Ter filho para quê?

26 10 2009

JERRY STEINBERG

Fonte: Revista Época

Professor canadense diz que os casais procriam por inércia e uniões sem filhos são mais felizes e fazem bem ao planeta

Paula Mageste

Divulgação

PERFIL

Dados pessoais
Nasceu em Vancouver, no Canadá, há 57 anos e é casado. Aos 20 desistiu de ter filhos e mais tarde fundou o clube No Kidding para reunir casais e solteiros sem filhos e promover atividades entre eles

Atividade atual
Dá aulas de inglês para estrangeiros e prepara um livro com depoimentos de casais sem filhos

O canadense Jerry Steinberg, de 57 anos, vai logo avisando que gosta de crianças. Mas não em tempo integral. Gastou sua cota de “paternidade” ajudando a criar os dois irmãos, sendo monitor de acampamento e seguindo a carreira de professor – dá aulas de inglês para estrangeiros. A gota d’água foi namorar três mulheres que tinham filhos. Desistiu de formar a própria prole ao ver que o cotidiano que inclui pequenos é cheio de limitações. “Não se pode ter uma conversa séria às 3 da tarde ou fazer amor às 10 da manhã”, diz.

Steinberg sentiu-se isolado em sua decisão e percebeu que estava perdendo os amigos. Eles começavam a ter filhos, mudavam o rumo na vida e faziam novas amizades em função das crianças. Foi então, há 19 anos, que surgiu a idéia de fundar um clube de “pessoas sem filhos”, o No Kidding. Hoje, são 77 filiais em quatro países, totalizando 8 mil associados. “Vi que não apenas não estou sozinho, como estou em ótima companhia.”

ÉPOCA - Não ter filhos não é impedir o ciclo natural da vida?
Jerry Steinberg - E por acaso nós levamos uma vida “natural”? Não estamos mais numa sociedade agrária, em que a criança era mão-de-obra barata na fazenda. Mais de 80% da população mundial vive em grandes cidades. As crianças não são mais um ativo, mas um rombo em seu tempo, em sua energia e em suas finanças. Ter filhos, hoje, na maioria dos casos, é conseqüência natural de sexo sem proteção. Com a contracepção moderna, pessoas responsáveis terão filhos apenas se quiserem. Nossos avós não tinham escolha, e às vezes acabavam com uma penca de crianças sem ao menos poder mantê-las. Nós temos controle sobre nossa fertilidade e devemos exercê-lo.

ÉPOCA - Não é muito egoísta a decisão de não ter filhos?
Steinberg - É. Mas as pessoas têm filhos por razões bastante egoístas: por prazer, para cuidar delas na velhice, para ter alguém para amar e amá-las de volta, para viver coisas que não puderam viver quando eram crianças, para exercer poder sobre alguém, dar continuidade ao nome da família. O que é mais egoísta que fazer um minieu? É vaidade.

ÉPOCA - Qual porcentagem da população tem filhos por motivos que o senhor considera corretos?
Steinberg - A maioria das pessoas tem filhos sem motivo, sem pensar. A resposta que sempre ouço é que aconteceu sem planejamento. Acho irresponsável, tolo e egoísta. Crianças são muito preciosas para vir ao mundo por acidente.

ÉPOCA - O senhor acha que as pessoas que optam por ter filhos devem ser questionadas, assim como ocorre com aquelas que escolhem não procriar?
Steinberg - É claro! A situação hoje é muito unilateral. Os casais que optam por não ter filhos precisam se justificar o tempo todo, para a família, para os amigos e até para estranhos. Enquanto isso, lemos nos jornais todos os dias sobre pessoas que nunca deveriam ter procriado. Vemos crianças abandonadas, negligenciadas, que sofrem abuso, pais que largam a família e não pagam pensão nem querem ver o filho.

ÉPOCA - Por outro lado, a maternidade e a paternidade não são dons naturais, intrínsecos ao ser humano?
Steinberg - De modo algum. Ser boa mãe ou bom pai requer muito conhecimento, dom, habilidade, paciência, energia e tempo. Se você não tem isso, quais são suas chances reais de sucesso? Parece-me que as pessoas gastam mais tempo pensando que sapato comprar que em se querem ou não ter filhos. É uma vergonha.

ÉPOCA - Ter filhos não pode ser uma forma de dividir as coisas boas que um casal construiu?
Steinberg - Pode, mas em muitos casos é uma desculpa para o fracasso pessoal. Muita gente abandona as aspirações de carreira ou de hobby porque tem de sustentar os filhos. Depois, cobra isso da criança, busca realização por meio dela. É muito cruel exigir que o filho tome conta dos negócios da família. Talvez ele não tenha nem interesse nem competência. No fim, é uma pena para todos.

ÉPOCA - Qual é o impacto de filhos na vida de um casal?
Steinberg - Uma tremenda perda de liberdade. Não se pode mais fazer o que se quer, quando se quer. A espontaneidade morre. Perdem-se tempo, energia, dinheiro. Custa cerca de US$ 200 mil criar alguém do nascimento aos 18 anos. Sem faculdade. Muitas vezes um casal rompe por problemas financeiros. Portanto, se você não tem uma situação confortável e resolve ter filhos, está procurando encrenca. Sem falar no fato de os pais discordarem sobre como cuidar dos filhos. Não tê-los dá ao casal menos motivos para conflitos.

ÉPOCA - Mas então não seria melhor rever a forma como se educam os filhos em vez de resolver não tê-los?
Steinberg - Há um problema no modelo adotado pela classe média. Antes os pais ditavam as regras, mas a mesa virou e agora são as crianças que mandam nos pais. Elas fazem o que querem em locais públicos e os pais se omitem, numa situação desagradável para os outros.

ÉPOCA - Filho ajuda o casamento?
Steinberg - Os padres dizem que filhos são uma ponte entre marido e mulher. Na verdade, eles são um abismo. O marido passa para segundo plano, sente-se preterido e acaba buscando outra mulher. Tive acesso a vários estudos que mostram que relacionamentos sem filhos são mais sólidos e duram mais. O romance morre quando as crianças nascem.

ÉPOCA - O senhor também defende aquela tese aparentemente fajuta de que não ter filhos é uma decisão ecologicamente correta?
Steinberg - Não tem nada de fajuto nessa teoria. A quantidade de terra arável, de água potável e de espaço habitável está limitada no planeta. As pessoas estão sendo forçadas a viver confinadas ou em locais inundáveis ou secos. Não há pasto. A maioria da população está em centros urbanos, e isso cria vários problemas. Não se produz nada na cidade, tudo tem de vir de fora. Aí há trânsito. Além disso, existe uma questão psicológica: quanto mais gente viver em áreas superpopulosas, maior serão a agressividade e a violência. Estamos sob tremenda pressão.

ÉPOCA - A tecnologia e o urbanismo não poderão solucionar esses problemas?
Steinberg - Não há tecnologia que resolva isso. Hoje levamos uma hora para chegar ao mesmo lugar a que antes chegávamos em dez minutos. Daqui a 20 ou 40 anos, vamos levar três horas. É loucura, tem de haver um limite. Os animais são mais sábios. Quando ficam confinados, com pouco alimento, se reproduzem menos. Humanos não fazem isso. Metade das pessoas deste planeta está morrendo de fome ou de sede. E continuamos procriando a taxas recordes. Em apenas 40 anos, dobramos a população de 3 bilhões para 6 bilhões. Onde vamos parar? Será preciso uma terceira guerra mundial ou epidemias como a Aids para nos colocar de novo em patamares suportáveis?

ÉPOCA - O que acha do aborto?
Steinberg - Com boa contracepção, as pessoas só têm filhos se os querem e podem sustentá-los. Caso contrário, o aborto se torna uma opção. Prevenir gravidez indesejada evita abortos.

ÉPOCA - Pessoas sem filhos não evoluem menos?
Steinberg - Não, ao contrário. A maioria das pessoas sem filhos que conheço é muito ativa em sua comunidade, faz trabalho voluntário. O foco de quem tem filhos fica mais estreito: é o lar. Se determinado problema não afeta diretamente seus filhos, não se envolve.

ÉPOCA - Quem tem filhos acaba abrindo mão de algo realmente importante?
Steinberg - Sair para uma cerveja com amigos não é alta prioridade. Mas muita gente precisa parar de estudar ou encurtar os planos para trabalhar. As aspirações de carreira podem ficar limitadas. Muitas vezes quem tem filho chega tarde ao trabalho e sai cedo, passa tempo no telefone falando com as crianças ou resolvendo problemas relativos a elas. Isso pode contribuir para que seja preterido na hora de uma promoção.

ÉPOCA - Por que ainda vemos com estranheza quem opta por não ter filhos?
Steinberg - Mudanças levam tempo. A aceitação de estilos de vida alternativos demora. Há 50 anos era inconcebível viver junto sem casar. Era pecado. O mesmo valia para mães solteiras ou uniões inter-raciais. Hoje em dia casais homossexuais adotam crianças ou fazem fertilização para ter os próprios filhos. Vamos chegar a um ponto em que não procriar também será aceito. Quem, em seu juízo perfeito, insistiria que tenha filhos uma pessoa que não quer, não tem como bancar e não saberá criar adequadamente uma criança?

ÉPOCA - Como responder à clássica pergunta “Você não vai ter filhos”?
Steinberg - Alguns membros do No Kidding respondem que não podem ter filhos. Acham que a pena que isso desperta é mais suportável que a indignação. Se alguém insiste comigo, eu digo: “Então tá, você me convenceu. Vou ter dez filhos e, se não der certo, mando para sua casa para você criar”.





“Como tornar seus filhos, crianças ou já adolescentes, líderes de suas vidas”

31 05 2008

Há alguns dias, estive no lançamento da mais nova obra de John Maxwell, chamado Livro de Ouro da Liderança, reunindo os princípios mais importantes destilados em cerca de 40 anos de estudos. Maxwell já vendeu mais de 13 milhões de livros, e escolheu o Brasil para lançamento de seu trabalho mais recente.
Durante o talk show organizado pela Thomas Nelson Brasil, na livraria Cultura, alguém perguntou como poderia ajudar seus filhos a liderarem suas vidas.

Maxwell pensou um pouco e disse: ‘quando eu era menino, os garotos da vizinhança recebiam mesada para jogar o lixo da casa, cortar a grama ou arrumar a bagunça do quintal. Então, fui até meu pai e disse: ‘o filho do vizinho recebe uma mesada para ajudar em casa. Eu acho que mereço também’. Ele me olhou nos olhos e respondeu: ‘você faz parte da família, John, e o trabalho de casa todos nós fazemos e ninguém recebe por isso. Se você acha que tem que receber, antes vou descontar o seu custo, que inclui os nove meses que sua mãe o carregou na barriga. Você ainda vai ficar devendo’.

Nunca mais pedi mesada pelo trabalho em casa, continuou Maxwell. Mas meu pai pagava uma mesada. Só que era diferente. Ele pagava a mim e meus irmãos para nós lêssemos livros. Ele trazia um livro para cada um de nós. Então, todos os dias durante o jantar tínhamos que falar sobre as idéias do autor e qual nossa opinião sobre o capitulo que havíamos lido.

Assim, todos os dias líamos algumas páginas e falávamos sobre isso ao jantar. Quando terminávamos o livro, meu pai dava o preço de capa do livro para nós, em mesada. Assim, se um livro custava o equivalente a 30 reais, era o que ele nos pagava, depois de terminada a leitura. Isso nos ensinou a ler e entender os livros – coisa que muitos garotos americanos não conseguem fazer hoje – porque tínhamos que explicar o que estávamos lendo, para ele e minha mãe. Além disso, aprendemos a terminar os livros, o que hoje os especialistas chamam de acabativa, que é o que falta para muita gente. Até porque, para que pudéssemos receber a mesada, tínhamos que ler até a última página.

Em terceiro lugar, aprendi a não trocar dinheiro pelo tempo de trabalho, como faz a maior parte das pessoas, mas pela qualidade do meu trabalho. Trabalhamos muito tempo em muitas situações diferentes de graça, para outros, apenas para que pudéssemos aprender alguma coisa. Isso deixou meu irmão milionário. E eu e minha irmã também não podemos reclamar. Já vendi mais de 13 milhões de livros – e olha que faço isso no meu tempo livre. Até hoje somos voluntários em alguma atividade.
Por último, descobri que isso me tornou muito mais maduro, na escola e na vida. Eu não era, nem sou, mais inteligente que os outros, nem memorizava melhor as informações. Também não tirava notas mais altas que meus colegas.

Mas descobri que isso não é tão importante. Descobri que nossas escolhas é que são importantes. Quando olhava para as escolhas dos meus colegas, me perguntava como podiam fazer escolhas tão pobres. Quando os via trocando a chance de aprender mais, por alguma festa, um show, ou mais uma saída com os amigos, mais uma loucura qualquer, na universidade, comecei a ver que eu era diferente. Quando os via torrando seus últimos dólares em um carro, ou em alguma idéia mirabolante, achava incrível seus valores – ou a falta deles. Tinha me tornado diferente, porque passei anos lendo o que eles não leram, aprendendo o que eles não aprenderam e escolhendo ficar com pessoas que sabiam muito mais que eu, e não as mais populares.
Meu pai também aparecia na escola, no meio da aula, e me tirava para assistir alguma palestra ou seminário de algum palestrante famoso que estava na cidade. Se era grátis, nós estávamos lá. Se dava para pagar, também. Os professores não entendiam porque ele nos ajudava a “cabular” aulas, mas ele dizia: a aula você pega com um colega. Assistir esta palestra novamente, talvez demore anos’. Assim, em aprendia o que ninguém aprendia, porque meus irmãos e eu éramos os únicos adolescentes nestas palestras.

Fiz isso com meus filhos que, hoje, fazem com meus netos. Eu os pagava para que pudessem ler e os levava para palestras, seminários e workshops nos quais nenhum pai pensaria em levar os filhos. Porque informações nossos filhos terão na escola, na internet ou em alguma enciclopédia. Mas as escolhas que eles farão depende daquilo que existe dentro deles. E isso é marcado pelas pessoas que os cercam, pelos livros que eles tiverem lido e pelo tempo de qualidade que viveram com pessoas dispostas a ajuda-los. Isso, nenhuma escola vai ensinar.

Todos os adolescentes que se tornam felizes, equilibrados em bem sucedidos, fazem escolhas poderosas – algumas vezes, muito difíceis e impopulares”.

Escolhas. Maxwell destaca a importância das escolhas para a sua vida e a de seus filhos. Ajude os adolescentes a fazerem suas próprias escolhas, e eles saberão como fazer o resto. Em seus casamentos, em seus empreendimentos e em sua vida interior.

Fonte: www.arealocal.com.br/blog/2008/04/





O SEGUNDO SEXO 25 ANOS DEPOIS – Entrevista com Simone de Beauvoir

25 03 2008
O SEGUNDO SEXO 25 ANOS DEPOIS | Entrevista com Simone de Beauvoir
John Gerassi
| 1976
extraído (e traduzido) de Languages at Southampton University
Gerassi Já se passaram 25 anos desde que O Segundo Sexo foi publicado. Muitas pessoas, principalmente nos Estados Unidos, o consideram o início do movimento feminista contemporâneo. Você consideraria…

Beauvoir — Acho que não. O movimento feminista atual, que começou há uns cinco ou seis anos, não conhecia realmente o livro. Posteriormente, com o crescimento do movimento, algumas das líderes tiraram parte de sua fundamentação teórica do livro. Mas não foi O Segundo Sexo que desencadeou o movimento. A maior parte das mulheres que se tornaram ativas no movimento era muito jovem quando o livro foi lançado, em 1949-50, para serem influenciadas por ele. O que me lisonjeia, é claro, foi elas o terem descoberto mais tarde. Certamente algumas mulheres mais velhas — Betty Friedan, por exemplo, que dedicou The Feminine Mystique (A Mística Feminina) a mim — tinham lido O Segundo Sexo e talvez tenham sido influenciadas por ele de algum modo. Mas as outras, de forma alguma. Kate Millet, por exemplo, não me cita nenhuma vez em seu trabalho. Pode ser que elas tenham se tornado feministas pelas razões que eu explico em O Segundo Sexo; mas elas descobriram essas razões em suas experiências de vida, não em meu livro.

Gerassi Você disse que sua própria consciência feminista surgiu da experiência de escrever O Segundo Sexo. Como você vê o desenvolvimento do movimento após a publicação do seu livro em termos de sua própria trajetória?

Beauvoir — Ao escrever O Segundo Sexo tomei consciência, pela primeira vez, de que eu mesma estava levando uma vida falsa, ou melhor, estava me beneficiando dessa sociedade patriarcal sem ao menos perceber. Acontece que bem cedo em minha vida aceitei os valores masculinos e vivia de acordo com eles. É claro, fui muito bem-sucedida e isso reforçou em mim a crença de que homens e mulheres poderiam ser iguais se as mulheres quisessem essa igualdade. Em outros termos, eu era uma intelectual. Tive a sorte de pertencer a uma família burguesa, que, além de financiar meus estudos nas melhores escolas, também permitiu que eu brincasse com as idéias. Por causa disso, consegui entrar no mundo dos homens sem muita dificuldade. Mostrei que poderia discutir filosofia, arte, literatura, etc., no “nível dos homens”. Eu guardava tudo o que fosse próprio da condição feminina para mim. Fui, então, motivada por meu sucesso a continuar, e, ao fazê-lo, vi que poderia me sustentar financeiramente assim como qualquer intelectual do sexo masculino, e que eu era levada a sério assim como qualquer um de meus colegas do sexo masculino. Sendo quem eu era, descobri que poderia viajar sozinha se quisesse, sentar nos cafés e escrever, e ser respeitada como qualquer escritor do sexo masculino, e assim por diante. Cada etapa fortalecia meu senso de independência e igualdade. Portanto, tornou-se muito fácil para mim esquecer que uma secretária nunca poderia gozar destes mesmos privilégios. Ela não poderia sentar-se num café e ler um livro sem ser molestada. Raramente ela seria convidada para festas por seus “dotes intelectuais”. Ela não poderia pegar um empréstimo ou comprar uma propriedade. Eu sim. E pior ainda, eu costumava desprezar o tipo de mulher que se sentia incapaz, financeiramente ou espiritualmente, de mostrar sua independência dos homens. De fato, eu pensava, sem dizê-lo a mim mesma, “se eu posso, elas também podem”. Ao pesquisar e escrever O Segundo Sexo foi que percebi que meus privilégios resultavam de eu ter abdicado, em alguns aspectos cruciais pelo menos, à minha condição feminina. Se colocarmos o que estou dizendo em termos de classe econômica, você entenderá facilmente. Eu tinha me tornado uma colaboracionista de classe. Bem, eu era mais ou menos o equivalente em termos da luta de sexos. Através de O Segundo Sexo tomei consciência da necessidade da luta. Compreendi que a grande maioria das mulheres simplesmente não tinha as escolhas que eu havia tido; que as mulheres são, de fato, definidas e tratadas como um segundo sexo por uma sociedade patriarcal, cuja estrutura entraria em colapso se esses valores fossem genuinamente destruídos. Mas assim como para os povos dominados econômica e politicamente, o desenvolvimento da revolução é muito difícil e muito lento. Primeiro, as mulheres têm que tomar consciência da dominação. Depois, elas têm de acreditar na própria capacidade de mudar a situação. Aquelas que se beneficiam de sua “colaboração” têm que compreender a natureza de sua traição. E, finalmente, aquelas que têm mais a perder por tomar posição, isto é, mulheres que, como eu, buscaram uma situação confortável ou uma carreira bem-sucedida, têm que estar dispostas a arriscar sua situação de segurança — mesmo que seja apenas se expondo ao ridículo — para alcançar respeito próprio. E elas têm que entender que suas irmãs que são mais exploradas serão as últimas a se juntarem a elas. Uma esposa de operário, por exemplo, é menos livre para se juntar ao movimento. Ela sabe que seu marido é mais explorado do que a maioria das líderes feministas e que ele depende de seu papel de mãe/dona-de-casa para sobreviver. De qualquer forma, por todas essas razões, as mulheres não se mobilizaram. Ah sim, houve alguns pequenos movimentos bem interessantes, bem inteligentes, que lutaram por promoções políticas, pela participação das mulheres na política, no governo. Eu não me refiro a esses grupos. Então veio 1968 e tudo mudou. Sei que alguns eventos importantes aconteceram antes disso. O livro de Betty Friedan, por exemplo, foi publicado antes de 1968. Na verdade, as mulheres norte-americanas já estavam se mobilizando nessa época. Elas, mais do que ninguém, e por razões óbvias, estavam cientes das contradições entre as novas tecnologias e o papel conservador de manter as mulheres na cozinha. Com o desenvolvimento da tecnologia — tecnologia como poder do cérebro e não dos músculos — a lógica masculina de que as mulheres são o sexo frágil e, por isso, devem representar um papel secundário não pôde mais ser sustentada. Como as inovações tecnológicas eram muito difundidas nos Estados Unidos, as mulheres norte-americanas não escaparam às contradições. Foi, portanto, natural que o movimento feminista tivesse seu maior ímpeto no coração do capitalismo imperial, ainda que esse ímpeto tenha sido estritamente econômico, isto é, a reivindicação por salários iguais, trabalhos iguais. Mas foi dentro do movimento anti-imperialista que a verdadeira consciência feminista se desenvolveu. Tanto no movimento contra a Guerra do Vietnã nos EUA quanto logo depois da rebelião de 1968 na França e em outros países europeus, as mulheres começaram a sentir seu poder. Ao compreender que o capitalismo leva necessariamente à dominação dos povos pobres em todo o mundo, milhares de mulheres começaram a aderir à luta de classes — mesmo quando não aceitavam o termo “luta de classes”. Elas se tornaram ativistas. Elas aderiram às marchas, às demonstrações, às campanhas, aos grupos clandestinos, à militância de esquerda. Elas lutavam, tanto quanto qualquer homem, por um futuro sem explorações, sem alienações. Mas o que aconteceu? Nos grupos ou organizações a que aderiram, elas descobriram que, assim como na sociedade que tentavam combater, também eram tratadas como o segundo sexo. Aqui na França, e eu me arrisco a dizer também nos EUA, elas perceberam que os líderes eram sempre os homens. As mulheres se tornavam datilógrafas e serviam café nesses grupos pseudo-revolucionários. Bom, eu não deveria dizer pseudo. Muitos dos participantes desses movimentos eram revolucionários genuínos. Mas tendo sido treinados, educados e moldados em uma sociedade patriarcal, estes revolucionários trouxeram esses valores para o movimento. Compreensivelmente, estes homens não iriam abrir mão desses valores voluntariamente, assim como a classe burguesa não abrirá mão de seu poder voluntariamente. Dessa forma, assim como cabe ao pobre tomar o poder do rico, também cabe às mulheres tirar o poder dos homens. E isso não quer dizer que, por outro lado, elas devam dominar os homens. Significa estabelecer igualdade. Assim como o socialismo, o verdadeiro socialismo, estabelece igualdade econômica entre todos os povos, o movimento feminista aprendeu que ele teria que estabelecer igualdade entre os sexos tirando o poder da classe que liderava o movimento, isto é, dos homens. Colocando em outros termos: uma vez dentro da luta de classes, as mulheres perceberam que a luta de classes não eliminava a luta de sexos. Foi nesse ponto que eu mesma tomei consciência do que acabei de dizer. Antes disso, estava convencida de que a igualdade entre homens e mulheres só era possível com a destruição do capitalismo e, portanto — e é esse “portanto” que é uma falácia — nós temos que lutar primeiro a luta de classes. É verdade que a igualdade entre homens e mulheres é impossível no capitalismo. Se todas as mulheres trabalharem tanto quanto os homens, o que acontecerá com essas instituições das quais o capitalismo depende, instituições como igreja, casamento, exército, e os milhões de fábricas, lojas, etc. que dependem de trabalho de meio-expediente e mão-de-obra barata? Mas não é verdade que a revolução socialista estabelece necessariamente a igualdade entre homens e mulheres. Dê uma olhada na União Soviética ou na Tchecoslováquia, onde (mesmo se nós estivermos dispostos a chamar esses países de “socialistas”, e eu não estou) há uma confusão profunda entre emancipação do proletariado e emancipação da mulher. De alguma forma, o proletariado sempre termina sendo constituído de homens. Os valores patriarcais permaneceram intactos, tanto lá quando aqui. E isso — essa consciência entre as mulheres de que a luta de classes não engloba a luta de sexos — é que é novo. A maioria das mulheres sabe disso agora. Essa é a maior conquista do movimento feminista. É a que vai alterar a história nos próximos anos.

Gerassi Mas essa consciência está limitada às mulheres que são de esquerda, isto é, mulheres comprometidas com a reestruturação de toda a sociedade.

Beauvoir — Bom, é claro, já que as outras são conservadoras, o que significa que elas querem conservar o que foi ou o que é. Mulheres de direita não querem revolução. Elas são mães, esposas, devotadas aos seus homens. Ou, quando são agitadoras, o que elas querem é um pedaço maior do bolo. Elas querem salários melhores, eleger mulheres para os parlamentos, ver uma mulher se tornar presidente. Fundamentalmente, acreditam na desigualdade, só que elas querem estar no topo e não por baixo. Mas elas se acomodam bem ao sistema como ele é ou com as pequenas mudanças para acomodar suas reivindicações. O capitalismo certamente pode se dar ao luxo de permitir às mulheres a servir o exército ou entrar para a força policial. O capitalismo é certamente inteligente o suficiente para deixar mais mulheres participarem do governo. O pseudo-socialismo pode certamente permitir que uma mulher se torne secretária-geral de seu partido. Isso são apenas reformas sociais, como o seguro social ou as férias pagas. A institucionalização das férias pagas mudou a desigualdade do capitalismo? O direito das mulheres trabalharem em fábricas com salários iguais aos dos homens mudou os valores masculinos da sociedade Tcheca? Mas mudar todo o sistema de valor de qualquer sociedade, destruir o conceito de maternidade: isso é revolucionário.
Uma feminista, quer ela se autodenomine esquerdista ou não, é uma esquerdista por definição. Ela está lutando por uma igualdade plena, pelo direito de ser tão importante, tão relevante, quanto qualquer homem. Por isso, incorporada em sua revolta pela igualdade de gêneros está a reivindicação pela igualdade de classes. Numa sociedade em que o homem pode ser a mãe, em que, vamos dizer, para colocar o argumento em termos de valores para que fique claro, a assim chamada “intuição feminina” é tão importante quanto o “conhecimento masculino” — para usar a linguagem corrente, apesar de absurda — em que ser gentil ou delicado é melhor do que ser durão; em outras palavras, em uma sociedade na qual a experiência de cada pessoa é equivalente a qualquer outra, você já estabeleceu automaticamente a igualdade, o que significa igualdade econômica e política e muito mais. Dessa forma, a luta de sexos inclui a luta de classes, mas a luta de classes não inclui a luta de sexos. As feministas são, portanto, esquerdistas genuínas. De fato, elas estão à esquerda do que nós chamamos tradicionalmente de esquerda política.

Gerassi Mas, enquanto isso, ao travar a luta de sexos apenas dentro da esquerda — já que, como você disse, a luta de sexos é, pelo menos temporariamente, irrelevante dentro de outros setores políticos — as feministas não estariam enfraquecendo a esquerda, e, conseqüentemente, fortalecendo aqueles que exploram tanto as mulheres como os pobres?

Beauvoir — Não, e, a longo prazo, isso só vai fortalecer a esquerda. Pelo simples fato de que, ao serem confrontados como esquerdistas, isto é, como opositores à exploração, homens esquerdistas serão forçados a descer do pedestal. Mais e mais grupos se sentem compelidos a botar em xeque seus líderes do sexo masculino. Isso é progresso. Aqui em nosso jornal, Libération, a maioria se sentiu obrigada a deixar uma mulher se tornar sua diretora. Isso é progresso. Os homens de esquerda estão começando a tomar cuidado com a linguagem, estão…

Gerassi Mas isso é real? Quer dizer, eu aprendi, por exemplo, a nunca usar a palavra “gostosa”, a prestar atenção nas mulheres em qualquer discussão de grupo, a lavar a louça, arrumar a casa, fazer as compras. Mas será que eu sou menos sexista em meus pensamentos? Será que eu rejeitei os valores masculinos?

Beauvoir — Você quer dizer, no seu íntimo? Para ser sincera, quem se importa? Pense um pouco. Você conhece um sulista racista. Você sabe que ele é racista porque o conhece desde que nasceu. Mas ele nunca diz “crioulo”. Ele escuta a todas as reclamações dos homens negros e dá o melhor de si para lidar com elas. Ele combate outros racistas. Ele insiste em dar uma educação acima da média para crianças negras, para compensar os anos em que faltou escola para essas crianças. Ele dá recomendações para que homens negros consigam empréstimos bancários. Ele dá apoio a candidatos negros em seu distrito através de ajuda financeira e com seu voto. Você acha que os negros se importam que ele seja tão racista quanto antes em seu íntimo? Essencialmente, exploração é hábito. Se você consegue controlar seus hábitos, fazer com que seja “natural” ter hábitos contrários, já é um grande passo. Se você lava a louça, arruma a casa, e toma a atitude de que não se sente menos “homem” por fazê-lo, você estará ajudando a estabelecer novos hábitos. Duas gerações sentindo que têm que parecer não-racistas o tempo inteiro e a terceira geração não será racista de fato. Então finja ser não-sexista, e continue fingindo. Pense nisso como um jogo. Em seus pensamentos íntimos, pode continuar pensando que você é superior às mulheres. Enquanto você representar de forma convincente – lavando a louça, fazendo as compras, arrumando a casa, cuidando das crianças – você estará abrindo precedentes, especialmente para homens como você, que tem certa pose de “machão”. A questão é: eu não acredito nisso. Eu não acredito que você realmente faça o que diz. Uma coisa é lavar a louça, trocar fraldas dia e noite é outra.

Gerassi Bem, eu não tenho filhos…

Beauvoir — Por que não? Porque você escolheu não tê-los. Acha que as mães que você conhece escolheram ter filhos? Ou elas foram intimidadas a tê-los? Ou, em termos mais sutis, elas foram criadas para pensar que é natural e normal e próprio da mulher ter filhos e, por isso, escolheram tê-los? Esses são os valores que têm que mudar.

Gerassi Certo. E é por isso, e eu compreendo, que muitas feministas insistem em ser separatistas. Mas em termos de revolução, tanto a delas quanto a minha, será que podemos ganhar se nos separarmos em dois grupos totalmente diferentes? Será que o movimento feminista conseguirá alcançar seu objetivo excluindo os homens de sua luta? Até hoje, a parte dominante do movimento das mulheres, aqui na França, e isso também é verdade para os Estados Unidos, é separatista.

Beauvoir — Só um minuto. Nós temos que investigar o porquê de elas serem separatistas. Não posso falar pelos Estados Unidos, mas aqui na França há muitos grupos, grupos de conscientização, dos quais os homens são excluídos porque as militantes acham muito importante redescobrir sua identidade como mulheres. Elas só podem fazê-lo conversando entre elas, contando entre si coisas que elas nunca ousariam falar na frente dos maridos, amantes, irmãos, pais, ou qualquer outro representante do poder masculino. A necessidade de falar com a intensidade e honestidade desejada só pode ser realizada dessa maneira. E elas têm conseguido se comunicar com uma profundidade que nunca pensei que fosse possível quando eu tinha 25 anos. Até mesmo quando eu estava entre minhas amigas mulheres mais íntimas naquela época, problemas verdadeiramente femininos nunca eram discutidos. Então agora, pela primeira vez, por causa desses grupos de conscientização, e por causa da força do desejo de confrontar genuinamente os problemas femininos dentro desses grupos, amizades verdadeiras entre mulheres se desenvolveram. Eu quero dizer, no passado, na minha juventude, até bem recentemente, as mulheres não costumavam se tornar amigas de verdade de outras mulheres. Elas se viam umas às outras como rivais, até mesmo inimigas, ou, na melhor das hipóteses, como concorrentes. Atualmente, sobretudo como resultado desses grupos de conscientização, as mulheres não se tornaram apenas capazes de construir amizades verdadeiras entre si, elas também aprenderam a ser calorosas, abertas, profundamente ternas umas com as outras: elas estão transformando irmandade e fraternidade em realidade — e sem tornar esse relacionamento dependente de uma sexualidade lésbica. É claro, há muitas batalhas, até mesmo batalhas estritamente feministas com impacto social, das quais as mulheres esperam que os homens participem, e muitos têm participado. Estou pensando, por exemplo, na luta pela legalização do aborto aqui na França. Quando organizamos a primeira demonstração de peso pela legalização do aborto há três ou quatro anos, lembro bem da grande quantidade de homens presentes. Isso não quer dizer que eles não fossem sexistas: para extrair o que foi inculcado no padrão de comportamento e sistema de valores de uma pessoa desde a primeira infância leva-se anos, décadas. Mas aqueles eram homens que, pelo menos, estavam cientes do sexismo na sociedade e tomaram uma posição política contra isso. Nessas ocasiões, os homens são bem-vindos, até mesmo encorajados, a aderir à luta.

Gerassi Mas também há muitos grupos, pelo menos aqui na França, que proclamam seu separatismo com orgulho e definem sua luta como estritamente lésbica.

Beauvoir — Sejamos precisos. Dentro do MLF [Movimento de Libertação da Mulher] há, sim, muitos grupos que se denominam lésbicos. Muitas dessas mulheres, graças ao MLF e aos grupos de conscientização, podem dizer agora abertamente que são lésbicas, e isso é ótimo. Não costumava ser assim. Há outras mulheres que se tornaram lésbicas por uma espécie de compromisso político: isto é, elas acham que é uma atitude política ser lésbica; dentro da luta de sexos, isso seria mais ou menos o equivalente aos princípios do black power na luta racial. E é verdade que essas mulheres tendem a ser mais dogmáticas com relação à exclusão dos homens de sua luta. Mas isso não significa que elas ignorem as numerosas lutas que estão sendo travadas por todo o mundo contra a opressão. Por exemplo, quando Pierre Overney, o jovem militante maoísta, foi assassinado a sangue frio por um policial de uma fábrica da Renault por não dispersar durante uma manifestação, e toda a esquerda organizou uma marcha de protesto em Paris, todas as assim chamadas separatistas lésbicas radicais aderiram à manifestação e levaram flores ao seu túmulo. Isso, por outro lado, não significa que elas expressaram sua solidariedade por Overney, o homem, mas que elas se identificaram com o protesto contra o Estado que explora e comete abusos contra as pessoas — homens e mulheres.

Gerassi Uma das conseqüências da libertação das mulheres, de acordo com pesquisas recentes realizadas em campus universitários dos Estados Unidos, é que os casos de impotência masculina aumentaram bastante, especialmente entre os homens jovens que tentam confrontar seu sexismo…

Beauvoir — A culpa é deles mesmos. Eles tentam representar papéis…

Gerassi Mas precisamente, eles tomaram consciência de que representavam papéis, de que era fácil ser machão e fazer acreditarem que eram tipos egoístas, viris, quando, na realidade, eles agora notaram que freqüentemente tinham que fazer amor ou tentar seduzir a mulher porque era isso que se esperava deles, enquanto agora…

Beauvoir — Ao tomar consciência do papel que eles representavam, que, contudo, os satisfazia — nos dois aspectos, isto é, era fácil e os satisfazia sexualmente — enquanto agora têm que se preocupar em satisfazer a mulher, eles não conseguem satisfazer a si mesmos. Uma pena. Quero dizer, se sentissem uma afeição genuína pelas mulheres que estivessem com eles, se fossem honestos consigo mesmos e com suas parceiras, automaticamente pensariam em satisfazer aos dois. Agora eles estão preocupados em serem taxados de sexistas se não satisfizerem a mulher, então não conseguem nem ter relações. Mas ainda assim é uma representação, não é? Esses homens são impotentes por causa da contradição em que vivem. É uma pena que é esse grupo de homens, que pelo menos está ciente do sexismo, que mais sofra com o movimento feminista, enquanto a maioria dos homens tira vantagem disso, tornando a vida das mulheres mais intolerável…

Gerassi Tira vantagem?

Beauvoir — Agora há pouco estávamos conversando sobre como o MLF ajudou as mulheres a se tornarem fraternas, afetuosas umas com as outras, e etc. Isso pode ter causado a impressão de que acho que as mulheres estão em uma situação melhor agora. Mas não. A luta está só começando e, nas fases iniciais, ela torna a vida mais difícil. Por causa da publicidade, a palavra “libertação” está na ponta da língua de cada homem, estando eles cientes ou não da opressão sexual que as mulheres sofrem. A atitude generalizada dos homens agora é “bem, já que vocês foram libertadas, vamos para a cama”. Em outras palavras, os homens agora estão muito mais agressivos, vulgares, violentos. Na minha juventude, nós podíamos passear por Montparnasse ou sentar em cafés sem sermos molestadas. Oh, a gente recebia sorrisos, acenos, olhares, e etc. Mas agora é impossível uma mulher sentar sozinha em um café para ler um livro. E se ela é categórica em ser deixada sozinha quando um homem a acossa, o comentário deste ao partir é, freqüentemente, vadia ou puta. Há muito mais estupro agora. Em geral, a agressividade e hostilidade masculinas se tornaram tão comuns, que nenhuma mulher se sente à vontade em Paris, e pelo que tenho ouvido, tampouco nas cidades dos Estados Unidos. A não ser que, é claro, as mulheres fiquem em casa. E é isso que está por trás dessa agressividade masculina: a ameaça que, aos olhos dos homens, a libertação das mulheres representa trouxe à tona suas inseguranças; por isso essa raiva, que tem como resultado a tendência de se comportar como se só as mulheres que ficam em casa são “puras”, enquanto as outras são fáceis. Quando as mulheres não se mostram tão fáceis assim, os homens se sentem pessoalmente desafiados, por assim dizer. Ficam com a idéia fixa de “pegar” a mulher.

Gerassi Então o que aconteceu com o mito, que todo francês sustentava, mas que, é claro, nunca foi verdade, de que fazer amor é uma arte e que ele era o maior artista de todos?

Beauvoir — Exceto em algumas camadas muito ricas e parasitas da sociedade, o mito está morto. Ultimamente, os franceses se comportam como os homens norte-americanos ou italianos: eles só querem saber de “marcar pontos”, como se diz por aí. E com exceção de alguns poucos homens que tentam lidar com seu sexismo, eles têm a atitude de que quanto mais livre a mulher alega ser, isto é, quanto mais a mulher tenta batalhar para sobressair financeira e profissionalmente no mundo deles, o mundo dos homens, mais fácil deveria ser levá-la para a cama.

Gerassi A conversa sobre mulheres serem mais livres me intriga. Em nossa sociedade, a liberdade é alcançada com dinheiro e poder. As mulheres têm mais poder hoje, depois de quase uma década do movimento feminista?

Beauvoir — No sentido em que você pergunta, não. As intelectuais, mulheres jovens que estão dispostas a correr o risco de serem marginalizadas, as filhas de ricos, quando estão dispostas e são capazes de romper com os valores de seus pais: essas mulheres sim, são mais livres. Isto é, por causa de seu nível de educação, estilo de vida, ou recursos financeiros, essas mulheres conseguem escapar de uma sociedade competitiva, viver em comunidades ou à margem, e desenvolver relações com outras mulheres similares a elas ou homens sensíveis aos seus problemas, e, dessa forma, se sentirem mais livres. Em outras palavras, como indivíduos, as mulheres que podem se sustentar, seja lá por qual motivo, conseguem se sentir mais livres. Mas como classe, as mulheres certamente não são mais livres, precisamente porque, como você diz, elas não têm poder econômico. Atualmente, há todo o tipo de estatística para provar que o número de mulheres advogadas, médicas, publicitárias, etc., está crescendo. Mas essas estatísticas são enganosas. O número de advogadas e executivas poderosas não aumentou. Quantas advogadas podem pegar um telefone e ligar para um juiz ou oficial do governo para marcar um horário ou pedir favores especiais? Essas mulheres têm que operar através de seus equivalentes homens, já estabelecidos. Médicas? Quantas são cirurgiãs, diretoras de hospital? Mulheres no governo? Sim, poucas. Na França nós temos duas. Uma, séria, trabalhadora, Simone Weil, é ministra da saúde. A outra, Françoise Giroud, que é a ministra responsável pelas questões femininas é basicamente uma peça de mostruário, destinada a aplacar as necessidades das mulheres burguesas de integração no sistema. Mas quantas mulheres controlam verbas no Senado? Quantas mulheres controlam a política editorial de jornais? Quantas são juízas? Quantas são presidentes de banco, capazes de financiar empresas? Só porque há muito mais mulheres em posições de nível médio, como os jornalistas dizem, isso não quer dizer que elas têm poder. E até mesmo essas mulheres têm que jogar o jogo dos homens para serem bem-sucedidas. Agora, isso não quer dizer que eu não acredito que as mulheres tenham feito progresso na luta. Mas o progresso é resultado da ação de massa. Pense na nova lei de aborto proposta por Simone Weil, por exemplo. Os abortos não serão cobertos pelo programa de saúde nacional e, portanto, serão mais acessíveis para as ricas do que para as pobres, mas ainda assim, a lei certamente é um grande passo. No entanto, apesar de toda a seriedade com que Simone Weil lutou por essa lei, a razão pela qual ela pôde ser apresentada é porque milhares de mulheres se mobilizaram em toda a França por essa lei, porque milhares de mulheres assumiram publicamente que fizeram abortos (forçando o governo a processá-las ou a mudar a lei), porque milhares de médicos e de parteiras correram o risco de serem processados ao admitir que tinham realizado abortos, porque alguns foram processados e lutaram no tribunal pela causa, etc. O que estou dizendo é que, em ações de massa, as mulheres têm poder. Quanto mais as mulheres tomarem consciência da necessidade dessas ações de massa, mais progresso elas alcançarão. E, voltando ao caso das mulheres que podem financiar a busca da liberação individual, quanto mais ela puder influenciar suas amigas e irmãs, mais essa conscientização se espalhará, o que, por outro lado, quando frustrada pelo sistema, estimulará a ação de massa. É claro, quanto mais essa conscientização se espalhar, mais agressivos e violentos os homens se tornarão. Mas então, quanto mais agressivos forem os homens, mais as mulheres precisarão de outras mulheres para revidar, isto é, maior será a necessidade de ações de massa. Hoje em dia, a maioria dos operários do mundo capitalista está ciente da luta de classes, quer eles se denominem Marxistas ou não, de fato, quer eles sequer já tenham ouvido falar de Marx ou não. E assim deve acontecer na luta de sexos. E acontecerá.

Gerassi Você me disse ano passado que estava pensando em escrever outro livro sobre mulheres, uma espécie de seqüência de O Segundo Sexo. Você vai escrevê-lo?

Beauvoir — Não. Em primeiro lugar, esse tipo de trabalho teria que resultar de um esforço coletivo. E, além disso, ele teria que se basear mais na prática do que na teoria. O Segundo Sexo foi pelo caminho inverso. Agora, isso não é mais válido. É na prática que hoje podemos ver como a luta de classes e a luta de sexos se intercalam, ou, pelo menos, como elas podem ser articuladas. Mas isso vale para todas as lutas atuais: nós temos que formular nossas teorias com base na prática, e não o contrário. O que se faz realmente necessário é que todo um grupo de mulheres, de todo tipo de país, reúna suas experiências de vida e que, a partir dessas experiências, nós possamos identificar os padrões com os quais as mulheres lidam em todos os lugares. E tem mais, essa informação deveria ser coletada de todas as classes, e isso é duas vezes mais difícil. Afinal, as mulheres que travam a luta pela libertação hoje em dia são, em sua maioria, intelectuais burguesas; as esposas de operários e até mesmo as operárias se mantêm presas ao sistema de valor da classe média. Tente, por exemplo, conversar com uma operária sobre os direitos das prostitutas e o respeito que se deve a elas. A maioria das operárias ficaria chocada com essa idéia. Conscientizar as operárias é um processo muito lento e necessita de muito tato. Eu sei que há extremistas do MLF que estão tentando fazer com que as esposas de operários se rebelem contra seus maridos, considerando-os opressores masculinos. Acho que isso é um erro. Uma esposa de operário, aqui na França pelo menos, não hesitará em responder: “mas o meu inimigo não é o meu marido, e sim meu patrão”. Até mesmo se ela tem que lavar as meias do marido e fazer o jantar dele depois de também ela ter passado todo o dia em alguma fábrica. É o mesmo nos Estados Unidos, onde as mulheres negras se recusaram a dar ouvidos às defensoras do movimento de libertação das mulheres porque elas eram brancas. Essas mulheres negras continuaram apoiando seus maridos negros apesar da exploração, simplesmente porque as pessoas que tentaram conscientizá-las sobre a exploração eram brancas. Gradualmente, no entanto, uma feminista burguesa consegue atingir uma esposa de operário, assim como nos Estados Unidos, hoje em dia, há algumas mulheres negras — muito poucas, eu admito — que dizem, “não, nós não queremos nos submeter à opressão de nossos homens sob o pretexto de que eles são negros e de que nós temos que lutar juntos contra os brancos; não, isso não é motivo para que nossos homens nos oprimam, só porque eles são nossos homens negros”.
No entanto, a luta de classes pode encorajar e, de fato, encoraja e promove a luta de sexos de maneiras bem concretas. Nos últimos anos, por exemplo, houve muitas greves aqui na França em fábricas onde os operários eram quase todos do sexo feminino. Estou pensando na greve da indústria têxtil em Troyes, no norte do país, ou na Nouvelles Galeries em Thionville, ou a famosa greve da Lip. Em cada caso, as operárias não só adquiriram uma nova consciência como também passaram a acreditar mais em seu poder, e essa atitude abalou o sistema machista que elas vivenciavam em casa. Na Lip, por exemplo, as mulheres tomaram a fábrica e se recusaram a evacuar o prédio apesar das ameaças da polícia de usar a força para tirá-las de lá. A princípio, seus maridos ficaram muito orgulhosos de suas esposas militantes. Os homens levaram comida, ajudaram a fazer cartazes para o piquete, etc. Mas quando as mulheres decidiram ser totalmente iguais aos poucos homens que também trabalhavam na Lip e que também participavam da greve, os problemas começaram a surgir. Os grevistas da Lip decidiram organizar turnos para vigiar a fábrica e impedir que a polícia invadisse. Isso significava serviço noturno. Oh, oh. Então, de repente, os maridos das grevistas ficaram incomodados. “Vocês podem fazer greve e piquete o quanto quiserem,” eles disseram, “mas somente durante o dia, à noite não. O que, serviço de vigilância noturno? Ah não! Dormir em turnos em grandes quartos coletivos? Ah não.” Naturalmente, as operárias resistiram. Elas tinham lutado por igualdade, não iriam desistir agora. Assim, elas se envolveram com duas lutas: a luta de classes contra os patrões da Lip, a polícia, o governo, etc., por um lado, e a luta de sexos contra seus próprios maridos. Sindicalistas da Lip contaram que as mulheres se transformaram completamente depois da greve, dizendo “uma coisa que eu aprendi disso tudo foi que nunca mais eu vou deixar meu marido fazer as vezes de patrão em casa. Agora eu sou contra todos os patrões.”

Gerassi A sua conscientização sobre a velhice mudou quando você escreveu sobre isso, da mesma forma que a sua conscientização sobre ser mulher mudou ao escrever O Segundo Sexo?

Beauvoir — Na verdade, não. Eu descobri muitas coisas; aprendi muito sobre povos antigos. Mas não tomei consciência de minha velhice ao escrever o livro; na verdade foi a constatação de que eu estava velha que me motivou a escrever o livro, a princípio. Mas agora consigo me relacionar muito melhor com os idosos do que antes. Eu costumava ser muito mais severa. Agora compreendo que, quando uma pessoa idosa está muito suscetível, muito egoísta, ela está apenas se protegendo, criando mecanismos de defesa. Mas, veja bem, uma mulher pode passar a vida toda se recusando a encarar o fato de que ela é fundamentalmente, em termos de valores, experiência, e filosofia de vida, diferente dos homens. Mas é muito difícil não tomar consciência de que se está envelhecendo. Chega um momento em que você simplesmente sabe que tem que cruzar a linha ou que você já cruzou a linha. Hoje sei que nunca mais serei capaz de caminhar pelas montanhas a pé, que nunca mais andarei de bicicleta, que nunca mais terei relações com um homem. Eu tinha muito medo, ou, pelo menos, era muito apreensiva com relação à idade madura antes de alcançá-la. Então, quando ela chegou, quando eu soube que havia cruzado a linha, bem, foi muito mais fácil do que eu esperava. É claro que você tem que parar de olhar para trás. Mas acho que viver dia após dia está sendo muito mais fácil do que eu pensava. Mas eu soube que tinha cruzado a linha independente da minha pesquisa para o meu livro sobre a velhice. Trabalhar no livro simplesmente me ensinou a entender os idosos e a ser mais tolerante.

Gerassi Em que você está trabalhando agora?

Beauvoir — Basicamente, em nada. Estou ajudando em um roteiro sobre, precisamente, a velhice, para um diretor sueco. Vou ajudar Sartre com seu projeto para televisão. Você sabe que ele assinou um contrato com a televisão nacional para fazer dez programas de uma hora, cada um, que irão ao ar a partir de outubro. Os programas serão sobre os 75 anos desse século e a relação de Sartre com os principais eventos. Mas não tenho planos de realizar nenhum projeto particular. Isso também é novo para mim. Eu costumava ter todo tipo de projetos na minha cabeça, mesmo quando estava trabalhando em algum livro específico.

Gerassi Você escreveu que teve uma vida boa e não se arrepende de nada. Você sabia que há muitos casais que tomam sua vida com Sartre como modelo, especialmente no sentido de que vocês não tinham ciúmes um do outro, que tinham um relacionamento aberto, e que deu certo por 45 anos?

Beauvoir — Mas é ridículo nos usar como modelo. As pessoas têm que encontrar seu próprio estilo, sua própria estrutura. Sartre e eu tivemos muita sorte, mas nossa criação também tinha sido muito singular, excepcional. Nós nos conhecemos quando éramos bem jovens. Ele tinha 23 anos, eu 20. Nós ainda não estávamos formados, apesar de já estarmos moldados para sermos intelectuais, com motivações semelhantes. Para nós dois, a literatura tinha substituído a religião.

Gerassi No entanto, vocês poderiam ter competido, se tornado rivais…

Beauvoir — É verdade. Personalidades semelhantes com ambições semelhantes freqüentemente competem entre si. Mas nós tínhamos outra coisa em comum: havíamos sido criados de forma semelhante em nossa juventude. Nossas infâncias tinham sido muito sólidas, muito seguras. Isso significa que nenhum de nós dois tinha que provar o que quer que fosse para nós mesmos nem para os outros. Éramos confiantes. É como se tudo estivesse predestinado desde o início. Meus pais agiam como se nada no universo pudesse alterar o curso normal da minha vida, que era ser uma pequena intelectual burguesa. O avô de Sartre, que o criou — você sabe que seu pai morreu quando ele ainda era um bebê — se comportava da mesma forma, absolutamente convencido de que Sartre cresceria para ser um professor universitário. E assim aconteceu. Dessa forma, mesmo quando ocorriam crises, como quando a mãe de Sartre se casou novamente quando ele tinha 12-13 anos, ou como quando eu tinha 14-15 anos e percebi que meu pai não me amava mais como eu esperava que ele amasse, a firmeza de nossas infâncias nos fez exteriorizar essas crises. Foram eles que mudaram, não nós. Éramos muito bem-estruturados para nos sentirmos inseguros. Além disso, independente de algumas divergências, estávamos, fundamentalmente, de acordo com os planos traçados para nós por nossos pais. Eles queriam que fôssemos intelectuais, que lêssemos, estudássemos, ensinássemos, e nós concordávamos, portanto, foi o que fizemos. Assim, quando Sartre e eu nos conhecemos, não apenas nossos passados se fundiram como também nossa firmeza, nossas convicções individuais, de que éramos o que fomos feitos para ser. Nesse contexto, não podíamos ser rivais. Então, à medida que o meu relacionamento com Sartre se aprofundou, me tornei convicta de que eu era insubstituível em sua vida, e ele na minha. Em outras palavras, nós estávamos totalmente seguros de que nosso relacionamento também era totalmente sólido, novamente, predestinado, apesar de, na época, não levarmos essa palavra a sério. Quando se é tão confiante, é fácil não sentir ciúmes. Mas é claro que se eu achasse que outra mulher representasse o mesmo papel que eu na vida de Sartre, eu teria tido ciúmes.

Gerassi Como você vê o resto de sua vida?

Beauvoir — Eu não vejo. Imagino que, em breve, começarei a escrever novamente, voltarei ao trabalho, mas ainda não tenho idéia do que farei. Sei que continuarei a trabalhar com as mulheres, nos grupos feministas, na Liga das Mulheres, e que continuarei a militar de alguma forma, da forma que eu puder, na — vamos chamá-la assim — luta revolucionária. E sei que permanecerei com Sartre até que um de nós dois morra. Mas, você sabe, ele está com 70 anos agora e eu com 67.

Gerassi Você está otimista? Acha que as mudanças pelas quais está lutando se realizarão?

Beauvoir — Eu não sei. De qualquer forma, não durante a minha vida. Talvez em quatro gerações. Não sei quanto à revolução. Mas as mudanças pelas quais as mulheres estão lutando, essas sim, tenho certeza de que, a longo prazo, as mulheres vencerão.

Interviewed by John Gerassi, Society , Jan.-Feb. 1976, pp. 79-85
Copyright © 1995 by Transaction Publishers; all rights reserved

Reprinted by permission of Transaction Publishers. John Gerassi, ‘The Second Sex 25 Years on’ in Society Jan/Feb 1976 pp 79-85.





O tema da minha poesia sou eu mesmo – Manoel de Barros

22 02 2008

O tema da minha poesia sou eu mesmo


Entrevista concedida a André Luís Barros


A natureza nunca mais foi a mesma depois de passar por suas frases. O poeta pantaneiro Manoel de Barros, que está lançando um novo ajuntamento de versos e vida, o Livro sobre nada (Editora Record) , se considera acima de tudo um “fazedor de frases”: “A frase para ser boa precisa ser uma coisa ilógica, o ilogismo é muito importante pois a razão diminui a poesia”, ensina. Avesso a entrevistas, quanto mais por telefone, Manoel de Barros, considerado por muitos o maior poeta brasileiro vivo, concordou em concedeu conversar com o caderno Idéias, por telefone, de sua casa em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, onde vive a quatro horas de sua fazenda de criação de gado e costuma sair à tarde para “desenferrujar” e bicar umas pingas com amigos. Com simplicidade, o autor de livros como Compêndio para uso dos pássaros (1960), Arranjos para assobio (1982), Livro de pré-coisas (1985) e O guardador de águas (1989) falou sobre paixões literárias, o gosto pelo ócio e por programas divertidos na televisão, como Os trapalhões e até o mexicano Chaves e lembrou até um insuspeitado passado no Partido Comunista. “Mas nunca fui afeito a grupos, gerações, não podia mesmo durar muito naquele partido. Hoje, conquistei o ócio, o que é muito importante para o poeta”, comemora.




André Luís Barros - O senhor só ficou famoso como um grande poeta depois dos 70 anos. Isso foi algo planejado, ou aconteceu por acaso?
Manoel de Barros – Isso é negócio do meu temperamento. Nunca tive projeto, só livro. Também nunca achei que precisasse me isolar no Pantanal para compor melhor. Sou pantaneiro, nasci aqui, só podia viver e escrever mesmo sobre as coisas daqui. Mas nunca tive preocupação em aparecer muito, ser uma pessoa conhecida, isso é sincero mesmo. Eu queria só fazer poesia. A minha vergonhez explica muita coisa. Sou tímido por temperamento, é possível que só seja poeta por causa disso. Sou um ser abúlico, tenho minhas contradições e tento me encontrar através da poesia. É claro que sucesso é bom, ser amado, admirado pela poesia é bom, quem disser que não está mentindo. Fui descoberto de repente, as pessoas começaram a me perceber. Nunca na minha vida fui de participar muito de grupo. Acho que em poesia também não pertenço a nenhuma geração, a tal geração de 1945 não é a minha, e vejo outros poetas, como João Cabral de Melo Neto, que não é de geração nenhuma. Aliás, como classificar o Rimbaud? Em que geração classificamos o Augusto dos Anjos? Eles são simplesmente grandes poetas.

ALB – O senhor conheceu, tem uma grande admiração e até prometeu um livro sobre João Guimarães Rosa. O primeiro livro dele, o inédito Magma, será lançado em breve. Onde está o livro prometido?
MB – Foi adiado. O Ênio Silveira tinha me sugerido fazer esse livro e eu topei o negócio, fiquei animado. Mas quando fui escrever, em vez de ser minha, a frase que saía era do Rosa. É que eu tinha relido muita coisa dele e fiquei impregnado. Não convém isso, não é bom porque você acaba mergulhado mesmo na obra do autor, acaba afogado. Anos atrás eu tinha tentado fazer um ensaio quase lingüístico sobre o conto Cara-de-Bronze, do Rosa, de que gosto muito. Mas me embananei todo, no meio. Eu não falo mais que três línguas e o Rosa conhecia língua demais, achei que seria possível fazer o ensaio mas ficou muito difícil. Disseram que o Magma não é tão bom quanto os outros livros do Rosa. Realmente ele tinha talento mesmo era para a prosa, e o engraçado é que ele foi poeta no fim da vida. Geralmente o sujeito é poeta aos 18 anos, quando aparecem as espinhas, e depois pode virar prosador. Mas há versos perfeitos no livro Ave, palavra, seu último livro, e Tutaméia e A terceira margem do rio são pura poesia. Eu sou mais de fazer frases, sou bom em criar frases.

ALB – O seu trabalho é mais fragmentado.
MB – Cada vez mais. O próprio mundo está obrigando a gente a se fragmentar. É uma falta de unidade, o homem moderno não tem mais as grandes unidades, como Deus. A gente não tem crença em mais nada, aliás, toda a arte deste século é fragmentada, ninguém defende mais uma ideologia, hoje. O homem não acredita mais nem em ideologia, as religiões estão se fragmentando, o protestantismo está se dividindo, o cristianismo.

ALB – O senhor é religioso?
MB – Sim, tenho formação católica, estudei dez anos interno em colégio de padre. Evidente que depois de alguns anos eu era comunista. Foi minha fase libertária, fui filiado ao Partido. Foi ali que conheci o Carlos Lacerda. O Apolônio de Carvalho me botou lá, depois ele foi da dissidência do Partido. Fui companheiro do Lacerda, que na época era muito diferente do que ele se tornaria, era comunista mesmo.

ALB – Até que ponto a despreocupação com o dinheiro é importante para o poeta?
MB – Levei vários anos até conquistar o ócio, isso é importante para o poeta, ele não pode ter a cabeça virada só para coisas a resolver. Fiquei muitos anos arrumando minha vida, saldando dívidas, atendendo papagaio. Há oito anos, cheguei aqui pra Mato Grosso, tomei pé aqui. Agora estou vagabundo, tenho direito a isso. Herdei uma fazenda, em campo aberto, terra nua, sou fazendeiro de gado, vaca, não sou “o rei do boi, do gado” mas vivo bem. Este é o meu caso: enquanto estava tomando pé da fazenda não escrevi uma linha. Mas sabemos de outros casos, como o Dostoiévski, que escreveu perseguido por dívidas, ou o Graciliano Ramos, que além das dívidas ainda tinha família pra criar.

ALB – Qual é o tema do poeta?
MB - O tema do poeta é sempre ele mesmo. Ele é um narcisista: expõe o mundo através dele mesmo. Ele quer ser o mundo, e pelas inquietações dele, desejos, esperanças, o mundo aparece. Através de sua essência, a essência do mundo consegue aparecer. O tema da minha poesia sou eu mesmo e eu sou pantaneiro. Então, não é que eu descreva o Pantanal, não sou disso, nem de narrar nada. Mas nasci aqui, fiquei até os oito anos e depois fui estudar. Tenho um lastro da infância, tudo o que a gente é mais tarde vem da infância. Nesse último livro meu, Livro sobre nada, tem muitos versos que vieram da infância. Tem um poema que se chama “A arte de infantilizar formigas”. Num vídeo que fizeram sobre mim, o rapaz chega uma hora que pergunta: “Escuta aqui, o senhor escreveu que formiga não tem dor nas costas. Mas como é que o senhor sabe?”. Outro rapaz me escreveu do Rio, diz que freqüenta as aulas de um professor muito inteligente em energia nuclear, física, poesia e romance, e ele fez a pergunta, que é um verso meu: “Professor, por que a 15 metros do arco-íris o sol é cheiroso?”. O professor, que tinha estudado Einstein e outros autores, disse: “Essa pergunta não vou responder, é absurda”. Ou seja, encabulou. Creio que a poesia está de mãos dadas com o ilógico. Não gosto de dar confiança para a razão, ela diminui a poesia.

ALB – Como é seu dia-a-dia?
MB - Pela estrada, chego a minha fazenda em quatro horas, estou bem perto do Pantanal. Agora o clima é seco, e dá para correr de carro. Mas quando a estrada enche, só de avião. Fico em casa lendo, escutando músico, vejo televisão. De manhã, fico escrevendo, terminando livro, fazendo entrevista.

ALB - Hoje, o senhor lê que autores?
MB – Já li muita coisa séria, além dos escritores, li filosofia, Nietszche, Kant, Walter Benjamim, Adorno, essas coisas. Mas hoje tô lendo mais porcaria mesmo, quero descansar a cabeça. E estou com a vista meio ruim. Vejo também muitas coisas engraçadas na TV, o Didi e o Dedé (Os trapalhões), o Chaves, sabe quem é?, aquele chato mexicano. E escuto muita música. De tarde, saio pra tomar umas pingas, enquanto meu fígado não arrebentou. Mas às vezes sofro aqui nessa cidade. A poesia faz da gente uma espécie de mito, e as pessoas acabam fazendo da gente uma imagem diferente da realidade. Tem gente aqui que pensa que eu vivo isolado, sozinho, sem amigos, falam que eu sou intratável. Não sou isolado, não.

ALB – Como nasceu seu amor pelo trabalho da linguagem?
MB – Sempre tive uma preocupação com a palavra, com as frases. No colégio interno, os padres me deram o Padre Antônio Vieira para ler. Ele era um grande frasista, se preocupava com a ressonância verbal interna das frases. Em linguagem, ele muitas vezes não era tão católico assim. Depois que comecei a ler o Vieira não parei mais de prestar atenção nas frases. Sou um fazedor de frases. O que é o verso? É uma frase, uma unidade rítmica, que tem como característica ser ilógica. O ilogismo é muito importante para o verso.

ALB – O senhor citou o poeta francês Rimbaud. Fale um pouco dele.
MB – Foi o poeta mais importante para mim. Aprendi com ele uma certa promiscuidade dos sentidos na natureza. Ele tinha uma linguagem própria, toda sua, aquela coisa do “trouver la langue” (“encontrar a língua”).

ALB – O senhor citou também João Cabral de Melo Neto. O que acha de sua obra?
MB – O Cabral é o maior poeta brasileiro de todos os tempos. É um arquiteto da palavra, sabe o que faz com ela. Tem um ritmo dele, totalmente dele, é diferente de todos os outros e tinha que ser, pois ele é um ser. João Cabral é muito limpo.

Fonte: Caderno Idéias, Jornal do Brasil.





Manoel de Barros faz do absurdo sensatez

22 02 2008

Entrevista por José Castello


Manoel de Barros faz do absurdo sensatez


CAMPO GRANDE – Parti para Mato Grosso do Sul com a cabeça carregada de frases de Manoel de Barros, que anotei das raras entrevistas que o poeta deu no passado.  “Prefiro as máquinas que servem para não funcionar”, ele disse. “Não gosto de dar confiança para a razão, ela diminui a poesia”, afirmou também. “A poesia não existe para comunicar, mas para comungar”, comentou ainda. “Desconfio do verso que fulgura; em poesia, o opaco é mais luminoso que o brilhante.” E disse mais: “Poesia é um lugar onde a gente ainda pode fazer com que um absurdo seja uma sensatez.”

Antes de viajar, dediquei-me a reler seus poemas. Mas frases sufocaram-me. “As coisas que não existem são as mais bonitas”, está na abertura do Livro das Ignorãças, atribuída a Felisdônio. E mais à frente: “As coisas me ampliaram para menos.” No Arranjos para Assobio há uma definição de poeta: “Sujeito inviável.” No Concerto a Céu Aberto para Solo de Aves está dito: “O nome ensina ao poeta as suas semelhanças.” E em Matéria da Poesia ele dá uma definição definitiva: “Poesia é a loucura das palavras.”

Desde janeiro de 1996, eu vinha tentando convencer o poeta Manoel de Barros, de 80 anos, a receber-me para uma entrevista. Naquele verão, ele aceitou, por fim, responder a algumas perguntas por escrito. Nada mais. A maior parte das poucas entrevistas que Manoel deu ao longo da vida foi assim: perguntas por escrito e respostas anotadas no papel.

Levou três meses para enviar suas respostas – publicadas em março do ano passado no Estado. Não desisti. Nas muitas conversas preparatórias que tivemos por telefone,
Manoel parecia sempre um homem simpático, mas retraído, pouco preparado para as coisas do mundo, entre elas a imprensa. Aos poucos, construí para meu uso pessoal o perfil de um interiorano, um caipira dos pântanos, um homem reservado e de poucas palavras, que qualquer repórter mais afoito poderia machucar seriamente.

Jogo – Ao chegar a Campo Grande, porém, levei uma rasteira – muito parecida com aquela que Manoel de Barros costuma dar-nos com seus magníficos versos. Descobri que, durante quase dois anos, ele jogara comigo, meigamente, mas com mestria, do mesmo modo que, na folha em branco, joga com suas palavras. Eu – o repórter – fui, por longos meses, apenas uma palavra na cabeça de Manoel de Barros. Uma palavra perigosa. Agora, graças a algum raciocínio que eu ainda não podia alcançar, ele abria a guarda e estávamos frente a frente.

Que homem encontrei? Imaginava Manoel de Barros magro e triste, mas ele é gorducho e enérgico. Imaginava um homem ingênuo, que passasse os dias entre cachorros e passarinhos – mas ele ouve concertos clássicos, lê Kant, Benjamin e Roland Barthes e toma cerveja com psicanalistas. Caí na armadilha de seus poemas. E talvez fosse isso o que, mantendo-se escondido, ele desejasse preservar: os versos. Manoel fala como qualquer senhor respeitável de 80 anos; não fala “torto”, como falam seus poemas. É essa fala reta, provavelmente, o que ele chama de timidez: o homem comum que se esconde detrás dos versos insensatos.

A crer no próprio Manoel, esse homem que eu agora tinha diante de mim era falso – o verdadeiro só aparece nos poemas. “É a palavra que me vai desvelando”, ele diz, sabendo que a palavra oral exigida em uma entrevista o rouba, justamente, daquele poder de burilar, de construir, de jogar, que a palavra escrita oferece. Ao responder a entrevistas por escrito, Manoel de Barros transformou as entrevistas em um gênero literário, tão digno quanto qualquer outro. Era essa, agora, a herança que me massacrava, mas também me fazia avançar.

Manoel sabe que o diálogo-padrão entre entrevistador e entrevistado, a idéia de que a determinadas perguntas correspondem determinadas respostas, a ilusão de que podem entender-se e comunicar-se, só empobrece a palavra. “Penso que só com a desarrumação sintática se consegue atingir o `criançamento’ do idioma”, ele disse certa vez.

E agora ali estava eu com minhas perguntas normais, querendo respostas comuns. Seria possível? Manoel também disse: “O meu apagamento me exibe antes que me apaga.” Mas já estou eu, novamente, enroscado na teia das palavras. No  entanto: poderia ser de outro modo?

A casa – Manoel de Barros mora em uma bela casa na Rua Piratininga, no Jardim dos Estados, desenhada pelo arquiteto mato-grossense Sérgio Saad e por seu companheiro, Osvaldo, que já morreu. Uma casa cheia de recantos, de pequenos jardins internos, de esconderijos, que dá a impressão de ser muito maior do que realmente é. Uma casa que engana e se disfarça – como ele próprio.

Na varanda do quarto, Manoel tem uma pitangueira,  plantada pacientemente pela mulher, Stella, e hoje carregada de frutos. No pequeno jardim da frente, cercado por um muro de 2 metros, os passarinhos de Campo Grande vêm cumprimentá-lo. O escritório, em um pequeno cômodo do segundo andar, é escuro e misterioso. A chave fica escondida no corredor, sobre o batente da porta. De 7 horas ao meio-dia, todos sabem, Manoel tranca-se no escritório para ler e escrever e não está para ninguém.

Manoel de Barros ainda passa, uma vez por mês, dois ou três dias em sua fazenda, a Fazenda Santa Cruz, no município de Corumbá, a seis horas de carro de Campo Grande. É uma fazenda de 12 mil hectares, onde ele cria 5 mil cabeças de gado e, na época da cheia, fica completamente isolada do mundo. Desde que Manoel transformou seus empregados em sócios, ela funciona em um esquema de autogestão. “Assim, eles não precisam mais de mim”, diz. Dispensar o papel de fazendeiro o alivia.

Sua obra está sendo toda relançada, em primoroso projeto editorial, pela Record. Em dezembro, chega às livrarias a nova edição do Livro de Pré-Coisas, editado em 1985 pela Philobiblion. O poeta dedica-se, atualmente, a escrever um novo livro que tem o título provisório de Tratado Geral das Inutilezas. Escreve à mão, em caderninhos miúdos, que ele mesmo monta com folhas grampeadas e capas coloridas e mais parecem obra de criança.

Chego à sua casa às 10 horas, saio às 19. Depois de nove horas de conversa amistosa, aumenta, no entanto, minha sensação de estranhamento. Para consolar-me, volto às palavras do próprio Manoel que trago anotadas em minha agenda: “Me exibo através de ficar sob as cinzas. Sou sempre uma pose falsa tirada no escuro. Me exibo de costas. Eu faço o nada aparecer.” Com Manoel de Barros, as palavras perdem seu poder de explicar e tornam-se enigmas. É isso o que agora carrego.

A leitura desta entrevista dará aos leitores dos poemas, ainda assim, a falsa sensação de esclarecimento. Poderão ter a ilusão de que, agora, o poeta se aclara, que finalmente sabem quem ele é. Mas não se iludam: ao voltar aos livros, os versos
soarão ainda mais estranhos e desconcertantes. A entrevista é um gênero da ordem das “inutilezas”. A vida tranqüiliza a poesia, mas não a doma.




Estado – Como surgiu seu amor pelas coisas sem importância?
Manoel de Barros – Quando eu era jovem, fiz uma longa viagem pela Bolívia. Viajei sem rumo por Porto Suárez, Orurus, Chiquitos, vivendo sempre no meio da indigência. Eu não fazia nada, eu simplesmente vivia – e bebia muita chicha, a aguardente que os índios bolivianos fazem com o milho. Passava os dias ali, quieto, no meio das coisas miúdas. E me encantei.

Estado – Você já se interessava por literatura?
Manoel – Sim, eu lia muito. Levei comigo as Obras Completas de Rimbaud e de Baudelaire e não parava de ler. Foi durante essa viagem, também, que descobri o peruano César Vallejo, um poeta da palavra – como eu.

Estado – Um poeta, também, das coisas menores.
Manoel – Prefiro as coisas menores, as coisas sem nome. Sempre fui muito voltado para as coisas sem importância. Há pouco tempo, uma poeta do Rio disse-me: “Quando você escreve, você só se interessa pelas `inutilezas’.” A palavra é dela, “inutilezas”, e me pareceu muito boa. O livro que estou escrevendo tem o título provisório de Tratado Geral das Inutilezas.


Segunda parte:

“Minha poesia é torta”, diz Manoel de Barros


CAMPO GRANDE – Ele acha melhor o seu primeiro
livro, Poemas Concebidos sem Pecado, que só teve uma
edição de cerca de 30 exemplares rodada em prensa manual,
por achar que todos os outros são decorrência desse. O poeta
Manoel de Barros, que diz escrever “uma poesia torta”, conta
ao Estado como foi sua trajetória até hoje e fala do novo livro.

Estado – Onde você encontrou as “inutilezas” para o livro que está escrevendo?
Manoel de Barros – Em minha viagem à Bolívia, procurei as cidades decadentes, as mais miseráveis. Ficava o dia todo encostado, pescava, bebia, passava os dias misturado com os bugres, os descendentes diretos dos índios americanos. Eu vivia no meio deles, empenhado apenas em conhecer aquelas pequenezas.

Estado – E o que você fez quando voltou?
Manoel – Encontrei um amigo que queria ir para Nova York. Foi um choque cultural: Picasso nos museus, Bach tocando nas igrejas. Fizemos uma viagem cheia de escalas, fomos chegando aos poucos.

Estado – E o que encontraram pelo caminho?
Manoel – Miséria. Em Santa Cruz de la Sierra, fomos abordados por um menino que veio oferecer-nos mulher. Ele nos levou a uma casa muito pobre e nos apresentou a suas três irmãs, três meninas miseráveis. O menino pegava homens na rua para transar com as irmãs, era assim que a família sobrevivia. Essa experiência rendeu-me um poema, que chamei de Maria-Pelego-Preto.

Estado – Ela existiu mesmo?
Manoel – Sim, uma das meninas tinha pentelhos que subiam até um umbigo. Os pais exploravam esses pêlos como um fenômeno, uma anormalidade. Cobravam ingressos só para exibi-los.

Estado – Como você publicou seu primeiro livro?
Manoel – A primeira edição de Poemas Concebidos sem Pecado foi rodada na prensa manual de um diplomata, o Henrique Rodrigues Vale. Foram só 20 ou 30 exemplares, dados de presente. Não guardei nenhum.

Estado – Quando você o lê, hoje, o que acha?
Manoel - Acho que esse meu primeiro livro é meu melhor livro. Tudo o que escrevi depois vem dele. Ali, eu já tinha a noção do valor lingüístico da poesia. Poesia não é para contar história, poesia é um fenômeno de linguagem.

Estado – Você foi um jovem desocupado?
Manoel – Tentei trabalhar como advogado, mas não funcionou. Na minha primeira audiência como advogado, fiquei tão nervoso que simplesmente vomitei em cima do processo. Imagine a cena: aquela mesa longa, o juiz postado na cabeceira, eu sentado diante dos autos. É minha vez de começar a falar. Então, antes de dizer a primeira palavra, eu me curvo sobre os documentos e vomito.

Estado – Você, certamente, escolheu a profissão errada.
Manoel - Mas então escute uma segunda história. Agora não sou mais advogado, sou poeta. Um dia, convidam-me para um programa especial na rádio em que escritores brasileiros iriam ler franceses. Eu deveria ler um poema de Aragon. O programa está no ar. É minha vez de ler. Mas, antes de dizer a primeira palavra, eu desmaio.

Estado – Poemas são assim tão perigosos? Os seus costumam ser adotados nas provas de vestibular. Você não gosta. Por quê?
Manoel – Faço uma poesia difícil. Depois, cair no mundo das imagens não é para qualquer um. Ainda mais para adolescentes. Adolescentes querem as coisas retas, senão não aceitam. E minha poesia é torta.

Estado – Eles exigem, no mínimo, professores muito preparados.
Manoel – Mas nem os professores me digerem. Há pouco tempo, chegou aqui em casa uma das coordenadoras do vestibular em Mato Grosso. Ela me disse: “Eu não entendo nada de seus livros. Se me permitir dizer a verdade, eu vou dizer: seus livros são uma m…!”

Estado – E como você reagiu?
Manoel – Eu lhe disse: “Olhe, minha querida, se meus poemas são difíceis, a culpa não é minha. Juro que não tenho culpa. Meus poemas sofrem de mim.”

Estado – E então?
Manoel – Ela estava desesperada. E me disse: “Pois é, mas eu não entendo nada. Como é que vou preparar meus alunos para as provas?” Eu respondi: “Olhe, eu também não sei o que lhe dizer. Meus livros não são para vestibular.” Poesia exige sensibilidade. Se você não tem sensibilidade, preparo algum adianta.

Estado – No seu caso, de onde veio essa sensibilidade?
Manoel – Fui criado numa fazenda do Pantanal. Meu pai empregou-se como arameiro, que é aquele sujeito que faz a cerca para isolar o gado. Cortava as árvores para tirar postes, depois passava o arame nas cercas. A gente não tinha casa, vivia acampado na beira das cercas. Até os 8 anos, eu fui criado no chão, da forma mais primitiva.

Estado – E o gosto pela leitura, como surgiu?
Manoel – Quando deixei de acompanhar meu pai pelas fazendas, fui para um colégio interno em Campo Grande. Depois, meu pai me mandou para o Rio, para o Colégio São José, dos irmãos maristas, onde fiquei por mais sete anos. Passei todo esse tempo lendo.

Estado – João Cabral de Melo Neto também estudou com os irmãos maristas, no Recife, e guarda recordações bem pouco estimulantes desse período de sua vida.
Manoel – Eu tive a sorte de conhecer um professor, padre Ezequiel, um homem culto e de espírito aberto, que marcou profundamente minha formação. Quando eu tinha 13 anos, ele me deu para ler um livro do padre Vieira. Fiquei alucinado. Vieira despertou em mim o gosto pela frase, pela sintaxe, pela construção sofisticada. Vieira não tinha o menor apreço pela verdade, ele gostava é da frase. Se você quiser tornar-se cristão lendo Vieira, não se tornará. Se quiser tornar-se escritor, poderá tornar-se.

Estado – É uma leitura que ainda hoje o acompanha?
Manoel – Jamais o abandonei. Agora mesmo estou lendo o capítulo dedicado a Vieira na História da Inteligência Brasileira, de Wilson Martins. Ele segue o Vieira passo a passo, com revelações que me assombram. Lendo o Vieira, descobri que qualquer palavra pode tornar-se poética, desde que você a coloque no lugar certo. Com o Vieira aprendi o valor da construção na poesia. Até hoje eu o leio todos os dias.

Estado – A faculdade de Direito afastou-o da literatura?
Manoel - Nada me afastaria. Eu tomava a condução para ir à faculdade, mas parava no centro e ia para a Biblioteca Nacional. Padre Ezequiel, é claro, não me fez ler Rimbaud, Mallarmé, Baudelaire, mas me ensinou o francês. Na Biblioteca Nacional, eu finalmente podia lê-los.

Estado – E quanto à prosa?
Manoel - É claro, o Machado. Ele é uma glória. Mas o prosador que hoje eu prezo mais que todos é o Dalton Trevisan. O Dalton é um escritor da linguagem, que modifica sempre, que enxuga cada vez mais. Para o Dalton, a linguagem é mais importante que o personagem. O Dalton lembra-me aquele personagem do Giovanni Papini que aparece em Gog, aquele literato que enxugou tanto seu livro que, um dia, descobriu que só lhe restava uma palavra.

Estado – O que essa busca da linguagem mínima significa?
Manoel – A evolução para a linguagem enxuta é a evolução para o absoluto. Meus escritores favoritos são aqueles que se encaram como seres de linguagem. O Dalton, o Machado, o Guimarães Rosa, o Gregório de Matos, o João Cabral, o Augusto dos Anjos, o Pessoa.

Estado – Você não inclui Clarice Lispector nessa lista?
Manoel – É claro que sim, como ela me escapou? Um dia, escrevi uma carta para a Clarice e ela nunca me respondeu. É uma coisa que me frustrou muito. Abri meu verbo, entreguei meu coração, e nada. Ela só me deu o silêncio. Até hoje isso me dói.

Estado – É, no mínimo, surpreendente que um escritor tão empenhado no trato da linguagem tenha sido, em determinado momento da vida, um militante comunista. Comunistas preferiam, em geral, os “conteúdos”.
Manoel – Foi o Apolônio de Carvalho quem me enfiou na Juventude Comunista. Eu o conheci quando era estudante e
morava no porão de uma pensão do Catete, que pertencia a uma húngara. Éramos quatro rapazes vivendo no porão. Um dia recebemos uma tarefa: devíamos pintar a frase “Viva o comunismo” na estátua de Pedro Álvares Cabral, na Glória. Os
outros foram, eu não. Às 4 horas, a polícia bateu na pensão. Meus amigos tinham sido presos e os policiais queriam levar-me.

Estado – Como se defendeu?
Manoel - Fui salvo pela húngara. “Sr. policial, deixe esse menino em paz”, ela disse. “Ele acabou de chegar do colégio de padres, não pode ser comunista.” Eu estava com 18 anos e ainda tinha cara de menino. Mas os policiais não se convenciam. Então, a húngara usou o argumento decisivo: “Ele até escreveu um livro de poesia.” Um policial, sem acreditar, pediu o livro. Eu mostrei, então, o livro que tinha acabado de escrever. Chamava-se Nossa Senhora de Minha Escuridão.

Estado – Um título que não combina muito com você.
Manoel – Era um livro de sonetos, feitos ainda no colégio. Produziu um efeito avassalador. O policial leu os títulos: Para Nossa Senhora, A Fala de Jesus Cristo, coisas assim. Fechou o livro, botou debaixo do braço e disse: “Você pode ficar.” Fui salvo pelos sonetos.

Estado – Você ainda conserva esses poemas?
Manoel – Infelizmente, não. Não sei por que, o policial levou o livro com ele. Era minha única cópia e eu o perdi para sempre. Hoje, deve estar nos arquivos do Filinto Müller…

Estado – Como você vê o comunismo hoje?
Manoel – Apesar de tudo, ainda me considero um socialista. O que sobrou do comunismo é muito importante para o mundo. Considero, além disso, que o socialismo é inevitável. Mais cedo ou mais tarde, o socialismo virá.

Estado – Como você se afastou da política?
Manoel – Militei durante cinco anos. Um dia, decepcionei-me com um discurso do Prestes, que passou a elogiar o Vargas, o mesmo que o tinha prendido, e resolvi afastar-me do partido. Meus amigos diziam-me: “Não sai do partido, porque eles te matam.” Então resolvi sumir. Peguei um trem e fui para a fronteira do Paraguai, onde meu pai era gerente de uma charqueada. Fiquei escondido por uns seis meses.

Estado – E o que você fez durante esse tempo?
Manoel – Voltei a viajar pelo Pantanal. Naquela época,
descobri que no Pantanal se falava uma espécie de dialeto. E
botei na minha cabeça de que eu iria estruturar as bases desse
dialeto. Viajando pela fronteira, dei-me conta de que cada
fazenda do Pantanal era uma ilha lingüística, em cada uma delas
se falava um dialeto próprio. Passei, então, a colecionar
palavras. Em pouco tempo, eu reuni mais de 500 expressões
do dialeto pantaneiro.

Estado – O que você fez desse material?
Manoel – Você não vai acreditar: eu perdi. Não sei como perdi. Fico muito chateado quando penso no que aconteceu. Ninguém se preocupou em preservar o dialeto do Pantanal, só eu. E, no entanto, deixei que tudo se perdesse.

Estado – Como se reencontrou com a literatura?
Manoel – Eu me cansei e precisava ganhar a vida, não tinha muito tempo para a literatura. Tinha de usar, de alguma forma, meu diploma de advogado. Arranjei então um emprego no Sindicato dos Peixeiros. Toda madrugada, a polícia saía à caça dos peixeiros que adulteravam o peso de seus produtos. Minha missão era ir até as delegacias para soltá-los. Fazia um requerimento, pagava uma fiança e os livrava da prisão. Nada de espetacular. Fiquei nisso uns bons três anos de minha vida.

Estado – Não chegou a tentar de novo a vida de escritório?
Manoel – Trabalhei por um breve período no escritório do Dr. Cloves Ramalhete. Eu só podia fazer serviço de subalterno, pois jamais suportei encarar uma audiência. Eu sei que sou esquizofrênico. Essa minha timidez excessiva, esse meu narcisismo, são sintomas bem claros disso.

Estado – Um esquizofrênico, no entanto, que se tornou um bem-sucedido fazendeiro.
Manoel – Meu pai morreu, herdei uma fazenda e tive de
voltar para Mato Grosso para administrá-la. Voltei em 1961, pouco depois da eleição do Jânio Quadros. Disse para minha mulher: “Vamos ficar em Mato Grosso o mesmo período que o Jânio permanecer no Alvorada.” Mas ele renunciou logo depois, enquanto eu passei muitos anos envolvido com a fazenda. Hoje, não. Meu filho caçula é quem cuida de tudo, eu só assino papéis de vez em quando.

Estado – Voltar não lhe pareceu um retrocesso?
Manoel - Eu tinha medo de voltar porque o interior pode mumificar a gente. Eu achava que ia ficar emburrecido, paralisado. Mas aconteceu o contrário. Quando retornei ao Pantanal, minha imaginação desabrochou. Isso foi um deslumbramento. Aqui tenho sossego, silêncio. Aqui a imaginação pode dar saltos. Não posso ir às grandes exposições de arte ou freqüentar cinematecas. Mas vou sempre ao Rio. Tenho um pequeno apartamento no Leblon.

Estado – Nesse longo percurso, ao que parece, quase nada do menino pantaneiro se perdeu.
Manoel – Eu não mudei. Até hoje me entendo muito com as crianças. Elas são inteligentes, descobrem coisas que a gente não vê. Têm a sintaxe torta. Eu tenho em mim, sempre, um lado muito grande de brejo, de natureza. Acho que sou extraído das palavras. Os lacanianos adoram quando digo essas coisas.

Estado – Você conhece algum?
Manoel – Muitos. Eles não me deixam. Eu me correspondo há muito tempo com o M. D. Magno. Em Campo Grande, há um grupo de analistas lacanianas com quem saio uma ou duas noites por semana para tomar umas cervejas. Elas pensam que minha poesia comprova as teorias de Lacan.

Estado - Você concorda com essa tese?
Manoel – Só sei dizer que a palavra é o nascedouro que acaba compondo a gente. O poeta é um ser extraído das palavras. Não é a gente que faz com as palavras, são as palavras que fazem com a gente. O meu texto é isso.

Estado - E a natureza onde fica?
Manoel – Somos parte da natureza. E, do mesmo modo, somos parte das palavras também. Quantas vezes uma palavra interrompe a gente e aparece? Quantas vezes ela se impõe sem que possamos entender por quê? Uns pensam que é mediunidade, mas é a palavra que fala em nós. Para um poeta,
a palavra que se impõe é mais forte que o sentido.

Estado – A palavra está, então, acima de tudo.
Manoel – Eu considero que, na escala dos valores humanos, o sujeito que mexe com palavras está em primeiro lugar. Recebo aqui em casa muitos poetas, e muitos maus poetas, e sempre lhes digo isso. Mesmo nos maus poetas a palavra já é uma qualidade. Só essa dedicação à gratuidade da palavra já merece meu respeito. Ser poeta é dedicar-se às inutilezas – que é como chamo as coisas inúteis.

Estado – De onde vem seu interesse particular pelos pássaros?
Manoel – Antes das palavras vem o canto puro, sem sentido, que é aquilo que está no bico dos pássaros. O canto é ágrafo, não admite escrita. Só depois dele é que as palavras aparecem. Existe uma continuidade entre o canto dos pássaros e as palavras humanas. O canto dos pássaros é uma “despalavra”.

Estado – Seus poemas estão cheios, também, de insetos. Muita gente sente repulsa por insetos, você não?
Manoel – Meu impulso poético me diz que as coisas grandes devem ser desequilibradas com as pequenas. Tenho uma atração pelas coisas mínimas. O ínfimo tem sua grandeza e ela me encanta. Gosto muito das coisas desimportantes, como os insetos. Não só das coisas, mas também dos homens desimportantes, que eu chamo de “desheróis”.

Estado - Daí seu interesse por Charles Chaplin?
Manoel – Chaplin descobriu o encanto dos vagabundos. Queria celebrar o ínfimo, o pobre coitado, o homem jogado fora, o joão-ninguém. Mas eu tomei gosto pelo desimportante lendo o Gogol, um escritor que exaltou como ninguém o homem sem valor, sem qualidade. Estou sempre relendo O Capote. A literatura do homem desqualificada, do pobre diabo, começou com Gogol.

Estado – Nenhum inseto o incomoda?
Manoel – Não tenho medo de insetos, nem mesmo de baratas. Eu fui criado em chão de acampamento, no meio de lagartixas, lagartos, sapos, mosquitos. Vivi nos brejos, lugares úmidos que custam muito a secar. Eu convivi muito com essas palavras que aparecem em mim. Na hora de escrever um verso, essas palavras brotam em mim naturalmente. É o lastro “brejal” que não perdi.

Estado – Nenhuma relação, eu suponho, com os poemas do senador José Sarney…
Manoel – Nem com o seu lado “brejal” nem com os seus poemas de marimbondo. O José Sarney é um subliterato. Se ficasse só presidente já era ruim, mas ainda escritor…

Estado - O que você pensa da exploração turística do Pantanal?
Manoel – Não é uma exploração, é uma deformação. Mas existem limites. O Pantanal tem um regime de chuvas e de enchentes que ninguém pode mudar. Se o sujeito cismar de erguer um restaurante, uma agência bancária, um supermercado, daqui a seis meses tudo estará boiando. O Pantanal sabe defender-se. O turismo jamais vai conseguir domá-lo.

Estado – No Pantanal, a natureza ainda se sobrepõe à cultura.
Manoel - É um lugar edênico. Eu diria adâmico. Está na origem do mundo. Parece que a formação geológica do Pantanal ainda não terminou. Claude Lévi-Strauss, quando o visitou, observou que seus rios não têm profundidade, não têm barrancos. O Pantanal é um lugar primário, não terminado, sem feições definitivas. É muito inquieto, muito incorreto, sem disciplina. “No Pantanal não se pode passar a régua”, eu escrevi. A régua impõe limites e o Pantanal não tem limites. Tem uma estrutura aquática que não permite que ele seja modificado.

Estado – Você escreveu também: “O artista é um erro da natureza.” Pode explicar isso?
Manoel – Mas eu também escrevi: “Beethoven é um erro perfeito.” Logo, o erro é a perfeição. O artista é um doente, não é um homem normal. É sempre um psicótico, tem um desvio de sensibilidade, algo assim. Minha principal qualidade literária é minha visão torta do mundo – logo, minha principal qualidade literária é minha doença. Escrever que “Beethoven é um erro perfeito” é uma idéia torta, não é? Escrever que “o silêncio do mar é azul” também é uma idéia torta, porque silêncio não tem cor. E, no entanto, eu escrevi isso e as pessoas consideram. Todo artista tem um desvio lingüístico e é ele que forma seu estilo.

Estado – O estilo é uma condenação?
Manoel – O estilo é um estigma, é uma coisa que marca. Já vem com as nuances do indivíduo. O estilo é coisa quase genética. Todo escritor surge de uma doença. Quanto mais um escritor é atingido pela anormalidade, mais seu estilo aparece.

Estado – Uma pessoa como Bernardo, o velho empregado a quem você dedicou um longo poema, também está marcada pela estigma da anormalidade e no entanto não se tornou poeta. Como isso se explica?
Manoel - Bernardo está internado há um mês em um asilo. Ele está sofrendo do coração. Temos a mesma idade e ele está comigo desde os 18 anos. Bernardo não fala, não fala mesmo. Não porque não queira, mas por fastio. Ele tem uma inocência animal.

Estado – Os pássaros ainda pousam na cabeça dele?
Manoel – Não só os pássaros, mas até as galinhas selvagens. Os porcos querem ir para o seu colo. Todos os animais querem chegar perto de Bernardo. Não sei o que é, não me peça explicação. Bernardo tem uma inocência animal, de forma que os animais sentem e se aproximam.

Estado – Você o tem visitado?
Manoel – Vou sempre visitá-lo. Encontro-o rindo e fumando seu cachimbo. Os médicos dizem que não adianta mais proibir. Bernardo é um ser que não conhece ter. Ele nunca teve nada, nunca pediu nada. A gente é que leva roupa, lhe dá comida, remédio. E tem uma memória igual à de um computador. Ele é capaz de dizer a idade de uma pessoa que ele conheceu há 50 anos e nunca mais encontrou. A memória é o sentido que, nele, absorveu os outros.

Estado – Já em seu caso parece que o gozo com as palavras está acima de tudo. É isso?
Manoel - É verdade, eu gozo com as palavras. Já escrevi: “Meu gozo é no fazer.” É no fazer o verso que o poeta goza. Eu tenho isso: todo verso meu, eu gozei nele. Não escrevo muito porque eu demoro muito para gozar. Eu trabalho muito em cima das palavras, bolino muito as palavras, acaricio. “Uma palavra tirou o roupão para mim”, eu escrevi. E é exatamente isso o que acontece.

 

 Fonte: http://www.revista.agulha.nom.br/barros04.html





Manoel de Barros busca o sentido da vida

22 02 2008

Entrevista por José Castello


Poeta diz ter solidão, mas acha que é opulência da alma e a traz, em sua obra, como amargor e sol

Manoel de Barros ficou perto de cinco meses com um longo questionário que lhe enviei pouco antes do carnaval deste ano. “Vou responder devagar e do meu jeito”, ele me advertiu na época. Aceitei suas condições. Não imaginei, porém, que necessitasse de tanto tempo. Barros seguiu, em parte, as instruções de seus novos editores, da Record, que preferiam ver uma grande entrevista publicada no Estado apenas na época do lançamento do Livro sobre Nada. Mas não foi só essa preferência que o fez deixar o questionário de lado por um período tão longo. O poeta é um homem de hábitos lentos, que gosta de meditar muito antes de agir e não está acostumado a trair seu temperamento interiorano. Finalmente, no dia 12, ele despachou de Campo Grande, pelo correio, suas respostas a algumas perguntas que formulei. Assim começa um breve bilhete anexo: “Aí está o que pude; peço desculpas pela demora.” Manoel de Barros respondeu por escrito, em organizadas folhas brancas do tipo ofício, datilografadas com esmero. Corrigiu os erros com a esferográfica, numerou metodicamente as questões e grampeou as páginas.

É um homem, sempre, cheio de cuidados. Antes de aceitar o convite da editora Record para se transferir – “proposta irrecusável por todos os motivos, até mesmo os financeiros”, limita-se a dizer -, o poeta consultou José Elias Salomão, o proprietário da Civilização Brasileira. “Falei com ele e tudo bem; ficamos em paz todos”, relata. A morte recente do editor Ênio Silveira, por certo, influenciou nessa decisão. Manoel de Barros se sentia tão ligado a Ênio que, enquanto ele estava vivo e mesmo com as condições precárias que a editora Civilização Brasileira atravessou na última década, não ousou mudar de casa. Os laços de amizade e a fidelidade pesaram mais que os interesses pessoais. Cada um de seus últimos livros editados por Ênio Silveira, mal ou bem (e, considerando que são livros de poemas, esses números são ótimos) vendeu, de todo modo, perto de 10 mil exemplares. “Acho que, na Record, esse número deve crescer por causa da estrutura de marketing da editora”, diz. Apesar desse otimismo, Manoel de Barros continua a ser um homem basicamente melancólico e pessimista. “Acho que no futuro o homem vai pedir pelo amor de Deus para conhecer uma árvore, um passarinho, um cavalo”, diz. “Tenho medo que a ciência acabe com os cavalos, com a luz natural, com as fontes do ser.” A seguir, as questões que ele decidiu responder.




Estado – Em que medida Mato Grosso do Sul está presente em sua poesia? Qual é sua relação com o regionalismo?
Manoel de Barros – Há sempre um lastro de ancestralidades que nos situa no espaço. Mas não importa muito onde o artista tenha nascido. O que marca um estilo literário é a maneira de mexer com as palavras. Poesia é um fenômeno de linguagem. De minha parte, confesso que fujo do regionalismo que não dê em arte, que só quer fazer registro. Não gosto de descrever lugares, bichos, coisas da natureza. Gosto de inventar. Quem descreve não é dono do assunto; quem inventa é. Não tenho compromisso com as verdades consagradas. O que desejo é me constar por meio de um trabalho estético. Se de tudo resultar um cheiro de coisa do chão, é bom. Pode até ser que seja regionalismo. Porém, há de ser mais transfigurismo pela palavra.

Estado - Você se sente isolado em Campo Grande?
Barros – Isolado não me sinto, juro. Às vezes me isolo, me tranco na minha toca para escrever, para ler, para imaginar. Parece que, no fechado, o imaginário se solta melhor. O que sinto mesmo é incompletude: essa falta de explicação para o sentido da vida. O que tenho é solidão. Mas solidão é opulência da alma. Tudo isso parece que destila amargor e sol na minha poesia.

Estado – As viagens marcaram sua poesia? Penso em um poeta como Vinícius de Moraes que, em cada cidade que viveu, parece ter sido um homem diferente.
Barros – Alguns anos da minha vida ambulei por lugares decadentes. Havia um certo fascínio em mim por cidades mortas, casas abandonadas, vestígios de civilizações. Um fascínio por ruínas habitadas por sapos e borboletas. Eu gostava de ver alguma germinação da inércia sobre ervinhas doentes, paredes leprentas, coisas desprezadas. As fontes de minha poesia, estou certo, vêm de errâncias desurbanas. Agora, o caso do Vinícius é outro. Ele é um poeta inumerável. Ele vem das grandes paixões, das grandes complexidades, das perplexidades humanas. Ele era 300, ele era 350, como diria o nosso Mário de Andrade. Manoel de Barros só é um bugre perturbado.

Estado – Existe essa entidade chamada poesia brasileira ou existem apenas poetas nascidos no Brasil?
Barros – Penso que existe sim uma poesia brasileira. Uma poesia que expressa a nossa alma e o nosso quintal. Porém, a linguagem, o tratamento que o poeta imprima à sua matéria pode fazer dele um poeta universal. Assim, as nossas particularidades podem ser universais por meio das palavras. Temos poetas do mundo nascidos no Brasil.

Estado – Como foi sua relação com o editor Ênio Silveira, recém- falecido?
Barros – Do Ênio fui amigo e companheiro desde o primeiro dia que conversamos. Uma das criaturas mais puras, mais honestas, mais idealistas que conheci. Um ser de escol – como se diz. Trocamos cartas por muitos anos. Trocamos amizades. Mandava a ele os meus originais e ficava quieto, esperando. De repente, me mandava as provas. Fazia questão de escrever as orelhas. Tenho cinco livros lançados por ele.

Estado – Como é hoje sua rotina de poeta?
Barros - Exploro os mistérios irracionais dentro de uma toca que chamo “lugar de ser inútil”. Exploro há 60 anos esses mistérios. Descubro memórias fósseis. Osso de urubu, etc. Faço escavações. Entro às 7 horas, saio ao meio-dia. Anoto coisas em pequenos cadernos de rascunho. Arrumo versos, frases, desenho bonecos. Leio a Bíblia, dicionários, às vezes percorro século para descobrir o primeiro esgar de uma palavra. E gosto de ouvir e ler Vozes da Origem. Gosto de coisas que começam assim: “Antigamente, o tatu era gente e namorou a mulher de outro homem.” Está no livro Vozes da Origem, da antropóloga Betty Mindlin. Essas leituras me ajudam a explorar os mistérios irracionais. Não uso computador para escrever. Sou metido. Sempre acho que na ponta de meu lápis tem um nascimento.

Estado – Seu último livro publicado se chama O livro das Ignorãças (Civilização Brasileira, 1983). A citação de abertura é eloqüente: “As coisas que não existem são mais bonitas.” Qual é o papel da ignorância na atividade poética?
Barros – Gosto de ver o que não aparece. Um que não era o adivinha de Tebas, o Tirésias, um que era apenas o Pote-Cru, andejo de beira de rios, criado em grotas de preá, me disse um dia: “Eu tenho vaticínios de lugares.” Pote-Cru, ele tinha percepções sensoriais largas, como os adivinhos, os videntes, os bruxos, os urgos, os demiurgos, os curandeiros, os magos. Essa gente toda usa muito a ignorância para nos conhecer. Como é que eles podem dizer: “Vi a tarde se encolher no olho de um pássaro?” Entretanto, se encolhe! Como é que eles podem dizer: “Os carrapichos não pregam no vento.” E, entretanto, não pregam. Essas descobertas vêm da ignorância.

Estado – Você vive em uma região brasileira em que a natureza, mal ou bem, ainda resiste. Há futuro para a natureza?
Barros – No grande futuro, não sei o que seja, acho que o homem vai pedir pelo amor de Deus para conhecer uma árvore, um passarinho, um cavalo. Tenho medo que a ciência acabe com os cavalos, com a luz natural, com as fontes do ser. Aquela liberdade que o homem tem de se sentir livre para o silêncio das árvores não vai ter mais. O idioma não vai servir mais para celebrar. O ser não vai mais comungar com as coisas. A imaginação não vai mais desabrochar, porque os nossos desejos e fantasias serão realizados. O mundo vai ter outro cheiro. Salvo não seja.

Fonte: O Estado de São Paulo, Caderno 2.





Entrevista com o Poeta Manoel de Barros

22 02 2008



O tema da minha poesia sou eu mesmo

Entrevista concedida a André Luís Barros

A natureza nunca mais foi a mesma depois de passar por suas frases. O poeta pantaneiro Manoel de Barros, que está lançando um novo ajuntamento de versos e vida, o Livro sobre nada (Editora Record) , se considera acima de tudo um “fazedor de frases”: “A frase para ser boa precisa ser uma coisa ilógica, o ilogismo é muito importante pois a razão diminui a poesia”, ensina. Avesso a entrevistas, quanto mais por telefone, Manoel de Barros, considerado por muitos o maior poeta brasileiro vivo, concordou em concedeu conversar com o caderno Idéias, por telefone, de sua casa em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, onde vive a quatro horas de sua fazenda de criação de gado e costuma sair à tarde para “desenferrujar” e bicar umas pingas com amigos. Com simplicidade, o autor de livros como Compêndio para uso dos pássaros (1960), Arranjos para assobio (1982), Livro de pré-coisas (1985) e O guardador de águas (1989) falou sobre paixões literárias, o gosto pelo ócio e por programas divertidos na televisão, como Os trapalhões e até o mexicano Chaves e lembrou até um insuspeitado passado no Partido Comunista. “Mas nunca fui afeito a grupos, gerações, não podia mesmo durar muito naquele partido. Hoje, conquistei o ócio, o que é muito importante para o poeta”, comemora.




André Luís Barros - O senhor só ficou famoso como um grande poeta depois dos 70 anos. Isso foi algo planejado, ou aconteceu por acaso?
Manoel de Barros – Isso é negócio do meu temperamento. Nunca tive projeto, só livro. Também nunca achei que precisasse me isolar no Pantanal para compor melhor. Sou pantaneiro, nasci aqui, só podia viver e escrever mesmo sobre as coisas daqui. Mas nunca tive preocupação em aparecer muito, ser uma pessoa conhecida, isso é sincero mesmo. Eu queria só fazer poesia. A minha vergonhez explica muita coisa. Sou tímido por temperamento, é possível que só seja poeta por causa disso. Sou um ser abúlico, tenho minhas contradições e tento me encontrar através da poesia. É claro que sucesso é bom, ser amado, admirado pela poesia é bom, quem disser que não está mentindo. Fui descoberto de repente, as pessoas começaram a me perceber. Nunca na minha vida fui de participar muito de grupo. Acho que em poesia também não pertenço a nenhuma geração, a tal geração de 1945 não é a minha, e vejo outros poetas, como João Cabral de Melo Neto, que não é de geração nenhuma. Aliás, como classificar o Rimbaud? Em que geração classificamos o Augusto dos Anjos? Eles são simplesmente grandes poetas.

ALB – O senhor conheceu, tem uma grande admiração e até prometeu um livro sobre João Guimarães Rosa. O primeiro livro dele, o inédito Magma, será lançado em breve. Onde está o livro prometido?
MB – Foi adiado. O Ênio Silveira tinha me sugerido fazer esse livro e eu topei o negócio, fiquei animado. Mas quando fui escrever, em vez de ser minha, a frase que saía era do Rosa. É que eu tinha relido muita coisa dele e fiquei impregnado. Não convém isso, não é bom porque você acaba mergulhado mesmo na obra do autor, acaba afogado. Anos atrás eu tinha tentado fazer um ensaio quase lingüístico sobre o conto Cara-de-Bronze, do Rosa, de que gosto muito. Mas me embananei todo, no meio. Eu não falo mais que três línguas e o Rosa conhecia língua demais, achei que seria possível fazer o ensaio mas ficou muito difícil. Disseram que o Magma não é tão bom quanto os outros livros do Rosa. Realmente ele tinha talento mesmo era para a prosa, e o engraçado é que ele foi poeta no fim da vida. Geralmente o sujeito é poeta aos 18 anos, quando aparecem as espinhas, e depois pode virar prosador. Mas há versos perfeitos no livro Ave, palavra, seu último livro, e Tutaméia e A terceira margem do rio são pura poesia. Eu sou mais de fazer frases, sou bom em criar frases.

ALB – O seu trabalho é mais fragmentado.
MB – Cada vez mais. O próprio mundo está obrigando a gente a se fragmentar. É uma falta de unidade, o homem moderno não tem mais as grandes unidades, como Deus. A gente não tem crença em mais nada, aliás, toda a arte deste século é fragmentada, ninguém defende mais uma ideologia, hoje. O homem não acredita mais nem em ideologia, as religiões estão se fragmentando, o protestantismo está se dividindo, o cristianismo.

ALB – O senhor é religioso?
MB – Sim, tenho formação católica, estudei dez anos interno em colégio de padre. Evidente que depois de alguns anos eu era comunista. Foi minha fase libertária, fui filiado ao Partido. Foi ali que conheci o Carlos Lacerda. O Apolônio de Carvalho me botou lá, depois ele foi da dissidência do Partido. Fui companheiro do Lacerda, que na época era muito diferente do que ele se tornaria, era comunista mesmo.

ALB – Até que ponto a despreocupação com o dinheiro é importante para o poeta?
MB – Levei vários anos até conquistar o ócio, isso é importante para o poeta, ele não pode ter a cabeça virada só para coisas a resolver. Fiquei muitos anos arrumando minha vida, saldando dívidas, atendendo papagaio. Há oito anos, cheguei aqui pra Mato Grosso, tomei pé aqui. Agora estou vagabundo, tenho direito a isso. Herdei uma fazenda, em campo aberto, terra nua, sou fazendeiro de gado, vaca, não sou “o rei do boi, do gado” mas vivo bem. Este é o meu caso: enquanto estava tomando pé da fazenda não escrevi uma linha. Mas sabemos de outros casos, como o Dostoiévski, que escreveu perseguido por dívidas, ou o Graciliano Ramos, que além das dívidas ainda tinha família pra criar.

ALB – Qual é o tema do poeta?
MB - O tema do poeta é sempre ele mesmo. Ele é um narcisista: expõe o mundo através dele mesmo. Ele quer ser o mundo, e pelas inquietações dele, desejos, esperanças, o mundo aparece. Através de sua essência, a essência do mundo consegue aparecer. O tema da minha poesia sou eu mesmo e eu sou pantaneiro. Então, não é que eu descreva o Pantanal, não sou disso, nem de narrar nada. Mas nasci aqui, fiquei até os oito anos e depois fui estudar. Tenho um lastro da infância, tudo o que a gente é mais tarde vem da infância. Nesse último livro meu, Livro sobre nada, tem muitos versos que vieram da infância. Tem um poema que se chama “A arte de infantilizar formigas”. Num vídeo que fizeram sobre mim, o rapaz chega uma hora que pergunta: “Escuta aqui, o senhor escreveu que formiga não tem dor nas costas. Mas como é que o senhor sabe?”. Outro rapaz me escreveu do Rio, diz que freqüenta as aulas de um professor muito inteligente em energia nuclear, física, poesia e romance, e ele fez a pergunta, que é um verso meu: “Professor, por que a 15 metros do arco-íris o sol é cheiroso?”. O professor, que tinha estudado Einstein e outros autores, disse: “Essa pergunta não vou responder, é absurda”. Ou seja, encabulou. Creio que a poesia está de mãos dadas com o ilógico. Não gosto de dar confiança para a razão, ela diminui a poesia.

ALB – Como é seu dia-a-dia?
MB - Pela estrada, chego a minha fazenda em quatro horas, estou bem perto do Pantanal. Agora o clima é seco, e dá para correr de carro. Mas quando a estrada enche, só de avião. Fico em casa lendo, escutando músico, vejo televisão. De manhã, fico escrevendo, terminando livro, fazendo entrevista.

ALB - Hoje, o senhor lê que autores?
MB – Já li muita coisa séria, além dos escritores, li filosofia, Nietszche, Kant, Walter Benjamim, Adorno, essas coisas. Mas hoje tô lendo mais porcaria mesmo, quero descansar a cabeça. E estou com a vista meio ruim. Vejo também muitas coisas engraçadas na TV, o Didi e o Dedé (Os trapalhões), o Chaves, sabe quem é?, aquele chato mexicano. E escuto muita música. De tarde, saio pra tomar umas pingas, enquanto meu fígado não arrebentou. Mas às vezes sofro aqui nessa cidade. A poesia faz da gente uma espécie de mito, e as pessoas acabam fazendo da gente uma imagem diferente da realidade. Tem gente aqui que pensa que eu vivo isolado, sozinho, sem amigos, falam que eu sou intratável. Não sou isolado, não.

ALB – Como nasceu seu amor pelo trabalho da linguagem?
MB – Sempre tive uma preocupação com a palavra, com as frases. No colégio interno, os padres me deram o Padre Antônio Vieira para ler. Ele era um grande frasista, se preocupava com a ressonância verbal interna das frases. Em linguagem, ele muitas vezes não era tão católico assim. Depois que comecei a ler o Vieira não parei mais de prestar atenção nas frases. Sou um fazedor de frases. O que é o verso? É uma frase, uma unidade rítmica, que tem como característica ser ilógica. O ilogismo é muito importante para o verso.

ALB – O senhor citou o poeta francês Rimbaud. Fale um pouco dele.
MB – Foi o poeta mais importante para mim. Aprendi com ele uma certa promiscuidade dos sentidos na natureza. Ele tinha uma linguagem própria, toda sua, aquela coisa do “trouver la langue” (“encontrar a língua”).

ALB – O senhor citou também João Cabral de Melo Neto. O que acha de sua obra?
MB – O Cabral é o maior poeta brasileiro de todos os tempos. É um arquiteto da palavra, sabe o que faz com ela. Tem um ritmo dele, totalmente dele, é diferente de todos os outros e tinha que ser, pois ele é um ser. João Cabral é muito limpo.

Fonte: Caderno Idéias, Jornal do Brasil.





Cazuza, Renato Russo, Raul Seixas e suas entrevistas

14 10 2007





Minha primeira entrevista para um jornal…

8 10 2007

A entrevista ficou assim Cristian…

 

Att.

 

Jonas Felácio

Jornalista responsável

 

Jornal Alto Vale  (02/2007)

1- Como é a sensação de ser aprovado num mestrado aos 22 anos?
Recompensa! Pode-se dizer que fiz uma graduação muito bem feita. Com pesquisa, extensão, publicação de artigos, apresentação em congressos, participação de eventos. Não se atribui algo assim, apenas a alguns meses de trabalho duro, o que foi necessário é claro. Trabalhava com duas lições importantes desde o colégio. Estratégia e tática num projeto de vida bem estruturado. Em longo prazo tinha uma meta bem definida. Em curto prazo estruturava meu currículo, lia muitos livros, fazia cursos, e fazia valer uma frase: “não deixe que a faculdade atrapalhe seus estudos”.

2- Quantas horas você dedicou por dia para estudar para a prova do mestrado?
Olha, não se mede isso em horas. Mas em intensidade. Ler 80 páginas dia as vezes era complicado pra quem tinha aula de manhã, projeto de pesquisa a tarde, trabalhava até as 22:30 na universidade, fazia cursos, era da diretoria de duas entidades (Direitos Humanos e Associação de Psicologia), escrever artigos. Mas as pessoas sabem que com muito tempo sobrando relaxamos e deixamos tudo pra ultima hora. Nós precisamos ficar meio que desesperados, ansiosos, para ser produtivos. É o preço da qualidade e produção. E no mais não é “o quanto” você estuda, mas “o que” você estuda e o quanto você consegue “absorver e aplicar” em algo útil para as suas metas e para essa vida tão curta.

3- Como você faz para conciliar os estudos com outras atividades do dia-a-dia?
Jeitinho brasileiro. Fazer tudo ao mesmo tempo. Falando nisso, me deixe atender o celular aqui, só um minuto. (risos)

4- O que os estudos acrescentaram na sua vida?
Estudar bastante, ler em demasia parece coisa de intelectual. A todos isso parece. Mas quando você é focado, sabe o que você quer da vida, tudo vira motivação, você faz com prazer, o futuro acaba te puxando, e o saber que você adquire, principalmente na Psicologia, se torna muito prático, você usa em seu cotidiano, seus relacionamentos, trabalho, família, e lhe deixa mais feliz. E aliás, você aprende a não estudar demais, apenas o suficiente para o que você quer alcançar. O bom é se soubéssemos que aquelas horas de estudos de trigonometria, química orgânica, acasalamento das libélulas do oceano índico nada serviriam pra sua vida, além da prova do vestibular.

5- Na atualidade muitas pessoas não valorizam os estudos. Como universitário e pesquisador, qual sua opinião sobre o assunto.
Hoje todos são obrigados a se capacitar de alguma forma. O sonho de ter dinheiro ainda faz muito a cabeça das pessoas, como o principal objetivo de vida, muitas vezes mais que os de família, amor e qualidade de vida. Alguns depois que têm dinheiro, estão velhos, cansados ou mesmo não sabem nem o que fazer com ele. Outros suprem todas as necessidades de sua vida com ele e depois entram em depressão, pois nada há mais pra lutar, conquistar e superar. Essa procura é um risco.

As pessoas tem sim valorizado mais estudar, os índices estão aí. Agora quando se fala de pesquisa em universidades, isso complica. Poucos universitários têm noção da importância e da diferença que faz em sala de aula o aluno pesquisador frente ao aluno que só responde presença. As universidades da região ainda tratam a pesquisa como gasto a mais, com desdém, mas acredito que a pesquisa é a principal ferramenta do aluno para as exigências e mobilidade do mercado atual, e para ir além.

6- Porque escolhesse psicologia para estudar?
Nasci dentro de uma banca de jornais, dos 5 aos 12 vendia jornais na sinaleira ali na frente do Cavilha (centro de Rio do Sul), aos 7 anos lia mais de 10 gibis ao dia, depois revistas, depois jornais e depois aos 21 anos cheguei aos 77 livros/ano. Adquiri o gosto pela leitura, poesia, filosofia, não sendo nada mais do que querer conhecer e vivenciar tudo que existe no mundo, e tudo que criamos. Escolher um curso universitário envolve as ditas “influências” de amigos, pais, conhecidos, envolve nossas crenças, a mídia, a imagem que criamos de uma profissão, mas nada mais do que tentar prever uma opção que supra nossos desejos de ser (reconhecimento social), nosso desejos de ter (Retorno financeiro) e de fazer (algo que realmente nos agrade). A psicologia supriu isso em mim. Mas nunca acaba, é constante e permanente. Quem sabe eu ainda largue tudo pra ser um poeta libertino ou ser um andarilho pela velha Europa.

7- Qual a mensagem de incentivo a leitura que você deixa para as pessoas?
Olha, mestrado aos 22 anos não é nada. Tem pessoas que a escola da vida lhes ensinou bem mais coisas pra passar o tempo e ser feliz do que estudar. Respeito quem não escolhe esse caminho. Só convido a conhecer um mundo diferente, a psicologia é fascinante, ela é algo que você utilizada a cada segundo, como o respirar. E se seguirmos e entendermos os seus princípios éticos, socialmente construídos, dela veremos que o bem comum (quase que inatingível) é ainda o respeito e a busca da felicidade em conjunto. Ler é esse compartilhar o que alguém em seu tempo viveu e sentiu, e quis que você sentisse, revivesse, como as aventuras que seu avô viveu com seus amores em carros de mola, com a grande guerra, com as noites enluaradas das décadas de 20 e 30 ao lado das igrejinhas; ou mesmo a dor que seu amigo descobriu ao perder uma mulher; ou ainda a pergunta do nosso povo… quem veio antes o “ovo ou a galinha?” Claro, o ovo. Ninguém na pergunta mencionou que o ovo era de galinha, então o ovo de qualquer animal veio primeiro. (risos) Quem sabe ler é buscar fórmulas de viver com mais intensidade sua vida, e escrever é querer sentir um pouco do que Vargas sentiu ao se assassinar naquele fatídico dia: “Sair da vida para entrar na história”. Que você ao deixar algo aqui na dura terra, seja um pouco mais eterno do que apenas uma ou duas gerações da família que vão lembrar de você e seu nome, antes que suma como poeira ao vento de uma tarde de verão.





Minimalista de Si… Michel Foucault

21 09 2007

LAWRENCE D. KRITZMAN. “MICHEL FOUCAULT, POLÍTICA, FILOSOFÍA, CULTURA. ENTREVISTAS Y OTROS ESCRITOS 1977-1984″.

Michel Foucault:

Traducción de Fabio A. Marulanda V.

MINIMALISTA DE SI [1]

Entrevistador: Stephen Riggins

Michel Foucault raramente hablaba de sí mismo. En realidad él despreciaba el discurso que se dió a conocer como biografía intelectual. Sinembargo, ésta discusión con Stephen Riggins muestra algunas suspicacias del filósofo quien encontraba su vida personal “sin interés” (“uninteresting”) y prefería permanecer siempre anónimo. De sus comentarios anecdóticos concernientes a la búsqueda de una austeridad monástica y un “ethos” cultural del silencio para la transformación de sí mismo y hasta de su propio conocimiento, Foucault se auto-retrató más o menos como “Minimalist Aesthetic Experience.” Esta entrevista fué grabada en inglés y publicada en el “Canadian Journal Ethos” en el otoño de 1983. (Nota del Traductor).

STEPHEN RIGGINS:

Una de las muchas cosas que un lector inesperadamente puede aprender de su actividad como lector, es el aprecio por el silencio. Usted escribió acerca de la libertad que ésto posibilita, y de sus múltiples causas y significados.

Por ejemplo, usted dijo en su último libro que existe no uno sino muchos silencios. Sería correcto deducir que existe en ésto un fuerte elemento auto-biográfico?

FOUCAULT:

Pienso que cualquier niño que haya sido educado en un medio católico, justamente antes o durante la Segunda Guerra Mundial, tuvo la experiencia de que hubo muchas y diferentes maneras de hablar, así como de muchas maneras de silencio. Hubo algunas maneras de silencio que implicaron mucha hostilidad y otras que manifestaban profunda amistad, emocional admiración, incluso amor. Recuerdo muy bien que cuando me encontré con el director de cine Danielt Schmidt, quien me visitó, no recuerdo para que propuesta, nosotros nos dimos cuenta unos pocos minutos después, que realmente no teníamos nada para decirnos el uno al otro. Así nos quedamos acerca de las tres de la tarde hasta la media noche. Nosotros bebimos, fumamos picadura, y cenamos. Y no creo que nosotros hayamos hablado más de veinte minutos durante éstas diez horas. A partir de éste momento una estrecha amistad surgió. Fue para mí la primera vez que una amistad fue originada estrictamente por nuestro comportamiento silencioso. Quizás una otra característica de ésta apreciación del silencio esté relacionada por la obligación de hablar. Viví cuando niño en una pequeña población en un ambiente provincial en Francia y la obligación de hablar, de conversar con los visitantes, fue para mí a veces un tanto extraña y muy aburrida.

Frecuentemente me preguntaba por qué las personas tenían que hablar. El silencio podría ser una manera mucho más interesante de relacionarse con las personas.

STEPHEN RIGGINS:

En la cultura de los indios Norte-Americanos es mucho más grandioso el aprecio por el silencio, que en las sociedades de lengua inglesa y supongo que mucho más que en las sociedades de lengua francesa también.

FOUCAULT:

Sí, vea usted, pienso que el silencio es una de aquellas cosas que han sido desafortunamente omitidas en nuestra cultura. Nosotros no tenemos una cultura del silencio; nosotros no tenemos una cultura de cualquier tipo de suicidio.

Pienso que los japoneses sí. A los jóvenes Romanos o a los jóvenes Griegos, les enseñaban a quedarsen en silencio, en muchas diferentes ocasiones de acuerdo a las personas con quienes ellos iban interactuando. Es ésto de momento lo que creo merece seguirse cultivando. Estoy a favor del desarrollo del silencio como un “ethos” cultural.

STEPHEN RIGGINS:

Usted parece tener una fascinación con otras culturas y no sólo del pasado; durante los primeros diez años de su carrera usted vivió en Suecia, Alemania Occidental y Polonia.

Ésto podría parecer una carrera muy atípica para un académico francés. Puede usted explicar por qué dejó Francia y por qué, cuando usted regresó aproximadamente en 1961, se dejó correr el rumor que usted podría tener preferencia para vivir en Japón?

FOUCAULT:

Hay un “snobismo” más o menos anti-chovinista en Francia ahora. Espero que ésto que voy a decir no sea asociado con éstos grupos de personas. Quizás si fuera un americano o un canadiense podría sufrir de algunas características de la cultura norteamericana. De todos modos, he tolerado y sinembargo he soportado quieto una serie de cosas en la vida social y cultural francesa. Ésta fue la razón por la que dejé Francia en 1955. Circunstancialmente, en 1966 y 1968 también pasé dos años en Túnez por razones puramente personales.

STEPHEN RIGGINS:

Puede usted darme algunos ejemplos de los aspectos de la sociedad francesa que ha tenido que soportar?

FOUCAULT:

Bien, pienso que, en el momento que dejé Francia, la libertad individual estuvo muy bruscamente limitada allí. En ese momento Suecia, estaba supuesto para ser un país mucho más libre. Y allí tuve la experiencia de tener una cierta clase de libertad, no exactamente con los mismos efectos pero con tantos efectos restrictivos como en una sociedad directamente restrictiva. Ésto fue una importante experiencia para mí. Además tuve la oportunidad de pasar un año en Polonia donde, claro las restricciones y el poder opresivo del partido comunista eran realmente completamente diferentes. En un demasiado corto período de tiempo, tuve la experiencia de una antigua tradicional sociedad, como fué Francia a comienzos de 1940 y finales de 1950, y de la nueva libre sociedad cual fue Suecia. No digo que tuve la experiencia de todas las posibilidades políticas, pero fue un ejemplo de que las posibilidades de las sociedades de occidente eran esas en ese momento. Esa fue una buena experiencia.

STEPHEN RIGGINS:

Cientos de americanos fueron a París en los años veinte y treinta por exactamente las mismas razones que usted dejó Francia en los años cincuenta.

FOUCAULT:

Sí. Pero en ese momento no creo que ellos hayan venido a París en busca de libertad. Ellos viajaron para saborear una antigua y tradicional cultura. Ellos fueron a Francia como pintores fueron a Italia en el siglo XVII para ver una agonizante civilización. De todas maneras, usted sabe, nosotros muy frecuentemente tenemos la experiencia de mucha más libertad en países extranjeros que en nuestro propio país. Como extranjeros nosotros podemos ignorar todas esas obligaciones implícitas, que no están en la ley, pero que están de manera general en el comportamiento. En segundo lugar, sólo cambiando nuestras obligaciones estamos sintiendo o experimentando un cierto tipo de libertad.

STEPHEN RIGGINS:

Si usted no se molesta, permítame retornar nuevamente a sus tempranos años en París. Entiendo que usted trabajó como un psicoanalista en el Hospital Santa Ana en París.

FOUCAULT:

Sí, trabajé allí poco más que dos años creo.

STEPHEN RIGGINS:

Y usted ha comentado que se identificaba más con el paciente, que con el personal de trabajo. Seguramente ésto es muy atípico para alguien que es un psicoanalísta o psiquiátra.

Por qué sintió usted, particularmente de ésta experiencia, la necesidad de radicalmente cuestionar la siquiatría, cuando textualmente muchas otras personas estaban satisfechas al tratar de refinar los conceptos que eran ya predominantes…?

FOUCAULT:

…Actualmente.

No fui nombrado oficialmente. Estuve allí estudiando psicología en el hospital Santa Ana.

Ésto fue a comienzos de 1950. Allí no hubo un claro “status” profesional para los psicólogos en un hospital mental. Así siendo un estudiante en psicología –estudié primero filosofía y luego psicología– tuve un muy extraño “status” allí. El “jefe de personal” fue muy especial conmigo y me permitió hacer cualquier cosa que deseara. Pero sin descuidar lo que debía estar haciendo; fui libre para hacer cualquier cosa. Estuve en realidad en una posición entre el grupo de trabajo y los pacientes, y ésto no fue mi mayor mérito, y no fue porque tuviera una aptitud especial, fue a consecuencia de ésta ambiguedad en mi “status” que me obligó a mantenerme a distancia del grupo de trabajo.

Estoy seguro que no fue por mi mérito personal, porque dejé todo ésto en el momento en que empecé a sentir cierto malestar.

Fue solamente unos pocos años después cuando comencé a escribir sobre la historia de la psiquiatría que éste malestar, de ésta personal experiencia, tomó la forma de una crítica histórica o de un análisis estructural.

STEPHEN RIGGINS:

Fue ésto una cosa inusual en el hospital Santa Ana? Podría ésto haber generado a los empleados una impresión particularmente negativa de la siquiatría?

FOUCAULT:

Oh no. Fue algo típico en los grandes hospitales, como usted puede imaginarse y debo decir que fue el mejor de la mayoría de los grandes hospitales, de las provincias de los pueblos de la provincia que visité después. Fue uno de los mejores en París. No, ésto no fue terrible. Ésto fué precisamente la cosa que resultó importante. Quizás si hubiera estado haciendo ésta práctica de trabajo en un hospital de provincia pequeño, hubiera creído que los fracazos pudieran haber sido el resultado de su localización o de su particular inadecuación.

STEPHEN RIGGINS:

Usted ha mencionado, precisamente las provincias francesas, en una en la cual usted ha nacido, de una manera despectiva; no obstante, tiene usted algunos recuerdos cariñosos de su crecimiento en Poitiers entre los años 1930 y 1940? [2]

FOUCAULT:

Oh sí. Mis recuerdos son bastantes, uno no puede decir que son exactamente desconocidos, pero al menos descubro ahora cuando trato de recordar éstas impresiones, que casi todos los grandes recuerdos sentimentales que tengo están relacionados con la situación política. Recuerdo muy bien que sentí uno de mis primeros grandes sustos cuando el Canciller Dollfuss fue asesinado por los Nazis, creo que en 1934. Ésto está algo muy lejos para nosotros ahora. Muy poca gente recuerda la muerte de Dollfuss. Recuerdo muy bien que estuve realmente muy asustado por ésto. Pienso que ésto fue mi primer fuerte susto con la muerte. También recuerdo que refugiados de España llegaron a Poitiers. Y recuerdo las disputas en la escuela con mis compañeros de clase acerca de la guerra en Etiopía. Pienso que los muchachos y muchachas de ésta generación fueron marcados en su niñez por éstos grandiosos acontecimientos históricos.

La amenaza de la guerra fue nuestra educación, nuestros marcos de existencia. Luego vino la guerra. Mucho más que nuestras vidas en familia, fueron éstos eventos acerca del mundo los que son la esencia de nuestros recuerdos. Digo “nuestros” porque estoy casi seguro que la mayoría de muchachos y muchachas en Francia en éste momento tuvimos la misma experiencia. Nuestra vida privada fue realmente amenazada. Puede ser ésta la razón por la que estoy fascinado por la historia y las relaciones que hay entre mi experiencia personal, y, éstos acontecimientos de los cuales nosotros formamos parte; pienso que ésto es el núcleo de mis deseos teóricos.[Riéndose...].

STEPHEN RIGGINS:

Usted quedó fascinado por éste período aunque usted nunca escribió acerca de ésto.

FOUCAULT:

Sí, por supuesto.

STEPHEN RIGGINS:

Cual fue el origen de su decisión de volverse un filósofo?

FOUCAULT:

Usted sabe, nunca tuve el proyecto de volverme un filósofo. No sabía que hacer con mi vida. Y pienso que ésto también es algo característico de mi generación. Nosotros no sabíamos a la edad de diez u once años, si podríamos pasar a Alemania o quedarnos en Francia. Nosotros no sabíamos si podríamos morir en el bombardeo y así terminar. Cuando tenga sesenta o setenta pensaré solamente una cosa: la vida en la escuela fué un medio protector de amenazas exteriores, de políticas. Y siempre estuve fascinado por las condiciones de vida, por la protección de un medio erudito en un medio intelectual.

El conocimiento es para mí, eso que pueda funcionar como una protección de la existencia individual y para la comprensión del mundo exterior. Pienso que ésto es así. El conocimiento es una manera de supervivencia para el entendimiento.

STEPHEN RIGGINS:

Puede usted decirme un poco acerca de sus estudios en París? Hay alguien quien tuvo una especial influencia, sobre el trabajo que usted hace hoy, o algún profesor con quien usted éste agradecido por alguna razón personal?

FOUCAULT:

No, fui discípulo de Althusser, y en ese momento las principales corrientes filosóficas en Francia fueron el Marxismo, Hegelianismo y la Fenomenología. Tengo que decir que he estudiado ésto, pero lo que me dio en los primeros años el interés para hacer mi trabajo personal fue la lectura de Nietzsche.

STEPHEN RIGGINS:

Una entrevista que no es en francés, es probable que tenga un muy pobre entendimiento de los resultados de la rebelión de Mayo de 1968 y usted dijo unos días después, que éste resultado en la gente, sería más sensible para su trabajo. Puede usted explicar por qué?

FOUCAULT:

Pienso que antes de 1968, por lo menos en Francia, usted tenía que ser lo mismo que un filósofo marxista, o un fenomenologísta o un estructuralista y de ninguna manera me adherí a éstos dogmas. El segundo punto es que en éste momento en Francia estudiando la psiquiatría o la historia de la medicina no representaba un “status” real en la esfera política. Nadie estaba interesado en ésto. La primera cosa que paso después de Mayo del 68 fué que el marxismo como un marco dogmático declinaba y una nueva política, nuevos intereses concernientes a la vida personal aparecían. Ésta es la razón por la que pienso que mi trabajo no tuvo casi resonancia, con la excepción de un muy pequeño círculo, antes del 68.

STEPHEN RIGGINS:

Algunos de éstos trabajos se encuentran en el primer volumen de “La Historia de la Sexualidad”, tal como el libro de la “Sociedad Victoriana”, “ Mi Vida Intima”, está cargado con fantasías sexuales. Podría ésto ser un valor en su enfoque explícitamente sobre las fantasías sexuales y la creación de una arqueología de ellas más bien que una de la sexualidad?

FOUCAULT:

[Riéndose...] No, no traté de escribir una arqueología de fantasías sexuales. Traté de hacer una arqueología del discurso acerca de la sexualidad que es realmente la relación entre lo que nosotros hacemos, lo que nosotros estamos obligados a hacer, lo que a nosotros nos está prohibido hacer en el campo de la sexualidad y lo que a nosotros nos está permitido, prohibido, u obligados a decir acerca de nuestro comportamiento sexual. Éste es el punto. No es un problema de fantasías; es un problema de verbalización.

STEPHEN RIGGINS:

Puede usted explicar como llegó a la conclusión de que la represión sexual que caracterizó el siglo XVIII y XIX en Europa y Norte-America y que aparece de ésta manera bien documentada históricamente, fue un hecho ambiguo y que debajo de ésto estarían trabajando fuerzas en la dirección opuesta?

FOUCAULT:

En efecto, no es el problema de negar la existencia de la represión. Una de las representaciones de ésta represión, es siempre una parte de una estrategia política mucho más compleja con respecto a la sexualidad. Éstas cosas no están simplemente reprimidas. Hay acerca de la sexualidad una parte de regulaciones anormales en las cuales los efectos negativos de ésta inhibición, se compensan por los positivos efectos del estímulo. La vía en la cual la sexualidad en el siglo XIX por ambos lados estuvo reprimida pero también puesta en evidencia, subrayada, analizada a través de técnicas como el psicoanálisis y la psiquiatría‚ demostrando muy bien que ésto no fue una simple cuestión de represión. Ésto fue mucho más que un cambio en las economías de comportamientos sexuales en nuestra sociedad.

STEPHEN RIGGINS:

En su opinión cuales son de los más notables ejemplos que soportan sus hipótesis?

FOUCAULT:

Uno de ellos es la masturbación en los niños. Otro es la histeria, y todo el alboroto acerca de las mujeres histéricas. Éstos dos ejemplos demuestran, y desde luego, represión, prohibición, interdicción y así sucesivamente. Pero el hecho que la sexualidad de los niños se vuelva un problema para los padres, un lío, una fuente de inquietud, tuvo bastantes efectos sobre los niños y sobre los padres. El cuidado de la sexualidad de sus hijos no fue sólo una cuestión de moralidad para los padres sino también una cuestión de placer.

STEPHEN RIGGINS:

Placer en que sentido?

FOUCAULT:

Excitación sexual y satisfacción sexual.

STEPHEN RIGGINS:

Para los mismos padres?

FOUCAULT:

Sí. Llámelo violación, si usted quiere. Hay textos que están muy cerrados para una sistematización de la violación.

Violación por los padres de la actividad sexual de sus hijos.

Para intervenir en ésta personal actividad secreta de la cual fue objeto la masturbación‚ no representó algo neutral para los padres. Es no solamente un asunto de poder, o de austeridad, o de ética, es también un placer. No ésta usted de acuerdo con ésto? Sí, hay placer en la prohibición. El hecho que la masturbación fue así estrictamente prohibida para los niños fue naturalmente la causa de la ansiedad, ésto fue también una razón para la intensificación de su actividad, por mutua masturbación y por el placer de una comunicación secreta entre los niños acerca de éste tema. Todo ésto dió una cierta forma para la vida en familia, para la relación entre niños y padres, y para la relación entre niños.

Todo ésto tiene, como resultado no solamente represión sino, una intensificación en ambas partes de ansiedades y de placeres. No quiero decir que el placer de los padres fue el mismo como el de los niños o que ésto no fue represión. Trato de encontrar el origen de ésta absurda represión.

Una de las razones porque ésta estúpida prohibición de la masturbación, fue mantenida por largo tiempo, fue a causa de éste placer y ansiedad y todo el tejido emocional acerca de ello.Todo el mundo sabe muy bien que es imposible prevenir a un niño de la masturbación. No es científicamente evidente que ésto sea nocivo. Uno puede estar seguro que ésto es por lo menos [Riéndose…] el único placer que realmente no es nocivo. Porque estuvo prohibido por tan largo tiempo en ese momento? En lo mejor de mi conocimiento, usted no pudo encontrar más que dos o tres referencias en toda la literatura Greco-Latina acerca de la masturbación. Ésto no fue importante. Se supone que fue, en la civilización Griega y Latina una actividad en ambos casos para esclavos y sátiros. [Riéndose...] Ésto no fue importante para hablar acerca de ello por ciudadanos libres.

STEPHEN RIGGINS:

Nosotros vivimos en un punto en el tiempo en el que hay grandes incertidumbres acerca del futuro. Uno ve visiones apocalípticas del futuro reflejadas muy bien en la cultura popular. “My Dinner with Andre” de Louis Malle, por ejemplo.[3]

No es característico que un clima parecido de sexo y reproducción venga a ser una preocupación y de ésta manera, escribiendo una historia de la sexualidad podría ser sintomático de éste tiempo?

FOUCAULT:

No, no estaría de acuerdo con ésto.

Primero, la preocupación por la relación entre sexualidad y reproducción parece haber sido fuerte, por ejemplo, en las sociedades Griega y Romana y en la sociedad burguesa del siglo XVIII y XIX ninguna. Lo que me llama la atención es el hecho que ahora la sexualidad parezca ser una cuestión sin directa relación con la reproducción. Es su sexualidad como su personal comportamiento el cual es el problema.

Tomé la homosexualidad, por ejemplo. Pienso que una de las razones por las que el comportamiento homosexual no haya sido en el siglo XVIII y XIX, un importante tema, haya sido debido a la consideración de si un hombre podía tener hijos, que hizo además que tuviera poca importancia.

Durante el siglo XIX, comienza a verse que el comportamiento sexual era importante para la definición del individuo mismo. Y ésto es algo nuevo. Y es muy interesante ver que antes del siglo XIX conductas prohibidas, incluso fueron muy severamente castigadas, eran siempre consideradas un exceso, un “libertinaje”, como algo exagerado. Conducta homosexual era únicamente considerada como un cierto exceso del comportamiento natural, un instinto que es difícil guardarse dentro de ciertos límites.

Desde el siglo XIX vemos que el gusto de la homosexualidad comienza a ser considerado como una anormalidad. Cuando digo que fue libertinaje no estoy diciendo que fue tolerada.

Pienso que la idea de la caracterización individual a partir del comportamiento sexual, no fue encontrada o muy raramente antes del siglo XIX. “Dime cuales son tus deseos y te diré quien eres.” Este asunto es característico del siglo XIX.

STEPHEN RIGGINS:

No pudiera parecer más bien que el sexo podría ser llamado “el secreto de la vida.” Tiene alguna cosa para decir al respecto?

FOUCAULT:

Naturalmente que no es “el” secreto de la vida ahora, desde que la gente pueda manifestar al menos ciertas formas generales de sus preferencias sexuales sin ser infestado o castigado. Pero que la gente tranquilamente considera, y está invitada a considerar, que el deseo sexual es capaz de revelarles su profunda identidad.

La sexualidad no es “el,”pero es tranquilamente un síntoma, una manifestación de que es el mayor secreto en nuestra individualidad.

STEPHEN RIGGINS:

En la próxima pregunta, quiero primero preguntarle si al parecer es insignificante, y si ésto es así, me puede explicar por qué pienso que era digno de preguntarse. Tiene lo bello un especial significado para usted?

FOUCAULT:

Pienso que ésto es válido para todo el mundo. [Riéndose...].

Estoy corto de vista, pero no ciego al punto que ésto no tenga significado para mi. Por qué hizo usted ésta pregunta? Estoy asombrado, he dado a usted pruebas que no soy insensible ante lo bello.

STEPHEN RIGGINS:

Una de las cosas acerca de usted, que es muy impresionante, es la clase de austeridad monacal en la que vive.

Su apartamento en París es completamente blanco; usted también evita todos los “objetos de arte” que decoran así muchos hogares franceses.

El tiempo que estuvo en Toronto durante el pasado mes, usted ha vestido ropas tan simples como pantalones blancos, una camiseta blanca, y una chaqueta negra de cuero. Usted sugirió que quizás la razón por la que le gusta demasiado el blanco es que en Poitiers durante los años treinta y cuarenta fue algo imposible para el interior de las casas que fueran completamente blancas.

Usted está hospedado aquí en una casa, cuyos muros blancos están decorados con negras figuras recortadas de esculturas y usted comentó que aprecia especialmente la claridad y la fuerza del negro puro y del blanco.

Hay también una notable frase en “La Historia de la Sexualidad:” “Esa aústera monarquía del sexo.” Usted no pone la imagen del sofisticado francés quien hace un arte afuera comiendo bien.

También usted es la única persona francesa que conozco que me ha dicho que prefiere la comida americana.

FOUCAULT:

Sí por supuesto, [Riéndose...]. Un buen sanduche de tres pisos con una coca-cola. Eso es mi placer. Ésto es verdad. Con helado. Eso es cierto.

En realidad pienso que tengo real dificultad en experimentar placer. Pienso que el placer es una muy difícil conducta. Ésto no es tan simple como que [Riéndose...] disfrutar uno mismo. Y debo decir que ésto es mi sueño. Quisiera, y eso espero, morirme de una sobredosis [Riéndose...]‚ de algún tipo de placer. Porque pienso que ésto es realmente difícil y siempre tengo la sensación que no siento “el” placer, el completo y total placer, y para mi, ésto está relacionado con la muerte.

STEPHEN RIGGINS:

Por qué dices ésto?

FOUCAULT:

Porque pienso que el sentimiento de placer que puedo considerar como “el” real placer podría ser así de profundo, así de intenso, así de aplastante que no se podría sobrevivir a ello. Podría morir. Quiero darle un claro y simple ejemplo. Una vez fuí golpeado por un carro en la calle. Estuve caminando. Y quizás por dos segundos tuve la impresión que estaba muriendo y fue realmente un muy, muy intenso placer. El clima era maravilloso. Ésto fue a las siete en punto en el verano. El sol estaba descendiendo. El cielo estaba muy maravilloso y azul y así sucesivamente.

Así fue, así de apacible es ahora, uno de mis recuerdos. [Riéndose...].

Hay también el hecho que algunas drogas son realmente importantes para mi, porque ellas son la mediación, para esos increiblemente placeres que estoy buscando y que no soy capaz de experimentar, de proporcionarme, por si mismo. Es verdad que un vaso de vino, un buen vino, añejo y así sucesivamente, puede ser disfrutable, pero ésto no es para mi. Un placer debe ser alguna cosa increiblemente intensa. Pero pienso que no soy el único que quiere ésto.

No soy capaz de darme a mi mismo esos medios registros que halagan cada día la vida. Tales placeres no son para mi y no soy capaz de organizar mi vida para hacerle lugar a ellos. Ésta es la razón por la que no soy un ser social, porque no soy realmente un ser cultural, porque así estaría aburrido en cada día de mi vida. [Riéndose...]. Es aburrido vivir conmigo. [Riéndose...].

STEPHEN RIGGINS:

Frecuentemente cita libros de Roman Rolland, quien es el escritor francés romántico, por decirlo así “visuels” para quien la música fue unicamente un ruído. A pesar que ésta anotación es una obvia exageración, el más reciente análisis tiende a apoyar ésto.

Muchas referencias de pintores se encuentran en algunos de sus libros, pero poco de música. Es usted también representante de ésta característica de la cultura francesa que Rolland ha llamado la atención?

FOUCAULT:

Sí, por supuesto. En realidad la cultura francesa no dio lugar para la música, o casi muy poco lugar. Pero es un hecho que en mi vida personal la música ha jugado un papel bien importante. El primer amigo que tuve cuando tenia veinte años fue músico.

Luego mucho después, tuve otro amigo que fue un compositor y quien está muerto ahora.

Directamente con él, conocí toda la generación de Boulez. Ésto ha sido muy importante para mi experiencia. Primero, porque tuve contacto con el tipo de arte cual fue para mi realmente enigmático. No fui competente en todo en éste campo; no estoy quieto. Pero siento la belleza en algunas cosas que han sido bastante enigmáticas para mi. Existen algunas piezas de Bach y Webern de las cuales disfruto pero lo que es para mi realmente bello es una “phrase musicale, un morceau de musique,” que no pueda entender, de algunas cosas que no pueda decir nada acerca de ello. Tengo la opinión, quizás, ello es demasiado arrogante o presuntuoso, que podría decir algo acerca de algunas o de la mayoría de las maravillosas pinturas en el mundo. Por ésta razón ellas no son absolutamnete bellas.

De todas maneras, he escrito algunas cosas acerca de Boulez. Lo que ha sido para mi la influencia de vivir con un músico por varios meses. Porque ésto fue importante incluso en mi vida intelectual.

STEPHEN RIGGINS:

Si le entiendo correctamente, artistas y escritores respondieron a su trabajo más positivamente en el comienzo, que filosófos, sociólogos, u otros académicos.

FOUCAULT:

Sí, eso es cierto.

STEPHEN RIGGINS:

Hay una especial afinidad en su estilo de filosofar y las artes en general?

FOUCAULT:

Bien, pienso que no estoy en una buena posición para responderle. Usted sabe, odio tener que decir ésto, pero es verdad que no soy un buen académico. Mi trabajo intelectual está relacionado con lo que usted podría llamar esteticismo, que significa transformado por uno mismo. Creo que mi problema es ésta extraña relación entre conocimiento, saber, teoría, y historia real. Se muy bien, y sabia ésto desde el momento cuando era un niño, que el conocimiento no puede hacer nada para transformar el mundo. Quizás estoy equivocado. Y estoy seguro y estoy equivocado desde el punto de vista teórico para saber muy bien que el conocimiento ha transformado el mundo.

Pero si mé refiero a mi propia experiencia personal tengo el sentimiento que el conocimiento no puede hacer nada por nosotros y el poder político puede destruirnos. Todo el conocimiento en el mundo no puede hacer nada contra ésto. Todo ésto está relacionado no para que piense teóricamente –pienso que ésto es un error– pero hablo desde mi personal experiencia. Se que el conocimiento puede transformarnos, que la verdad no es la única vía para descifrar el mundo –y podría ser que a lo que nosotros llamamos verdad no descifre nada– pero ésto si lo se, la verdad podría cambiarnos. O tal vez podríamos morir pero pienso que ésta es la misma vía para mi. [Riéndose...].

Usted sabe, ésto es así porque a mi me gusta trabajar como un condenado y he trabajado como un condenado toda mi vida.

No estoy interasado en el “status” académico que he alcanzado porque mi problema es mi propia transformación. Ésta es también la razón, también el porque, cuando la gente dice, “bien, usted pensó ésto unos pocos años atrás y ahora usted está diciendo otra cosa,” mi respuesta es, [Riéndose...] “bien, usted piensa que he trabajado como todos éstos años para decir el mismo pensamiento y no ser cambiado? Ésta transformación de uno mismo por su propio conocimiento es, pienso, una cosa más bien cerrada para la experiencia estética. Porque podría trabajar un pintor si él no es transformado por su propia pintura?”

STEPHEN RIGGINS:

Además de la dimensión histórica hay un asunto ético comprometido en “La Historia de la Sexualidad?” No está usted diciéndonos de alguna manera como actuar?

FOUCAULT:

No. Si usted quiere decir por ética un código que podría decirnos como actuar, en éste caso naturalmente, “La Historia de la Sexualidad” no es una ética. Pero si por ética usted quiere decir la relación que usted tiene con usted mismo cuando actua, entonces podría decir que es el propósito para ser unas éticas, o al menos para demostrar que podrían ser unas éticas del comportamiento sexual. Ésta podría ser, una que no podría ser dominada por el problema de la profunda verdad o de la realidad de nuestra vida sexual. La relación que pienso que nosotros necesitamos tener con nosotros mismos cuando tenemos sexo, son unas éticas de placer, o de intensificación de placeres.

STEPHEN RIGGINS:

Muchas personas lo ven a usted como alguien que es capaz de decirles la verdad profunda acerca del mundo y acerca de ellos mismos. Como experimentas ésta responsabilidad? Como un intelectual, usted se siente responsable ante ésta función de vidente, de escultor de mentalidades?

FOUCAULT:

Estoy seguro que no soy capaz de darle a ésta gente lo que ellos esperan. [Riéndose...] Nunca me comporte como un profeta. Mis libros no le dicen a la gente que tienen que hacer. Y ellos frecuentemente me reprochan por no ser así –y puede ser que ellos tengan razón– y en el mismo momento me reprochan por comportarme como un profeta. He escrito un libro acerca de la historia de la psiquiatría desde el siglo XVII hasta muy cerca del siglo XIX. En éste libro dije casi nada acerca de la situación contemporánea, pero la gente tiene todavía la lectura de ésto como una posición de la anti-psiquiatría. Una vez fui invitado a Montreal para asistir a un simposio acerca de psiquiatría. Desde el primer momento rechace la invitación para ir allí ya que no soy un psiquiatra, aunque sí he tenido alguna experiencia, una muy pequeña experiencia como lo dije al comienzo‚ pero ellos me aseguraron que me invitaban como historiador de la psiquiatría para hacer un discurso de introducción. Ya que a mi me gusta la ciudad de Quebec, acepte ir. Y fue realmente una trampa, porque fui presentado por el presidente de ésta asociación, como “el” representante en Francia de la Anti-psiquiatría.

Naturalmente, allí estuvo gente muy querida quienes nunca han leído una línea de lo que he escrito y ellos se quedaron convencidos de que era un anti-psiquiátra.

No hice otra cosa que escribir la historia de la psiquiatría de comienzos del siglo XIX. Por qué debería así mucha gente, incluyendo psiquiatras, creer que soy un anti-psiquiatra? Ésto es así porque ellos no son capaces de aceptar la historia real de sus instituciones cuales son, naturalmente, un signo de la psiquiatría que comenzó como una pseudo-ciencia. Una real ciencia es capaz de aceptar hasta lo vergonzoso, sucias historias de sus comienzos. [Riéndose...].

Así usted sabe, ésto es a lo que ellos llaman ser profeta. Pienso que nosotros tenemos que liberarnos de ésto. La gente tiene que construir sus propias éticas, tomando como punto de partida el análisis histórico, el análisis sociologico y así sucesivamente, uno puede proveerles a ellos.

Uno puede tenerlos en cuenta. No creo que la gente que trata de descifrar la verdad pueda tener en cuenta los principios éticos o las advertencias prácticas en el mismo momento, en el mismo libro y en el mismo análisis. Toda ésta red tiene que ser elaborada y transformada por ellos mismos.

STEPHEN RIGGINS:

Para un filósofo que ha sido distinguido en las paginas de la revista “Time,” como ocurrió en noviembre de 1981 es una indicación de cierto tipo de “status” de popularidad. Como se sintió por ésto?

FOUCAULT:

Cuando un periodista me pregunta por información acerca de mi trabajo, considero que tengo que aceptar. Usted sabe, nosotros estamos pagando por ésta sociedad, pagando impuesto [Riéndose...] por trabajar. Y realmente pienso que la mayoría de nosotros tratamos de hacer nuestro trabajo lo mejor que podamos. Pienso que es bastante normal que éste trabajo, en cuanto sea posible, sea presentado y se haga accesible para cualquiera. Por supuesto, una parte de nuestro trabajo no puede ser accesible a cualquiera porque es demasiado difícil. La institución a la cual estoy asociado en Francia –no estoy asociado con la universidad, pero si al Colegio de Francia– obliga a sus socios a hacer lecturas públicas, abrirse a quien necesite asesoría, en las cuales nosotros tenemos que explicar nuestro trabajo.

Nosotros estamos a la vez con investigadores y personas quienes tienen que explicar publicamente nuestros trabajos. Pienso que hay en ésto una muy antigua tradición– datada desde el siglo XVI– con algunas cosas muy interesantes. Lo que ésto significa, pienso que es muy importante.

Cuando un periodista viene y me hace preguntas acerca de mi trabajo, trato de responder de la manera más clara que pueda. De todos modos mi vida personal no es en todo interesante. Si cualquiera piensa que mi trabajo no puede ser entendido sin alguna referencia de tal y tal parte de mi vida, acepto considerar la cuestión. [Riéndose...] Estoy listo a responder si lo acepto.

En lo que a mi vida personal se refiere no es interesante, no vale la pena hacer un secreto de ésto. [Riéndose...] Una prueba de ello, puede ser que no valga la pena publicarse ésto…

[1] Lawrence D. Kritzman, Ed. “Politics, Philosophy, Culture: Interviews and Others Writings, 1977-1984; Michel Foucault.” New York, London, Peutledge, 1988.

El significado del Minimalismo se refiere principalmente a un estilo en la pintura y en la escultura que se extendió ampliamente en los años sesenta en reacción contra el expresionismo abstracto.

Su influencia se sintió en la arquitectura, diseño, danza, teatro y la música. Particularmente en las escuelas modernas de música, “el minimalismo” se caracterizó, por la utilización de sonidos y ritmos simples, y cierto tamborileo, con un muy poco embellecimiento o arreglo orquestal complejo. Se caracterizó por la presencia repetitiva de formas con un obsesivo estructural rigor y a menudo ritmo repetitivo con efecto hinóptico. En consideración , ser Minimalista, es ofrecer no más de lo que es requerido o esencial, y estar en favor de un acercamiento moderado a un conjunto de objetivos mínimos de los cuales las expectativas son mínimas para alcanzar el éxito de un programa. (Nota del Traductor).

[2] Michel Foucault nació en 1927 en Poitiers (Francia), James Miller en un texto publicado en 1993, titulado “The Passion of Michel Foucault” dice que en el momento de su muerte el 25 de junio de 1984 Foucault tenía cincuenta y siete años.

Fue tal vez el más famoso intelectual en el mundo a quien sus libros, ensayos y entrevistas le han sido traducidos en diez y siete idiomas. (Nota del Traductor).

[3] Louis Malle director de cine francés, quien murió el 25 de noviembre de 1995 en los Angeles, California, a la edad de sesenta y tres años, siempre estuvo dispuesto a sorprender con sus obras. “Duende del séptimo arte” daba rienda suelta a su espíritu libre y curioso que al ritmo de sus pasiones le permitió edificar una obra sumamente rica y variada.

En 1977 se autoexilió en Estado Unidos donde rodó Atlanty City con Burt Lancaster, que recibió el León de Oro en el Festival de Venecia.

“Mi Cena con André” y “La Bahía del Odio” ésta última se refiere a los refugiados vietnamitas convertidos en pescadores en Texas. (Nota del Traductor).

 





O FILÓSOFO MASCARADO

21 09 2007

Prof. Selvino José Assmann

MICHEL FOUCAULT (Entrevista – 06/04/1980)

Le Philosophe masqué (entrevista de C. Delacampagne), em ‘Le Monde” n. 10945, de 06 de abril de 1980: “Le Monde-Dimanche”, pp. I e XVII. Em janeiro de 1980, Christian Delacampagne decidiu pedir a Foucault uma longa entrevista para o suplemento dominical de “Le Monde”, dedicado principalmente aos debates culturais. Foucault aceitou imediatamente, mas apresentou uma condição de princípio: a entrevista deveria ficar anônima, o seu nome não deveria aparecer e importava eliminar todos os indícios que teriam permitido identificar a sua pessoa. Foucault justificou esta posição da seguinte maneira: a cena intelectual tornou-se presa da mídia, as “estrelas” prevalecem sobre as idéias, e o pensamento como tal acaba não sendo reconhecido; conseqüência disso é que aquilo que se diz conta menos do que a personalidade de quem fala. E também este tipo de crítica com relação à “midiatização” corre o risco de ser menosprezada, caso for pronunciada por alguém que, sem querê-lo, já ocupa um lugar no sistema da mídia, como era o caso de Foucault. A fim de romper com semelhantes efeitos perversos e para tentar que fosse dita uma palavra que não pudesse ser aniquilada pelo fama do autor, convinha decidir-se a entrar no anonimato. A idéia agradou a Delacampgne. Acordaram que a entrevista fosse feita a um “filósofo mascarado”, isento de uma precisa identidade. Faltava convencer “Le Monde”, que queria uma entrevista com Foucault, a aceitar um texto de “ninguém”. Foi difícil, mas Foucault mostrou-se inflexível.

O segredo foi conservado até a morte de Foucault. Parece que bem poucos conseguiram descobri-lo. Em seguida, “Le Monde” e a editora La Découverte concordaram em juntar em volume esta entrevista com outros textos do mesmo autor. Conforme acontece nestes casos, “Le Monde” decidiu unilateralmente revelar o verdadeiro nome do “filósofo mascarado”. O texto da entrevista cabe integralmente a Foucault, que elaborou inclusive as perguntas, junto com Delacampagne, e reescreveu com muito cuidado cada resposta.

Permita-me, em primeiro lugar, perguntar-lhe porque escolhe o anonimato.

Imagino que você conheça a história daqueles psicólogos que apresentaram breve filme numa localidade no coração da África profunda. Pedem aos espectadores que narrem a história da forma como a entenderam. Pois bem, de um drama com três personagens, só uma coisa os havia interessado: a passagem das sombras e das luzes através das árvores.

Entre nós, os personagens ditam lei à percepção. Os olhos voltam-se preferivelmente para as figuras que vão e vêm, aparecem e desaparecem.

Por que lhe sugeri de usar o anonimato? Por saudades do tempo em que eu era absolutamente desconhecido e, portanto, aquilo que dizia tinha alguma possibilidade de ser entendido. O contato imediato com o eventual leitor não sofria interferências. Os efeitos do livro refletiam-se em lugares imprevistos e desenhavam formas a que nunca havia pensado. O nome constitui uma facilitação.

Gostaria de propor um jogo: o do “ano sem nome”. Por um ano publicar-se-iam apenas livros sem o nome do autor. Os críticos deveriam haver-se com uma produção completamente anônima. Mas penso que, talvez, não teriam nada a dizer: todos os autores esperariam o ano sucessivo para publicarem os seus livros…

Você acredita que, hoje, os intelectuais falam demais? Que nos atrapalham com os seus discursos diante de qualquer mínimo pretexto e, muitas vezes, até mesmo sem pretexto algum?

A morte dos intelectuais parece-me um estranho conceito. Intelectuais, nunca os encontrei. Encontrei pessoas que escrevem romances e pessoas que curam os doentes. Pessoas que estudam economia e pessoas que compõem música eletrônica. Encontrei pessoas que ensinam, pessoas que pintam e pessoas de quem não entendi se faziam alguma coisa. Mas nunca encontrei intelectuais.

Pelo contrário, encontrei muitas pessoas que falam do intelectual. E, por escutá-los tanto, construí para mim uma idéia de que tipo de animal se trata. Não é difícil, é o culpado. Culpado um pouco de tudo: de falar, de silenciar, de não fazer nada, de meter-se em tudo… Em suma, o intelectual é a matéria-prima a julgar, a condenar, a excluir…

Não penso que os intelectuais falem demais, porque para mim não existem. Mas penso que o discurso sobre os intelectuais esteja passando do limite e seja pouco encorajante.

Tenho uma feia mania. Quando as pessoas falam tanto por falar, quando fazem discursos que ficam no ar, procuro imaginar onde levariam as suas palavras se fossem transcritas na realidade. Quando “criticam” alguém, quando “denunciam” as suas idéias, quando “condenam” o que escreve, imagino-os numa situação ideal em que têm pleno poder sobre ele. Reproduzo as suas palavras no primeiro significado: “demolir”, “abater”, “reduzir ao silêncio”, “sepultar”. E vejo abrir-se a radiante cidade em que o intelectual certamente seria prisioneiro e enforcado, com maior razão se fosse um teórico. É verdade, não vivemos em uma região em que os intelectuais são mandados ao diabo; mas, na realidade, diga-me, por acaso ouviu falar de um certo Toni Negri? Por acaso não está na prisão exatamente enquanto intelectual?

Mas, então, o que o levou a entrincheirar-se atrás do anonimato? Um certo uso publicitário que, hoje, certos filósofos fazem ou permitem fazer do seu nome?

Isto não me perturba minimamente. Nos corredores do meu liceu vi grandes homens de gesso. E agora, nas primeiras páginas dos jornais, em baixo, vejo a foto do pensador. Não sei se a estética melhorou. A racionalidade econômica seguramente, sim…

No fundo, impressiona-me profundamente uma carta escrita por Kant, quando já era muito velho: contra a idade, a visão que se reduzi e as idéias que se confundiam, apressava-se, assim narra, em terminar um livro para a feira do livro de Lípsia. Conto este episódio para demonstrar que não tem nenhuma importância. Publicidade ou não, feira ou não, o livro é coisa totalmente diferente. Nunca conseguirão levar-me a crer que um livro seja ruim porque se viu o seu autor à televisão. Mas nem sequer que seja bom só por este motivo.

Se escolhi o anonimato, não é para criticar isso ou aquilo, o que nunca faço. É um jeito de dirigir-me mais diretamente ao eventual leitor, o único personagem que me interessa: “já que não sabes quem sou, não sentirás a tentação de buscar os motivos pelos quais digo o que lês; deixa-te andar, diz simplesmente: é verdadeiro, é falso, gosto, não gosto. Isto basta”.

Mas o público não espera que a crítica forneça juízos precisos sobre o valor de uma obra?

Não sei se o público espera que o crítico julgue as obras ou os autores. Mas creio que os juízes já estavam aí antes que o público pudesse dizer o que queria.

Parece que Courbet tinha um amigo que se acordava à noite urlando: “julgar, quero julgar”. É incrível quanto as pessoas gostam de julgar. Julga-se em todo lugar, continuamente. Provavelmente, para a humanidade, é uma das coisas mais simples a fazer. Mas você sabe que o último homem, quando a última radiação houver reduzido o último adversário a cinzas, tomará uma mesa mal ajeitada, se sentará e começará o processo contra o responsável.

Não posso deixar de pensar em uma crítica que não procure criticar, mas fazer existir uma obra, uma frase, uma idéia; acenderia fogos, olharia a grama crescer, escutaria o vento e imediatamente tomaria a espuma do mar para a dispersar. Reproduziria, ao invés de juízos, sinais de vida; invocá-los-ia, arrancá-los-ia do seu sono. Quem sabe os inventaria? Tanto melhor, tanto melhor. A crítica sentenciosa faz-me adormentar; gostaria de uma crítica feita com centelhas de imaginação. Não seria soberana, nem vestida de vermelho. Traria consigo os raios de possíveis tempestades.

Há, porém, tantas coisas a conhecer, tantos trabalhos interessantes, que a mídia deveria falar todo o tempo de filosofia?

Certamente, entre a “crítica” e aqueles que escrevem livros existe um mal-estar de longa data. Uns não se sentem entendidos e outros acreditam que se queira fazer pressão sobre eles. Mas o jogo é este.

Parece-me que hoje a situação seja bastante particular. Temos instituições pobres, enquanto nos encontramos em situação de super-abundância.

Todos deram-se conta da exaltação que freqüentemente acompanha a publicação ( ou a reedição) de obras, que, aliás, às vezes são interessantes. Trata-se, sempre, de nada menos que a “subversão de todos os códigos”, do “antagonista da cultura contemporânea”, da “discussão radical de todo o nosso modo de pensar”. O seu autor deve ser um marginal incompreendido.

Em compensação, não há dúvida de que os outros devam ser remetidos à obscuridade da qual nunca deveriam ter saído; não eram senão a espuma de “uma moda irrelevante”, um simples produto institucional, etc.

Diz-se que se trata de um fenômeno parisiense e superficial. Contudo, eu percebo aí os efeitos de uma inquietação profunda. O sentimento do “nenhum lugar vazio”, “ou ele ou eu”, “um por vez”. Está-se em fila indiana, por causa da extrema exigüidade de lugares em que se pode escutar e fazer-se ouvir.

Resulta daí uma espécie de angústia que irrompe em mil sintomas, mais ou menos curiosos. A partir disso, naqueles que escrevem, o sentimento da sua impotência diante da mídia, que é acusada de dominar o mundo dos livros e de dar existência ou de fazer desaparecer aqueles que agradam ou desagradam. A partir disso, nos críticos, o sentimento de conseguir fazer-se ouvir, a não ser que se levante o tom e se tire da cartola um coelho por semana. A partir disso, a pseudo-politização que mascara, sob a alegação da necessidade de mover uma “batalha ideológica” ou de acabar com os “pensamentos perigosos”, a ânsia profunda de não ser lidos nem ouvidos. A partir disso, também a fobia fantástica do poder: cada pessoa que escreve exerce um poder inquietante a que se precisa pôr, se não um fim, pelo menos limites. A partir disso também a afirmação um pouco encantadora segundo a qual, atualmente, tudo é vazio, desolado, sem interesse e importância: afirmação que, evidentemente, provém daqueles que, não fazendo nada, pensam que os outros são supérfluos.

Mas não acredita que a nossa época é realmente sem espíritos à altura dos seus problemas e de grandes escritores?

Não, não acredito no refrão da decadência, da ausência de escritores, da esterilidade do pensamento, do horizonte negro e tétrico.

Creio, pelo contrário, que há uma abundância excessiva. E que não sofremos por causa do vazio, mas porque os meios para pensar em tudo o que acontece sejam demasiado poucos. Há muitíssimas coisas a conhecer: fundamentais, terríveis, maravilhosas ou estranhas, ao mesmo tempo minúsculas e capitais. Além disso, há uma curiosidade imensa, uma necessidade, um desejo de conhecer. Sempre lamentamos que a mídia embote a cabeça das pessoas. Nesta idéia há alguma misantropia. Acredito, pelo contrário, que as pessoas reagem: quanto mais se procura convencê-las, mais se interrogam. O espírito não é uma cera mole. É uma substância reativa. E o desejo de saber mais, melhor e diversamente, cresce à medida que se procura encher as cabeças.

Se isso for verdade e se acrescentarmos a isso que, na universidade e em outros lugares, se estão formando grandes quantidades de pessoas que podem servir de intermediários entre a massa de coisas e a avidez de saber, pode-se bem rapidamente deduzir que a desocupação dos estudantes é a coisa mais absurda que há. O problema consiste em multiplicar os canais, as passarelas, os meios de informação, as redes televisivas e as radiofônicas, os jornais.

A curiosidade foi um vício estigmatizado sucessivamente pelo Cristianismo, pela filosofia e até por uma certa concepção da ciência. Curiosidade, futilidade. Mesmo assim, a palavra me agrada. Sugere-me algo bem diferente: evoca a “cuidado”, a atenção que se presta ao que existe ou poderia existir; um sentido agudo do real, que, porém, nunca se imobiliza diante disso; uma prontidão em julgar estranho e singular aquilo que nos circunda; uma certa obstinação em desfazer-se do que é familiar e em olhar as mesmas coisas de forma diferente; um ardor em colher o que acontece e aquilo que passa; uma desenvoltura com relação às hierarquias tradicionais entre o que é importante e o que é essencial.

Sonho com uma nova idade da curiosidade. Os meios técnicos existem; o desejo existe; as coisas a conhecer são infinitas; as pessoas que podem empenhar-se nesta tarefa existem. De que então sofremos? De escassez: canais estreitos, exígüos, quase monopolistas, insuficientes. Não se trata de adotar atitude protecionista para impedir que uma “má” informação invada e sufoque a “boa”. Importa, pelo contrário, multiplicar os trajetos e as possibilidades de ir e vir. Nenhum colbertismo neste campo. O que não significa, como frequentemente se teme, uniformização e nivelamento por baixo. Significa, sim, diferenciação e simultaneidade de redes diferentes.

Imagino que, neste plano, a mídia e as universidades poderiam ter funções complementares, ao invés de continuarem a opor-se.

Você lembra a admirável frase de Sylvain Lévy: o ensino comporta um ouvinte; basta haver dois que se torna vulgarização. Também os livros, a universidade, as revistas cultas são mídia. Dever-se-ia evitar de chamar mídia os canais de informação aos quais não se pode ou não se quer ter acesso. Importa entender como fazer que as diferenças ajam; saber se devemos instaurar uma zona reservada, um “parque cultural” para as frágeis espécies dos cultos, ameaçados pelas grandes aves de rapina da informação, enquanto todo o resto do espaço seria um vasto mercado de bugigangas. Não me parece que semelhante repartição corresponda à realidade. Pior: não me parece de fato desejável. Para fazer que as diferenças úteis ajam não deve haver repartição alguma.

Procuremos fazer uma proposta concreta. Se tudo vai mal, onde se pode começar?

Não, não vai tudo mal. Em todo caso, creio que não se deve confundir a crítica construtiva contra as coisas com as jeremiadas repetitivas contra as pessoas. Com relação a propostas concretas, elas aparecem como “gadgets”, se antes não forem precisados alguns princípios gerais. Este, em primeiro lugar: o direito ao saber não deve ser reservado nem a uma idade da vida, nem a certas categorias de indivíduos; se deve poder exercitá-lo ininterruptamente e de formas múltiplas.

Mas esta vontade de saber não é ambígua? Afinal, o que as pessoas farão com todo este saber que está adquirindo? A que pode servir?

Uma das funções principais do ensino consistia nisto: a formação do indivíduo caminhava no mesmo passo da determinação do seu lugar na sociedade. Hoje precisaríamos conceber o ensino de modo tal que permitisse ao indivíduo de se modificar a seu prazer; e isso é possível apenas sob a condição de que o ensino seja uma possibilidade oferecida “permanentemente”.

Em suma, você é a favor de uma sociedade culta?

Digo que a vinculação com a cultura deve ser contínua e a mais polimorfa possível. Não deveria haver, por um lado, uma formação que se sofre e, por outro, uma informação a que se é submetido.

O que acontecerá, em uma sociedade culta, com a filosofia eterna?… Ainda temos necessidade dela, das suas interrogações sem resposta e dos seus silêncios diante do incognoscível?

O que é a filosofia senão um modo de refletir, não tanto sobre aquilo que é verdadeiro e aquilo que é falso, mas sobre a nossa relação com a verdade? Às vezes a gente se lamenta por não existir na França uma filosofia dominante. Muito melhor. Não há nenhuma filosofia soberana, é verdade, mas há uma filosofia ou, melhor, há filosofia em atividade. A filosofia é o movimento pelo qual nos libertamos – com esforços, hesitações, sonhos e ilusões – daquilo que passa por verdadeiro, a fim de buscar outras regras do jogo. A filosofia é o deslocamento e a transformação das molduras de pensamento, a modificação dos valores estabelecidos, e todo o trabalho que se faz para pensar diversamente, para fazer diversamente, para tornar-se outro do que se é. Sob este ponto de vista, os últimos trinta anos foram período de intensa atividade filosófica. A interferência entre a análise, a pesquisa, a crítica “culta” ou “teórica” e as mudanças no comportamento, a conduta real das pessoas, a sua maneira de ser, a sua relação consigo mesmas e com os outros, foi constante e considerável.

Há pouco dizia que a filosofia é um modo de refletir sobre a nossa relação com a verdade. É preciso acrescentar: é um modo de perguntar-se: se esta é a relação que temos com a verdade, como devemos comportar-nos? Creio que tenha sido feito e que se esteja continuando a fazer um trabalho considerável e múltiplo, que modifica, contemporaneamente, o nosso vínculo com a verdade e a nossa maneira de nos comportarmos. E isso em ligação complexa entre uma série de pesquisas e um conjunto de movimentos sociais. É a própria vida da filosofia.

É compreensível que alguns lastimem o vazio atual e busquem, na ordem das idéias, um pouco de monarquia. Mas aqueles que, pelo menos uma vez na própria vida, provaram um tom novo, uma nova maneira de olhar, um outro modo de fazer, aqueles, creio, nunca sentirão a necessidade de se lamentar porque o mundo é um erro, a história está farta de inexistências; é tempo para que os outros fiquem calados, permitindo assim que não se ouça mais o som da reprovação por parte deles…

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FOUCAULT, Michel. Archivio Foucault. Vol. 3. Estetica dell’esistenza, etica, politica. A cura di Alessandro Pandolfi. Milano, Feltrinelli, 1994, pp. 137-144. Tradução portuguesa de Selvino José Assmann. Fpolis, setembro de 2000.





Além das fronteiras da filosofia

19 09 2007

  “Foucault passe-frontières de la philosophie”. Le Monde, 6 sept. 1986. Entrevista conduzida por Roger-Pol Droit em 20 de Junho de 1975. Tradução de Wanderson Flor do Nascimento.

 

– Que lugar, que status têm os textos literários em sua investigação?

– Na História da Loucura e em As palavras e as coisas simplesmente me referi a eles, os mencionei de passagem, como o andarilho que diz: “Bem… ao ver isto não podemos senão falar de Le Neveu de Rameau”. Mas não conferi a eles nenhum papel na organização de fato do processo.

Para mim, a literatura era algo a ser observado e não analisado ou reduzido ou integrado ao campo da análise. Era um descanso, um pensamento a caminho, uma marca, uma bandeira.

Não desejava que estes textos expressassem ou refletissem os processos históricos?

Não… É preciso abordar à questão a partir de um outro nível.

Ninguém analisou realmente como, da massa de idéias expressas, da totalidade do discurso real, a apenas alguns destes discursos (filosóficos, literários) são conferidas uma sacralização e uma função particular.

Pareceria que tradicionalmente os discursos literários ou filosóficos poderiam funcionar como substitutos ou como um invólucro geral de todos os outros discursos. A literatura deveria representar o restante. Escreveu-se a história do que se dizia no séx. XVIII, passando por Fontenelle ou Voltaire, ou Diderot ou La Nouvelle Heloïse, etc. Estes discursos eram considerados como a expressão de algo que, definitivamente, não podia ser formulado em um nível mais cotidiano.

A respeito disto, passei da proposição esperada (mencionando a literatura quando fosse oportuno, sem indicar suas relações com o restante) à francamente negativa, tratando de destacar como positivos todos os discursos literários ou paralelos que se produziam efetivamente, em uma certa etapa, excluindo à própria literatura. Em Vigiar e Punir me refiro somente à literatura.

Como se pode distinguir entre a boa e a má literatura?

– Essa é a pergunta com a qual devemos nos confrontar algum dia. Por um lado, teremos de perguntar o que, exatamente, representa esta atividade que consiste em difundir ficção, poesia, contos… em uma sociedade. Também devemos analisar um segundo fato: dentre todas as narrativas, por que algumas delas são sacralizadas, postas a funcionar como “literatura”? São imediatamente assimiladas por uma instituição, que originariamente era bastante diferente: a instituição universitária. Agora está começando a ser identificada com a instituição literária.

– Há uma curva muito visível em nossa cultura. No séc. XIX, a universidade era o âmbito no qual se constituía a chamada literatura clássica e era valorizada como a única base da literatura contemporânea e como crítica desta mesma literatura. A partir daqui, se produz uma curiosa ação recíproca no séc. XIX, entre a literatura e a universidade, entre  o professor e o escritor.

Então, pouco a pouco, as duas instituições que, apesar de suas discórdias estavam profundamente vinculadas, tenderam a fundir-se completamente. Sabemos perfeitamente bem que hoje a literatura de vanguarda é lida somente pelos professores universitários e seus alunos. Sabemos muito bem que hoje um professor com mais de trinta anos está rodeado de alunos que estão escrevendo teses sobre seu trabalho. Sabemos que os escritores vivem, principalmente, de ensinar e dar conferências.

Devido a isso, chegamos pelo menos à verdade sobre algo: o fato de que a literatura funciona como tal através da interação, da seleção, da sacralização e da convalidação institucional, da qual a universidade é tanto promotora quanto receptora.

Existe alguma característica dentro do texto, ou é apenas uma questão de sacralização pela instituição universitária?

Não sei. Simplesmente queria dizer que para romper com muitos mitos, incluindo o do caráter expressivo da literatura, foi muito importante formular o grande princípio de que a literatura só se ocupa de si mesma. Quando se ocupa do autor, o faz simplesmente a partir de sua morte, silêncio ou distanciamento do escritor.

Não interessa aqui tratar-se de Blanchot ou Barthes. O ponto central é a importância do princípio: a intransitividade da literatura. Este era, de fato, o primeiro passo pelo qual podíamos nos libertar da idéia de que a literatura era o receptáculo de qualquer tipo de tráfico, ou o ponto no qual todo o tráfico se deteria ou a expressão das totalidades.

Mas parece-me que esta é só uma etapa, já que, mantendo a análise neste nível, não só se corre o risco de não descobrir a totalidade das sacralizações das quais a literatura tem sido objeto, mas também se corre o risco de sacralizá-la ainda mais. E isto é o que, de fato, tem acontecido até 1970. Veremos como vários temas originados em Blanchot ou Barthes foram usados como exaltações ultralíricas e ultra-racionalistas da literatura, como estruturas lingüísticas capazes de ser analisadas em si mesma e segundo seus próprios termos.

As derivações políticas estavam ausentes desta exaltação. Até se chegou a dizer que a literatura por si mesma estava tão emancipada de toda determinação que o ato mesmo de escrever era, por si, subversivo; que o escritor, apenas pelo fato de escrever, tinha o direito inalienável de subverter! O escritor era, portanto, um revolucionário, e quanto mais escritura era a escritura, tanto mais se afundava na intransitividade, mais alentava, por esse fato apenas, o movimento revolucionário! Como se sabe, infelizmente se diziam essas coisas…

De fato, o enfoque de Blanchot e Barthes tendia à dessacralização da literatura, rompendo os laços que a colocavam na posição de expressão absoluta. Esta ruptura implicava que o seguinte movimento seria a dessacralização absoluta, tratando de determinar como, na massa global do que se dizia, era possível que essa região particular da linguagem se constituíra, em um momento dado e de uma maneira particular. Não se deve pretender que a literatura tome as decisões de uma cultura, mas, pelo contrário, se deve analisar por que uma cultura decidiu dar-lhe esta posição tão especial e paradoxal.

Por que paradoxal?

Nossa cultura confere à literatura um lugar que em certo sentido é extraordinariamente limitado: quantas pessoas lêem literatura? Que lugar tem realmente no desenvolvimento geral dos discursos?

Porém, esta mesma cultura obriga a suas crianças, na medida que se aproximam da cultura, a passar por toda uma ideologia da literatura durante seus estudos. Há uma espécie de paradoxo nisso; o qual se relaciona com a declaração de que a literatura é subversiva. O fato de que alguém afirme que é assim, nesta ou naquela crítica literária, não tem importância, não tem consequências. Mas se ao mesmo tempo, toda a profissão docente, desde a escola primária até os chefes de departamentos universitários diz – explicitamente ou não – que para encontrar as grandes decisões da cultura, os pontos de flexão, se deve apelar para Diderot ou Sade, Hegel ou Rabelais, pois se as  encontraria ali. Neste nível se dá um efeito de  mútua colaboração. Os chamados grupos de vanguarda e a grande quantidade de professores universitários estão de acordo. Isto levou a um sério bloqueio político.

Como você tem escapado a este bloqueio?

– Meu modo de abordar o problema foi evidenciado, primeiro, no meu livro sobre Raymond Roussel e depois no livro sobre Pierre Rivière. Em ambos se coloca a mesma questão: “qual é o limite além do qual um discurso (quer seja o do doente, do criminoso, etc.) começa a funcionar no campo conhecido como literatura?

Para compreender o que é a literatura, você não quis estudar as estruturas literárias internas. Você preferiria apreender o movimento, o frágil processo pelo qual um discurso não literário, subestimado, esquecido, tão logo como se produz, ingressa no campo literário. O que acontece? Que mecanismo se desencadeia? De que modo se modifica a intenção original deste discurso, pelo fato de que é reconhecido como literário?

– Contudo, dedicou-se textos a trabalhos literários sobre os quais não se faz essa pergunta. Refiro-me em particular aos artigos publicados em Critique sobre Blanchot, Klossowski e Bataille. Se fossem reunidos em um único volume, ofereceriam uma imagem sobre este itinerário muito diferente do que estamos acostumados.

– Sim, mas… seria bastante difícil falar sobre eles. Realmente Blanchot, Klossowski e Bataille – que foram finalmente os três autores que me interessaram particularmente nos anos sessenta – eram para mim muito mais que trabalhos literários dentro da literatura. Eram discursos fora da filosofia.

E o que isso significa?

Tomemos a Nietzsche, se você quer. Em relação ao discurso filosófico acadêmico, que constantemente o fez voltar para si mesmo, Nietzsche representa os limites exterior. Certamente, em Nietzsche se pode encontrar toda uma linha de pensamento ocidental. Platão, Spinoza, os filósofos do séc. XVIII, Hegel… tudo passa através de Nietzsche. E, contudo, em relação à filosofia, tem toda a aspereza, a rusticidade do forasteiro, do camponês das montanhas, que lhe permite, dando de ombros, e sem parecer nada ridículo, dizer, com uma firmeza que não pode ser ignorada: “Ora vamos… tudo isso é lixo…”

Liberar-se a si mesmo da filosofia implica necessariamente uma similar falta de consideração. Não se pode sair dela fincando-se dentro dela, refinando-a tanto quanto possível, dando voltas ao redor dela com o próprio discurso. Não. Consegue-se isso, opondo-se a ela, com uma espécie de espanto e alegria, uma espécie de incompreensível crise de riso que no final se torna entendimento, ou que em todo caso, destrói. Sim, destrói antes de levar ao entendimento.

Somente na medida em que eu era, sobretudo, um acadêmico, um professor de filosofia, perturbava-me o que ficava do discurso filosófico tradicional no trabalho que eu realizei sobre a loucura. Há um certo hegelianismo que sobrevive ali. Não é necessariamente suficiente para escapar da filosofia tratar com fatos tão baixos como informes policiais, medidas para o confinamento, gritos de loucos. Para mim, Nietzsche, Blanchot, Klossowski eram meios para escapar da filosofia.

Na violência de Bataille, na doçura agitada, insidiosa de Blanchot, nas espirais de Klossowski, havia algo que, enquanto se afastava da filosofia, colocava-a em jogo, emergia dela, para logo regressar… Ago da teoria da respiração de Klossowski está ligado, por não sei quantas fibras, a toda a filosofia ocidental. E por toda a apresentação, formulação, o modo que funciona em Le Baphometh, emerge completamente dela. 

Estas entradas e saídas através da parede mesma da filosofia, ironicamente, fizeram permeáveis as fronteiras entre o filosófico e o não filosófico.





Da amizade como modo de vida

19 09 2007

De l’amitié comme mode de vie. Entrevista de Michel Foucault a R. de Ceccaty, J. Danet e J. le Bitoux, publicada no jornal Gai Pied, nº 25, abril de 1981, pp. 38-39. Tradução de wanderson flor do nascimento.

 

 

– Você tem cinquenta anos. É um leitor deste jornal que existe há dois anos. O conjunto destes discursos te parece algo de positivo?

Que o jornal exista, é algo de positivo e importante. Ao seu jornal, o que eu pediria era que, lendo, eu não tivesse que colocar a questão da minha idade. Ora, a leitura me força a colocá-la. E eu não fiquei muito contente com a maneira que fui levado a fazê-lo. Muito simplesmente, eu não teria lugar ali.

- Quem sabe o problema seja da faixa etária dos que colaboram e dos que lêem: uma maioria entre 25 e 35 anos.

É claro. Quanto mais escrito por pessoas jovens, mais concerne às pessoas jovens. Mas o problema não é ceder lugar a uma faixa etária de um lado a outro, mas saber o que se pode fazer em relação à quase identificação da homossexualidade com o amor entre jovens.

Outra coisa da qual é preciso desconfiar é a tendência de levar a questão da homossexualidade para o problema “Quem sou eu? Qual o segredo do meu desejo?” Quem sabe, seria melhor perguntar: “Quais relações podem ser estabelecidas, inventadas, multiplicadas, moduladas através da homossexualidade?” O problema não é descobrir em si a verdade sobre seu sexo, mas, para além disso, usar de sua sexualidade para chegar a uma multiplicidade de relações. E isso, sem dúvida é a razão pela qual a homossexualidade não é uma forma de desejo, mas algo de desejável. Temos que nos esforçar em nos tornar homossexuais e não nos obstinarmos em reconhecer que o somos. Isso para onde caminha os desenvolvimentos do problema da homossexualidade é o problema da amizade.

- Você pensou isso aos 20 anos ou descobriu no decorrer dos anos?

Tão longe quanto me recordo, desejar rapazes é desejar relações com rapazes. E isso foi sempre, para mim, algo importante. Não forçosamente sob a forma do casal, mas como uma questão de existência: Como é possível para homens estarem juntos? Viver juntos, compartilhar seus tempos, suas refeições, seus quartos, seus lazeres, suas aflições, seu saber, suas confidências? O que é isso de estar entre homens “nus”, fora das relações institucionais, de família, de profissão, de companheirismo obrigatório? É um desejo, uma inquietação, um desejo-inquietação que existe em muitas pessoas.

- Pode-se dizer que a relação com o desejo, com o prazer e a relação que alguém pode ter, seja dependente de sua idade?

Sim, muito profundamente. Entre um homem e uma mulher mais jovem, a instituição facilita as diferenças de idade, as aceita e as faz funcionar. Dois homens de idades notavelmente diferentes, que código têm para se comunicar? Estão um em frente ao outro sem armas, sem palavras convencionais, sem nada que os tranquilize sobre o sentido do movimento que os leva um para o outro. Terão que inventar de A a Z uma relação ainda sem forma que é a amizade: isto é, a soma de todas as coisas por meio das quais um e outro podem se dar prazer.

É uma das concessões que se fazem aos outros de apenas apresentar a homossexualidade sob a forma de um prazer imediato, de dois jovens que se encontram na rua, se seduzam por um olhar, que põem a mão na bunda um do outro, e se lançando ao ar por um quarto de hora. Esta é uma imagem comum da homossexualidade que perde toda a sua virtualidade inquietante por duas razões: ela responde a um cânone tranqüilizador da beleza e anula o que pode vir a inquietar no afeto, carinho, amizade, fidelidade, coleguismo, companheirismo, aos quais uma sociedade um pouco destrutiva não pode ceder espaço sem temer que se formem alianças, que se tracem linhas de força imprevistas. Penso que é isto o que torna “perturbadora” a homossexualidade: o modo de vida homossexual muito mais que o ato sexual mesmo. Imaginar um ato sexual que não esteja conforme a lei ou a natureza, não é isso que inquieta as pessoas. Mas que indivíduos comecem a se amar, e ai está o problema. A instituição é sacudida, intensidades afetivas a atravessam, ao mesmo tempo, a dominam e perturbam. Olhe o exército: ali o amor entre homens é, incessantemente convocado e honrado. Os códigos institucionais não podem validar estas relações das intensidades múltiplas, das cores variáveis, dos movimentos imperceptíveis, das formas que se modificam. Estas relações instauram um curto-circuito e introduzem o amor onde deveria haver a lei, a regra ou o hábito.

- Você diz a todo momento: “mais que chorar por prazeres esfacelados, me interessa o que podemos fazer de nós mesmos”. Poderia explicar melhor?

O ascetismo como renúncia ao prazer tem má reputação. Porém a ascese é outra coisa. É o trabalho que se faz sobre si mesmo para transformar-se ou para fazer aparecer esse si que, felizmente, não se alcança jamais. Não seria este o nosso problema hoje? Nós colocamos o ascetismo em férias. Temos que avançar sobre uma ascese homossexual que nos faria trabalhar sobre nós mesmos e inventar – não digo descobrir – uma maneira de ser, ainda improvável.

- Isso quer dizer que um jovem homossexual deveria ser muito prudente em relação à imagem homossexual e trabalhar sobre outra coisa?

Isso em que devemos trabalhar, me parece, não é tanto em liberar nossos desejos, mas em tornar a nós mesmos infinitamente mais suscetíveis a prazeres. É preciso, e é preciso fazer escapar às duas fórmulas completamente feitas sobre o puro encontro sexual e sobre a fusão amorosa das identidades.

- Pode-se ver premissas de construções relacionais fortes nos EUA, sobretudo, nas cidades onde o problema da miséria sexual parece resolvido?

O que me parece certo é que nos EUA, mesmo se o fundo da miséria sexual ainda exista, o interesse pela amizade está se tornando muito importante. Não se entra simplesmente na relação para poder chegar à consumação sexual, o que se faz muito facilmente; mas aquilo para o que as pessoas são polarizadas é a amizade. Como chegar, por meio das práticas sexuais, a um sistema relacional? É possível criar um modo de vida homossexual?

Esta noção de modo de vida me parece importante. Não seria preciso introduzir uma diversificação outra que não aquela devida às classes sociais, diferenças de profissão, de níveis culturais, uma diversificação que seria também uma forma de relação e que seria “o modo de vida”? Um modo de vida pode ser partilhado por indivíduos de idade, estatuto e atividade sociais diferentes. Pode dar lugar a relações intensas que não se parecem com nenhuma daquelas que são institucionalizadas e me parece que um modo de vida pode dar lugar a uma cultura e a uma ética. Ser gay é, creio, não se identificar aos traços psicológicos e às máscaras visíveis do homossexual, mas buscar definir e desenvolver um modo de vida.

- Não é uma mitologia dizer: “Aí estão, talvez, as premissas de uma socialização entre os seres, que é inter-classes, inter-idades, inter-nacionais?”

Sim, um grande mito como dizer: não haverá mais diferenças entre a homossexualidade e a heterossexualidade. Por outro lado, penso que é uma das razões pelas quais a homossexualidade se torna um problema atualmente. Acontece que a afirmação de que ser homossexual é ser um homem e que este se ama, esta busca de um modo de vida vai ao encontro desta ideologia dos movimentos de liberação sexual dos anos sessenta. Nesse sentido os “clones” bigodudos têm uma significação. É um modo de responder: “Não receiem nada, quanto mais se seja liberado, menos se amará as mulheres, menos se fundirá nesta polissexualidade onde não há mais diferença entre uns e outros.” E não se trata, de modo algum, da idéia de uma grande fusão comunitária.

A homossexualidade é uma ocasião histórica de reabrir virtualidades relacionais e afetivas, não tanto pelas qualidades intrínsecas do homossexual, mas pela posição de “enviesado”, em qualquer forma, as linhas diagonais que se podem traçar no tecido social, as quais permitem fazer aparecer essas virtualidades.

- As mulheres poderiam objetar: “O que é que os homens ganham entre eles e ganham em relação às relações possíveis entre um homem e uma mulher ou entre duas mulheres?”

Há um livro que apareceu nos EUA sobre a amizade entre as mulheres (Faderman, L. Surpassing the Love of Men. New York: William Marrow, 1980). É muito bem documentado a partir de testemunhos de relações de afeição e paixão entre mulheres. No prefácio, a autora diz que ela havia partido da idéia de detectar as relações homossexuais e se deu por conta de que essas relações não somente não estavam sempre presentes, mas que não era interessante saber se se poderia chamar a isso de homossexualidade ou não. E que, deixando a relação desdobrar-se tal como ela aparece nas palavras e nos gestos, apareceriam outras coisas bastante essenciais: amores, afetos densos, maravilhosos, ensolarados ou mesmo, muito tristes, muito negros. Este livro mostra também em que ponto o corpo da mulher desempenhou um grande papel e os contatos entre os corpos femininos: uma mulher penteia outra mulher, ela se deixa maquiar e vestir. As mulheres teriam direito ao corpo de outras mulheres, segurar pela cintura, abraçar-se. O corpo do homem estava proibido ao homem de maneira mais drástica. Se é verdade que a vida entre mulheres era tolerada, é somente em certos períodos e a partir do séc. XIX que a vida entre homens foi, não somente tolerada, mas rigorosamente obrigatória: simplesmente durante as guerras.

Igualmente nos campos de prisioneiros. Havia soldados, jovens oficiais que passaram meses, anos juntos. Durante a guerra de 14, os homens viviam completamente juntos, uns sobre aos outros, e, para eles isso não era nada, na medida em que a morte estava ali; e de onde finalmente a devoção de um ao outro, o serviço feito era sancionado por um jogo de vida e morte. Fora algumas frases sobre o coleguismo, sobre a fraternidade da alma, de alguns testemunhos muito parciais, o que se sabe sobre furacões afetivos, sobre essas tempestades do coração que puderam haver ali nesses momentos? E alguém pode perguntar o faz que nessas guerras absurdas, grotescas, nesses massacres infernais, que as pessoas, apesar de tudo, tenham se sustentado? Sem dúvida, um tecido afetivo. Não quero dizer que era porque eles estavam amando uns aos outros que continuavam combatendo. Mas a honra, a coragem, a dignidade, o sacrifício, sair da trincheira com o companheiro, diante do companheiro, isso implicava uma trama afetiva muito intensa. Isto não quer dizer: “Ah, está ai a homossexualidade!” Detesto este tipo de raciocínio. Mas sem dúvida se tem ai uma das condições, não a única, que permitiu suportar essa vida infernal em que as pessoas, durante semanas, rolassem no barro, entre os cadáveres, a merda, se arrebentassem de fome; e estivessem bêbadas na manhã do ataque.

Eu queria dizer, enfim, que qualquer coisa refletida e voluntária, como uma publicação, deveria tornar possível uma cultura homossexual, isto é, possibilitar os instrumentos para relações polimorfas, variáveis, individualmente moduladas. Mas a idéia de um programa e de proposições é perigosa. Desde que um programa se apresenta, ele faz lei, é uma proibição de inventar. Deveria haver uma inventividade própria de uma situação como a nossa e que estas vontades disso que os americanos chamam de comming out, isto é, de se manifestar. O programa deve ser vazio. É preciso cavar para mostrar como as coisas foram historicamente contingentes, por tal ou qual razão inteligíveis, mas não necessárias. É preciso fazer aparecer o inteligível sob o fundo da vacuidade e negar uma necessidade; e pensar o que existe está longe de preencher todos os espaços possíveis. Fazer um verdadeiro desafio inevitável da questão: o que se pode jogar e como inventar um jogo?

- Obrigado, Michel Foucault.





Então é importante pensar?

19 09 2007

“Est-il donc important de penser?” Entrevista com Didier Eribon. Libération, n° 15, 30-31 maio de 1981, p. 21. Traduzido a partir de FOUCAULT, Michel. Dits et Écrits. Paris: Gallimard, 1994, vol. IV, pp. 178-182, por Wanderson Flor do Nascimento. 


   
- A noite das eleições[1]; questionado sobre suas primeiras reações, você não quis responder. Mas hoje você se sente mais à vontade para falar…
- Com efeito, eu considero que votar é em si uma maneira de agir. Depois que se está no governo, de agir a sua volta. Agora é chegado o tempo de reagir a isso que começa a ser feito.
De todo modo, é preciso considerar que as pessoas são maduras o bastante para se decidir sozinhas no momento do voto e para se alegrar depois se for preciso. Parece-me, aliás, que elas estão bem esclarecidas.
- Então quais são suas reações hoje?
- Três coisas me surpreendem. Depois de uns vinte anos, uma série de questões foi colocada pela sociedade mesma. E essas questões durante muito tempo não foram admitidas na política “séria” e institucional.
Os socialistas parecem ter sido os únicos a perceber a realidade dos problemas, a fazer eco – o que, sem dúvida, não foi estranho à sua vitória.
Em segundo lugar, em relação a esses problemas (penso sobretudo na justiça ou na questão dos imigrantes), as primeiras medidas ou as primeiras declarações estão absolutamente conforme a isso que poderia chamar de uma “lógica da esquerda”, pela qual Mitterrand foi eleito.
Em terceiro lugar, o que é mais notável, as medidas não vão no sentido da opinião majoritária. Nem sobre a pena de morte, nem sobre a questão dos imigrantes, as escolhas não seguiram a opinião mais corrente.
Veja que maluquice que se pôde dizer sobre a inanição de todas essas questões colocadas no curso desses últimos dez ou quinze anos; isso que se pôde dizer sobre a inexistência de uma lógica de esquerda na maneira de governar; isso que se pôde dizer sobre as facilidades demagógicas das primeiras medidas que seriam tomadas. Sobre o mais importante, os imigrantes, a justiça, o governo tem ancorado suas decisões nos problemas realmente colocados, ao se referir a uma lógica que não vai no sentido da opinião majoritária. E eu estou certo de que a maioria aprova esta maneira de fazer, quando não as medidas mesmas. Não digo, ao dizer isso, que está tudo feito e já se pode ir descansar. Essas primeiras medidas não são uma lei, mas elas são, entretanto, mais que gestos simbólicos.
Compare com isso que Giscard fez no dia seguinte de sua eleição: um aperto de mão nos prisioneiros. Era um gesto puramente simbólico endereçado a um eleitorado que não era o seu. Hoje, se tem um primeiro conjunto de medidas efetivas que pode ser tomado na contramão de uma parte do eleitorado, mas assinalando um estilo de governo.
    - É, com efeito, toda uma outra maneira de governar que parece tomar lugar.
- Sim, é um ponto importante e que pôde aparecer desde a vitória de Mitterrand. Parece-me que esta eleição foi experimentada como uma forma de acontecimento-vitória, isto é, uma modificação entre governantes e governados. Não que os governados tenham tomado o lugar dos governantes. Apesar de tudo, agiu um deslocamento na classe política. Entra-se em um governo partidário com os perigos que isso comporta, e isso não se pode esquecer nunca.
Mas o que está em jogo a partir desta modificação é saber se é possível estabelecer entre governantes e governados uma relação que não será uma relação de obediência, mas uma relação na qual o trabalho terá um papel importante.
- Você quer dizer que vai ser possível trabalhar com esse governo?
- É preciso sair do dilema: ou se é a favor ou se é contra. Apesar de tudo, se pode estar diante e de pé. Trabalhar com um governo não implica nem sujeição nem aceitação global. Pode-se ao mesmo tempo trabalhar e ser teimoso. Penso mesmo que as duas coisas caminham juntas.
- Depois do Michel Foucault crítico é que se vai ver o Michel Foucault reformista? Era, mesmo assim, uma reprovação freqüentemente endereçada: a crítica dirigida pelos intelectuais não clareia nada?
Eu responderia, de início, sobre o ponto do “não dar em nada”. Há centenas e milhares de pessoas que trabalharam na emergência de um certo número de problemas que são hoje efetivamente colocados. Dizer que isso não deu em nada é completamente falso. Você pensa que há vinte anos se colocava os problemas da relação entre doença mental e a normalidade psicológica, o problema da prisão, o problema da prisão, o problema do poder médico, o problema da relação entre os sexos, etc., como se os coloca hoje?
Por outro lado, não há reformas em si. As reformas não se produzem no ar, independente daqueles que as fazem. Não se pode não ter em conta esses que geraram essa transformação.
E sobretudo, não creio que se possa opor crítica e transformação, a crítica “ideal” e a transformação “real”.
Uma crítica não consiste em dizer que as coisas não estão bem como estão. Ela consiste em ver sobre que tipos de evidências, de familiaridades, de modos de pensamento adquiridos e não refletidos repousam as práticas que se aceitam.
É preciso se liberar da sacralização do social como única instância do real e parar de considerar rapidamente esta coisa essencial na vida humana e nas relações humanas, quero dizer, o pensamento. O pensamento existe além ou aquém dos sistemas ou edifícios de discurso. É algo que se esconde freqüentemente, mas anima sempre os comportamentos cotidianos. Há sempre um pouco de pensamento mesmo nas instituições mais tolas, há sempre pensamento mesmo nos hábitos mudos.
A crítica consiste em caçar esse pensamento e ensaiar a mudança: mostrar que as coisas não são tão evidentes quanto se crê, fazer de forma que isso que se aceita como vigente em si, não o seja mais em si. Fazer a crítica é tornar difíceis os gestos fáceis demais.
Nestas condições, a crítica (e a crítica radical) é absolutamente indispensável para toda transformação. Pois uma transformação que permaneça no mesmo modo de pensamento, uma transformação que seria apenas uma certa maneira de melhor ajustar o pensamento mesmo à realidade das coisas, seria apenas uma transformação superficial.
Por outro lado, a partir do momento em que se começa a não mais poder pensar as coisas como se pensa, a transformação se torna, ao mesmo tempo, muito urgente, muito difícil e ainda assim possível.
Então, não há um tempo para a crítica e um tempo para a transformação. Não há os que fazem a crítica e os que transformam, os que estão encerrados em uma radicalidade inacessível e aqueles que são obrigados a fazer concessões necessárias ao real. Na realidade, eu acredito que o trabalho de transformação profunda pode apenas ser feita ao ar livre e sempre excitado por uma crítica permanente.
– Mas você acha que o intelectual deve ter um papel programador nesta transformação?
- Uma reforma não é nunca mais do que o resultado de um processo no qual há conflito, afrontamento, luta, resistência…
Dizer na entrada do jogo: “qual é, então, a reforma que eu vou poder fazer?” Isso não é para o intelectual, penso, um objetivo a perseguir. Seu papel, já que precisamente ele trabalha na ordem do pensamento, é de ver até onde a liberação do pensamento pode chegar a engendrar essas transformações bastante urgentes para que se tenha desejado fazê-las, e bastante difíceis de fazer para que elas se inscrevam profundamente no real.
Trata-se de tornar os conflitos mais visíveis, de torná-los mais essenciais que os simples afrontamentos de interesses ou simples bloqueios institucionais. Desses conflitos, desses afrontamentos devem sair uma nova relação de forças do qual o contorno provisório será uma reforma.
Se não houve na base o trabalho do pensamento sobre ele mesmo e se efetivamente os modos de pensamento, isto é, dos modos de ação não foram modificados, qualquer que seja o projeto de reforma, sabe-se que será fagocitado, digeridos pelos modos de comportamentos e de instituição que serão sempre os mesmos.
– Depois de ter participado de numerosos movimentos, você esteve um pouco retraído. Você entrará novamente nestes movimentos?
- Cada vez que eu tentei fazer um trabalho teórico, foi a partir de elementos de minha própria experiência: sempre em relação com processos que eu vi desenrolar em torno de mim. É porque pensei reconhecer nas coisas que vi, nas instituições às quais estava ligado, nas minhas relações com os outros fissuras, abalos surdos, disfunções que eu empreendia um trabalho, alguns fragmentos de autobiografia.
Não sou um ativista recuado que hoje gostaria de retomar o serviço. Meu modo de trabalho não tem mudado muito, mas o que eu espero dele é que continue ainda a me mudar.
– Diz-se que você é bastante pessimista. Em seu entender, se creria mais otimista?
- Há um otimismo que consiste em dizer: de todo modo, isso não pode ser melhor. Meu otimismo consiste mais em dizer: tantas coisas podem ser mudadas, frágeis como são, ligadas a mais contingências do que necessidades, a mais arbitrariedades do que evidências, mais a contingências históricas complexas mas passageiras do que a constantes antropológicas inevitáveis… você sabe dizer: somos muito mais recentes do que cremos, isto não é uma maneira de abater sobre nossas costas todo o peso de nossa história, é mais colocar à disposição do trabalho que podemos fazer sobre nós a maior parte possível do que nos é apresentado como inacessível.


[1] Chegada da esquerda ao poder, com a eleição de François Mitterrand à presidência da República.





O FILÓSOFO MASCARADO

19 09 2007

O FILÓSOFO MASCARADO

MICHEL FOUCAULT (Entrevista – 06/04/1980)

 

Le Philosophe masqué (entrevista de C. Delacampagne), em ‘Le Monde” n. 10945, de 06 de abril de 1980: “Le Monde-Dimanche”, pp. I e XVII. Em janeiro de 1980, Christian Delacampagne decidiu pedir a Foucault uma longa entrevista para o suplement