeiro sentido, o que está privado ou dispensado de uma obrigação, de um dever, de um munus. Imune resulta, então, em um conceito negativo. Mas, na medida em que o munus do qual se está dispensado é aquele que os outros têm em comum, imune expressa também uma comparação. Trata-se “da diversidade em relação à condição dos outros”.

Pois bem, deslocando-se do âmbito jurídico para o biomédico, a imunidade adquire outro sentido. Neste caso, expressa “a refratariedade do organismo em relação ao perigo de contrair uma enfermidade”. Ainda que este sentido seja antigo, o conceito sofre uma transformação no século XIX em relação com a prática de vacinação e com a introdução da noção de imunidade adquirida. Uma forma atenuada e induzida de infecção pode prevenir, com efeito, uma enfermidade. Trata-se de proteger a vida fazendo-a provar a morte. Esta aporia atravessa a todas as linguagens da modernidade. Assim, por exemplo, a violência é um dos componentes do aparato jurídico-institucional destinado a reprimi-la. O objeto do livro é, precisamente, estudar esta aporia, a relação entre proteção e negação da vida, como a forma constitutiva da modernidade política.

O tema de Bíos é a relação entre a filosofia e a biopolítica (isto é, uma política da vida). À luz desta problemática, os três primeiros capítulos se ocupam de Foucault, Hobbes e de Nietzsche. O quarto é dedicado a tanatopolítica e o último a uma filosofia da bíos depois do nazismo. A tarefa de sua filosofia, nos adverte o autor, não é propor ações políticas ou converter a biopolítica na nova bandeira de um manifesto revolucionário ou reformista; sem negar, com isso, que a filosofia possa efetivamente atuar sobre a política. A proposta de Espósito não é “pensar a vida em função da política, mas sim o de pensar a política na forma mesmo da vida”. Em última instância, trata-se de inverter o signo negativo que, com o paradigma imunitário, acompanhou até agora a biopolítica.

Communitas. Origen y destino de la comunidad foi publicado na Itália em 1998 e Amorrortu a traduziu para o espanhol em 2003. A mesma editora publicará em breve Immunitas. Protección y negación de la vida, cuja edição original é de 2002. Bíos. Biopolítica y filosofia, aparecido na Itália no ano passado, fecha por ora esta trilogia imprescindível.

Egardo Castro - Desde há alguns anos assistimos – em seus trabalhos e nos de Giorgio Agamben – a um renascimento da filosofia política italiana. A que o atribuiu?

Roberto Espósito - Pode-se dar uma primeira resposta partindo do caráter específico da filosofia italiana. Sem querer voltar ao mito das filosofias nacionais, do século XIX, se a vocação geral da filosofia anglo-saxã é analítica, a da filosofia alemã é metafísico-hermenêutica e a da francesa, crítico-desconstrutiva, é indubitável que a característica peculiar da filosofia italiana é a política. Não é casual que os dois maiores autores italianos sejam Maquiavel e Vico. Também Croce e Gramsci, ainda que de maneira diferente, pertencem ao horizonte ético-político. Naturalmente, há filósofos italianos que trabalham na direção analítica ou hermenêutica, ou que se ocupem da relação entre a filosofia e a teologia. Mas, por isso mesmo, correm o risco de cair submergidos pelas tradições mais fortes nestes campos, como a anglo-saxã e a alemã. A esta resposta, que recorre a uma raiz distante, há que se agregar outra relacionada à dimensão contemporânea da filosofia. Penso no que Foucault chamou de ontologia da atualidade, retomando de maneira original a fórmula hegeliana do próprio tempo apreendido com o pensamento. Certamente, são muitos os estilos de trabalho filosófico, mas uma filosofia que não parta de uma interrogação radical sobre o próprio presente, sobre o que o conota e o transforma de modo essencial, perde grande parte de seu sentido. E não há dúvida de que a política, de qualquer modo que se a entenda (como relação ou como conflito, como comunidade ou como guerra) está cada vez mais no centro de nossa vida. Inclusive no sentido radical da reflexão biopolítica. O ponto de vista do qual parte minha reflexão, como a de Agamben, é que hoje não tem mais sentido uma prática filosófica ensimesmada, dedicada a recorrer a sua própria história ou absorta em problemas de lógica abstrata. Neste sentido, George Canguilhem, autor próximo a Foucault, pôde escrever que “a filosofia é uma reflexão para a qual toda matéria estranha é boa. Mais ainda, poderíamos dizer: para a qual toda matéria boa tem que ser estranha”. E Gilles Deleuze considerava que “O filósofo tem que chegar a ser não-filósofo, para que a não-filosofia se converta na terra e no povo da filosofia”. Este é o sentido específico que há de se dar à idéia, de outro modo incompreensível, de “fim da filosofia”. O que há acabado é, indubitavelmente, uma concepção endogâmica, auto-referencial da filosofia (isto é, toda prática filosófica que assuma a si mesma como objeto próprio). Em sentido contrário, assistimos desde há tempos a um processo, cada vez mais forte, de exteriorização da filosofia, de transbordamento do pensar no espaço em movimento do próprio exterior. No momento em que todos os acontecimentos (da relação entre a paz e a guerra à relação entre a técnica e a vida biológica) assumem por si mesmos uma dimensão sumamente problemática, a filosofia contemporânea não pode não se fazer política. Não no sentido da disciplina acadêmica da filosofia política, como parte da filosofia, mas sim naquele, mais radical, que a filosofia é em si, constitutivamente, política.


E.C. – Encontro em seus trabalhos uma decisiva influência de Heidegger e de Foucault.

R.E. – É verdade que ambos estão muito presentes em meu trabalho. Mas em momentos diferentes e com diferente intensidade. No que diz respeito a Heidegger, é difícil imaginar uma investigação filosófica que possa ignorá-lo ou não estar influenciada por ele, ainda que seja de maneira polêmica como geralmente ocorre. Mas não me sinto um heideggeriano, supondo que esta expressão tenha sentido. Em meu ensaio sobre a comunidade, conectei o catastrófico erro político de Heidegger com alguns aspectos de seu pensamento. Mas isso não exclui seu extraordinário peso em toda a filosofia de nossos dias. Em particular, meu livro Categorias do Impolítico se vê influenciado pela reflexão heideggeriana. O que quis fazer – não sei com que resultados – foi submeter os conceitos políticos da modernidade a uma desconstrução tão intensa como aquela a que Heidegger submeteu as categorias da tradição filosófica e Nietzsche as idéias morais. Parti da tese de que as categorias políticas modernas (soberania, poder, liberdade etc) tinham entrado numa zona de insignificância ou, melhor ainda, de contradição consigo mesmas, e que por isso, era necessário ter um olhar diferente (precisamente impolítico, mas não apolítico nem antipolítico), capaz não de reativá-las, mas sim de levá-las a seu esgotamento definitivo; e isso, com a consciência, também de derivação heideggeriana, de que pelo momento não existe outra linguagem afirmativa, construtiva ou normativa para pensar a política. Neste horizonte argumentativo, no qual me movi até a metade dos anos 90, Communitas serve de dobradiça entre as duas fases de minha reflexão. Num momento me encontrei com a temática biopolítica de Foucault. Já havia utilizado o dispositivo foucaultiano – em particular com relação ao nexo entre saber e poder -, mas o que me deu uma nova chave de pensamento para abordar a política foi o Foucault da metade dos anos 70, em particular os cursos sobre a biopolítica, agora integralmente publicados. Este novo encontro com Foucault não deve ser entendido como a negação do percurso anterior, mais permeável a Heidegger, mas sim como um necessário complemento. A idéia da crise irreversível do léxico político moderno é comum às duas etapas de meu trabalho. Os conceitos de soberania, de direitos individuais, de democracia ainda estão em pé, mas seu efeito de sentido se encontra debilitado e modificado em relação a seu sentido original. Seguindo a Foucault, entendi que a retirada ou a debilitação desta linguagem clássica não esgota o horizonte argumentativo, mas sim que abre outra cena, mostra outra lógica, antes escondida nas velhas categorias: a da biopolítica, precisamente. Tampouco Foucault deve ser tomado em bloco. Não só porque seu discurso resta interrompido e suspenso, como também porque apresenta algumas contradições e deslocamentos internos, o que tratei de pôr à luz, criticamente, em Bíos.

E.C. – Como se relacionam seus trabalhos e os de Agamben? Qual seria o vínculo entre “imunidade” e “estado de exceção”?

R.E. – Mais além de algumas analogias externas, como a origem literária de nossos percursos, que explicam algumas afinidades estilísticas e também a comum atenção filológica a textos pouco conhecidos ou desconhecidos. Relativamente a biopolítica há outra afinidade que distingue nossa posição de outras leituras. Refiro-me ao distanciamento em relação a uma interpretação completamente afirmativa, quase eufórica, da biopolítica. Distanciamento com relação à idéia de que o biopoder está necessariamente destinado a converter-se em política da vida, sob o impulso irrefreável da multidão, como pensa o amigo Toni Negri, por exemplo. Agamben e eu dirigimos nossos olhares para o negativo, até as características terríveis que tem assumido a biopolítica, não somente no século passado. Mas esta proximidade de método e de tom não pode fazer perder de vista as diferenças marcantes entre ambos. Antes que aos paradigmas de imunidade e de estado de exceção, estas diferenças concernem a uma questão preliminar: precisamente à relação entre Heidegger e Foucault. Digamos que Agamben está mais próximo de Heidegger, que lê a biopolítica numa chave ontológica, enquanto que eu a interpreto num sentido genealógico. Para Agamben, diferentemente de Foucault, a biopolítica não é um fenômeno essencialmente moderno, mas sim que nasce com a política ocidental. Coerentemente, Agamben não estabelece nenhuma diferença – como o faz Foucault – entre soberania e biopolítica. Para ele, a biopolítica é a expressão mais intensa da superposição entre direito e violência que constitui a forma excludente do bando soberano. Uma vez assumida até o final a tese de Carl Schmitt: que é soberano quem decide sobre o estado de exceção, segue não somente o caráter mortífero de toda a política ocidental, mas também que o campo de concentração constitui seu paradigma mais próprio. Em





Virar a câmera, estremecer a imagem – André Brasil (PUC Minas)

20 05 2008

Virar a câmera, estremecer a imagem

André Brasil (PUC Minas)

Resumo: A sociedade de controle, como antecipada por Gilles Deleuze, opera com dispositivos bastante diferentes daqueles da sociedade disciplinar (Michel Foucault). Eles contribuem para reconfigurar nossa relação com o espaço e o tempo e nosso regime de visibilidade: reduzida à sua forma-informação, a imagem participa das estratégias de vigilância, controle e simulação, cada vez mais disseminadas em nosso cotidiano. Buscando discutir essa idéia, o texto toma como intercessor o vídeo I think it would be better if I could weep , parte dos arquivos do Atlas Group, de Walid Raad. Ele é visto como um dispositivo heterogêneo, ambíguo, de passagem : o gesto de virar a câmera e suas implicações, ao mesmo tempo, políticas, discursivas e estéticas.
Virar a câmera, estremecer a imagem

André Brasil

Simples, despretensioso, quase desavisado: aquele gesto que resultou no vídeo I think it would be better if I could weep , que se mantém arquivado no banco de dados do Atlas Group.

O vídeo – uma série de imagens de sunsets editadas, sem som, uma após a outra – não seria nada além disso não fosse a força do gesto que as gerou. Como nos conta o texto explicativo do arquivo, o serviço de segurança do Líbano instalou, em 1992, na orla de Corniche (região oeste de Beirute), inúmeras câmeras de segurança para vigiar as autoridades políticas, espiões e agentes secretos que passassem por ali. Todos os dias, ao cair da tarde, o operador de número 17 desviava a câmera de seu foco habitual e a apontava para o pôr-do-sol.

Esse desvio, aparentemente insignificante, faz com que a imagem – antes, pura informação destinada à vigilância e ao controle – se torne algo aquém ou além de sua função informacional. A imagem agora não informa, não comunica nada de objetivo, a não ser o gesto de virar a câmera e, ao desviá-la, captar algo que a informação não conseguiria conformar nem transmitir precisamente.

Para além dos conflitos políticos e religiosos que marcam a história do Oriente Médio e, ao mesmo tempo, intensamente implicado e relacionado a eles, o gesto simples de virar a câmera possui uma potência política e estética que nos interessa sublinhar: gesto do descontrole. Fuga, desvio, recusa. Intervenção que esboça um fora nesta que Deleuze antecipou como uma sociedade de controle
Não devemos, portanto, nos enganar pela sua economia: o gesto deve ser visto como um dispositivo complexo, que conecta elementos políticos, discursivos e estéticos.

Dispositivos por vir

Mas, antes de tudo, o que é um dispositivo? Mais que simplesmente um suporte, uma ferramenta ou um aparato tecnológico, mais ainda que uma técnica, o dispositivo é uma máquina relacional ou, para utilizar os termos de Deleuze e Guatarri, “uma máquina diagramática”, “um diagrama maquínico”. Assim, o dispositivo coloca em conexão e em funcionamento elementos os mais heterogêneos: trata-se sempre de uma articulação multilinear, composta por fios visíveis e invisíveis, materiais e imateriais, de origem e natureza diferentes. “E, no dispositivo, as linhas não delimitam ou envolvem sistemas homogêneos por sua própria conta, como o objecto, o sujeito, a linguagem, etc., mas seguem direcções, traçam processos que estão sempre em desequilíbrio, e que ora se aproximam ora se afastam umas das outras.” (Deleuze, 1996: 83).

Os recursos materiais e tecnológicos, as subjetividades, as ações e estratégias, as práticas discursivas: estes são alguns dos componentes de um dispositivo. Mas, o que interessa principalmente são as articulações eventuais estabelecidas entre eles em um diagrama relacional variável. Nele, portanto, se operam passagens : entre campos, linguagens, mídias, gêneros, instituições. Capturá-lo, apreendê-lo a partir de uma e única de suas dimensões – seja ela semiótica, estética ou política – é desconsiderar aquilo que o dispositivo apresenta de mais rico: suas linhas de cruzamento, trânsito, contaminação.

Não é essa a perspectiva de Foucault ao descrever e analisar o Panóptico, dispositivo que convoca óptica e arquitetura, para, ao final, se constituir como um verdadeiro “laboratório de poder” (Foucault, 1987: 166)? Não é disso que se trata? Através de uma engenharia, operar a passagem entre ciência, política e economia? Ou mais ainda, não é disso que se trata? Através de um efeito de visibilidade constante, impessoal e automático, fazer da subjetividade a vigilância de si mesma?

Se o dispositivo do Panóptico acaba por se tornar emblemático do modo de funcionamento das sociedades disciplinares é porque ele se multiplicou, se desdobrou em outros, semelhantes, mas ligeiramente diferentes. A lógica aqui é, portanto, a da contaminação: do hospício à escola, uma multiplicidade de dispositivos que se criam, se transformam e se articulam de forma reticular.

Como uma rede instável, movente e múltipla, perpassada por linhas de força de diferentes naturezas, um dispositivo deve ser compreendido em sua circunstancialidade. Trata-se de uma articulação na qual mudanças locais podem se amplificar, por vizinhança e contaminação, em transformações globais: “se um ponto ou intersecção da rede muda bruscamente de lugar (…), então o conjunto da rede transformar-se-á numa nova rede, onde a situação respectiva dos pontos é tão diferente como a variedade dos caminhos”.(Serres, s/d: 8)

Mas, a mobilidade e instabilidade do dispositivo não impedem que se trace sua genealogia, ou seja, que suas possíveis e múltiplas gêneses não possam ser descritas. E esta genealogia dos dispositivos, tão cara a Foucault, é também uma geologia e uma cartografia , já que a história é imediatamente confrontada com a atualidade, em sua diferença irredutível com o passado. Uma abordagem que procura vislumbrar “aquilo em que nos vamos tornando, aquilo que somos em devir”. (Deleuze, 1996: 93) Um dispositivo carrega, a um só tempo, suas linhas genealógicas, históricas, mas também suas linhas de fuga, de fratura, aquelas que podem fazê-lo desabar ou tornar-se gradativamente outro. “Assim, todo dispositivo se define pelo que detém em novidade e criatividade, e que ao mesmo tempo marca a sua capacidade de se transformar, ou de desde logo se fender em proveito de um dispositivo futuro.” (Deleuze, 1996: 92)

Não é este, talvez e afinal de contas, o empreendimento de Foucault ao descrever os dispositivos disciplinares? Apontar a tensão que reside ali entre o que é e, por outro lado, o por vir, o vir a ser ? Ou, para usar a formulação precisa de Deleuze, as disciplinas descritas por Foucault não seriam, então, “a história daquilo que vamos deixando pouco a pouco de ser”? (Deleuze, 1996: 93)

Do Panóptico ao scanner

E o que vamos deixando de ser, pouco a pouco? Saímos de uma sociedade disciplinar , com suas instituições e estratégias de poder baseadas no panoptismo e passamos a lidar, cada vez mais corriqueiramente, com novos dispositivos próprios da sociedade de controle .

A análise seminal de Foucault, tendo como emblemática a metáfora do Panóptico, nos alertou para as microfísicas do poder na sociedade moderna, na qual os corpos e as subjetividades são segmentados, hierarquizados e docilizados pelas técnicas disciplinares. Hoje, as estratégias de poder talvez sejam mais sutis e passam menos pela disciplina do que pelo controle: disseminam-se nas redes telemáticas dispositivos de vigilância e monitoramento, que, para além do Estado, são os principais instrumentos do novo marketing .

As antigas sociedades de soberania manejavam máquinas simples, alavancas, roldanas, relógios; mas as sociedades disciplinares recentes tinham por equipamento máquinas energéticas, com o perigo passivo da entropia e o perigo ativo da sabotagem; as sociedades de controle operam por máquinas de uma terceira espécie, máquinas de informática e computadores, cujo perigo passivo é a interferência e, o ativo, a pirataria e a introdução de vírus. (Deleuze, 1992:223)

Essa passagem, esboçada por Deleuze, será desenvolvida por Michael Hardt, em pelo menos dois sentidos: o primeiro faz coincidir a sociedade de controle com a forma político-social tomada pelo “império”, uma nova ordem mundial, que se desenvolve em torno dos Estados Unidos, com as corporações transnacionais e o mercado financeiro. O segundo, que deriva dessa primeira constatação, diz respeito ao processo intenso, violento, de privatização dos espaços públicos e de desrealização do lugar da política. Ora, vivemos hoje uma situação paradoxal: ao mesmo tempo em que tudo ganha visibilidade, se torna público, ou melhor, é publicizado através das tecnologias e redes informacionais, a política, ao se espetacularizar, transforma-se em mais um produto a ser consumido nos espaços privados e domésticos. “A noção liberal do público como o lugar do fora, onde agimos sob o olhar dos outros, tornou-se ao mesmo tempo universalizada (pois somos hoje permanentemente colocados sob olhar dos outros, sob a observação das câmeras de vigilância) e sublimada, ou desrealizada, nos espaços virtuais do espetáculo.” (Hardt, 2000: 360)

Os dispositivos da sociedade de controle têm como estratégias a invisibilidade e o nomadismo, o que, por sua vez, os torna ubíquos e oblíquos. “O controle é de curto prazo e de rotação rápida, mas também contínuo e ilimitado”. (Deleuze, 1992:224). Ou, como acrescenta Hardt, “nesse espaço liso do império, não há o lugar do poder: ele está em todos os lugares e em nenhum deles.” (Hardt, 2000:362)

Mas se trata menos de uma ruptura entre um e outro – da disciplina ao controle, categórica e abruptamente – e mais de uma passagem, uma mudança de qualidade a partir de uma intensificação . Se na sociedade disciplinar segmentamos, hierarquizamos, normalizamos o corpo, o espaço e o tempo, assim ainda o fazemos hoje. Mas vamos além: agora corpo e espaço tendem a ser “escaneados” e monitorados ininterruptamente (mais do que apenas normalizados). Trata-se de fazer corresponder a cada ponto do nosso corpo uma unidade codificável (o código genético) e a cada ponto do espaço global um dígito, um pixel , uma informação. Ou seja, fazer coincidir o mapa (genético ou geoprocessado) ao território (do corpo, do mundo).

O mesmo ocorre com o tempo: se antes se buscava extrair do presente, iluminado pela experiência do passado, o máximo de funcionalidade, de produtividade, hoje isso não basta: é preciso conhecer, colonizar (ou para Santos, 2003, consumir) o futuro. Vivendo sob um regime de instabilidade e risco, precisamos evitá-los, mantê-los sob controle, antecipando o futuro no presente e fazendo do primeiro uma repetição monitorada do segundo.

Através de técnicas de simulação cada vez mais sofisticadas, utilizadas em campos os mais diversos, da genética às finanças, buscamos tornar previsível o que é imprevisto, traduzir em informação todo horizonte do possível. Como resume Paulo Vaz, em uma sociedade do risco e da fragilidade, “odiamos o possível, pois ele nos persegue no passado e nos amedronta com sua demasia no futuro. Por vingança contra o tempo, o pensamento ocidental inventa então um mundo em que nada passa, afirmando que de direito nada deveria passar e que tudo deve se conformar ao previsto”. (Vaz, 2003: 89)

O dispositivo da imagem, a imagem no dispositivo

E, se modifica nossa relação com o tempo e o espaço, muda também nosso regime de visibilidade . Sabemos como o Panóptico era não apenas uma arquitetura, mas principalmente um dispositivo visual. Do lado do observador, trata-se de tudo ver sem ser visto. Aquele que é observado, por seu turno, imagina estar sendo vigiado permanentemente: com isso introjetamos a vigilância, tornando-a norma.

Trata-se também, desde já, de quadricular, serializar, tabular: fazer deste não apenas um local de visibilidade absoluta, mas também um espaço-informação. Nesse sentido, podemos arriscar a dizer que a história da sociedade disciplinar, panóptica, está estreitamente ligada à história do regime de visão baseado na Perspectiva, sem nos esquecer de seus desdobramentos em dispositivos ópticos como a fotografia, o cinema e a televisão. Dito de outro modo, uma genealogia dos atuais dispositivos de televigilância deveria passar necessariamente pela invenção da Perspectiva, esta que, de um único ponto de vista e a partir de uma única visada, torna tudo transparente, visível, passível de ser conhecido e, posteriormente, registrado pelo olhar objetivo da câmera.

O que nossa atualidade traz de novo em relação ao regime de visibilidade moderno é sua intensificação, através da associação quase imediata, instantânea, entre imagem e informação .

As imagens eletrônicas e digitais, transmitidas instantaneamente, contribuem para a criação de um “FALSO DIA produzido pela iluminação das telecomunicações”, como nos adverte Virilio (1999:20). As “máquinas de visão” (Virilio, 1993) vão, pouco a pouco, tornando as cidades, os estabelecimentos comerciais, os condomínios, os espaços íntimos, a vida privada, instâncias de visibilidade absoluta. Desse ponto de vista, “a famosa ‘realidade virtual’ não é tanto a navegação no CIBERESPAÇO das redes, mas antes a AMPLIAÇÃO DA ESPESSURA ÓTICA das aparências do mundo real.” (Virilio, 1999:21)

Traduzida imediatamente em informação, a imagem tende, no limite, a esvaziar-se de toda virtualidade, aquilo que nela há de invisível, inaudito e inapreensível. As tecnologias de controle e vigilância, aliadas ao tele-voyeurismo planetário, restringem a imagem a exercer, única e exclusivamente, uma função social, abandonando suas funções políticas e estéticas e “substituindo as possibilidades de beleza e pensamento por poderes inteiramente outros” (Deleuze, 1992:92). Aquilo que, em diálogo com Serge Daney, Deleuze diz da televisão, pode ser ampliado para nossa discussão aqui: televigilância e tele-voyeurismo nos apresentam “o social-técnico em estado puro”. (Deleuze, 1992: 96) Instrumentalizadas pela comunicação, tornadas pura informação, as imagens podem assim participar, estrategicamente, dos atuais dispositivos da sociedade de controle (estejam eles a serviço do estado, do marketing ou do espetáculo).

Em outras palavras, o que se constata, nesse caso, é uma mudança fundamental no estatuto da imagem e, especificamente, em nossa relação com ela: a partir da emergência dos dispositivos eletrônicos e digitais, o par natureza-corpo ou paisagem-homem , cede lugar para o par cidade-cérebro ou cérebro-informação . “A tela não é mais uma porta-janela (por trás da qual…), nem um quadro-plano (no qual), mas uma mesa de informação sobre a qual as imagens deslizam como dados.” (Deleuze, 1992: 98) Deslizam como dados, migram de uma mídia a outra, de um a outro dispositivo, passam por nós enquanto passamos entre elas (Bellour, 1993).

Ao se reduzir à sua forma-informação, traduzida antes por um modelo digital, a imagem, que já permitia a extrema transparência do espaço global, ganha maleabilidade e instantaneidade necessárias para a simulação do futuro, para dar visibilidade, no presente, a seus quase-objetos, às suas ações e cenários possíveis. Ela torna-se assim um dispositivo de visibilidade e monitoramento não apenas do espaço, mas do tempo: o futuro, outrora, virtual, antecipa-se previsível, sem surpresas.

Aqui, vale ressaltar, a imagem é ela mesma um dispositivo, que carrega sua própria genealogia, mas, paradoxalmente, deixa de se reduzir a si mesma : ao se tornar informação, passível de ser processada, utilizada, comercializada, ela participa de dispositivos complexos e heterogêneos. Torna-se, assim, cada vez mais redutor compreende-la como um em si , que poderia ser isolado e analisado em seus aspectos puramente formais e representativos. Mais importante talvez seja investigar como a imagem se insere em um processo que a ultrapassa, processo ao mesmo tempo técnico, sensível e mental (Duguet, 1988).

Por fim, chegamos ao ponto que nos é mais caro: se estes novos dispositivos – nômades, reticulares, informacionais – participam das atuais estratégias de controle, eles são também atravessados por vetores ou tensores estéticos, linhas de criação que fracassam ou que se contaminam mutuamente e se multiplicam. Afinal, todo dispositivo comporta em suas linhas de força, virtualidades, que podem fazê-lo funcionar de uma maneira totalmente nova.

Ao se disseminar em nosso cotidiano e ao abrigar linhas de criação e reinvenção, os dispositivos informacionais podem operar passagens entre arte, política e vida social, levando, por contaminação, modos de funcionamento de um a outro domínio. E para tornar outros os dispositivos de controle, basta o gesto, ao mesmo tempo, ético, político e estético: virar a câmera.

Desvirtuar o dispositivo, virtualizar a imagem

O ambiente é bastante diferente daquele do famoso cubo branco das galerias ou dos museus. O artista que esperávamos, Walid Raad, criador do Atlas Group, entra, liga seu laptop e inicia sua “intervenção” artística. Mas, estranho, nada ali difere de uma palestra. O datashow projeta dados, mapas, ilustrações. A sala, um auditório, está na penumbra. A platéia ouve atenta, silenciosa. O tom do discurso é científico.

Ele apresenta, paciente e didaticamente, os arquivos do Atlas Group, uma fundação imaginária que, desde 1999, pesquisa e documenta a história contemporânea do Líbano. A fundação descobre, produz e arquiva documentos como cadernos de nota, fotografias, filmes e vídeos e disponibiliza parte destes documentos em um banco de dados na internet. Além disso, Walid participa de exposições internacionais com instalações e palestras-performances como a que estamos assistindo.

Entre os arquivos do Atlas Group estão, por exemplo, os cadernos de notas do historiador Dr. Fadl Fakhouri, doados após sua morte em 1993. São 226 cadernos com recortes de jornais, fotos e anotações minuciosas, dos quais dois estão disponíveis: o primeiro, de número 38, denominado Already Been in a Lake of Fire , consiste de 145 fotos de carros – acompanhadas de dados e comentários – que correspondem exatamente aos modelos dos carros-bomba que explodiram no Líbano, durante as guerras civis de 1975 a 1990. O segundo, de número 72, chamado Lebanese Missing Wars , constitui-se de pranchas com fotos das chegadas das corridas de cavalo, das quais historiadores libaneses costumavam participar como apostadores. Cada foto vem acompanhada de anotações detalhadas sobre o páreo, a distância do cavalo em relação à linha de chegada no momento da foto, assim como a aposta de cada um dos historiadores.

Além da catalogação e preservação dos arquivos doados, o Atlas Group cria seus próprios trabalhos baseados nos documentos sobre a história recente do Líbano. O resultado são palestras, exibições, performances e instalações, como My Neck is Thinner than a Hair: a History of Car Bombs in the Lebanese Wars (1975 – 1991). Através do projeto, em processo, a fundação pesquisa e produz dossiers sobre todos os 245 carros que explodiram durante as guerras civis, resultando também em publicações, palestras e instalações.

Na fronteira entre política, arte e ciência, lidando com suportes, linguagens e gêneros os mais diversos, a experiência do Atlas Group pode ser vista como um dispositivo: ele articula elementos históricos, documentais àqueles artísticos e ficcionais e se utiliza de documentos fotográficos, impressos e videográficos para compor um banco de dados digital under construction .

Dispositivo narrativo, ficcional, mas cujo “enredo” vai se desvendando, de forma dispersa e processual, através de arquivos e informações digitalizadas, que são consultadas via rede, vistas em catálogos e publicações impressas, experienciadas nas instalações, apresentadas nas palestras de Walid. Limítrofe, ambíguo, em trânsito, o dispositivo utiliza as estratégias próprias da ciência para construir um banco de dados borgeano , que se estabelece no limite indiscernível entre a realidade histórica e a fabulação. Uma estratégia que leva a memória – no caso a reconstrução da história recente do Líbano – à sua fronteira mais indiscernível com a ficção: memória que é menos registro do que reinvenção. Dispositivo, portanto, de estremecimento: a informação, desestabilizada, oscila, hesita. Uma dúvida sutil se instala e agora todo o banco de dados delira.

No entanto, mais importante do que aprofundar a análise do dispositivo criado por Walid, nos interessa aqui retomar o gesto do operador anônimo, de número 17, que todas as tardes desviava sua câmera para captar o pôr-do-sol na orla de Corniche. Seu vídeo também faz parte do banco de dados do Atlas Group, como tendo sido doado pelo próprio operador, demitido de sua função em 96.

Se, como quer Deleuze, “pertencemos aos dispositivos e neles agimos” (Deleuze,1996: 92) e se, ao agir, podemos interferir nele, reinventá-lo, o desvio de câmera do operador desloca também toda a genealogia deste dispositivo, que abandona sua função de controle e re-assume aqui sua função estética. Através deste gesto, a experiência estética surge e abala sutilmente a teia do cotidiano. Ao participar de um dispositivo de novo tipo, a imagem estremece: não pode mais ser reduzida à matéria pura, homogênea da informação e se precipita novamente em uma dimensão de virtualidade.

Composto por fios visíveis e invisíveis, o dispositivo é ambíguo, heterogêneo. Outra sua cartografia: o desejo que levou o operador ao seu rito diário de, mais ou menos conscientemente, virar a câmera ; o próprio ato de desviar o foco, restituindo o olhar à câmera; o silêncio das imagens; aquilo que se passa fora do enquadramento; a relação entre o gesto e o contexto sócio-político do Líbano de então; a potência de afecção destas que poderiam ter-se reduzido a imagens-clichê; a preservação do vídeo em um banco de dados na internet, pretensa e ironicamente histórico; sua posição ambígua entre o discurso científico, político e artístico.

“Desvirtuada” (e, assim, virtualizada) pelo gesto eventual, a imagem perde algo de sua transparência (a visibilidade necessária ao controle), se torna opaca, oscilante. A imagem agora se situa entre ver e não ver, transformando-se em uma espécie de vislumbre , que apenas sugere, esboça e logo se desfaz. O vislumbre mesmo do pôr-do-sol que ela registra: ao acontecer, vai fazendo tudo desaparecer, pouco a pouco, na penumbra.

Se tudo não passou de uma invenção de Walid Raad, do Atlas Group, para compor seu banco de dados imaginário, isso não é mais tão importante aqui. O que realmente nos interessa é a possibilidade do gesto e aquilo que ele apresenta de irredutível e também de inapreensível.

E aquilo que possui de emblemático: esse que tem a força de provocar um desvio da e na imagem é um gesto qualquer e poderia compor algo como uma estética do ordinário, do circunstancial e do eventual. Esse pequeno deslocamento, um estremecimento, ou melhor, um “imperceptível tremor do finito” (Agamben, 1993: 46), é o que faria mudar tudo na imagem e em torno dela. Algo que nos lembra a parábola de Benjamin, retomada por Agamben: “Um rabino, um verdadeiro cabalista, disse um dia: para instaurar o reino da paz não é necessário destruir tudo e dar início a um mundo completamente novo; basta apenas deslocar ligeiramente esta taça ou este arbusto ou aquela pedra, e proceder assim em relação a todas as coisas.” (1993:44)

Somente assim – libertos do domínio exclusivo de um ou outro campo axiológico (seja a arte, a política, a tecno-ciência, a comunicação, ou o marketing ), sem se deixar reduzir à pura informação – os dispositivos que povoam a nosso cotidiano podem cumprir seu destino de operar passagens e de abrir o real ao potencial. Como nos provoca Deleuze, “o importante talvez venha a ser criar vacúolos de não-comunicação, interruptores, para escapar ao controle.” (Deleuze, 1992:217). Ou parafraseando o título do vídeo de um operador qualquer, I think it would be better if I could scape .
Referências Bibliográficas

AGAMBEN, Giorgio. A comunidade que vem. Lisboa: Editorial Presença, 1993.

BAUMAN, Zygmunt. Globalização : as conseqüências humanas. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.

BELLOUR, Raymond. A dupla hélice. In: PARENTE, André. Imagem Máquina . Rio de Janeiro: Ed. 34, 1993.

DELEUZE, Gilles. O que é um dispositivo? In: Deleuze, G. O mistério de Ariana . Lisboa, Vega, 1996.

__________________________ . Mil Platôs – vol. 1: Capitalismo e esquizofrenia. Trad. Aurélio Guerra Neto e Celia Pinto Costa. Rio de Janeiro: Editora 34, 1995.

DELEUZE, Gilles. Post-scriptum sobre as sociedades de controle. In: Deleuze, G. Conversações . Rio de Janeiro: Ed. 34, 1992.

_______________. Controle e devir. In: Deleuze, G. Conversações . Rio de Janeiro: Ed. 34, 1992.

_______________. Carta a Serge Daney: Otimismo, pessimismo e viagem. In: DELEUZE, G. Conversações . Rio de Janeiro: Ed. 34, 1992.

DUGUET, Anne Marie. Dispositifs. In: Communications (Vidéo), n.48. Paris, 1988.

FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir : história da violência nas prisões. Petrópolis: Vozes, 1987.

HARDT, Michael. A sociedade mundial de controle. In: Alliez, Éric. Gilles Deleuze : uma vida filosófica. São Paulo: Ed. 34, 2000.

LATOUR, Bruno. Jamais fomos Modernos . Trad. Carlos Irineu da Costa. Rio de Janeiro: Editora 34, 1994.

SANTOS, Laymert Garcia dos. Consumindo o futuro. IN: Santos, L. Politizar as novas tecnologias : o impacto sócio-técnico da informação digital e genética. São Paulo: Ed. 34, 2003.

MACHADO, Arlindo. Máquinas de vigiar. In: MACHADO, A. Máquina e imaginário. São Paulo: Edusp, 1993.

SERRES, Michel. A Comunicação . Trad. Fernando Gomes. Porto: Rés, [s.d.].

VAZ, Paulo. Um corpo com futuro . In: Pacheco et al. (orgs.) O trabalho da multidão: Império e Resistências. Rio de Janeiro: Gryphus, 2002.

VIRILIO, Paul. A bomba informática . São Paulo: Estação Liberdade, 1999.

VIRILIO, Paul. O espaço crítico . Rio de Janeiro: Editora 34, 1993.

Doutorando na Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro, professor da PUC Minas, onde coordena o Centro de Experimentação em Imagem e Som (Ceis).

2001, DVD, 8min.

O termo sociedade de controle , criado pelo escritor William Burroughs, ganha o estatuto de conceito, ainda que esboçado, em Deleuze (1992): Post-scriptum sobre as sociedades de controle .

“O princípio é conhecido: na periferia uma construção em anel; no centro, uma torre; esta é vazada de largas janelas que se abrem sobre a face interna do anel; a construção periférica é dividida em celas, cada uma atravessando toda a espessura da construção, elas têm duas janelas, uma para o interior, correspondendo às janelas da torre, outra, que dá para o exterior, permite que a luz atravesse a cela de lado a lado. Basta então colocar um vigia na torre central, e em cada cela trancar um louco, um doente, um condenado, um operário ou um escolar.” (Foucault, 1987: 165 – 166) Essa é a descrição de Foucault para o Panóptico, modelo arquitetônico projetado, no século XVII, pelo jurista Jeremy Bentham e que se torna uma espécie de “tecnologia de poder” nas várias instituições disciplinares modernas.

O projeto do Panóptico torna-se “uma metáfora da transformação moderna, da moderna redistribuição dos poderes de controle. Com mais discernimento que muitos dos seus contemporâneos, Bentham viu diretamente através dos variegados invólucros dos poderes controladores a sua tarefa principal e comum, que era discplinar mantendo uma ameaça constante, real e palpável de punição.” (Bauman, 1998: 56)

Cf. em < http://www.theatlasgroup.org > (Último acesso em 03 de fevereiro de 2004).

Estamos nos referindo aqui à participação de Walid no 14º Videobrasil – Festival Internacional de Arte Eletrônica, parte da curadoria Narrativas Possíveis , de Akram Zaatari e Christine Tohme. A participação do Atlas Group, de Walid, se deu através da performance multimídia The Loudest Muttering is Over: Documents from the Atlas Group (2003).

Aqui, qualquer tem o sentido específico que lhe confere Giorgio Agamben: “O ser que vem é um ser qualquer.” (Agamben, 1993:11).

Qualquer, portanto, como potencialidade, qualidade transcendental de uma comunidade por vir: “ quodlibet ens não é ‘o ser, qualquer ser’, mas ‘o ser que, seja como for, não é indiferente’; ele contém, desde logo, algo que remete para vontade ( libet ), o ser qual- quer estabelece uma relação original com o desejo.” (Agamben, 1993: 11).

Fonte: http://videodispositivo.blogspot.com/2005/07/virar-cmera-estremecer-imagem-andr.html





9 01 2008

“Não me pergunte quem sou eu e não me diga para permanecer o mesmo: é uma moral de estado civil; ela rege nossos papéis. Que ela nos deixe livres quando se trata de escrever!” (Foucault, Arqueologia do saber, 1969, p.27)





Polemics, política e Problematizations – Foucault

10 10 2007

[foucault.info]

Trad. de google, mas tá muito boa!

Esta entrevista ocorreu para que Foucault para responder a perguntas perguntou freqüentemente por audiências americanas.
Foi conduzida por Paul Rabinow em maio 1984, imediatamente antes da morte de Foucault.
Tradução por Lydia Davis, volume 1 “éticas” “de trabalhos essenciais de Foucault”, a imprensa nova 1997.
Paul Rabinow: Por que é que você não acoplar nos polemics?

Michel Foucault: Eu gosto de discussões, e quando eu sou perguntado, do eu tento responder-lhes. É verdadeiro que eu não gosto de começar involvido nos polemics. Se eu abrir um livro e me vir que o autor está acusando um adversário “do leftism infantile” o fechar outra vez direito – afastado. Aquela não é minha maneira de fazer coisas; Eu não pertenço ao mundo dos povos que fazem as coisas que maneira. Eu insisto nesta diferença como algo essencial: um morality inteiro está na estaca, essa que concerne a busca para a verdade e a relação à outra.

No jogo sério das perguntas e das respostas, no trabalho do elucidation recíproco, as direitas de cada pessoa estão em algum sentido immanent na discussão. Dependem somente da situação do diálogo. A pessoa que faz as perguntas está exercitando meramente a direita que o foi dada: remanescer unconvinced, para perceber um contradiction, para reque mais informação, para emfatizar postulados diferentes, para indicar o raciocínio defeituoso, e assim por diante. Como para a pessoa que responde às perguntas, exercita demasiado uma direita que não vá além da discussão própria; pela lógica de seu próprio discurso, é amarrado a o que tem dito mais cedo, e pela aceitação do diálogo é amarrado a questionar de outro. Questiona e as respostas dependem de um jogo do jogo-um em que estejam em uma vez agradável e difícil-em quais cada uma das duas dores das tomadas dos sócios para usar somente as direitas dadas o pelas outras e pelo formulário aceitado do diálogo.

O polemicist, na uma mão, rendimentos encerrados nos privilégios que possui adiantado e nunca concordará à pergunta. No princípio, possui as direitas que autorizam o empreender a guerra e que fazem a esse esforço um empreendimento justo; a pessoa que confronta não é um sócio na busca para a verdade mas um adversário, um inimigo que sejam errado, que sejam armful, e o cujo muito a existência constitua uma ameaça. Para ele, então o jogo consiste não em reconhecer esta pessoa como um assunto que tem a direita falar mas em abolishing o como o interlocutor, de todo o diálogo possível; e seu objetivo final será não vir tão perto como possível a uma verdade difícil mas causar o triunfo da causa que justa upholding manifestamente do começo. O polemicist confia em um legitimacy que seu adversário é pela definição negada.

Talvez, someday, uma história longa terá que ser escrita dos polemics, dos polemics como uma figura parasítica na discussão e de um obstáculo à busca para a verdade. Muito esquematicamente, parece-me que hoje nós podemos reconhecer a presença nos polemics de três modelos: o modelo religioso, o modelo judiciary, e o modelo político. Como no heresiology, os polemics ajustam-se a tarefa de determinar o ponto intangível do dogma, do princípio fundamental e necessário que o adversário negligenciou, ignorado ou transgressed; e denounces este negligence como uma falha moral; na raiz do erro, encontra a paixão, o desejo, o interesse, uma série inteira das fraquezas e os acessórios inadmissíveis que a estabelecem como culpable. Como na prática judiciary, os polemics permitem nenhuma possibilidade de uma discussão igual: examina um caso; não está tratando de um interlocutor, ele está processando um suspeito; coleta as provas de sua culpa, designa o infraction que cometeu, e pronuncia o verdict e sentencia-o. Em nenhum caso, o que nós tivermos aqui não está na ordem de uma investigação compartilhada; o polemicist diz a verdade no formulário de seu julgamento e pelo virtue da autoridade conferenciou nhimself. Mas é o modelo político que é o mais poderoso hoje. Os Polemics definem alliances, recrutam partisans, unem interesses ou as opiniões, representam um partido; estabelece o outro como um inimigo, um upholder dos interesses opostos de encontro a que se deve lutar até o momento onde este inimigo é derrotado e rende-se ou desaparece-se.

Naturalmente, o reactivation, nos polemics, destas práticas políticas, judiciary, ou religiosas não é nada mais do que o teatro. Se gesticulates: os anathemas, os excommunications, os condemnations, as batalhas, as vitórias, e as derrotas não são não mais do que maneiras do discurso, após tudo. No entanto, na ordem do discurso, são também as maneiras de agir que não são sem conseqüência. Há os efeitos sterilizing. Qualquer um viu sempre uma idéia nova sair de um polemic? E como poderia ser de outra maneira, dado que aqui os interlocutors incited para não avançar, para não fazer exame do mais e mais riscos em o que dizem, mas para cair para trás continuamente nas direitas que reivindicam, em seu legitimacy, qual eles devem defender, e no affirmation de seu innocence? Há algo ainda mais sério aqui: neste comedy, um imita a guerra, as batalhas, os annihilations, ou as rendições incondicionais, propondo tanto quanto de one instinto do assassino como possível. Mas é realmente perigoso fazer qualquer um acreditar que pode aceder à verdade por tais trajetos e assim validar, mesmo se em um formulário meramente simbólico, as práticas políticas reais que poderiam ser autorizadas por ele. Deixar-nos imaginar, por um momento, que um wand mágico está acenado e um dos dois adversários em um polemic está dado a abilidade de exercitar todo o poder que gosta do excesso o outro. Se não tem que mesmo imaginá-lo: um tem para olhar somente o que aconteceu durante o debate na lingüistica ou no genetics excedente de URSS nao longa há. Eram estes desvios meramente aberrant de o que foi suposto para ser a discussão correta? Não nos todo-eram as conseqüências reais de uma atitude polemic cujos os efeitos remanescessem ordinariamente suspendidos.

P.R. Você foi lido como um idealist, como um nihilist, como “um filósofo novo”, um anti-Marxist, um conservador novo, e assim por diante… onde você está?

M.F. Eu penso que eu no fato situated em a maioria dos quadrados no tabuleiro de damas político, um após outro e às vezes simultaneamente: como o anti-Marxist do anarquista, do leftist, o ostentatious ou disfarçado do Marxist, do nihilist, o explícito ou o secreto, technocrat no serviço de Gaullism, liberal novo e assim por diante. Um professor americano queixou-se que um crypto-Marxist como mim estêve convidado nos EUA, e eu denounced pela imprensa em países europeus orientais para ser um cúmplice dos dissidents. Nenhuma destas descrições é importante por se; feita exame junto, na uma mão, significam algo. E eu devo admitir que eu gosto rather de o que significa.

É verdadeiro que eu prefiro não se identificar myself, e eu sou divertido pela diversidade das maneiras que eu fui julgado e classificado. Algo diz-me que agora pelo o lugar mais ou mais menos aproximado deve ter sido encontrado para mim, após assim muitos esforços em tais vários sentidos; e desde que eu obviamente não posso suspeitar o competence dos povos que estão começando atrapalhados acima em seus julgamentos divergent, desde que não é possível desafiar seu inattention ou seus preconceitos, eu tenho que ser convencido que sua inabilidade situate me tem algo fazer com mim.

E nenhuma dúvida fundamental concerne minha maneira de aproximar perguntas políticas. É verdadeiro que minha atitude não é um resultado do formulário da crítica que reivindica ser uma examinação metódica a fim rejeitar todas as soluções possíveis à exceção da uma válida. Está mais na ordem do “problematization” – que é dizer, o desenvolvimento de um domínio dos atos, práticas, e pensamentos que me parecem pose o problema para a política. Por exemplo, eu não penso de que com respeito à loucura e à doença mental há toda a “política” que puder conter a solução justa e definitive. Mas eu penso daquele na loucura, no derangement, em problemas do comportamento, lá sou razões para a política questionando; e a política deve responder a estas perguntas, mas nunca responde-lhes completamente. O mesmo é verdadeiro para o crime e a punição: naturalmente, não seria errado imaginar que a política não tem nada fazer com a prevenção e a punição do crime, e conseqüentemente nada fazer com um determinado número de elementos que modificam seu formulário, seu meaning, sua freqüência; mas seria justo como erradamente pensar de que há uma fórmula política provavelmente para resolver a pergunta do crime e para lhe pôr uma extremidade. O mesmo é verdadeiro do sexuality: não existe aparte de um relacionamento às estruturas, às exigências, às leis, e aos regulamentos políticos que têm uma importância preliminar para ele; no entanto se não pode esperar a política fornecer os formulários em que o sexuality cessaria de ser um problema.

É uma pergunta, a seguir, de pensar sobre as relações destas experiências diferentes à política, que não significa que se procurará na política o constituent principal destas experiências ou da solução que estabelecirão definitively seu fate. Os problemas que experimenta como estes o pose à política têm que ser elaborados. Mas é também necessário determinar o que “posing um problema” à política significa realmente. Richard Rorty indica que nestas análises eu não nos apelo a alguns “” – a alguns daqueles “wes” cujo o consenso, cujos os valores, cujas as tradições constituem a estrutura para um pensamento e definem as circunstâncias em que pode ser validado. Mas o problema é, precisamente, para decidir-se se for realmente apropriado se colocar oneself dentro do “nós” a fim afirmar os princípios um reconhecer e os valores um aceitarem; ou se não for, rather, necessário fazer-nos à formação futura do “” possíveis elaborando a pergunta. Porque me parece que “nós” não devemos ser precedentes à pergunta; pode somente ser o resultado-e provisória necessário resultado-da pergunta enquanto posed nos termos novos em que um a formula. Por exemplo, eu não sou certo que naquele tempo quando eu escrevi a história da loucura, houve preexisting e receptivo “nós” a qual eu somente teria que consultar a fim escrever meu livro, e de qual este livro seria a expressão espontânea. Laing, Cooper, Basaglia, e eu não tiveram nenhuma comunidade, nem nenhum relacionamento; mas o problema posed àqueles que nos tinham lido, enquanto posed também a alguns de nós, de ver se fosse possível nos estabelecer “” na base do trabalho que tinha sido feito, “nós” que seriam também prováveis dar forma a uma comunidade da ação.

Eu nunca tentei analisar qualquer coisa qualquer do ponto da vista da política, mas perguntar sempre a política o que teve que dizer sobre os problemas com que foi confrontado. Eu questiono-o sobre as posições que faz exame e as razões dá para este; Eu não o peço para determinar a teoria de o que eu. Eu sou nem um adversário nem um partisan do Marxism; Eu questiono-o sobre o que tem que dizer sobre as experiências que fazem perguntas dele.

Quanto para aos eventos de maio 1968, parecem-me que dependem de outra problematic. Eu não estava em France naquele tempo; Eu retornei somente diversos meses mais tarde. E pareceu-me que um poderia reconhecer elementos completamente contradictory nele: na uma mão, um esforço, que fosse afirmado muito extensamente, fazer a política um séries inteiras das perguntas que não eram tradicional uma parte de seu domínio estatutário (perguntas sobre mulheres, sobre relações entre os sexos, sobre a medicina, sobre a doença mental, sobre o ambiente, sobre minorities, sobre o delinquency); e, na uma mão, um desejo reescrever todos estes problemas no vocabulário de uma teoria que fosse derivada mais ou menos diretamente do Marxism. Mas o processo que era evidente naquele tempo conduzido não a fazer exame sobre os problemas posed pela doutrina Marxist mas, no contrário, a um mais e a mais powerlessness manifesto na parte do Marxism para confrontar estes problemas. De modo que se se encontrasse oneself enfrentado com interrogações que foram dirigidas à política mas ela mesma não tinha saltado de uma doutrina política. Deste ponto da vista, tal liberation do ato de questionar parecido a mim ter jogado um papel positivo: agora havia um plurality das perguntas posed à política melhor que o reinscription do ato de questionar dentro da estrutura de uma doutrina política.

P.R. Você diria que seus justifys do trabalho nas relações entre éticas, política, e o genealogy da verdade?

M.F.Nenhuma dúvida uma poderia dizer aquela em algum sentido que eu tento analisar as relações entre a ciência, em política, e em éticas; mas eu não penso que seria uma respresentação inteiramente exata do trabalho que eu me ajustei para fora para fazer. Eu não quero remanescer nesse nível; rather, eu estou tentando ver como estes processos podem ter interferido um com o outro na formação de um domínio científico, uma estrutura política, uma prática moral. Vamos fazer exame do psychiatry como um exemplo: nenhuma dúvida, uma pode analisá-lo hoje no seu estrutura-uniforme epistemological se aquela estiver ainda rather frouxa; se pode também analisá-la dentro da estrutura das instituições políticas em que se opera; se pode também estudá-lo em suas implicações éticas, como considera a pessoa que é o objeto do psychiatry tanto quanto o psychiatrist ele mesmo. Mas meu objetivo não foi fazer isto; rather eu tentei ver como a formação do psychiatry como uma ciência, a limitação de seu campo, e a definição de seu objeto implicaram uma estrutura política e uma prática moral: no sentido twofold que presupposed pela organização progressiva do psychiatry como uma ciência, e que estiveram mudados também por este desenvolvimento. O Psychiatry porque nós o sabemos não poderia ter existido sem um interplay inteiro de estruturas políticas e sem um jogo de atitudes éticas; mas inversa, o estabelecimento da loucura enquanto um domínio do conhecimento [savoir] mudou as práticas políticas e as atitudes éticas que o concerniram. Era uma matéria de determinar o papel da política e das éticas no estabelecimento da loucura como um domínio particular do conhecimento científico [connaissance], e também de analisar os efeitos do último em práticas políticas e éticas.

O mesmo é verdadeiro na relação ao delinquency. Era uma pergunta de ver que estratégia política teve, dando seu status ao criminality, podido apelar a determinados formulários do conhecimento [savoir] e a determinadas atitudes morais; era também uma pergunta de ver como estes modalities do conhecimento [connaissance] e estes formulários do morality poderiam ter sido refletidos dentro, e mudado perto, estas técnicas disciplinary. No exemplo do sexuality era o desenvolvimento de uma atitude moral que eu quisesse isolar; mas eu tentei reconstruct o através do jogo que acoplou dentro com estruturas políticas (essencialmente na relação entre o self-control [maîtrise de soi] e domination de outro) e com os modalities do conhecimento [connaissance] (self-knowledge e conhecimento de áreas de atividade diferentes).

De modo que na área-loucura estes três, no delinquency, e no sexuality- eu emfatizasse um aspecto particular cada vez: o estabelecimento de algum objectivity, o desenvolvimento de uma política e de um governo do self, e o elaboration do éticas e uma prática com respeito a oneself. Mas cada vez que eu tentei também indicar o lugar ocupado aqui por outros dois componentes necessários para constituir um campo da experiência. É bàsicamente uma matéria dos exemplos diferentes em que os três elementos fundamentais de toda a experiência são implicados: um jogo da verdade, relações do poder, e formulários da relação a oneself e a outro. E se cada um destes exemplos emfatizasse, em uma determinada maneira, um destes três aspecto-desde que a experiência da loucura estêve organizada recentemente tão primeiramente um campo do conhecimento [savoir], que do crime quanto uma área de intervenção política, quando aquele do sexuality foi definido como um ético posição-cada hora mim tentou mostrar como os dois outros elementos estavam atuais, que papel jogassem, e como cada foi afetado pelas transformações nos outros dois.

P.R. Você tem falado recentemente sobre uma “história do problematics”. Que é uma história do problematics?

M.F.Por muito tempo, eu tenho tentado ver se fosse possível descrever a história do pensamento como distinto da história das idéias (por quais eu significo a análise dos sistemas da respresentação) e da história dos mentalities (por qual eu significo a análise das atitudes e dos tipos de ação [schémas de comportement]). Pareceu-me lá era um elemento que era capaz de descrever a história do pensamento-este era o que se poderia se chamar os problemas ou, mais exatamente, os problematizations. O que distingue o pensamento é que é algo completamente diferente do jogo das respresentações que underlies algum comportamento; é também completamente diferente do domínio das atitudes que podem determinar este comportamento. O pensamento não é o que habita alguma conduta e lhe dá seu meaning; rather, é o que permite que se pise para trás desta maneira de agir ou de reagir, ao presente ele a oneself como um objeto do pensamento e para questioná-lo a respeito de seu meaning, de suas circunstâncias, e de seus objetivos. O pensamento é a liberdade com relação a o que uma faz, o movimento por que um destaca dela, a estabelece como um objeto, e reflete nele como um problema.

Dizer que o estudo do pensamento é a análise de uma liberdade não significa que uma está tratando de um sistema formal que tenha a referência somente a se. Realmente, para um domínio da ação, um comportamento, para incorporar o campo do pensamento, é necessário que um determinado número de fatores faça-o incerto, para tê-lo feito perder sua familiaridade, ou para ter provocado um determinado número de dificuldades em torno dele. Estes elementos resultam dos processos sociais, econômicos, ou políticos. Mas aqui, seu somente papel é aquele do instigation. Podem existir e executar sua ação por um tempo muito longo, antes que haja problematization eficaz pelo pensamento. E quando o pensamento intervem, não supõe um formulário original que seja o resultado direto ou a expressão necessária destas dificuldades; é uma resposta-frequentemente original ou específica que faz exame de muitos formulários, nivela às vezes contradictory no seu diferente aspecto-a estas dificuldades, que são definidas para ele por uma situação ou por um contexto, e que prendem verdadeiro como uma pergunta possível.

A um único jogo das dificuldades, diversas respostas podem ser feitas. E as respostas diferentes são propostas na maioria das vezes realmente. Mas o que deve ser compreendido é o que os faz simultaneamente possível: é o ponto em que sua simultaneidade é enraizada; é o solo que pode nourish os todos em sua diversidade e às vezes apesar de seus contradictions. Às dificuldades diferentes encontradas pela prática a respeito da doença mental no século dezoito, as soluções diversas foram propostas: Tuke e Pinel são exemplos. Na mesma maneira, um grupo inteiro das soluções foi proposto para as dificuldades encontradas ao segundo meio do décimo oitavo século pela prática penal. Ou outra vez, para fazer exame de um exemplo muito remoto, as escolas diversas da filosofia do período Hellenistic propuseram soluções diferentes às dificuldades de éticas sexual tradicionais.

Mas o trabalho de uma história do pensamento seria rediscover na raiz destas soluções diversas o formulário geral do problematization que as fêz possível-uniformes em sua oposição very; ou o que fêz possível a transformação das dificuldades e dos obstáculos de uma prática em um problema geral para que se propõe soluções práticas diversas. É o problematization que responde a estas dificuldades, mas fazendo algo completamente à excepção de expressá-las ou de manifestá-las: em relação a elas, desenvolve as circunstâncias em que as respostas possíveis podem ser dadas; define os elementos que constituirão o que as soluções diferentes tentam responder. Este desenvolvimento do dado em uma pergunta, nesta transformação de um grupo dos obstáculos e em dificuldades nos problemas a que as soluções diversas tentarão produzir uma resposta, este é o que constitui o ponto do problematization e o trabalho específico do pensamento.

Está desobstruído como distante um é de uma análise nos termos do deconstruction (toda a confusão entre estes dois métodos seria unwise). Rather, é uma pergunta de um movimento da análise crítica em que uma tenta ver como as soluções diferentes a um problema foram construídas; mas também como estas soluções diferentes resultam de um formulário específico do problematization. E parece então que toda a solução nova que possa ser adicionada à outra se levantaria do problematization atual, modificando somente diversos dos postulados ou dos princípios em que um baseia as respostas que uma dá. O trabalho da reflexão filosófica e histórica é posto para trás no campo do trabalho do pensamento somente sobre a circunstância que uma agarra claramente o problematization não como um arranjo das respresentações mas como um trabalho do pensamento.





O que é um autor! Foucault

8 10 2007
 
Foucault diz: “o autor não existe”. Ou melhor, não existe apesar de existir,
pois
não passa de uma construção política, uma realidade de transação, princípio
de
agrupamento do discurso criado com o objetivo de lhe conferir alguma unidade
e
coerência, de modo a tentar excluir o acaso do contínuo discursivo
(FOUCAULT, OD:29).
Apesar de ser eu a apertar, com os meus próprios dedos, o conjunto de botões
confusamente dispostos sobre a estante em minha frente, apesar de estar
sozinho
enxergando a seqüência de letras, palavras e frases que se organizam e
adquirem sentido na
tela diante de meus olhos, a verdade é que no momento de falar uma voz sem
nome me
precede. Apossando-me da caligrafia de um segurador de penas cujos dedos
eram mais
firmes, o que desejo repetir é que sou apenas mais um elo na cadeia de
raciocínio,
prosseguindo a frase, me alojando nos interstícios de uma continuidade sem
começo nem
fim (FOUCAULT, OD:5). Apesar de ser meu o nome rabiscado na primeira dessas
duzentas
e tantas folhas costuradas, não é de mim que parte o discurso. Eu não passo
de uma estreita
lacuna que permite a sua reemergência, uma fissura na terra que permite ao
contínuo fluxo
de lava brotar por um breve momento na superfície, impressionando-nos com a
beleza de
seu brilho tépido. A rachadura não é o magma, a rachadura não cria o magma,
a rachadura
não o desvela como verdade fundamental. A lava quente tem seus próprios
desígnios, se
movimenta de acordo com sua própria vontade, e flui sob a superfície da
Terra inteira.(agradecimentos da dissertação mestrado UFPR (Direito) Walter Guandalini
Junior)




O poder e sexualidade em Michel Foucault – Trechos e descaminhos…

6 10 2007

Portanto: analisar a formação de um certo tipo de saber sobre o sexo, não em termos de repressão ou de lei, mas em termos de poder. Esse termo de “poder”, porém, corre o risco de induzir a vários mal-entendidos. Mal-entendidos a respeito de sua identidade, forma e unidade. Dizendo poder, não quero significar “o Poder”, como conjunto de instituições e aparelhos garantidores da sujeição dos cidadãos em um Estado determinado. Também não entendo poder como modo de sujeição que, por oposição à violência, tenha a forma da regra. Enfim, não o entendo como um sistema geral de dominação exercida por um elemento ou grupo sobre outro e cujos efeitos, por derivações sucessivas, atravessem o corpo social inteiro. A análise em termos de poder não deve postular, como dados iniciais, a soberania do Estado, a forma da lei ou a unidade global de uma dominação; estas são apenas e, antes de mais nada, suas formas terminais. Parece-me que se deve compreender o poder, primeiro, como a multiplicidade de correlações de força imanentes ao domínio onde se exercem e constitutivas de sua organização; o jogo que, através de lutas e afrontamentos incessantes as transforma, reforça, inverte; os apoios que tais correlações de força encontram umas nas outras, formando cadeias ou sistemas ou, ao contrário, as defasagens e contradições que as isolam entre si; enfim, as estratégias em que se originam e cujo esboço geral ou cristalização institucional toma corpo nos aparelhos estatais, na formulação da lei, nas hegemonias sociais. A condição de possibilidade do poder, em todo caso, o ponto de vista que permite tornar seu exercício inteligível até em seus efeitos mais “periféricos” e, também, enseja empregar seus mecanismos como chave de inteligibilidade do campo scoial, não deve ser procurada na existência primeira de um ponto central, num foco único de soberania de onde partiriam formas derivadas e descendentes; é o suporte móvel das correlações de força que, devido a sua desigualdade, induzem continuamente estados de poder, mas esmpre localizados e instáveis. Onipresença do poder: não porque tenha o privilégio de agrupar tudo sob sua invencível unidade, mas porque se produz a cada instante. em todos os pontos, ou melhor, em toda relação entre um ponto e outro. O poder está em toda parte; não porque englobe tudo e sim porque provém de todos os lugares. E “o” poder, no que tem de permanente, de repetitivo, de inerte, de auto-reprodutor, é apenas efeito de conjunto, esboçado a partir de todas essas mobilidades, encadeamento que se apóia em cada uma delas e, em troca, procura fixá-las. Sem dúvida, devemos ser nominalistas: o poder não é uma instituição e nem uma estrutura, não é uma certa potência de que alguns sejam dotados: é o nome dado a uma situação estratégia complexa numa sociedade determinada.

(…)

Portanto, não referir uma história da sexualidade à instância do sexo; mostrar, porém, como “o sexo” se encontra na dependência histórica da sexualidade. Não situar o sexo do lado do real e a sexualidade do lado das idéias confusas e ilusões; a sexualidade é uma figura histórica muito real, e foi ela que suscitou, como elemento especulativo necessário ao seu funcionamento, a noção do sexo. Não acreditar que dizendo-se sim ao sexo se está dizendo não ao poder; ao contrário, se está seguindo a linha do dispositivo geral da sexualidade. Se, por uma inversão tática dos diversos mecanismos da sexualidade, quisermos opor os corpos, os prazeres, os saberes, em sua multiplicidade e sua possibilidade de resistência às captações do poder, será com relação à instância do sexo que deveremos liberar-nos. Contra o dispositivo da sexualidade, o ponto de apoio do contra-ataque não deve ser o sexo-desejo, mas os corpos e os prazeres.

(…)

Rir-se-á da acusação de pansexualismo que em certo momento se opôs a Freud e à Psicanálise. Mas os que parecerão cegos serão, talvez, nem tanto os que a formularam, como os que a rejeitaram com um simples gesto, como se ela traduzisse somente os temores de uma velha pudicícia. Pois os primeiros, afinal de contas, apenas se surpreenderam com um processo que começara havia muito tempo e que não tinham percebido que já os cercava de todos os lados; tinham atribuído exclusivamente ao gênio mau de Freud o que estava preparado há muito tempo; tinham-se enganado de data quanto à instauração, em nossa sociedade, de um dispositivo geral de sexualidade. Mas os outros erraram quanto à natureza do processo; acreditaram que Freud restituía enfim, ao sexo, por uma reversão súbita, a parte que lhe era devida e que lhe fora contestada por tanto tempo; não viram que o gênio bom de Freud o colocara em um dos pontos decisivos, marcados, desde o século XVIII, pelas estratégias de saber e de poder; e que, com isso, ele relançava com admirável eficácia, digna dos maiores espirituais e diretores da época clássica, a injunção secular de conhecer o sexo e colocá-lo em discurso. Evoca-se com frequência os inúmeros procedimentos pelos quais o cristianismo antigo nos teria feito detestar o corpo; mas, pensemos um pouco em todos esses ardis pelos quais, há vários séculos, fizeram-nos amar o sexo, tornaram desejável para nós conhecê-lo e precioso tudo o que se diz a seu respeito; pelos quais, também, incitaram-nos a desenvolver todas as nossas habilidades para surpreendê-lo e nos vincularam ao dever de extrair dele a verdade; pelos quais nos culpabilizaram por tê-lo desconhecido por tanto tempo. São esses ardis que mereceriam espanto hoje em dia. E devemos pensar que um dia, talvez, numa outra economia dos corpos e dos prazeres, já não se compreenderá muito bem de que maneira os ardis da sexualidade e do poder que sustêm seu dispositivo conseguiram submeter-nos a essa austera monarquia do sexo, a ponto de votar-nos à tarefa infinita de forçar seu segredo e de extorquir a essa sombra as confissões mais verdadeiras.

Ironia desse dispositivo: é preciso acreditarmos que nisso está nossa “libertação”.

História da Sexualidade, vol. I. Michel Foucault.





Foucault sendo honesto.

6 10 2007

 

“Quanto ao motivo que me impulsionou foi muito simples. Para alguns, espero, esse motivo poderá ser suficiente por ele mesmo. É a curiosidade — em todo caso, a única espécie de curiosidade que vale a pena ser praticada com um pouco de obstinação: não aquela que procura assimilar o que convém conhecer, mas a que permite separar-se de si mesmo. De que valeria a obstinação do saber se ele assegurasse apenas a aquisição dos conhecimentos e não, de certa maneira, e tanto quanto possível, o descaminho daquele que conhece? Existem momentos na vida onde a questão de saber se se pode pensar diferentemente do que se pensa, e perceber diferentemente do que se vê, é indispensável para continuar a olhar ou a refletir. Talvez me digam que esses jogos consigo mesmo têm que permanecer nos bastidores; e que no máximo eles fazem parte desses trabalhos de preparação que desaparecem por si sós a partir do momento em que produzem seus efeitos. Mas o que é filosofar hoje em dia — quero dizer, a atividade filosófica — se não consistir em tentar saber de que maneira e até onde seria possível pensar diferentemente em vez de legitimar o que já se sabe? Existe sempre algo de irrisório no discurso filosófico quando ele quer, do exterior, fazer a lei para os outros, dizer-lhes onde está a sua verdade e de que maneira encontrá-la, ou quando pretende demonstrar-se por positividade ingênua; mas é seu direito explorar o que pode ser mudado, no seu próprio pensamento, através do exercício de um saber que lhe é estranho. O “ensaio” — que é necessário entender como experiência modificadora de si no jogo da verdade, e não como aprovação simplificadora de outrem para fins de comunicação — é o corpo vivo da filosofia, se, pelo menos, ela for ainda hoje o que era outrora, ou seja, uma “ascese”, um exercício de si, no pensamento.”

História da Sexualidade, vol. II. Michel Foucault.





O mundo é um Grande Asilo (Foucault para Revista Brasileira ‘Manchete’)

2 10 2007

“[...] Le monde est un grand asile, où les gouvernants sont les psychologues, et le peuple, le patients. Avec chaque jour qui passe, le rôle joué par les criminologues, les psychiatres et tous ceux qui étudient le comportement mental de l’homme est plus grand. C’est pourquoi le pouvoir politique est en train d’acquérir une nouvelle fonction, qui est la thérapeutique. [...]” (Michel Foucault, 16 juin 1973).





Minimalista de Si… Michel Foucault

21 09 2007

LAWRENCE D. KRITZMAN. “MICHEL FOUCAULT, POLÍTICA, FILOSOFÍA, CULTURA. ENTREVISTAS Y OTROS ESCRITOS 1977-1984″.

Michel Foucault:

Traducción de Fabio A. Marulanda V.

MINIMALISTA DE SI [1]

Entrevistador: Stephen Riggins

Michel Foucault raramente hablaba de sí mismo. En realidad él despreciaba el discurso que se dió a conocer como biografía intelectual. Sinembargo, ésta discusión con Stephen Riggins muestra algunas suspicacias del filósofo quien encontraba su vida personal “sin interés” (“uninteresting”) y prefería permanecer siempre anónimo. De sus comentarios anecdóticos concernientes a la búsqueda de una austeridad monástica y un “ethos” cultural del silencio para la transformación de sí mismo y hasta de su propio conocimiento, Foucault se auto-retrató más o menos como “Minimalist Aesthetic Experience.” Esta entrevista fué grabada en inglés y publicada en el “Canadian Journal Ethos” en el otoño de 1983. (Nota del Traductor).

STEPHEN RIGGINS:

Una de las muchas cosas que un lector inesperadamente puede aprender de su actividad como lector, es el aprecio por el silencio. Usted escribió acerca de la libertad que ésto posibilita, y de sus múltiples causas y significados.

Por ejemplo, usted dijo en su último libro que existe no uno sino muchos silencios. Sería correcto deducir que existe en ésto un fuerte elemento auto-biográfico?

FOUCAULT:

Pienso que cualquier niño que haya sido educado en un medio católico, justamente antes o durante la Segunda Guerra Mundial, tuvo la experiencia de que hubo muchas y diferentes maneras de hablar, así como de muchas maneras de silencio. Hubo algunas maneras de silencio que implicaron mucha hostilidad y otras que manifestaban profunda amistad, emocional admiración, incluso amor. Recuerdo muy bien que cuando me encontré con el director de cine Danielt Schmidt, quien me visitó, no recuerdo para que propuesta, nosotros nos dimos cuenta unos pocos minutos después, que realmente no teníamos nada para decirnos el uno al otro. Así nos quedamos acerca de las tres de la tarde hasta la media noche. Nosotros bebimos, fumamos picadura, y cenamos. Y no creo que nosotros hayamos hablado más de veinte minutos durante éstas diez horas. A partir de éste momento una estrecha amistad surgió. Fue para mí la primera vez que una amistad fue originada estrictamente por nuestro comportamiento silencioso. Quizás una otra característica de ésta apreciación del silencio esté relacionada por la obligación de hablar. Viví cuando niño en una pequeña población en un ambiente provincial en Francia y la obligación de hablar, de conversar con los visitantes, fue para mí a veces un tanto extraña y muy aburrida.

Frecuentemente me preguntaba por qué las personas tenían que hablar. El silencio podría ser una manera mucho más interesante de relacionarse con las personas.

STEPHEN RIGGINS:

En la cultura de los indios Norte-Americanos es mucho más grandioso el aprecio por el silencio, que en las sociedades de lengua inglesa y supongo que mucho más que en las sociedades de lengua francesa también.

FOUCAULT:

Sí, vea usted, pienso que el silencio es una de aquellas cosas que han sido desafortunamente omitidas en nuestra cultura. Nosotros no tenemos una cultura del silencio; nosotros no tenemos una cultura de cualquier tipo de suicidio.

Pienso que los japoneses sí. A los jóvenes Romanos o a los jóvenes Griegos, les enseñaban a quedarsen en silencio, en muchas diferentes ocasiones de acuerdo a las personas con quienes ellos iban interactuando. Es ésto de momento lo que creo merece seguirse cultivando. Estoy a favor del desarrollo del silencio como un “ethos” cultural.

STEPHEN RIGGINS:

Usted parece tener una fascinación con otras culturas y no sólo del pasado; durante los primeros diez años de su carrera usted vivió en Suecia, Alemania Occidental y Polonia.

Ésto podría parecer una carrera muy atípica para un académico francés. Puede usted explicar por qué dejó Francia y por qué, cuando usted regresó aproximadamente en 1961, se dejó correr el rumor que usted podría tener preferencia para vivir en Japón?

FOUCAULT:

Hay un “snobismo” más o menos anti-chovinista en Francia ahora. Espero que ésto que voy a decir no sea asociado con éstos grupos de personas. Quizás si fuera un americano o un canadiense podría sufrir de algunas características de la cultura norteamericana. De todos modos, he tolerado y sinembargo he soportado quieto una serie de cosas en la vida social y cultural francesa. Ésta fue la razón por la que dejé Francia en 1955. Circunstancialmente, en 1966 y 1968 también pasé dos años en Túnez por razones puramente personales.

STEPHEN RIGGINS:

Puede usted darme algunos ejemplos de los aspectos de la sociedad francesa que ha tenido que soportar?

FOUCAULT:

Bien, pienso que, en el momento que dejé Francia, la libertad individual estuvo muy bruscamente limitada allí. En ese momento Suecia, estaba supuesto para ser un país mucho más libre. Y allí tuve la experiencia de tener una cierta clase de libertad, no exactamente con los mismos efectos pero con tantos efectos restrictivos como en una sociedad directamente restrictiva. Ésto fue una importante experiencia para mí. Además tuve la oportunidad de pasar un año en Polonia donde, claro las restricciones y el poder opresivo del partido comunista eran realmente completamente diferentes. En un demasiado corto período de tiempo, tuve la experiencia de una antigua tradicional sociedad, como fué Francia a comienzos de 1940 y finales de 1950, y de la nueva libre sociedad cual fue Suecia. No digo que tuve la experiencia de todas las posibilidades políticas, pero fue un ejemplo de que las posibilidades de las sociedades de occidente eran esas en ese momento. Esa fue una buena experiencia.

STEPHEN RIGGINS:

Cientos de americanos fueron a París en los años veinte y treinta por exactamente las mismas razones que usted dejó Francia en los años cincuenta.

FOUCAULT:

Sí. Pero en ese momento no creo que ellos hayan venido a París en busca de libertad. Ellos viajaron para saborear una antigua y tradicional cultura. Ellos fueron a Francia como pintores fueron a Italia en el siglo XVII para ver una agonizante civilización. De todas maneras, usted sabe, nosotros muy frecuentemente tenemos la experiencia de mucha más libertad en países extranjeros que en nuestro propio país. Como extranjeros nosotros podemos ignorar todas esas obligaciones implícitas, que no están en la ley, pero que están de manera general en el comportamiento. En segundo lugar, sólo cambiando nuestras obligaciones estamos sintiendo o experimentando un cierto tipo de libertad.

STEPHEN RIGGINS:

Si usted no se molesta, permítame retornar nuevamente a sus tempranos años en París. Entiendo que usted trabajó como un psicoanalista en el Hospital Santa Ana en París.

FOUCAULT:

Sí, trabajé allí poco más que dos años creo.

STEPHEN RIGGINS:

Y usted ha comentado que se identificaba más con el paciente, que con el personal de trabajo. Seguramente ésto es muy atípico para alguien que es un psicoanalísta o psiquiátra.

Por qué sintió usted, particularmente de ésta experiencia, la necesidad de radicalmente cuestionar la siquiatría, cuando textualmente muchas otras personas estaban satisfechas al tratar de refinar los conceptos que eran ya predominantes…?

FOUCAULT:

…Actualmente.

No fui nombrado oficialmente. Estuve allí estudiando psicología en el hospital Santa Ana.

Ésto fue a comienzos de 1950. Allí no hubo un claro “status” profesional para los psicólogos en un hospital mental. Así siendo un estudiante en psicología –estudié primero filosofía y luego psicología– tuve un muy extraño “status” allí. El “jefe de personal” fue muy especial conmigo y me permitió hacer cualquier cosa que deseara. Pero sin descuidar lo que debía estar haciendo; fui libre para hacer cualquier cosa. Estuve en realidad en una posición entre el grupo de trabajo y los pacientes, y ésto no fue mi mayor mérito, y no fue porque tuviera una aptitud especial, fue a consecuencia de ésta ambiguedad en mi “status” que me obligó a mantenerme a distancia del grupo de trabajo.

Estoy seguro que no fue por mi mérito personal, porque dejé todo ésto en el momento en que empecé a sentir cierto malestar.

Fue solamente unos pocos años después cuando comencé a escribir sobre la historia de la psiquiatría que éste malestar, de ésta personal experiencia, tomó la forma de una crítica histórica o de un análisis estructural.

STEPHEN RIGGINS:

Fue ésto una cosa inusual en el hospital Santa Ana? Podría ésto haber generado a los empleados una impresión particularmente negativa de la siquiatría?

FOUCAULT:

Oh no. Fue algo típico en los grandes hospitales, como usted puede imaginarse y debo decir que fue el mejor de la mayoría de los grandes hospitales, de las provincias de los pueblos de la provincia que visité después. Fue uno de los mejores en París. No, ésto no fue terrible. Ésto fué precisamente la cosa que resultó importante. Quizás si hubiera estado haciendo ésta práctica de trabajo en un hospital de provincia pequeño, hubiera creído que los fracazos pudieran haber sido el resultado de su localización o de su particular inadecuación.

STEPHEN RIGGINS:

Usted ha mencionado, precisamente las provincias francesas, en una en la cual usted ha nacido, de una manera despectiva; no obstante, tiene usted algunos recuerdos cariñosos de su crecimiento en Poitiers entre los años 1930 y 1940? [2]

FOUCAULT:

Oh sí. Mis recuerdos son bastantes, uno no puede decir que son exactamente desconocidos, pero al menos descubro ahora cuando trato de recordar éstas impresiones, que casi todos los grandes recuerdos sentimentales que tengo están relacionados con la situación política. Recuerdo muy bien que sentí uno de mis primeros grandes sustos cuando el Canciller Dollfuss fue asesinado por los Nazis, creo que en 1934. Ésto está algo muy lejos para nosotros ahora. Muy poca gente recuerda la muerte de Dollfuss. Recuerdo muy bien que estuve realmente muy asustado por ésto. Pienso que ésto fue mi primer fuerte susto con la muerte. También recuerdo que refugiados de España llegaron a Poitiers. Y recuerdo las disputas en la escuela con mis compañeros de clase acerca de la guerra en Etiopía. Pienso que los muchachos y muchachas de ésta generación fueron marcados en su niñez por éstos grandiosos acontecimientos históricos.

La amenaza de la guerra fue nuestra educación, nuestros marcos de existencia. Luego vino la guerra. Mucho más que nuestras vidas en familia, fueron éstos eventos acerca del mundo los que son la esencia de nuestros recuerdos. Digo “nuestros” porque estoy casi seguro que la mayoría de muchachos y muchachas en Francia en éste momento tuvimos la misma experiencia. Nuestra vida privada fue realmente amenazada. Puede ser ésta la razón por la que estoy fascinado por la historia y las relaciones que hay entre mi experiencia personal, y, éstos acontecimientos de los cuales nosotros formamos parte; pienso que ésto es el núcleo de mis deseos teóricos.[Riéndose...].

STEPHEN RIGGINS:

Usted quedó fascinado por éste período aunque usted nunca escribió acerca de ésto.

FOUCAULT:

Sí, por supuesto.

STEPHEN RIGGINS:

Cual fue el origen de su decisión de volverse un filósofo?

FOUCAULT:

Usted sabe, nunca tuve el proyecto de volverme un filósofo. No sabía que hacer con mi vida. Y pienso que ésto también es algo característico de mi generación. Nosotros no sabíamos a la edad de diez u once años, si podríamos pasar a Alemania o quedarnos en Francia. Nosotros no sabíamos si podríamos morir en el bombardeo y así terminar. Cuando tenga sesenta o setenta pensaré solamente una cosa: la vida en la escuela fué un medio protector de amenazas exteriores, de políticas. Y siempre estuve fascinado por las condiciones de vida, por la protección de un medio erudito en un medio intelectual.

El conocimiento es para mí, eso que pueda funcionar como una protección de la existencia individual y para la comprensión del mundo exterior. Pienso que ésto es así. El conocimiento es una manera de supervivencia para el entendimiento.

STEPHEN RIGGINS:

Puede usted decirme un poco acerca de sus estudios en París? Hay alguien quien tuvo una especial influencia, sobre el trabajo que usted hace hoy, o algún profesor con quien usted éste agradecido por alguna razón personal?

FOUCAULT:

No, fui discípulo de Althusser, y en ese momento las principales corrientes filosóficas en Francia fueron el Marxismo, Hegelianismo y la Fenomenología. Tengo que decir que he estudiado ésto, pero lo que me dio en los primeros años el interés para hacer mi trabajo personal fue la lectura de Nietzsche.

STEPHEN RIGGINS:

Una entrevista que no es en francés, es probable que tenga un muy pobre entendimiento de los resultados de la rebelión de Mayo de 1968 y usted dijo unos días después, que éste resultado en la gente, sería más sensible para su trabajo. Puede usted explicar por qué?

FOUCAULT:

Pienso que antes de 1968, por lo menos en Francia, usted tenía que ser lo mismo que un filósofo marxista, o un fenomenologísta o un estructuralista y de ninguna manera me adherí a éstos dogmas. El segundo punto es que en éste momento en Francia estudiando la psiquiatría o la historia de la medicina no representaba un “status” real en la esfera política. Nadie estaba interesado en ésto. La primera cosa que paso después de Mayo del 68 fué que el marxismo como un marco dogmático declinaba y una nueva política, nuevos intereses concernientes a la vida personal aparecían. Ésta es la razón por la que pienso que mi trabajo no tuvo casi resonancia, con la excepción de un muy pequeño círculo, antes del 68.

STEPHEN RIGGINS:

Algunos de éstos trabajos se encuentran en el primer volumen de “La Historia de la Sexualidad”, tal como el libro de la “Sociedad Victoriana”, “ Mi Vida Intima”, está cargado con fantasías sexuales. Podría ésto ser un valor en su enfoque explícitamente sobre las fantasías sexuales y la creación de una arqueología de ellas más bien que una de la sexualidad?

FOUCAULT:

[Riéndose...] No, no traté de escribir una arqueología de fantasías sexuales. Traté de hacer una arqueología del discurso acerca de la sexualidad que es realmente la relación entre lo que nosotros hacemos, lo que nosotros estamos obligados a hacer, lo que a nosotros nos está prohibido hacer en el campo de la sexualidad y lo que a nosotros nos está permitido, prohibido, u obligados a decir acerca de nuestro comportamiento sexual. Éste es el punto. No es un problema de fantasías; es un problema de verbalización.

STEPHEN RIGGINS:

Puede usted explicar como llegó a la conclusión de que la represión sexual que caracterizó el siglo XVIII y XIX en Europa y Norte-America y que aparece de ésta manera bien documentada históricamente, fue un hecho ambiguo y que debajo de ésto estarían trabajando fuerzas en la dirección opuesta?

FOUCAULT:

En efecto, no es el problema de negar la existencia de la represión. Una de las representaciones de ésta represión, es siempre una parte de una estrategia política mucho más compleja con respecto a la sexualidad. Éstas cosas no están simplemente reprimidas. Hay acerca de la sexualidad una parte de regulaciones anormales en las cuales los efectos negativos de ésta inhibición, se compensan por los positivos efectos del estímulo. La vía en la cual la sexualidad en el siglo XIX por ambos lados estuvo reprimida pero también puesta en evidencia, subrayada, analizada a través de técnicas como el psicoanálisis y la psiquiatría‚ demostrando muy bien que ésto no fue una simple cuestión de represión. Ésto fue mucho más que un cambio en las economías de comportamientos sexuales en nuestra sociedad.

STEPHEN RIGGINS:

En su opinión cuales son de los más notables ejemplos que soportan sus hipótesis?

FOUCAULT:

Uno de ellos es la masturbación en los niños. Otro es la histeria, y todo el alboroto acerca de las mujeres histéricas. Éstos dos ejemplos demuestran, y desde luego, represión, prohibición, interdicción y así sucesivamente. Pero el hecho que la sexualidad de los niños se vuelva un problema para los padres, un lío, una fuente de inquietud, tuvo bastantes efectos sobre los niños y sobre los padres. El cuidado de la sexualidad de sus hijos no fue sólo una cuestión de moralidad para los padres sino también una cuestión de placer.

STEPHEN RIGGINS:

Placer en que sentido?

FOUCAULT:

Excitación sexual y satisfacción sexual.

STEPHEN RIGGINS:

Para los mismos padres?

FOUCAULT:

Sí. Llámelo violación, si usted quiere. Hay textos que están muy cerrados para una sistematización de la violación.

Violación por los padres de la actividad sexual de sus hijos.

Para intervenir en ésta personal actividad secreta de la cual fue objeto la masturbación‚ no representó algo neutral para los padres. Es no solamente un asunto de poder, o de austeridad, o de ética, es también un placer. No ésta usted de acuerdo con ésto? Sí, hay placer en la prohibición. El hecho que la masturbación fue así estrictamente prohibida para los niños fue naturalmente la causa de la ansiedad, ésto fue también una razón para la intensificación de su actividad, por mutua masturbación y por el placer de una comunicación secreta entre los niños acerca de éste tema. Todo ésto dió una cierta forma para la vida en familia, para la relación entre niños y padres, y para la relación entre niños.

Todo ésto tiene, como resultado no solamente represión sino, una intensificación en ambas partes de ansiedades y de placeres. No quiero decir que el placer de los padres fue el mismo como el de los niños o que ésto no fue represión. Trato de encontrar el origen de ésta absurda represión.

Una de las razones porque ésta estúpida prohibición de la masturbación, fue mantenida por largo tiempo, fue a causa de éste placer y ansiedad y todo el tejido emocional acerca de ello.Todo el mundo sabe muy bien que es imposible prevenir a un niño de la masturbación. No es científicamente evidente que ésto sea nocivo. Uno puede estar seguro que ésto es por lo menos [Riéndose…] el único placer que realmente no es nocivo. Porque estuvo prohibido por tan largo tiempo en ese momento? En lo mejor de mi conocimiento, usted no pudo encontrar más que dos o tres referencias en toda la literatura Greco-Latina acerca de la masturbación. Ésto no fue importante. Se supone que fue, en la civilización Griega y Latina una actividad en ambos casos para esclavos y sátiros. [Riéndose...] Ésto no fue importante para hablar acerca de ello por ciudadanos libres.

STEPHEN RIGGINS:

Nosotros vivimos en un punto en el tiempo en el que hay grandes incertidumbres acerca del futuro. Uno ve visiones apocalípticas del futuro reflejadas muy bien en la cultura popular. “My Dinner with Andre” de Louis Malle, por ejemplo.[3]

No es característico que un clima parecido de sexo y reproducción venga a ser una preocupación y de ésta manera, escribiendo una historia de la sexualidad podría ser sintomático de éste tiempo?

FOUCAULT:

No, no estaría de acuerdo con ésto.

Primero, la preocupación por la relación entre sexualidad y reproducción parece haber sido fuerte, por ejemplo, en las sociedades Griega y Romana y en la sociedad burguesa del siglo XVIII y XIX ninguna. Lo que me llama la atención es el hecho que ahora la sexualidad parezca ser una cuestión sin directa relación con la reproducción. Es su sexualidad como su personal comportamiento el cual es el problema.

Tomé la homosexualidad, por ejemplo. Pienso que una de las razones por las que el comportamiento homosexual no haya sido en el siglo XVIII y XIX, un importante tema, haya sido debido a la consideración de si un hombre podía tener hijos, que hizo además que tuviera poca importancia.

Durante el siglo XIX, comienza a verse que el comportamiento sexual era importante para la definición del individuo mismo. Y ésto es algo nuevo. Y es muy interesante ver que antes del siglo XIX conductas prohibidas, incluso fueron muy severamente castigadas, eran siempre consideradas un exceso, un “libertinaje”, como algo exagerado. Conducta homosexual era únicamente considerada como un cierto exceso del comportamiento natural, un instinto que es difícil guardarse dentro de ciertos límites.

Desde el siglo XIX vemos que el gusto de la homosexualidad comienza a ser considerado como una anormalidad. Cuando digo que fue libertinaje no estoy diciendo que fue tolerada.

Pienso que la idea de la caracterización individual a partir del comportamiento sexual, no fue encontrada o muy raramente antes del siglo XIX. “Dime cuales son tus deseos y te diré quien eres.” Este asunto es característico del siglo XIX.

STEPHEN RIGGINS:

No pudiera parecer más bien que el sexo podría ser llamado “el secreto de la vida.” Tiene alguna cosa para decir al respecto?

FOUCAULT:

Naturalmente que no es “el” secreto de la vida ahora, desde que la gente pueda manifestar al menos ciertas formas generales de sus preferencias sexuales sin ser infestado o castigado. Pero que la gente tranquilamente considera, y está invitada a considerar, que el deseo sexual es capaz de revelarles su profunda identidad.

La sexualidad no es “el,”pero es tranquilamente un síntoma, una manifestación de que es el mayor secreto en nuestra individualidad.

STEPHEN RIGGINS:

En la próxima pregunta, quiero primero preguntarle si al parecer es insignificante, y si ésto es así, me puede explicar por qué pienso que era digno de preguntarse. Tiene lo bello un especial significado para usted?

FOUCAULT:

Pienso que ésto es válido para todo el mundo. [Riéndose...].

Estoy corto de vista, pero no ciego al punto que ésto no tenga significado para mi. Por qué hizo usted ésta pregunta? Estoy asombrado, he dado a usted pruebas que no soy insensible ante lo bello.

STEPHEN RIGGINS:

Una de las cosas acerca de usted, que es muy impresionante, es la clase de austeridad monacal en la que vive.

Su apartamento en París es completamente blanco; usted también evita todos los “objetos de arte” que decoran así muchos hogares franceses.

El tiempo que estuvo en Toronto durante el pasado mes, usted ha vestido ropas tan simples como pantalones blancos, una camiseta blanca, y una chaqueta negra de cuero. Usted sugirió que quizás la razón por la que le gusta demasiado el blanco es que en Poitiers durante los años treinta y cuarenta fue algo imposible para el interior de las casas que fueran completamente blancas.

Usted está hospedado aquí en una casa, cuyos muros blancos están decorados con negras figuras recortadas de esculturas y usted comentó que aprecia especialmente la claridad y la fuerza del negro puro y del blanco.

Hay también una notable frase en “La Historia de la Sexualidad:” “Esa aústera monarquía del sexo.” Usted no pone la imagen del sofisticado francés quien hace un arte afuera comiendo bien.

También usted es la única persona francesa que conozco que me ha dicho que prefiere la comida americana.

FOUCAULT:

Sí por supuesto, [Riéndose...]. Un buen sanduche de tres pisos con una coca-cola. Eso es mi placer. Ésto es verdad. Con helado. Eso es cierto.

En realidad pienso que tengo real dificultad en experimentar placer. Pienso que el placer es una muy difícil conducta. Ésto no es tan simple como que [Riéndose...] disfrutar uno mismo. Y debo decir que ésto es mi sueño. Quisiera, y eso espero, morirme de una sobredosis [Riéndose...]‚ de algún tipo de placer. Porque pienso que ésto es realmente difícil y siempre tengo la sensación que no siento “el” placer, el completo y total placer, y para mi, ésto está relacionado con la muerte.

STEPHEN RIGGINS:

Por qué dices ésto?

FOUCAULT:

Porque pienso que el sentimiento de placer que puedo considerar como “el” real placer podría ser así de profundo, así de intenso, así de aplastante que no se podría sobrevivir a ello. Podría morir. Quiero darle un claro y simple ejemplo. Una vez fuí golpeado por un carro en la calle. Estuve caminando. Y quizás por dos segundos tuve la impresión que estaba muriendo y fue realmente un muy, muy intenso placer. El clima era maravilloso. Ésto fue a las siete en punto en el verano. El sol estaba descendiendo. El cielo estaba muy maravilloso y azul y así sucesivamente.

Así fue, así de apacible es ahora, uno de mis recuerdos. [Riéndose...].

Hay también el hecho que algunas drogas son realmente importantes para mi, porque ellas son la mediación, para esos increiblemente placeres que estoy buscando y que no soy capaz de experimentar, de proporcionarme, por si mismo. Es verdad que un vaso de vino, un buen vino, añejo y así sucesivamente, puede ser disfrutable, pero ésto no es para mi. Un placer debe ser alguna cosa increiblemente intensa. Pero pienso que no soy el único que quiere ésto.

No soy capaz de darme a mi mismo esos medios registros que halagan cada día la vida. Tales placeres no son para mi y no soy capaz de organizar mi vida para hacerle lugar a ellos. Ésta es la razón por la que no soy un ser social, porque no soy realmente un ser cultural, porque así estaría aburrido en cada día de mi vida. [Riéndose...]. Es aburrido vivir conmigo. [Riéndose...].

STEPHEN RIGGINS:

Frecuentemente cita libros de Roman Rolland, quien es el escritor francés romántico, por decirlo así “visuels” para quien la música fue unicamente un ruído. A pesar que ésta anotación es una obvia exageración, el más reciente análisis tiende a apoyar ésto.

Muchas referencias de pintores se encuentran en algunos de sus libros, pero poco de música. Es usted también representante de ésta característica de la cultura francesa que Rolland ha llamado la atención?

FOUCAULT:

Sí, por supuesto. En realidad la cultura francesa no dio lugar para la música, o casi muy poco lugar. Pero es un hecho que en mi vida personal la música ha jugado un papel bien importante. El primer amigo que tuve cuando tenia veinte años fue músico.

Luego mucho después, tuve otro amigo que fue un compositor y quien está muerto ahora.

Directamente con él, conocí toda la generación de Boulez. Ésto ha sido muy importante para mi experiencia. Primero, porque tuve contacto con el tipo de arte cual fue para mi realmente enigmático. No fui competente en todo en éste campo; no estoy quieto. Pero siento la belleza en algunas cosas que han sido bastante enigmáticas para mi. Existen algunas piezas de Bach y Webern de las cuales disfruto pero lo que es para mi realmente bello es una “phrase musicale, un morceau de musique,” que no pueda entender, de algunas cosas que no pueda decir nada acerca de ello. Tengo la opinión, quizás, ello es demasiado arrogante o presuntuoso, que podría decir algo acerca de algunas o de la mayoría de las maravillosas pinturas en el mundo. Por ésta razón ellas no son absolutamnete bellas.

De todas maneras, he escrito algunas cosas acerca de Boulez. Lo que ha sido para mi la influencia de vivir con un músico por varios meses. Porque ésto fue importante incluso en mi vida intelectual.

STEPHEN RIGGINS:

Si le entiendo correctamente, artistas y escritores respondieron a su trabajo más positivamente en el comienzo, que filosófos, sociólogos, u otros académicos.

FOUCAULT:

Sí, eso es cierto.

STEPHEN RIGGINS:

Hay una especial afinidad en su estilo de filosofar y las artes en general?

FOUCAULT:

Bien, pienso que no estoy en una buena posición para responderle. Usted sabe, odio tener que decir ésto, pero es verdad que no soy un buen académico. Mi trabajo intelectual está relacionado con lo que usted podría llamar esteticismo, que significa transformado por uno mismo. Creo que mi problema es ésta extraña relación entre conocimiento, saber, teoría, y historia real. Se muy bien, y sabia ésto desde el momento cuando era un niño, que el conocimiento no puede hacer nada para transformar el mundo. Quizás estoy equivocado. Y estoy seguro y estoy equivocado desde el punto de vista teórico para saber muy bien que el conocimiento ha transformado el mundo.

Pero si mé refiero a mi propia experiencia personal tengo el sentimiento que el conocimiento no puede hacer nada por nosotros y el poder político puede destruirnos. Todo el conocimiento en el mundo no puede hacer nada contra ésto. Todo ésto está relacionado no para que piense teóricamente –pienso que ésto es un error– pero hablo desde mi personal experiencia. Se que el conocimiento puede transformarnos, que la verdad no es la única vía para descifrar el mundo –y podría ser que a lo que nosotros llamamos verdad no descifre nada– pero ésto si lo se, la verdad podría cambiarnos. O tal vez podríamos morir pero pienso que ésta es la misma vía para mi. [Riéndose...].

Usted sabe, ésto es así porque a mi me gusta trabajar como un condenado y he trabajado como un condenado toda mi vida.

No estoy interasado en el “status” académico que he alcanzado porque mi problema es mi propia transformación. Ésta es también la razón, también el porque, cuando la gente dice, “bien, usted pensó ésto unos pocos años atrás y ahora usted está diciendo otra cosa,” mi respuesta es, [Riéndose...] “bien, usted piensa que he trabajado como todos éstos años para decir el mismo pensamiento y no ser cambiado? Ésta transformación de uno mismo por su propio conocimiento es, pienso, una cosa más bien cerrada para la experiencia estética. Porque podría trabajar un pintor si él no es transformado por su propia pintura?”

STEPHEN RIGGINS:

Además de la dimensión histórica hay un asunto ético comprometido en “La Historia de la Sexualidad?” No está usted diciéndonos de alguna manera como actuar?

FOUCAULT:

No. Si usted quiere decir por ética un código que podría decirnos como actuar, en éste caso naturalmente, “La Historia de la Sexualidad” no es una ética. Pero si por ética usted quiere decir la relación que usted tiene con usted mismo cuando actua, entonces podría decir que es el propósito para ser unas éticas, o al menos para demostrar que podrían ser unas éticas del comportamiento sexual. Ésta podría ser, una que no podría ser dominada por el problema de la profunda verdad o de la realidad de nuestra vida sexual. La relación que pienso que nosotros necesitamos tener con nosotros mismos cuando tenemos sexo, son unas éticas de placer, o de intensificación de placeres.

STEPHEN RIGGINS:

Muchas personas lo ven a usted como alguien que es capaz de decirles la verdad profunda acerca del mundo y acerca de ellos mismos. Como experimentas ésta responsabilidad? Como un intelectual, usted se siente responsable ante ésta función de vidente, de escultor de mentalidades?

FOUCAULT:

Estoy seguro que no soy capaz de darle a ésta gente lo que ellos esperan. [Riéndose...] Nunca me comporte como un profeta. Mis libros no le dicen a la gente que tienen que hacer. Y ellos frecuentemente me reprochan por no ser así –y puede ser que ellos tengan razón– y en el mismo momento me reprochan por comportarme como un profeta. He escrito un libro acerca de la historia de la psiquiatría desde el siglo XVII hasta muy cerca del siglo XIX. En éste libro dije casi nada acerca de la situación contemporánea, pero la gente tiene todavía la lectura de ésto como una posición de la anti-psiquiatría. Una vez fui invitado a Montreal para asistir a un simposio acerca de psiquiatría. Desde el primer momento rechace la invitación para ir allí ya que no soy un psiquiatra, aunque sí he tenido alguna experiencia, una muy pequeña experiencia como lo dije al comienzo‚ pero ellos me aseguraron que me invitaban como historiador de la psiquiatría para hacer un discurso de introducción. Ya que a mi me gusta la ciudad de Quebec, acepte ir. Y fue realmente una trampa, porque fui presentado por el presidente de ésta asociación, como “el” representante en Francia de la Anti-psiquiatría.

Naturalmente, allí estuvo gente muy querida quienes nunca han leído una línea de lo que he escrito y ellos se quedaron convencidos de que era un anti-psiquiátra.

No hice otra cosa que escribir la historia de la psiquiatría de comienzos del siglo XIX. Por qué debería así mucha gente, incluyendo psiquiatras, creer que soy un anti-psiquiatra? Ésto es así porque ellos no son capaces de aceptar la historia real de sus instituciones cuales son, naturalmente, un signo de la psiquiatría que comenzó como una pseudo-ciencia. Una real ciencia es capaz de aceptar hasta lo vergonzoso, sucias historias de sus comienzos. [Riéndose...].

Así usted sabe, ésto es a lo que ellos llaman ser profeta. Pienso que nosotros tenemos que liberarnos de ésto. La gente tiene que construir sus propias éticas, tomando como punto de partida el análisis histórico, el análisis sociologico y así sucesivamente, uno puede proveerles a ellos.

Uno puede tenerlos en cuenta. No creo que la gente que trata de descifrar la verdad pueda tener en cuenta los principios éticos o las advertencias prácticas en el mismo momento, en el mismo libro y en el mismo análisis. Toda ésta red tiene que ser elaborada y transformada por ellos mismos.

STEPHEN RIGGINS:

Para un filósofo que ha sido distinguido en las paginas de la revista “Time,” como ocurrió en noviembre de 1981 es una indicación de cierto tipo de “status” de popularidad. Como se sintió por ésto?

FOUCAULT:

Cuando un periodista me pregunta por información acerca de mi trabajo, considero que tengo que aceptar. Usted sabe, nosotros estamos pagando por ésta sociedad, pagando impuesto [Riéndose...] por trabajar. Y realmente pienso que la mayoría de nosotros tratamos de hacer nuestro trabajo lo mejor que podamos. Pienso que es bastante normal que éste trabajo, en cuanto sea posible, sea presentado y se haga accesible para cualquiera. Por supuesto, una parte de nuestro trabajo no puede ser accesible a cualquiera porque es demasiado difícil. La institución a la cual estoy asociado en Francia –no estoy asociado con la universidad, pero si al Colegio de Francia– obliga a sus socios a hacer lecturas públicas, abrirse a quien necesite asesoría, en las cuales nosotros tenemos que explicar nuestro trabajo.

Nosotros estamos a la vez con investigadores y personas quienes tienen que explicar publicamente nuestros trabajos. Pienso que hay en ésto una muy antigua tradición– datada desde el siglo XVI– con algunas cosas muy interesantes. Lo que ésto significa, pienso que es muy importante.

Cuando un periodista viene y me hace preguntas acerca de mi trabajo, trato de responder de la manera más clara que pueda. De todos modos mi vida personal no es en todo interesante. Si cualquiera piensa que mi trabajo no puede ser entendido sin alguna referencia de tal y tal parte de mi vida, acepto considerar la cuestión. [Riéndose...] Estoy listo a responder si lo acepto.

En lo que a mi vida personal se refiere no es interesante, no vale la pena hacer un secreto de ésto. [Riéndose...] Una prueba de ello, puede ser que no valga la pena publicarse ésto…

[1] Lawrence D. Kritzman, Ed. “Politics, Philosophy, Culture: Interviews and Others Writings, 1977-1984; Michel Foucault.” New York, London, Peutledge, 1988.

El significado del Minimalismo se refiere principalmente a un estilo en la pintura y en la escultura que se extendió ampliamente en los años sesenta en reacción contra el expresionismo abstracto.

Su influencia se sintió en la arquitectura, diseño, danza, teatro y la música. Particularmente en las escuelas modernas de música, “el minimalismo” se caracterizó, por la utilización de sonidos y ritmos simples, y cierto tamborileo, con un muy poco embellecimiento o arreglo orquestal complejo. Se caracterizó por la presencia repetitiva de formas con un obsesivo estructural rigor y a menudo ritmo repetitivo con efecto hinóptico. En consideración , ser Minimalista, es ofrecer no más de lo que es requerido o esencial, y estar en favor de un acercamiento moderado a un conjunto de objetivos mínimos de los cuales las expectativas son mínimas para alcanzar el éxito de un programa. (Nota del Traductor).

[2] Michel Foucault nació en 1927 en Poitiers (Francia), James Miller en un texto publicado en 1993, titulado “The Passion of Michel Foucault” dice que en el momento de su muerte el 25 de junio de 1984 Foucault tenía cincuenta y siete años.

Fue tal vez el más famoso intelectual en el mundo a quien sus libros, ensayos y entrevistas le han sido traducidos en diez y siete idiomas. (Nota del Traductor).

[3] Louis Malle director de cine francés, quien murió el 25 de noviembre de 1995 en los Angeles, California, a la edad de sesenta y tres años, siempre estuvo dispuesto a sorprender con sus obras. “Duende del séptimo arte” daba rienda suelta a su espíritu libre y curioso que al ritmo de sus pasiones le permitió edificar una obra sumamente rica y variada.

En 1977 se autoexilió en Estado Unidos donde rodó Atlanty City con Burt Lancaster, que recibió el León de Oro en el Festival de Venecia.

“Mi Cena con André” y “La Bahía del Odio” ésta última se refiere a los refugiados vietnamitas convertidos en pescadores en Texas. (Nota del Traductor).

 





O FILÓSOFO MASCARADO

21 09 2007

Prof. Selvino José Assmann

MICHEL FOUCAULT (Entrevista – 06/04/1980)

Le Philosophe masqué (entrevista de C. Delacampagne), em ‘Le Monde” n. 10945, de 06 de abril de 1980: “Le Monde-Dimanche”, pp. I e XVII. Em janeiro de 1980, Christian Delacampagne decidiu pedir a Foucault uma longa entrevista para o suplemento dominical de “Le Monde”, dedicado principalmente aos debates culturais. Foucault aceitou imediatamente, mas apresentou uma condição de princípio: a entrevista deveria ficar anônima, o seu nome não deveria aparecer e importava eliminar todos os indícios que teriam permitido identificar a sua pessoa. Foucault justificou esta posição da seguinte maneira: a cena intelectual tornou-se presa da mídia, as “estrelas” prevalecem sobre as idéias, e o pensamento como tal acaba não sendo reconhecido; conseqüência disso é que aquilo que se diz conta menos do que a personalidade de quem fala. E também este tipo de crítica com relação à “midiatização” corre o risco de ser menosprezada, caso for pronunciada por alguém que, sem querê-lo, já ocupa um lugar no sistema da mídia, como era o caso de Foucault. A fim de romper com semelhantes efeitos perversos e para tentar que fosse dita uma palavra que não pudesse ser aniquilada pelo fama do autor, convinha decidir-se a entrar no anonimato. A idéia agradou a Delacampgne. Acordaram que a entrevista fosse feita a um “filósofo mascarado”, isento de uma precisa identidade. Faltava convencer “Le Monde”, que queria uma entrevista com Foucault, a aceitar um texto de “ninguém”. Foi difícil, mas Foucault mostrou-se inflexível.

O segredo foi conservado até a morte de Foucault. Parece que bem poucos conseguiram descobri-lo. Em seguida, “Le Monde” e a editora La Découverte concordaram em juntar em volume esta entrevista com outros textos do mesmo autor. Conforme acontece nestes casos, “Le Monde” decidiu unilateralmente revelar o verdadeiro nome do “filósofo mascarado”. O texto da entrevista cabe integralmente a Foucault, que elaborou inclusive as perguntas, junto com Delacampagne, e reescreveu com muito cuidado cada resposta.

Permita-me, em primeiro lugar, perguntar-lhe porque escolhe o anonimato.

Imagino que você conheça a história daqueles psicólogos que apresentaram breve filme numa localidade no coração da África profunda. Pedem aos espectadores que narrem a história da forma como a entenderam. Pois bem, de um drama com três personagens, só uma coisa os havia interessado: a passagem das sombras e das luzes através das árvores.

Entre nós, os personagens ditam lei à percepção. Os olhos voltam-se preferivelmente para as figuras que vão e vêm, aparecem e desaparecem.

Por que lhe sugeri de usar o anonimato? Por saudades do tempo em que eu era absolutamente desconhecido e, portanto, aquilo que dizia tinha alguma possibilidade de ser entendido. O contato imediato com o eventual leitor não sofria interferências. Os efeitos do livro refletiam-se em lugares imprevistos e desenhavam formas a que nunca havia pensado. O nome constitui uma facilitação.

Gostaria de propor um jogo: o do “ano sem nome”. Por um ano publicar-se-iam apenas livros sem o nome do autor. Os críticos deveriam haver-se com uma produção completamente anônima. Mas penso que, talvez, não teriam nada a dizer: todos os autores esperariam o ano sucessivo para publicarem os seus livros…

Você acredita que, hoje, os intelectuais falam demais? Que nos atrapalham com os seus discursos diante de qualquer mínimo pretexto e, muitas vezes, até mesmo sem pretexto algum?

A morte dos intelectuais parece-me um estranho conceito. Intelectuais, nunca os encontrei. Encontrei pessoas que escrevem romances e pessoas que curam os doentes. Pessoas que estudam economia e pessoas que compõem música eletrônica. Encontrei pessoas que ensinam, pessoas que pintam e pessoas de quem não entendi se faziam alguma coisa. Mas nunca encontrei intelectuais.

Pelo contrário, encontrei muitas pessoas que falam do intelectual. E, por escutá-los tanto, construí para mim uma idéia de que tipo de animal se trata. Não é difícil, é o culpado. Culpado um pouco de tudo: de falar, de silenciar, de não fazer nada, de meter-se em tudo… Em suma, o intelectual é a matéria-prima a julgar, a condenar, a excluir…

Não penso que os intelectuais falem demais, porque para mim não existem. Mas penso que o discurso sobre os intelectuais esteja passando do limite e seja pouco encorajante.

Tenho uma feia mania. Quando as pessoas falam tanto por falar, quando fazem discursos que ficam no ar, procuro imaginar onde levariam as suas palavras se fossem transcritas na realidade. Quando “criticam” alguém, quando “denunciam” as suas idéias, quando “condenam” o que escreve, imagino-os numa situação ideal em que têm pleno poder sobre ele. Reproduzo as suas palavras no primeiro significado: “demolir”, “abater”, “reduzir ao silêncio”, “sepultar”. E vejo abrir-se a radiante cidade em que o intelectual certamente seria prisioneiro e enforcado, com maior razão se fosse um teórico. É verdade, não vivemos em uma região em que os intelectuais são mandados ao diabo; mas, na realidade, diga-me, por acaso ouviu falar de um certo Toni Negri? Por acaso não está na prisão exatamente enquanto intelectual?

Mas, então, o que o levou a entrincheirar-se atrás do anonimato? Um certo uso publicitário que, hoje, certos filósofos fazem ou permitem fazer do seu nome?

Isto não me perturba minimamente. Nos corredores do meu liceu vi grandes homens de gesso. E agora, nas primeiras páginas dos jornais, em baixo, vejo a foto do pensador. Não sei se a estética melhorou. A racionalidade econômica seguramente, sim…

No fundo, impressiona-me profundamente uma carta escrita por Kant, quando já era muito velho: contra a idade, a visão que se reduzi e as idéias que se confundiam, apressava-se, assim narra, em terminar um livro para a feira do livro de Lípsia. Conto este episódio para demonstrar que não tem nenhuma importância. Publicidade ou não, feira ou não, o livro é coisa totalmente diferente. Nunca conseguirão levar-me a crer que um livro seja ruim porque se viu o seu autor à televisão. Mas nem sequer que seja bom só por este motivo.

Se escolhi o anonimato, não é para criticar isso ou aquilo, o que nunca faço. É um jeito de dirigir-me mais diretamente ao eventual leitor, o único personagem que me interessa: “já que não sabes quem sou, não sentirás a tentação de buscar os motivos pelos quais digo o que lês; deixa-te andar, diz simplesmente: é verdadeiro, é falso, gosto, não gosto. Isto basta”.

Mas o público não espera que a crítica forneça juízos precisos sobre o valor de uma obra?

Não sei se o público espera que o crítico julgue as obras ou os autores. Mas creio que os juízes já estavam aí antes que o público pudesse dizer o que queria.

Parece que Courbet tinha um amigo que se acordava à noite urlando: “julgar, quero julgar”. É incrível quanto as pessoas gostam de julgar. Julga-se em todo lugar, continuamente. Provavelmente, para a humanidade, é uma das coisas mais simples a fazer. Mas você sabe que o último homem, quando a última radiação houver reduzido o último adversário a cinzas, tomará uma mesa mal ajeitada, se sentará e começará o processo contra o responsável.

Não posso deixar de pensar em uma crítica que não procure criticar, mas fazer existir uma obra, uma frase, uma idéia; acenderia fogos, olharia a grama crescer, escutaria o vento e imediatamente tomaria a espuma do mar para a dispersar. Reproduziria, ao invés de juízos, sinais de vida; invocá-los-ia, arrancá-los-ia do seu sono. Quem sabe os inventaria? Tanto melhor, tanto melhor. A crítica sentenciosa faz-me adormentar; gostaria de uma crítica feita com centelhas de imaginação. Não seria soberana, nem vestida de vermelho. Traria consigo os raios de possíveis tempestades.

Há, porém, tantas coisas a conhecer, tantos trabalhos interessantes, que a mídia deveria falar todo o tempo de filosofia?

Certamente, entre a “crítica” e aqueles que escrevem livros existe um mal-estar de longa data. Uns não se sentem entendidos e outros acreditam que se queira fazer pressão sobre eles. Mas o jogo é este.

Parece-me que hoje a situação seja bastante particular. Temos instituições pobres, enquanto nos encontramos em situação de super-abundância.

Todos deram-se conta da exaltação que freqüentemente acompanha a publicação ( ou a reedição) de obras, que, aliás, às vezes são interessantes. Trata-se, sempre, de nada menos que a “subversão de todos os códigos”, do “antagonista da cultura contemporânea”, da “discussão radical de todo o nosso modo de pensar”. O seu autor deve ser um marginal incompreendido.

Em compensação, não há dúvida de que os outros devam ser remetidos à obscuridade da qual nunca deveriam ter saído; não eram senão a espuma de “uma moda irrelevante”, um simples produto institucional, etc.

Diz-se que se trata de um fenômeno parisiense e superficial. Contudo, eu percebo aí os efeitos de uma inquietação profunda. O sentimento do “nenhum lugar vazio”, “ou ele ou eu”, “um por vez”. Está-se em fila indiana, por causa da extrema exigüidade de lugares em que se pode escutar e fazer-se ouvir.

Resulta daí uma espécie de angústia que irrompe em mil sintomas, mais ou menos curiosos. A partir disso, naqueles que escrevem, o sentimento da sua impotência diante da mídia, que é acusada de dominar o mundo dos livros e de dar existência ou de fazer desaparecer aqueles que agradam ou desagradam. A partir disso, nos críticos, o sentimento de conseguir fazer-se ouvir, a não ser que se levante o tom e se tire da cartola um coelho por semana. A partir disso, a pseudo-politização que mascara, sob a alegação da necessidade de mover uma “batalha ideológica” ou de acabar com os “pensamentos perigosos”, a ânsia profunda de não ser lidos nem ouvidos. A partir disso, também a fobia fantástica do poder: cada pessoa que escreve exerce um poder inquietante a que se precisa pôr, se não um fim, pelo menos limites. A partir disso também a afirmação um pouco encantadora segundo a qual, atualmente, tudo é vazio, desolado, sem interesse e importância: afirmação que, evidentemente, provém daqueles que, não fazendo nada, pensam que os outros são supérfluos.

Mas não acredita que a nossa época é realmente sem espíritos à altura dos seus problemas e de grandes escritores?

Não, não acredito no refrão da decadência, da ausência de escritores, da esterilidade do pensamento, do horizonte negro e tétrico.

Creio, pelo contrário, que há uma abundância excessiva. E que não sofremos por causa do vazio, mas porque os meios para pensar em tudo o que acontece sejam demasiado poucos. Há muitíssimas coisas a conhecer: fundamentais, terríveis, maravilhosas ou estranhas, ao mesmo tempo minúsculas e capitais. Além disso, há uma curiosidade imensa, uma necessidade, um desejo de conhecer. Sempre lamentamos que a mídia embote a cabeça das pessoas. Nesta idéia há alguma misantropia. Acredito, pelo contrário, que as pessoas reagem: quanto mais se procura convencê-las, mais se interrogam. O espírito não é uma cera mole. É uma substância reativa. E o desejo de saber mais, melhor e diversamente, cresce à medida que se procura encher as cabeças.

Se isso for verdade e se acrescentarmos a isso que, na universidade e em outros lugares, se estão formando grandes quantidades de pessoas que podem servir de intermediários entre a massa de coisas e a avidez de saber, pode-se bem rapidamente deduzir que a desocupação dos estudantes é a coisa mais absurda que há. O problema consiste em multiplicar os canais, as passarelas, os meios de informação, as redes televisivas e as radiofônicas, os jornais.

A curiosidade foi um vício estigmatizado sucessivamente pelo Cristianismo, pela filosofia e até por uma certa concepção da ciência. Curiosidade, futilidade. Mesmo assim, a palavra me agrada. Sugere-me algo bem diferente: evoca a “cuidado”, a atenção que se presta ao que existe ou poderia existir; um sentido agudo do real, que, porém, nunca se imobiliza diante disso; uma prontidão em julgar estranho e singular aquilo que nos circunda; uma certa obstinação em desfazer-se do que é familiar e em olhar as mesmas coisas de forma diferente; um ardor em colher o que acontece e aquilo que passa; uma desenvoltura com relação às hierarquias tradicionais entre o que é importante e o que é essencial.

Sonho com uma nova idade da curiosidade. Os meios técnicos existem; o desejo existe; as coisas a conhecer são infinitas; as pessoas que podem empenhar-se nesta tarefa existem. De que então sofremos? De escassez: canais estreitos, exígüos, quase monopolistas, insuficientes. Não se trata de adotar atitude protecionista para impedir que uma “má” informação invada e sufoque a “boa”. Importa, pelo contrário, multiplicar os trajetos e as possibilidades de ir e vir. Nenhum colbertismo neste campo. O que não significa, como frequentemente se teme, uniformização e nivelamento por baixo. Significa, sim, diferenciação e simultaneidade de redes diferentes.

Imagino que, neste plano, a mídia e as universidades poderiam ter funções complementares, ao invés de continuarem a opor-se.

Você lembra a admirável frase de Sylvain Lévy: o ensino comporta um ouvinte; basta haver dois que se torna vulgarização. Também os livros, a universidade, as revistas cultas são mídia. Dever-se-ia evitar de chamar mídia os canais de informação aos quais não se pode ou não se quer ter acesso. Importa entender como fazer que as diferenças ajam; saber se devemos instaurar uma zona reservada, um “parque cultural” para as frágeis espécies dos cultos, ameaçados pelas grandes aves de rapina da informação, enquanto todo o resto do espaço seria um vasto mercado de bugigangas. Não me parece que semelhante repartição corresponda à realidade. Pior: não me parece de fato desejável. Para fazer que as diferenças úteis ajam não deve haver repartição alguma.

Procuremos fazer uma proposta concreta. Se tudo vai mal, onde se pode começar?

Não, não vai tudo mal. Em todo caso, creio que não se deve confundir a crítica construtiva contra as coisas com as jeremiadas repetitivas contra as pessoas. Com relação a propostas concretas, elas aparecem como “gadgets”, se antes não forem precisados alguns princípios gerais. Este, em primeiro lugar: o direito ao saber não deve ser reservado nem a uma idade da vida, nem a certas categorias de indivíduos; se deve poder exercitá-lo ininterruptamente e de formas múltiplas.

Mas esta vontade de saber não é ambígua? Afinal, o que as pessoas farão com todo este saber que está adquirindo? A que pode servir?

Uma das funções principais do ensino consistia nisto: a formação do indivíduo caminhava no mesmo passo da determinação do seu lugar na sociedade. Hoje precisaríamos conceber o ensino de modo tal que permitisse ao indivíduo de se modificar a seu prazer; e isso é possível apenas sob a condição de que o ensino seja uma possibilidade oferecida “permanentemente”.

Em suma, você é a favor de uma sociedade culta?

Digo que a vinculação com a cultura deve ser contínua e a mais polimorfa possível. Não deveria haver, por um lado, uma formação que se sofre e, por outro, uma informação a que se é submetido.

O que acontecerá, em uma sociedade culta, com a filosofia eterna?… Ainda temos necessidade dela, das suas interrogações sem resposta e dos seus silêncios diante do incognoscível?

O que é a filosofia senão um modo de refletir, não tanto sobre aquilo que é verdadeiro e aquilo que é falso, mas sobre a nossa relação com a verdade? Às vezes a gente se lamenta por não existir na França uma filosofia dominante. Muito melhor. Não há nenhuma filosofia soberana, é verdade, mas há uma filosofia ou, melhor, há filosofia em atividade. A filosofia é o movimento pelo qual nos libertamos – com esforços, hesitações, sonhos e ilusões – daquilo que passa por verdadeiro, a fim de buscar outras regras do jogo. A filosofia é o deslocamento e a transformação das molduras de pensamento, a modificação dos valores estabelecidos, e todo o trabalho que se faz para pensar diversamente, para fazer diversamente, para tornar-se outro do que se é. Sob este ponto de vista, os últimos trinta anos foram período de intensa atividade filosófica. A interferência entre a análise, a pesquisa, a crítica “culta” ou “teórica” e as mudanças no comportamento, a conduta real das pessoas, a sua maneira de ser, a sua relação consigo mesmas e com os outros, foi constante e considerável.

Há pouco dizia que a filosofia é um modo de refletir sobre a nossa relação com a verdade. É preciso acrescentar: é um modo de perguntar-se: se esta é a relação que temos com a verdade, como devemos comportar-nos? Creio que tenha sido feito e que se esteja continuando a fazer um trabalho considerável e múltiplo, que modifica, contemporaneamente, o nosso vínculo com a verdade e a nossa maneira de nos comportarmos. E isso em ligação complexa entre uma série de pesquisas e um conjunto de movimentos sociais. É a própria vida da filosofia.

É compreensível que alguns lastimem o vazio atual e busquem, na ordem das idéias, um pouco de monarquia. Mas aqueles que, pelo menos uma vez na própria vida, provaram um tom novo, uma nova maneira de olhar, um outro modo de fazer, aqueles, creio, nunca sentirão a necessidade de se lamentar porque o mundo é um erro, a história está farta de inexistências; é tempo para que os outros fiquem calados, permitindo assim que não se ouça mais o som da reprovação por parte deles…

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FOUCAULT, Michel. Archivio Foucault. Vol. 3. Estetica dell’esistenza, etica, politica. A cura di Alessandro Pandolfi. Milano, Feltrinelli, 1994, pp. 137-144. Tradução portuguesa de Selvino José Assmann. Fpolis, setembro de 2000.